Os Primeiros Amores de Bocage

José da Silva Mendes Leal · Capítulo 221 de 281

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Os Primeiros Amores de Bocage

Bocage

Tudo exagera… tudo leva ao extremo. É de condição distincta. Casando com a herdeira, póde desafogadamente cultivar o talento, aproveitar o estro, e servir a patria… O que recebe em fortuna, paga-o em gloria!

BOCAGE

Bocage casar! Casar eu!… Curvar o collo a esse jugo!… roxear os pulsos com esses grilhões! Sujeitar-me a esse perenne captiveiro!… Eu!… Que mal me conhece!—É pouco para mim o ar e o espaço… Toda a idéa de sujeição me opprime como as grades de um carcere… Alexandre de Macedonia, no auge do poder, visitou em Corintho o philosopho que da miseria extrema fazia officio e gala. —«Pede sem receio. Que queres de mim?» disse o grande conquistador.—«Que te affastes d'ahi, para me não tirar o sol,» respondeu o festivo indigente. Tenho alguma coisa do espirito d'esse philosopho… Acima de todas as venturas ponho uma… a verdadeira, a maior, a superior, a unica… a minha independencia!

 

GONÇALO (severamente)

Que quer então fazer? Desvalida ou abastada, a menina da Torre da Palma é uma flor de candura.—Quer-lhe inutilisar sem fito os breves annos juvenis?… Quer-lhe immolar a mocidade?… A quê?… Ainda ha pouco estava ahi um pobre moço, penando por ella que fazia dó… penando uma paixão sincera e sem egoismo. Sabe quaes são os intentos d'esse mancebo? Deixar o lar e a patria… só para não vêl-a indifferente!…

 

BOCAGE (arrebatado)