The Risk
8. Brenna
8
BRENNA
“Não acredito que você vai me abandonar.” Lanço um olhar furioso para Tansy, mas no fundo não estou surpresa.
Estava torcendo desesperadamente para que ela e Lamar não estragassem meu fim de semana, mas, como meu pai sempre diz, torcer é para os tolos. Trabalhe duro e transforme seus sonhos em realidade, ele vive repetindo, para não ter que torcer para porcaria nenhuma.
“Vai ser só por uma hora ou duas”, minha prima promete.
“Ah, é”, desdenho, da cama da colega de quarto dela. De novo, Aisha tinha se mostrado minha heroína. De alguma maneira, havia trocado o colchão padrão do dormitório por um daqueles viscoelásticos que dão a impressão de se estar dormindo nas nuvens. Me enfiei debaixo das cobertas quando Tansy e eu voltamos do almoço seguido por uma tarde de compras. Isso mostra como a cama é confortável.
“É sério”, Tansy insiste. “Só vou passar lá para a gente conversar sobre o que aconteceu ontem à noite.”
“Ah, está falando de como vocês dois ficaram gritando um com o outro como dois malucos na frente do bar inteiro?”
Pois é. Foi muito divertido. Tansy e Lamar começaram a discutir quase no mesmo instante em que chegamos no Frog and Fox. Fazia tempo que eu não testemunhava um exemplo tão perfeito do efeito bola de neve.
Os dois se cumprimentaram com um beijo, então Tansy o provocou por ter ido para o bar errado, então Lamar disse que ela havia passado o nome errado, minha prima negou, ele insistiu, Tansy disse que não era culpa dela se ele era tão burro que não conseguia ler uma mensagem de texto, Lamar disse “Por que você está agindo como uma louca?” e pronto: apocalipse.
Ah, Lamar. Nunca, nunca, diga à sua namorada que ela está agindo como uma louca. Mesmo que esteja.
Os amigos dele e eu decidimos virar alguns shots de tequila. Imaginamos que os dois em algum momento iam se cansar e se juntar a nós, mas isso nunca aconteceu. Tansy me arrancou do bar às lágrimas e fomos para casa antes da meia-noite.
Acordei hoje sem ressaca. Se perguntarem para mim, isso é sinônimo de noite ruim.
“Vamos, Tans, diz que vocês se veem amanhã. Você já estragou nosso passeio trocando mensagens com ele o tempo todo.” Deveríamos fazer compras e nos divertir. Em vez disso, passei o dia assistindo à minha prima no celular. Mal falamos durante o almoço, porque as mensagens não paravam de chegar.
“Eu sei, sinto muito mesmo. É só que…” Ela volta seus olhos grandes e suplicantes para mim. “Andamos falando em ficar noivos depois da formatura. Não posso ignorar o cara em uma briga. Temos que resolver isso.”
Nem pisco quando ela fala em noivado. Tansy e Lamar terminaram e voltaram tantas vezes que não levo mais o relacionamento a sério. Se você está sempre terminando com alguém, é porque tem motivo. É fato que drama contínuo não leva a compromisso no longo prazo.
Duvido muito que os dois de fato fiquem noivos. E se por acaso acontecer, de jeito nenhum que vai terminar em casamento. Apostaria minhas parcas economias nisso.
Mas reprimo meu ceticismo e digo: “Tá, vocês andam falando em noivar. Isso não tem nada a ver com sua prima, que não vê há meses e que veio até aqui pra passar o fim de semana com você. A noite de ontem acabou sendo um festival de lágrimas. O passeio de hoje virou um festival de mensagens. E, que surpresa, agora está me dando o bolo.”
“Não estou dando o bolo, eu juro. Vou perder o jantar, mas ainda vamos sair depois. Você pode usar meu cartão e jantar no refeitório de graça. Então pode tirar uma soneca ou o que quiser. Volto logo mais para ir ao Bulldozer, como planejamos.”
Bulldozer é uma casa noturna que estou morrendo de vontade de conhecer. Apesar do nome péssimo, tem recebido críticas entusiasmadas, e parece que a seleção musical é de primeira.
Sinto que não vou ter a oportunidade de confirmar pessoalmente.
“Por favor”, Tansy implora. “Não vou demorar muito. Só algumas horas.”
Adoro como passamos de “uma ou duas horas” para “algumas horas”.
“E prometo que nunca mais vou fazer isso. Da próxima vez que planejarmos um fim de semana das garotas, vou para Briar, e Lamar vai ficar aqui. Vamos nos divertir como nunca.”
Engulo uma resposta atravessada. Ela já se decidiu, então de que adianta discutir? “Faça como achar melhor, Tans.”
“Vamos, Bee, não fica brava comigo.”
“Então não me dá o bolo.”
“Brenna…”
Meu celular toca. Em geral, não seria tão mal-educada a ponto de verificar no meio de uma conversa, mas Tansy está me deixando louca, então o faço só de raiva.
Só que… excelente. A notificação na tela é ainda mais irritante que as bobajadas da minha prima.
“Harvard derrotou Princeton”, grunho.
Ela me olha com cuidado. “Isso é bom ou ruim?”
Puxo o ar para me tranquilizar. “Se tivesse ouvido uma palavra do que eu disse hoje, saberia a resposta.”
TANSY: Vou daqui a pouquinho.
A mensagem chega às nove, e fico aliviada. Finalmente. Faz três horas que ela saiu.
Mais cedo, fiz a festa com o cartão do refeitório dela. O jantar estava gostoso e eu fiquei de boa com umas garotas superlegais, evitando os avanços de alguns caras do time de lacrosse. Mas agora o tédio está se esgueirando, e nos últimos quarenta minutos fiquei deitada na cama de Aisha, passando por perfis do Tinder sem prestar muita atenção.
Não costumo usar aplicativos de relacionamento, mas o que mais poderia estar fazendo agora? Não posso ligar para meus amigos — estão todos na Briar, ou vendo a partida da semi contra Yale ou jogando. Não posso assistir ao jogo no canal local porque Tansy e Aisha não têm TV, e não consegui encontrar nenhum site transmitindo ao vivo.
Conversar com caras aleatórios é o que me resta.
Dois minutos depois de abrir o aplicativo, já tenho uns quinze matchs. Catorze desses quinze caras já me mandaram mensagem, variando entre “ooooi” e “oi, linda”, muitos emojis de carinhas com coração no lugar dos olhos e um “minha nossa, você existe mesmo??”.
A última mensagem me dá vontade de rir. Dou uma olhada no perfil do cara de novo. O nome dele é Aaron, ele tem o corpo esguio de um jogador de basquete e um sorriso incrível. Viro de lado e escrevo de volta.
EU: Às vezes fico em dúvida
ELE: hahaha
EU: Tipo, o que é real? Somos reais? O céu é real?
ELE: O céu não é. Sinto muito em informar
EU: Sério? E o que é então?
ELE: O céu é uma redoma. É uma coisa meio O show de Truman.
EU: Hum, spoiler total. Nunca vi esse filme!
ELE: Deveria. É mto bom. Vc ia gostar. Estudo cinema, então vejo um monte de coisa legal na aula
EU: Deve ser legal. E qual é a sua? Roteiro? Direção?
ELE: Direção. Vou ganhar um Oscar um dia :) Na verdade, já tô produzindo meus próprios filmes
Fico intrigada. Até que ele manda uma carinha piscando.
Ih.
Decido manter minhas respostas vagas, porque já sei para onde isso está indo.
EU: Legal
ELE: Não vai perguntar que tipo de filme eu faço? ;)
EU: Posso imaginar
Ele manda mais duas carinhas piscando.
ELE: Vc é tão linda. Adorei seu corpo. Adoraria que aparecesse em um dos meus filmes
Embora ele ainda não tenha agido oficialmente como um babaca total, é só uma questão de tempo, e eu corto a conversa escrevendo: Desculpa, não tenho interesse em ser atriz.
ELE: Aposto que seus peitos são uma delícia. Hummm, e os mamilos. Queria me filmar chupando eles
Argh. Por quê? Por quê?
Desfaço o match na hora e fico encarando o teto.
Estou começando a questionar a evolução, de verdade. Passamos de homem das cavernas a Homo sapiens a uma sociedade incrível com mentes brilhantes — Alexander Graham Bell inventou o telefone, Steve Jobs inventou… tudo. E agora estamos regredindo. Voltamos aos homens da caverna, só que hoje os chamamos de escrotos.
A evolução completou um ciclo, o que é um saco.
Grunho alto, querendo que minha prima chegasse logo. Não consigo acreditar que perdi a semi por isso.
Pego o celular para ver como Briar está se saindo. Vejo no Twitter que o segundo período terminou em dois a um pra gente. É uma diferença muito pequena para me deixar tranquila. Harvard ganhou de Princeton com três gols de saldo.
Aposto que Connelly está muito satisfeito consigo mesmo. Talvez esteja com Bambi Sexy agora mesmo, comemorando a vitória com um boquete e o tal beijo com viradinha. Bom pra ele.
Estou abrindo o Tinder de novo quando chega outra mensagem da minha prima.
TANSY: Mudança de planos, Lamar vai com a gente
Aperto os dedos em volta do celular. Sério? Era o fim de semana das garotas. O namorado dela estragou tudo até agora, e minha prima vai deixar que estrague o Bulldozer também? Eu estava animada para ir, droga.
Ligo em vez de mandar uma mensagem, com meu ressentimento saindo pela garganta. “Está falando sério?”, pergunto quando ela atende.
“Desculpa”, Tansy geme. “É que… fizemos as pazes, aí ele perguntou se podia ir também. O que eu podia dizer? Não?”
“Isso! Você devia ter dito não. Que não é pessoal, mas precisamos curtir um pouquinho só entre as garotas.”
“Vamos, Bren, vai ser legal. Eu juro.”
Ah, é. Como ontem à noite foi legal. Cerro os dentes com tanta força que eles rangem. Tento relaxar o maxilar soltando o ar lentamente. Estou cansada de discutir com ela. “Beleza. Vocês me pegam aqui ou encontro vocês lá?”
“Pegamos vocês aí. Lamar pode dirigir, porque não pretende beber. Vou me arrumar aqui, então acho que chegamos em uma hora mais ou menos.”
“Tanto faz. Me manda uma mensagem quando estiverem vindo. Vou me arrumar.”
Deixo a irritação de lado e tomo um banho rápido, então seco o cabelo e o arrumo em ondas soltas usando a chapinha de Tansy. Trouxe um vestido bem sexy, preto cintilante, com uma fenda, colado ao corpo, que deixa à mostra bastante peito e perna. Eu o visto e vou me maquiar à penteadeira incrível de Aisha. Uso mais maquiagem que de costume: além do batom vermelho que é minha marca registrada, esfumaço os olhos, passo delineador estilo gatinho e um rímel grosso.
Quando termino, verifico meu reflexo no espelho, feliz com o resultado. A noite de ontem foi péssima. O dia de hoje também. Mas estou com um bom pressentimento quanto a esta noite. E daí se Harvard foi para a final? Briar também vai, e vamos acabar com eles. Daqui a cerca de uma hora, estarei dançando na Bulldozer, sem hora para acabar.
Meu celular toca. Ótimo. Vamos lá. Tansy está vindo me pegar e…
TANSY: Não me mata prfv. Lamar e eu não vamos mais
É o fim do sonho. A Bulldozer literalmente escorre por entre meus dedos. A raiva acelera meu coração. Afundo na beirada da cama de Tansy, sem palavras. Tansy oficialmente roubou a coroa de Alex como a pior prima, disparado. Nada pode superar isso. Nada.
Minhas mãos tremem enquanto respondo.
EU: Você tá de brincadeira, né
TANSY: Desculpa, mas é que foi um dia TÃO estressante pra nós dois, e ele acha que seria melhor para o nosso relacionamento se ficássemos só os dois esta noite. Vamos ver um filme em casa e nos reaproximar.
Reaproximar? Eles se veem todos os dias! O ultraje fica entalado na minha garganta. Meu maxilar fica mais duro que pedra.
EU: Parabéns, vc ganhou o prêmio de pior prima do ano e ainda é abril!
TANSY: Desculpa, tô me sentindo péssima
EU: Tá nada. Ou não me daria o bolo
TANSY: Vc tá puta?
EU: Claro que sim. Vc tem merda na cabeça?
Não tenho medo de briga, e certamente não vou fingir que está tudo lindo e maravilhoso quando não está. As palavras duras têm um efeito nela, porque, depois de um momento tenso, ela volta atrás.
TANSY: Você tá certa. Tô sendo ridícula. Vou falar com Lamar e a gente te encontra lá, tudo bem?
Meu queixo cai. Ela está maluca? Como ficaria tudo bem? Com os dentes cerrados, respondo rapidamente. A ideia principal é: vai se foder.
EU: Não, tudo bem nada. Nem se dê ao trabalho de ir. Fica no Lamar, claramente é o que você quer fazer, e não quero passar meu tempo com alguém que não quer estar comigo. Mudança de planos. Tenho amigos para visitar na cidade, então aproveita sua noite e talvez a gente se veja amanhã.
Cinco segundos depois, o celular toca.
Ignoro.
Meu vestido cintilante e eu acabamos em um lugarzinho com música perto do estádio de beisebol. Já passei por alguns bares diferentes e, em geral, não tenho problema em sair sozinha e conversar com desconhecidos, mas estou tão de mau humor esta noite que franzo a testa para qualquer um que tenta se aproximar, homem ou mulher. Não quero ficar com ninguém nem conversar. Prefiro que me deixem quieta.
Por isso decidi que precisava de um lugar onde a música fosse tão alta que não deixasse nenhum espaço para conversas.
Seria o caso da Bulldozer, mas não estou mais com vontade de dançar. Quero pedir um drinque e curtir o mau humor em silêncio. Ou melhor, curtir o mau humor ouvindo um heavy metal ensurdecedor, porque é o que a banda do lugar em que entro vai tocar. Perfeito.
O estabelecimento consiste em um salão principal grande o bastante para abrigar um palco estreito e uma pequena pista. Tem algumas mesas altas encostadas a uma parede de tijolos pintada de preto e decorada com grafite. O bar fica na outra parede, mas não tem banquetas, então me dirijo a uma das mesas, que estão todas vazias.
Todo mundo me olha enquanto cruzo o salão, provavelmente porque estou vestida para a noite, enquanto a maior parte do público parece ter vindo de qualquer jeito, com as roupas amassadas, o cabelo sujo e mais camisetas do Pantera e do Slayer do que consigo contar. Por sorte, a iluminação é quase inexistente, então é praticamente impossível distinguir o rosto das pessoas nas sombras. Sinto que estão me encarando, mas pelo menos não vejo.
“Posso ajudar?” Um garçom com cabelo preto até a cintura vem me servir. “A banda vai começar, então é melhor já pedir.”
“Vodca com suco de cranberry, por favor.”
Ele assente e vai embora sem pedir minha identidade. Eu a trouxe, então não haveria problema se tivesse pedido. Viro na direção do palco e vejo o cantor de cabelo comprido ir até o microfone.
“E aí, Boston? Somos o Stick Patrol e vamos FODER COM A CABEÇA DE VOCÊS!”
Se com “foder com a cabeça de vocês” ele quer dizer que vão tocar seis músicas de estourar os tímpanos com letra truncada e ir embora antes que eu consiga terminar meu primeiro drinque, então missão cumprida.
Resisto à vontade de levar as mãos ao rosto e chorar de verdade.
O que foi isso?
Enquanto o cantor agradece a presença de todos, fico só olhando para ele. Estou embasbacada.
Eles tocaram por catorze minutos. Isso dá cerca de dois minutos e meio por música. Cada música de heavy metal não deveria durar um zilhão de minutos? Juro que todas as faixas do Metallica que já ouvi duravam mais que os filmes do Senhor dos Anéis.
Catorze minutos, então acendem as luzes e fico observando a banda guardar os equipamentos. Um cara tira um amplificador do palco. Outro enrola o fio do microfone.
Vai se foder, Stick Patrol. A banda e seu nome idiota. E minha prima por não manter o combinado, e Harvard por ter ganhado hoje à noite, e o aquecimento global por despejar toda essa chuva indesejada. Foda-se tudo.
Viro o resto da bebida em um gole, então sinalizo para o garçom pedindo outra.
É o pior fim de semana da história.
“Ah, não, eu perdi a banda?” Um cara fortão com a cabeça raspada e dois piercings na sobrancelha se aproxima. Ele olha para mim e depois para o palco vazio e de novo para mim. O desejo ilumina seus olhos quando nota meu vestido.
Passo um dedo pelo vidro do meu copo vazio, distraída. “Sinto muito. Eles acabaram agorinha.”
“Que absurdo.”
“Nem me fala.” E nem sou fã de metal. Imagine alguém que queria ver a banda chegar assim que ela deixa o palco.
“Posso me juntar a você?” Ele fecha os dedos sobre a beirada da mesa.
Meu olhar recai sobre suas mãos. São enormes, duas patas consideráveis com juntas vermelhas. Não gosto delas e não quero companhia, mas o cara não me dá a chance de recusar.
Ele se aproxima, apoiando os antebraços na mesa. Seus braços também são enormes, e o esquerdo está coberto de tatuagens tribais. “Gosta de música?”
O cara acabou de me perguntar se eu gosto de música? Em geral? A maior parte das pessoas não gosta? “Gosto. Claro.”
“Quem é sua banda de metal preferida?”
“Hum, não tenho uma, na verdade. Não sou do metal. Só entrei aqui porque queria um drinque.”
“Legal.”
Espero que diga mais alguma coisa, mas ele não diz. Tampouco vai embora.
“Você é estudante?”, pergunto, me resignando a conversar. Não é como se tivesse algo melhor a fazer.
“Larguei”, ele diz apenas.
Hum. Tá. Tanto faz para mim, mas é meio estranho só falar isso. “E onde estudava? Sou da Briar.”
“Na St. Michael’s.”
“St. Michael’s?” Vasculho o cérebro. “Nunca ouvi falar dessa faculdade.”
“Escola”, ele grunhe. “Não é uma faculdade. É uma escola.” Ele aponta com os dois dedões para o próprio peito. “Larguei o ensino médio.”
Hum.
O que posso dizer depois disso?
Por sorte, o garçom me poupa. Ele aparece com outro drinque para mim e uma garrafa de Corona para o cara. Levo o copo aos lábios com vontade.
O cara toma um longo gole de cerveja. “Como você chama?”
“Brenna.”
“Animal.”
“Valeu. E você?”
“Não, Animal é meu nome.”
Hum.
Reprimo um suspiro do fundo da minha alma. “Seu nome é Animal?”
“Bom, na verdade é Ronny. Animal é meu nome de palco.” Ele ergue seus ombros impressionantes. “Eu tinha uma banda. A gente fazia covers do Guns.”
“Ah. Legal. Mas acho que prefiro te chamar de Ronny.”
Ele joga a cabeça para trás e ri. “Você é durona. Gosto disso.”
Ficamos em silêncio de novo. Ronny se aproxima, e seu cotovelo roça o meu. “Parece triste”, ele diz.
“Pareço?” Duvido muito. A única emoção que sinto no momento é irritação.
“Parece. Como se precisasse de um abraço.”
Forço um sorriso. “Não precisa, obrigada. Estou superbem.”
“Tem certeza? Sou ótimo nisso.” Ele abre os braços fortes e levanta as sobrancelhas, como se fosse Patrick Swayze em Dirty Dancing esperando que eu pulasse em seus braços.
“Não precisa”, repito, mais firme dessa vez.
“Posso experimentar seu drinque?”
Oi? Quem pede uma coisa dessas? “Não. Mas posso te pagar um, se quiser.”
“Não, nunca deixo a mulher pagar.”
Tento me afastar para abrir mais espaço entre a gente, mas Ronny dá outro passo na minha direção. Não me sinto ameaçada por ele. É um cara grande, mas não ameaçador. Não está tentando me intimidar com sua corpulência. Acho que só não se deu conta de todos os sinais de que não estou interessada.
“Então, minha história de vida é… complicada”, Ronny confessa, como se eu tivesse perguntado a respeito.
Mas é claro que não perguntei.
“Cresci na costa norte. Meu pai pescava em águas profundas. A vadia da minha mãe fugiu com algum babaca.”
Não consigo. Ai, meu Deus, não consigo.
Ronny não é totalmente esquisito ou aterrorizante. Ele se expõe demais, isso é óbvio, mas parece um cara normal, tentando puxar papo.
Mas não consigo. Quero que esta noite, este fim de semana inteiro, acabe. Foi terrível. Um horror. De verdade, não consigo ver como poderia piorar.
Assim que essas palavras passam pela minha cabeça o universo decide me dar um tapa na cara colocando Jake Connelly no meu campo de visão.
O desgraçado do Jake Connelly.
Os músculos do meu pescoço ficam tensos de desconfiança.
O que ele está fazendo aqui?
“É uma droga, sabe? Vim para Boston pensando que conseguiria um trabalho irado, mas é difícil sem um diploma.”
Ouço só parte do que Animal diz. Quer dizer, Ronny. Jake tem a maior parte da minha atenção. Com jeans desbotado, camiseta verde-escuro da Under Armour e boné dos Bruins, é o único aqui que não usa preto ou camiseta de banda. Também é uns trinta centímetros mais alto que os outros caras.
Cerro os dentes. Por que atletas têm que ser tão grandes e masculinos? O corpo de Jake é incrivelmente atraente. Pernas longas, braços fortes, peito escultural. Nunca o vi sem camisa, e me pego fantasiando com como seria seu peito nu. Musculoso, imagino. Mas cheio de pelos? Liso como bundinha de nenê? Meus dedos traidores formigam de vontade de descobrir.
Ele ainda não me viu. Está na beirada do palco, conversando com um cara da banda. O guitarrista, acho.
Me pergunto se conseguiria ir embora sem que Jake me notasse. Se Connelly me encontrasse aqui, neste buraco, toda arrumada de vestidinho colado e brilhante… Seria a cobertura podre do bolo vencido em que este fim de semana se transformou.
“E sabe o que é pior? Essa coisa dos aplicativos”, Ronny se lamenta.
Tiro os olhos de Jake. “É, esses aplicativos são péssimos”, digo, distraída, tentando localizar o garçom.
“Tenho um monte de matches e garotas dizendo: ‘Oi, bonitão, você é lindo, tão gostoso’. Então a conversa morre. Não consigo entender.”
Sério? Ele não consegue entender? Porque tenho uma suspeita do motivo pelo qual as conversas no aplicativo morrem. Tem várias coisas nele que deixam a desejar. Tipo dizer “a vadia da minha mãe”. Ou ficar mencionando o tempo todo que não terminou a escola. Animal pode não estar dando a melhor primeira impressão, mas me recuso a fazer críticas construtivas. Estou ocupada demais com meu plano de fuga.
Meu olhar ruma na direção do palco. Jake continua envolvido na conversa com o guitarrista.
Droga. Cadê o garçom? Preciso pagar e cair fora daqui.
“Você é uma garota legal, Brenna”, Ronny diz, meio sem jeito. “É fácil falar com você.”
Dou outra olhada no salão. É hora de ir. Se Jake me notar, não vai deixar passar. O vestido, o lugar, a companhia.
Isso. Encontro o garçom atravessando a porta vaivém próxima ao bar. Aceno freneticamente.
“Desculpa, só estou tentando pedir a conta”, digo a Ronny. “Eu…”
Paro de falar. Jake não está mais do outro lado do salão.
Para onde ele foi?
“Já vai embora?” Ronny parece decepcionado.
“Estou um pouco cansada e…”
“Aí está você, linda”, ouço uma voz familiar dizer. “Desculpa o atraso.”
De repente, Jake está ao meu lado, põe a mão no meu pescoço e leva a boca à minha.