The Risk
11. Brenna
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BRENNA
“Tenho certeza de que ele não vai demorar muito.” O funcionário que foi designado para cuidar de mim fica repetindo isso para me reassegurar.
Sinceramente, não estou nem aí pra quanto tempo Ed Mulder vai demorar a chegar. Na verdade, estou lutando contra a vontade de ir embora só de raiva. Se eu não tivesse enfrentado quase duas horas de trânsito na hora do rush para vir para Boston esta manhã, mandaria tudo pro inferno e sairia pisando forte do prédio da HockeyNet e nunca voltaria. Mas não posso aceitar que peguei todo aquele engarrafamento à toa.
Ei, é só um pequeno obstáculo, diz a voz reconfortante na minha cabeça.
Isso. Do outro lado da Montanha da Cretinice, a terra prometida do estágio me espera. Não vou nem ter que responder a Mulder. Provavelmente, nem verei o cara de novo. Só preciso provar a ele que sou qualificada o bastante para ocupar a vaga e então posso esquecer que existe. O que não vai ser difícil de fazer.
Não consigo acreditar que já faz uma hora que estou esperando por ele. Quando cheguei, às nove em ponto, Rochelle me informou com um pedido de desculpas que o sr. Mulder estava em meio a uma conferência telefônica não programada. Superimportante, aparentemente.
Sei. Imagino que seja por isso que fiquei ouvindo explosões de risadas e gargalhadas nasaladas do outro lado da porta.
Depois de cerca de quarenta e cinco minutos, Rochelle entrou no escritório para falar com ele. Então um funcionário chamado Mischa surgiu e anunciou que ia fazer um tour comigo pelo escritório enquanto esperávamos que Mulder pudesse me atender.
Sigo sua silhueta alta e esguia pelo corredor bem iluminado. “E o que é que você faz exatamente, Mischa?”
“Sou gerente de palco. O que é muito menos glamoroso do que parece. Basicamente coordeno quem aparece na tela, atendo qualquer necessidade do diretor, arrumo o set, garanto o abastecimento de cafeína.” Ele me lança um olhar seco. “Às vezes, posso fazer pequenos ajustes no equipamento de luz.”
“Opa, chegamos à parte boa!”
Ele sorri. “Bom, espero me tornar diretor, ou talvez comandar o controle mestre. Aí, sim, seria bom.”
Passamos por um homem corpulento usando terno risca de giz. Ele está no celular, mas dou uma olhadinha nele. E o reconheço no mesmo instante.
“Caramba”, sussurro para Mischa. “Era o Kyler Winters?”
“Era. Acabamos de contratar o cara como comentarista especial para os playoffs da liga profissional.”
“Tem muitos outros ex-jogadores trabalhando aqui?”
“Claro. A maioria como comentarista durante o jogo ou nos programas de debate. E temos alguns técnicos aposentados também. E os caras que trabalham com o fantasy game, estatísticas, especialistas em medicina esportiva… E os grandes polemistas, tipo Kip e Trevor”, ele diz, nomeando a dupla de apresentadores do programa mais controverso do canal. Ambos têm opiniões fortes e não as guardam para si.
“É muita testosterona em um único prédio”, brinco. “Qual é a situação do estrogênio por aqui?”
Ele ri. “Bom, à frente da câmera temos a Erin Foster. Ela costuma fazer a cobertura dos vestiários. E a Georgia…”
“Barnes”, completo.
Georgia Barnes é meio que meu ídolo. É ela quem faz as perguntas difíceis depois dos jogos, sem abrandar nada. Também é muito perspicaz e apresenta um quadro de opinião semanal. Embora seus comentários não sejam tão controversos quanto os de Kip e Trevor, acho que são muito mais inteligentes, para ser sincera.
“Georgia é demais”, Mischa me diz. “Nunca vi ninguém mais afiado. Já a vi cortar verbalmente homens três vezes maiores que ela.”
“Amo Georgia”, confesso.
“Também temos uma diretora que faz alguns quadros noturnos, algumas comentaristas e mulheres que trabalham na produção. Ah, e assistentes exaustas como nossa Maggie aqui”, ele conclui, apontando para uma figura que se aproxima. “Oi, Mags.”
Maggie é uma garota cabeluda com franja caindo nos olhos. Está carregando uma bandeja de papelão com copos de café. Em vez de parar e nos cumprimentar, ela murmura: “Não fala comigo. Estou atrasada e Kip vai me matar”. Então, passa correndo sem nem olhar para trás.
“Ainda quer trabalhar aqui?”, Mischa brinca.
“Sou ótima em pegar café”, digo, confiante. “E nunca me atraso.”
“Isso é bom. Porque alguns caras aqui têm temperamento difícil. Um produtor, Pete, manda embora um assistente por mês. Já teve três este ano.”
Continuamos com o tour, terminando no estúdio principal, que é legal de ver. Observo ansiosa a bancada atrás da qual os comentaristas se sentam, mas o cenário do programa de Kip e Trevor, Hockey Corner, é o mais legal. O sofá de couro marrom familiar e o fundo cheio de flâmulas e troféus disparam uma onda de animação. Seria incrível ter meu próprio programa um dia. No meu próprio cenário.
Afasto as ilusões de grandeza. É uma bela fantasia, mas imagino que no mínimo levaria anos, talvez até décadas, até que alguém me deixasse ter meu próprio programa.
O rádio preso ao cinto de Mischa começa a emitir estática. “O sr. Mulder está esperando”, diz a voz de Rochelle.
“Viu? Até que não teve que esperar muito”, Mischa me diz. “Não é?”
Ah, tá. Mulder se atrasou uma hora e quinze para uma entrevista que deveria ter acontecido na sexta. Muito profissional.
Mischa me leva de volta para a parte dos escritórios, e Rochelle me conduz depressa até o chefe.
“É bom ver o senhor de novo”, digo.
Como sempre, ele não está prestando atenção. Tem um monte de telas na parede, todas no mudo. Uma delas mostra o jornal esportivo de um concorrente, que noticia o jogo de sábado dos Oilers.
Mulder tira os olhos da tela. “Obrigado por voltar. Sexta foi uma merda atrás da outra.”
“É, pareceu bem corrido mesmo.” Ele não me convida a sentar, mas sento mesmo assim, e espero que continue com a entrevista.
“Briar vai pegar Harvard na final da conferência”, ele diz. “O que acha disso?”
“Estou animada pra acabarmos com eles.”
Mulder abre um sorriso zombeteiro. “Com Connelly jogando? Acho que vocês estão destinados a perder. Já ouviu falar de Jake Connelly, certo?”
Infelizmente. “Claro.”
Mulder se recosta na cadeira. “Está bem, então vamos fazer um teste. Nossos estagiários precisam saber todos os números. Quais são as estatísticas de Connelly nesta temporada?”
Evito franzir a testa. A pergunta é um pouco geral demais. Estatísticas? De quê?
“Você vai ter que ser um pouco mais específico”, respondo. “Do que estamos falando? Gols? Assistências? Gols quando Harvard está com um jogador a menos? Tiros a gol?”
Mulder parece irritado com meu questionamento. Em vez de responder, ele folheia alguns papéis.
Ótimo. É a entrevista de merda repaginada. Odeio esse cara. Ele nem liga que estou aqui, não tem a menor intenção de me contratar. Ainda assim, espero pacientemente, mesmo sabendo que o cara está viajando.
O interfone toca, rompendo o silêncio incômodo. “Sr. Mulder, é sua mulher ligando. Ela diz que é importante.”
Ele revira os olhos. “Nunca é”, me informa. Aperta um botão com o dedo. “Estou no meio de uma entrevista. Ela vai ter que ser mais específica.”
Ah, é? Ele pode pedir que outra pessoa seja mais específica, mas quando eu sou é imperdoável?
Logo Rochelle volta com uma resposta. “Ela precisa confirmar o número de pessoas que estarão no jantar de sexta.”
“Importante coisa nenhuma. Diz pra ela que ligo depois da entrevista.” Ele desliga o viva-voz. “Mulheres”, murmura.
Evito comentar, já que sou uma.
“Uns amigos vão jantar em casa na sexta”, Mulder explica, balançando a cabeça com irritação. “Como se eu desse a mínima pros detalhes. Por que eu ligaria para os guardanapos? Ou se vai ter quatro pratos ou vinte? Minha mulher fica obcecada com a baboseira mais sem importância.”
Fico surpresa que não venham mais comentários sobre como as mulheres são criaturas frívolas com cérebro de ervilha e nunca dão certo no mundo do esporte. É o clube do bolinha! Garotas não podem entrar!
Na tela maior, a ESPN mostra uma montagem de Connor McDavid, dos Oilers, marcando um dos gols mais bonitos que já vi. Infelizmente, não foi o bastante para o time vencer.
Mulder assovia alto e se anima um pouco. “Esse garoto é uma lenda!”, ele exclama.
“É o melhor da geração dele”, concordo. “A melhor coisa que aconteceu com o time em décadas.”
“E na próxima temporada vamos ter o Connelly também. Ah, ninguém vai nos deter.”
Assinto. “Os Oilers estão precisando de alguém veloz como Connelly. Ele é um dos melhores patinadores atuais.”
“O cara é um raio sobre patins. Ah, Brenna, nunca fiquei tão ansioso pra uma temporada começar!” Ele esfrega as mãos uma na outra com uma alegria descarada.
Minha linguagem corporal relaxa. É a primeira vez que Mulder deixou a frieza de lado. Não fico particularmente feliz que o motivo disso seja Jake Connelly, mas, no momento, aceito qualquer ajuda que vier. A Montanha da Cretinice é mais difícil de escalar que o Everest.
Discutimos Jake por quase cinco minutos. Juro que parece que Mulder até gosta dos meus comentários. Um em particular até faz com que diga: “Não poderia concordar mais com você”.
Mas, quando tento fazer a conversa voltar ao estágio…
A atenção de Mulder volta para a tela do computador.
A frustração se acumula na minha garganta. Quero gritar. Não consigo entender se ele gosta de mim ou se me odeia. Se quer me contratar ou só quer eu caia fora agora.
“Bom, obrigado por ter vindo”, ele diz, distraído.
Eis minha resposta. Ele quer que eu caia fora.
“Ainda temos alguns candidatos para entrevistar, mas você vai receber uma resposta assim que terminarmos.”
Ou seja, vão me avisar quando não me escolherem. No momento, a minha probabilidade de conseguir o estágio é tão grande quanto a de eu pousar na Lua.
Que seja. Engulo a decepção e tento me convencer de que talvez seja melhor assim.
“Obrigada por me receber”, digo, educada.
“Hum… Não tem problema.” Ele já está concentrado em alguma outra coisa.
É. Com certeza é melhor assim. Eu odiaria trabalhar no mesmo prédio que alguém como Ed Mulder. O cara não dá a mínima para nada além de si próprio e seus queridos Oilers. A única hora que me deu atenção ou pareceu um pouco interessado foi durante nossa conversa sobre Jake. A paixão dele por Connelly é quase engraçada…
Meu passo vacila no caminho para a porta.
Uma ideia se forma na minha cabeça. É maluca. Sei disso. Mas… acho que talvez não me importe.
Quero esse estágio. Quero muito. Pessoas já fizeram coisas muito piores para conseguir um trabalho. Em comparação, o que estou prestes a fazer é… idiota. Você sabe, eu estaria apenas sendo uma garota idiota com suas coisas sem importância.
“Sr. Mulder?”
Ele olha para a porta com uma expressão irritada. “Sim?”
“Bom… eu não quis mencionar antes, porque achei que poderia ser inapropriado, mas… Jake Connelly…” Hesito, reconsiderando a insanidade.
Puxo o ar, formulando rapidamente uma lista de prós e contras na minha cabeça. São tantos contras. Tipo, muitos mesmo. Os prós não parecem compensar os…
“O que tem ele?”, Mulder pergunta, impaciente.
Solto o ar de uma vez só. “É meu namorado.”