Os Primeiros Amores de Bocage

José da Silva Mendes Leal · Capítulo 279 de 281

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Os Primeiros Amores de Bocage

Gonçalo

Sr. Gonçalo Mendo, se na sua familia o juramento é timbre que a tudo sobreleva, na minha casa dão-se juntamente o coração e a palavra, e a palavra só deixa de obrigar quando o coração deixa de bater. Póde julgar-se livre; eu não. Se tiveramos tempo de consagrar a nossa alliança, podia negar-me o favor de acompanhal-o? Se estivessemos já unidos á face do altar, teria acaso direito de dizer-me: «restituo-lhe a palavra e a liberdade?» Considero-me ligada perante Deus: só Deus me póde desligar. Ámanhã recolho-me ao convento de Santos. Unicamente a sua mão me abrirá aquellas grades!

GONÇALO

Quem se não deixará vencer?—Á volta irei dedicar-lhe esta vida, que já toda lhe pertence. Hade permittil-o Deus!

 

MARQUEZ (intervindo)

Fizeram todos o seu dever. Tenho tambem um para cumprir… (para o Commendador e Morgado) Ás pessoas, que eu protejo, nem o proprio Marquez de Pombal se atreveu nunca! (fulminando-os de desdem) Sr. Morgado da Gésteira, precisa sair de Lisboa e tornar quanto antes para a sua terra… (O Morgado fica attonito.—Com intimativa.) Precisa.—Hade ter disposições que fazer. Não o quero demorar… (O Morgado percebe e encaminha-se todo encolhido e confuso á porta da D.) Espere… o seu amigo Commendador deseja acompanhal-o.—Sr. Commendador, é provavel que a Meza da Consciencia lhe queira tomar contas do modo por que tem cumprido os encargos da sua commenda. (O Commendador, que ao principio ouvia altivo, resigna-se tambem o segue o Morgado.)