The Risk
39. Jake
39
JAKE
Estou sozinho no vestiário, lutando com meus pensamentos. Vozes ecoam do outro lado da porta. Ouço risadas, conversas e o ruído da movimentação, mas sou bom em bloquear tudo. Meu ritual de silêncio não requer silêncio de fato. Só preciso calar meu cérebro. Pensar no que precisa ser feito.
O treinador me deu permissão para vir sozinho para Worcester hoje. É algo inédito, mas acho que ele foi sacudido por meu desempenho indigno de uma estrela nos treinos dos últimos três dias. Pedersen está temendo que eu faça o time perder o jogo. E tem razão para isso. Minha concentração foi abalada. Terminar com Brenna me devastou.
Cometi um erro.
Cometi um erro e percebi isso no momento em que ela deixou meu apartamento. Terminar com Brenna foi a coisa mais idiota que já fiz na vida. Agi por medo, não lógica, e minha atitude teve o efeito oposto ao que pretendia, porque agora minha cabeça está ainda mais longe de onde deveria estar.
É irônico. Toda a bobageira que eu disse sobre precisar me livrar de distrações — o que era a maior mentira, para começar — acabou criando uma perturbação ainda maior no meu cérebro. Brenna não era uma distração, mas nosso término com certeza é.
Então, o treinador me liberou e vim dirigindo sozinho até Worcester. Achei uma lanchonete e me enchi de energia com um café da manhã farto e gorduroso. Em determinado momento, percebi que tinha deixado meu celular em casa, mas nem preciso dele mesmo. Hoje não existe nada além do jogo. Se ganharmos, classificamos para a semi nacional. É pressão o bastante para fazer alguém mais fraco vacilar, mas não sou desse tipo. Posso ter sido fraco em meu relacionamento com Brenna, mas não sou assim quando se trata de hóquei. Nunca fui, nunca serei.
Ouço passos vindo do corredor. Por um segundo, penso que o resto do time chegou mais cedo, até que ouço certo tumulto. Mais passos, um baque e um grito masculino ultrajado.
“Já disse que você não pode entrar!”
“Só precisamos de um minuto. O que acha que vou fazer? Matar o cara?”
Não reconheço a segunda voz, e assumo que a primeira seja de um segurança.
“Sinto muito, mas não posso te deixar entrar.”
“Vamos, Hollis”, uma terceira voz diz. “A gente fala com ele depois.”
Hollis? De Mike Hollis?
Pulo do banco e corro até a porta. “Espera”, digo ao abri-la. “Tudo bem. Conheço eles.”
Os olhos de falcão do segurança passam por mim. “Ninguém mais pode entrar aqui.”
“É rapidinho”, garanto. “Dois minutos, no máximo.”
Ele abre passagem.
Alguns segundos depois, estou no vestiário com as duas últimas pessoas que esperava ver hoje. Mike Hollis mantém os braços cruzados junto ao amplo peitoral. Colin Fitzgerald está mais relaxado, com os braços soltos ao lado do corpo. Usa uma malha de gola V com as mangas arregaçadas, e dá para ver as tatuagens saindo do colarinho e dos punhos. O cara é totalmente tatuado.
“Como sabiam que eu estava aqui?”, pergunto a eles.
“O encrenqueiro contou pra gente”, Hollis diz.
“Que encrenqueiro?”
“Weston”, Fitzgerald explica, sorrindo. “Minha namorada mandou uma mensagem pra ele.”
“Ah.”
“Já chega de enrolação?”, Hollis pergunta, educado.
Tento não rir. Me pergunto se vão fazer toda a encenação policial bonzinho/policial malvado. “Acho que sim.” Gesticulo na direção dele. “Por que estão aqui?”
“Porque queríamos que deixasse de ser tão cabeça-oca.”
“Não fala no plural, por favor”, Fitzgerald diz. “Eu só te dei uma carona.”
Hollis olha para o colega de time. “Está me dizendo que nem liga que esse cara tenha partido o coração da Jensen?”
Perco o fôlego. Parti o coração de Brenna? Ela disse isso a eles?
Hollis volta a se dirigir a mim. “Você é muito idiota, Connelly. Cometeu o maior erro da sua vida idiota terminando com Brenna.”
“Eu sei.”
“Pra começar, ela é linda. É quase revoltante como ela é linda. E é inteligente, e esperta, e engraçada, e… Espera aí, você disse que sabe?”
Dou de ombros e sento no banco. Eles continuam de pé. De repente, me sinto como se fosse uma criança levando bronca dos pais.
“Isso”, digo, infeliz. “Foi um grande erro. Mas vou consertar tudo assim que derrotarmos Michigan.”
“Se sabe que é um erro, por que não consertou dias atrás?”, Hollis pergunta.
“Porque tenho um jogo pela frente.”
Porque estou morrendo de medo de encontrá-la.
De jeito nenhum vou admitir isso para esses caras, mas é a verdade. A verdade verdadeira.
Acho que eu poderia escolher o caminho mais fácil e culpar Hazel por minhas ações. Foi ela que me induziu ao pânico fazendo todas aquelas perguntas sobre eu estar pronto, me alertando para como ia ser difícil, para o fato de que relacionamentos à distância não funcionam. Cada ponto levantado por ela pressionava mais e mais meu peito até que eu não conseguia mais respirar. As paredes começaram a se fechar à minha volta, e eu senti que estava sufocando.
Sei que Hazel não fez de propósito. Eu já deveria estar pensando naquelas coisas, deveria ter antecipado os problemas.
Mas não fiz nada disso, porque estava vivendo minha vida sozinho. Naquela vida, eu tinha o direito de ser egoísta. Podia trocar mulheres por hóquei. Me concentrava em detonar na liga profissional. Tinha uma única prioridade: eu mesmo.
Agora, numa relação, se espera que outra pessoa possa contar comigo. Ou melhor, que a pessoa com quem estou possa contar comigo. E a constatação me assustou pra caralho. Nunca fui o porto seguro de ninguém. E se for péssimo nisso? E se decepcionar Brenna de alguma forma? Não posso prometer estar presente a cada segundo de cada dia. Do modo como Hazel falava, parecia que eu nunca mais teria um único momento para mim mesmo.
Não culpo Hazel, de verdade. Mas o ataque de ansiedade que começou na lanchonete me seguiu por todo o caminho até em casa. Quando vi Brenna, projetei todo o meu pânico nela.
Acabei me agarrando à primeira desculpa que me veio à mente, o motivo confiável a que eu recorria quando qualquer garota exigia mais tempo de mim: o hóquei. Disse a Brenna que precisava estar presente para o time, porque no momento estava morrendo de medo da responsabilidade de estar lá para ela.
Levou só uma hora, talvez duas, para que a ansiedade passasse e eu conseguisse processar meus pensamentos com clareza. Sou capaz de estar lá por Brenna. Já não faz mais de um mês que faço isso? Ela pôde contar comigo durante toda a história com Ed Mulder, quando precisou salvar o namorado, e até dei conselhos sobre seus problemas com o pai. Brenna estava na minha casa, e a não ser por ter chegado atrasado em um único treino — totalizando três em dezessete anos —, fui perfeitamente capaz de equilibrar o hóquei e o namoro.
Não acho que a próxima temporada vai ser fácil. Vou viajar muito, vou estar sempre cansado de tanto dar duro, não vou conseguir ver Brenna tanto quanto gostaria, nem de perto. Mas é só um ano. Podemos sobreviver a isso. Então, ela vai se formar e talvez considere se mudar para Edmonton, se é que vou continuar lá.
Eeee talvez eu tenha colocado o carro na frente dos bois agora. Primeiro preciso convencê-la a voltar comigo. Depois podemos falar sobre Brenna mudar de país por mim.
“Vai falar com ela depois do jogo?”, Hollis pergunta, ansioso. “Ou vamos precisar voltar com uma espingarda e…”
“Relaxa, não precisa me apontar uma arma pra que eu fale com ela”, digo, rindo.
“Como assim?” Hollis parece confuso. “Minha ideia era te dar uma coronhada na nuca pra ver se sua cabeça voltava a funcionar.”
Viro para Fitzgerald, que dá de ombros e diz: “O cérebro dele opera em um nível que nós, mortais, não conseguimos compreender”.
Hollis parece feliz. “Cara, é a coisa mais legal que você já me disse.”
A visita inesperada dos jogadores da Briar não é nada comparado a meu choque ao sair do vestiário atrás de uma máquina de venda automática e encontrar meus pais no corredor. Por um momento, acho que estou alucinando, até que minha mãe me chama.
“Jake!” O alívio é claro em seu rosto. “Você já chegou? Rory, ele já chegou.”
“Estou vendo”, meu pai diz apenas.
Balanço a cabeça, confuso, então vejo Hazel, que está ao lado da minha mãe. Ela abre um sorrisinho, como quem diz: Olha só quem veio.
“É, já cheguei. Vim cedo.”
“Por que não atende o celular?”, minha mãe pergunta.
“Esqueci em casa.” Encaro meus pais. “O que estão fazendo aqui?”
“Viemos apoiar você”, minha mãe responde.
Meu pai me dá um tapinha no ombro. “É um jogo importante pra você. E, pra ser sincero, sua mãe e eu ficamos nos sentindo mal por não nos esforçarmos mais pra ver seus jogos. Agora que vai virar profissional, vão esperar que a gente apareça de vez em quando, não?”
“Não acho que alguém se importe com a presença dos pais de um novato qualquer no camarote.”
“Novato qualquer?”, ele repete. “Que bobagem!”
“Você vai ser um astro”, minha mãe diz, com um sorriso enorme no rosto. “E estamos muito orgulhosos.”
Meus olhos de repente queimam. Droga. Não posso desabar agora. Tenho que me concentrar no jogo.
“Obrigado”, digo, com a voz um pouco rouca. Pigarreio. “Sei que vocês não curtem muito hóquei, mas fico feliz que tenham vindo.”
“Podemos não ser fãs do esporte, mas somos seus fãs”, minha mãe declara.
Hazel ri. “Isso foi péssimo, sra. Connelly.”
“É melhor a gente sentar”, meu pai diz. “A arquibancada está cheia.”
“Boa sorte”, minha mãe diz.
De repente, me vejo envolvido em um abraço quente e forte dela, que é seguido por um menos dramático, mas igualmente quente, do meu pai.
“Já encontro vocês”, Hazel diz a eles. “Quero falar com Jake antes.”
Assim que meus pais vão embora, levanto uma sobrancelha para ela. “Nem acredito que eles vieram. Sabia disso?”
Hazel assente. “Sua mãe me ligou pra comprar os ingressos. Eles queriam que fosse surpresa.”
Enfio as mãos nos bolsos e olho para a porta atrás de mim. O time vai chegar logo mais. “Acho que tenho que voltar e começar a me preparar mentalmente.”
“Beleza.” Hazel parece hesitar.
“Tudo bem?”
“Tudo bem.” Mas seu rosto está um pouco pálido, e seus olhos não refletem seu sorriso. “Bom jogo, Jake.”