Os Primeiros Amores de Bocage

José da Silva Mendes Leal · Capítulo 198 de 281

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Os Primeiros Amores de Bocage

Morgado

Sr. commendador, não se envileça mais… nem faça envilecer mais o sr. morgado! A cegueira de um homem, que já não vive, privou sua propria filha do nome e dos bens que lhe pertenciam… O temor da hora extrema corrigiu essa injustiça… (crescendo em indignação) Sobre este erro, que é para chorar, sobre este remorso, que devia ser sagrado, ajusta-se um pacto infame… (Movimento dos dois.) Infame, repito!… Um mercadeja a honra, outro a consciencia!… Um sacrifica a natureza, outro o decóro!… Isso tudo que é senão valor para traficar, fazenda para vender?… Que importa a filha desherdada? Que importa a mulher offendida? A mulher ha-de calar-se e consentir. É o seu interesse… Pensaram isso?… Pensaram, e nem lhes passou pelo rosto o pejo de o pensarem! É o mal das indoles corrompidas não admittirem sequer a existencia de corações sãos e inteiros, para quem a satisfação do dever seja a primeira riqueza! Fizeram-me o ultrage de me julgar por si. Não o podiam imaginar maior!—Sr. morgado, esse papel!… Sr. commendador, esse papel!

MORGADO

Se outra pessoa que não fosse a prima se atrevesse a dizer-me similhantes coisas!…

(Bocage quer adiantar se; Gonçalo detem-n'o.)

COMMENDADOR

Estes papeis pertencem-n'os!

 

D. MARIA JOANNA (mais exaltada)

É a minha tia que pertencem. Sou eu que lh'os quero entregar!… Sou eu que devo entregar-lh'os!… Não me obriguem a…

 

GONÇALO (adiantando-se e interpondo-se com respeitosa serenidade)

Perdôe, sr.^a D. Maria Joanna Galvão… Uma senhora da sua qualidade não póde entender-se com estes senhores.

 

BOCAGE (com ironia mal dissimulada)

Estes senhores vão pôr já nas suas mãos os papeis que lhes não pertencem.

 

GONÇALO (com terrivel frieza, crescendo contra o morgado, que recua na sua presença)

O sr. morgado não ha-de querer desattender sua prima!—O papel?

 

BOCAGE (do mesmo modo ao commendador)

O sr. commendador de certo não falta ao respeito a uma dama.— O papel?

(O Morgado e o Commendador, tranzidos e suffocados, entregam os papeis aos homens que teem diante.)

 

GONÇALO (entregando reverentemente o papel a D. Maria Joanna)