Os Primeiros Amores de Bocage
Gonçalo
D. MARIA JOANNA (descendo, triste e gravemente)
O que existe no mundo mais santo do que o amor puro de duas almas, que uma da outra vivem, que uma para a outra só querem viver? Ha distancia que lhes desate os laços? (crescendo em vehemente sensibilidade) Haverá golpe que lhes corte os vinculos? Não lhes são communs as alegrias? Não lhes são communs as penas? Não lhes é tudo commum? Póde alguem separal-as em sentimentos, quando foi o sentimento que as uniu, que das duas fez uma, quer para viver, quer para pensar, quer para soffrer? (Pausa. Com ponderativa energia.) É a mulher de um soldado a companheira de todos os seus perigos, de todos os seus trabalhos… e de todos os seus deveres. A gloria d'elle é unico desvelo, unico fito, unico enlevo d'ella. A obediencia, que é n'elle empenho, n'ella é culto… Cumpre que seja em ambos a resolução egualmente heroica. Se não póde acompanhal-o nos dias de batalha… póde esconder-lhe o pranto nos dias de provação!… (Pausa meditativa. Com subito e convulso esforço.) Vá, sr. Gonçalo Mendo… vá que eu espero-o!
GONÇALO
Não, sr.^a D. Maria Joanna. Admiro a nobreza do seu animo… para mais sentir o que n'elle perco… mas o sacrificio da sua mocidade pesaria eternamente sobre a minha consciencia.—Restituo-lhe a palavra que me deu. É livre.
D. MARIA JOANNA (solemne e decidida)