Os Primeiros Amores de Bocage
Gonçalo
BOCAGE (um pouco resentido)
Porque me diz isso? Estou em crer que tenho aos pés um abysmo.
GONÇALO
E tem talvez. As suas frechas epigrammaticas promovem-lhe odios tenazes e profundos. Quanto mais agudas forem, e mais acertarem no alvo, mais inimigos lhe hão de suscitar. E os perigosos não são os que lhe respondem como podem; são os que na perfidia dissimulam a vindicta; são os que no sorriso affectado encobrem a vaidade ulcerada, e o rancor que não perdôa.
BOCAGE
Quer então que desça a humilhar-me em dissimulação egual? Quer que abata aos pés do vicio dourado, ou da ignorancia presumida, esses dons em que me falla? Quer que envileça a lyra fazendo-a servir aos festins dos poderosos, como accessorio apettitoso, ou como adorno comprado?
GONÇALO
Quem lhe diz tal! Supõe-me capaz de lhe aconselhar baixezas? Consagre a lyra á patria, como os egregios poetas de todos os tempos, como Homero, como Virgilio, como o Dante, como Camões… como o nosso grande Camões… tão grande e tão nosso, que se tudo em Portugal acabasse, elle só bastara para dar a immortalidade ao nome portuguez!… Faça-o que pode. São largos trabalhos esses, são cruas batalhas tambem. No arduo trilho achará egualmente diante de si o erro, o vicio, a vulgaridade, a ignorancia!… mais ainda, a mediocridade!… peior ainda, a inveja! Terá de cingir o corpo como os peregrinos, terá de affrontar o martyrio como os apostolos. Não lhe faltarão obstaculos nem dissabores. Não lhe faltarão perigos nem trabalhos. Não lhe faltará a luta, a luta acerba, continua, ardente… Mas ao cabo está a gloria, a verdadeira gloria, a gloria infallivel ainda que tardia.—Hade seduzil-o esta!