Os Primeiros Amores de Bocage

José da Silva Mendes Leal · Capítulo 277 de 281

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Os Primeiros Amores de Bocage

Gonçalo

Não, o esquecimento do dever ninguem lh'o poderia aconselhar… Mas o estado que vae tomar, mas a familia que lhe abre os braços, não lhe dita deveres tambem?

GONÇALO

A patria é a familia das familias!—Se uma veneranda mãe chama por seus filhos em nome da honra commum, qual póde recusar-se? com que pretexto hade eximir-se?—Os affectos de familia! Quem é o desamparado que não tem alguma familia? Se essa razão prevalece, ninguem servirá. Mais que para qualquer, para nós, os que seguimos a profissão das armas, e a patria mãe rigida e imperiosa, mas amada sobre tudo. Ainda mais sua do que nossa é aquella honra que entregaram á nossa guarda. Que filho consente que a honra de sua mãe possa entrar em duvida?—Sr. Bocage, o pundonor do soldado não exige menos que a isenção do poeta. Um passo para ficar… (com os olhos no Commendador e Morgado) e não faltará quem diga que eu… eu, um militar, um portuguez, um neto de veteranos!… recuei diante dos perigos do clima, ou da azagaya dos cafres… A calumnia é a espada da hypocrisia… não tem outra. Haviam de dizel-o. (com resolução enthusiasta) Não o dirão… Podem os meus inimigos triumphar com o meu supplicio; não triumpharão com as minhas fraquezas. Ninguem dirá nunca de Gonçalo Mendo, que o viu hesitar… nem diante da catastrophe subita das mais justas esperanças!

 

BOCAGE (desesperado)

Não tenho palavras que o convençam? (indicando-lhe D. Maria Joanna) Veja se resiste áquelle rosto, áquella dôr, ás supplicas alli estampadas, á voz e ás lagrimas que mais do que eu o persuadirão.