Os Primeiros Amores de Bocage
Bocage
A triste vacilava suspirando
Nos braços da incerteza suspeitosa,
Até que emfim se vae desenganando:
Então, desesperada e lacrimosa,
Do caro esposo os manes invocando.
«Ás ondas se lançou Ero formosa!»
(Alguns applausos.)
2.^o POETA
Bravo, Albano!… Descriptivo e sonoro!
1.^o POETA (a Bocage)
Correcto, não?
BOCAGE
Correcto, mas frio. Não admira. Uma paixão que vae por agua abaixo!
2.^o POETA
Mote. Venha mote.
MARIA GERTRUDES
«Os roubos que me fez a má ventura!»
BOCAGE (vivamente aos poetas)
Este para mim. (repetindo immediatamente)
«Os roubos que me fez a má ventura!»
Eu deliro, Gertruria, eu desespero
No inferno de incertezas e temores,
Eu da morte as angustias e os terrores
Por ti mil vezes sem morrer tolero!
Pelo céo, por teus olhos te assevero
Que ferve esta alma em candidos amores: Longe a riqueza, e os seus vãos favores, Quero o teu coração, mais nada quero.
VOZES (diversas)
Bravo! Bravo!
BOCAGE (continuando arrebatado)
Ah! não sejas tambem qual é commigo
A cega divindade, a sorte dura,
A varia deusa, que me nega abrigo!
Tudo perdi; mas valha-me a ternura;
Amor me valha, e pague-me comtigo
«Os roubos que me fez a má ventura!»
(Grande explosão de applausos.)