Os Primeiros Amores de Bocage

José da Silva Mendes Leal · Capítulo 81 de 281

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Os Primeiros Amores de Bocage

D. Maria Joanna

BOCAGE (sorrindo)

É doença de familia, não o nego. Doença chronica, e por isso incuravel.

D. MARIA JOANNA

Em França diz-se: noblesse oblige. A poesia, que é nobreza tambem, está a obrigal-o.

 

BOCAGE (exaltando-se progressivamente)

A poesia… A poesia é a lingua dos deuses, e a historia do mundo. É o raio omnipotente de Jupiter, e o carro fulgurante de Apollo. N'ella, em todos os tempos, teem cantado os homens as suas alegrias, teem chorado as suas dores, teem perpetuado os seus feitos, teem immortalisado as suas catastrophes. N'ella começou a balbuciar a humanidade; n'ella fundou os monumentos que desafiam os seculos. A poesia é a expressão do que ha mais intimo no coração e mais celestial no pensamento; é magnificencia e harmonia; é arrebatamento e seducção; esplendor pela fórma, delicia pelo som. É resumo de quantas artes levantam o homem ao Olympo; sentimento para a alma, idéa para o espirito, imagem para os olhos, musica para o ouvido, enlevo para todos os sentidos! Seria a poesia a unica lingua digna de saudal-a, minha senhora, se a mais completa poesia não fosse a propria formosura. (recrescendo) Deve ser a poesia…

 

COMMENDADOR (que durante esta falla passeou ao F. indo á janella)