The Risk

Elle Kennedy · Capítulo 36 de 43

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The Risk

36. Brenna

36

 

BRENNA

 

Jake terminou comigo.

As míseras três palavras giram na minha mente durante toda a viagem de trem e de ônibus até Hastings. Ainda não chorei. Pensei que choraria, mas acho que exagerei ao enterrar minhas emoções durante a despedida. Agora não sinto nada. Absolutamente nada. Estou entorpecida. Meus olhos estão secos e meu coração é uma pedra.

O Jeep do meu pai está na entrada quando passo pela porta da frente com minha mala. Espero que ele não me mande embora outra vez. Pelo lado positivo, se disser que não posso ficar, só vou precisar achar um lugar para passar a noite. Wendy me ligou quando eu estava no trem para contar que posso voltar para casa amanhã de manhã. Ela e Mark iam a uma loja esta noite comprar alguns móveis. Eu disse que não precisavam fazer isso, mas aparentemente ainda não tiveram resposta do seguro, então insistiram para comprar pelo menos uma cama.

Encontro meu pai na cozinha, colocando a louça na máquina. Está de costas para mim, e por um momento me sobressalto. Ele é alto e largo, com corpo de jogador de hóquei, e desse ângulo pareceria Jake se não fosse pelo cabelo escuro mais curto. Ele irradia força, o que me lembra de que preciso ser forte também. Sempre tenho que ser forte diante do meu pai.

Puxo o ar. “Oi.”

Ele vira e oferece um “oi” animado em resposta.

Há um breve silêncio. Olhamos um no olho do outro. De repente, me sinto muito cansada. Já lidei com um confronto emocional hoje, e é apenas uma da tarde. Me pergunto quantas conversas devastadoras ainda vou ter.

“Podemos sentar na sala?”, sugiro.

Ele assente.

Quando estamos cada um de um lado do sofá, inspiro devagar, então solto o ar de forma controlada e lenta. “Sei que gosta de gente que vai direto ao ponto, então vou fazer isso.” Bato as duas mãos nas coxas. “Sinto muito.”

Meu pai abre um leve sorriso. “Vai ter que ser mais específica. Você tem alguns motivos para sentir muito.”

Não sorrio de volta, porque me ressinto do golpe. “Não, na verdade não tenho. Não vou pedir desculpas por sair com Jake, por ter amigos, por me divertir de vez em quando. Não vou pedir desculpas por nada disso, porque fiz essas coisas de modo responsável.” Exalo depressa. “Só estou pedindo desculpas por ter engravidado.”

Ela puxa o ar com força. “O quê?”

É raro pegar meu pai de guarda baixa, mas ele parece surpreso. Mexo nas contas no meu pulso, então percebo que são da pulseira de Jake. Ainda estou usando. O que significa que vou ter que dar um jeito de devolver a ele antes do jogo, sábado.

Agora, no momento, ela me fornece combustível, estranhamente. Não sei se me dá sorte, mas com certeza me dá coragem, o que em geral me falta no trato com meu pai.

“Desculpa por ter engravidado”, repito. “E por não ter contado. Se vale alguma coisa, foi um acidente. Eric e eu sempre usávamos proteção. Sempre.” Balanço a cabeça, amarga. “Então, uma vez, a porcaria da camisinha fura, e meu pai passa a me odiar.”

Ele arregala os olhos. Abre a boca para falar, mas eu o corto.

“Sei que decepcionei você e sei que… como é que as pessoas falam nos filmes antigos? Causei a ruína da nossa família?”

Meu pai solta uma risada. “Meu Deus, Brenna…”

Eu o interrompo de novo. “Sei que tem vergonha de mim. E, pode acreditar, também tenho, e de como me comportei. Deveria ter dito que estava grávida e com toda a certeza deveria ter dito que estava tendo um sangramento. Mas tinha tanto medo de como você ia reagir que deixei Eric me convencer de que não era nada importante. Fui idiota, mas não sou mais. Prometo.”

Minha garganta se fecha, o que acho que é bom, porque estava prestes a chorar. Pisco repetidas vezes, tentando desesperadamente conter as lágrimas. Sei que, quando afinal vierem, vai ser uma inundação.

“Estou te pedindo uma chance”, digo a ele.

“Brenna…”

“Por favor”, imploro. “Sei que sempre decepciono você, mas quero consertar isso. Só me diga como” — fazer você me amar de novo — “consertar isso, por favor. Não consigo lidar com você com vergonha de mim, então preciso que me diga o que posso fazer para melhorar e como…”

Meu pai começa a chorar.

Fico chocada. Minha boca continua aberta, ainda que eu não diga nada. Por um momento, acho que estou imaginando as lágrimas. Nunca o vi chorar, então me é algo completamente desconhecido. Mas… são lágrimas de verdade, com toda a certeza.

“Pai?”, digo, incerta.

Ele tenta enxugar o rosto com os nós dos dedos. “É isso que você acha?” A vergonha é clara em suas lágrimas, mas não é direcionada a mim. Parece que meu pai está com vergonha de si mesmo. “Foi nisso que te fiz acreditar? Que te odeio? Que tenho vergonha de você?”

Enfio os dentes no lábio inferior. Se ele continuar chorando, vou chorar também, e um de nós precisa manter o controle agora. “Não é verdade?”

“Claro que não, meu Deus.” Sua voz é mais que rouca. “E nunca te culpei por ter engravidado, princesa.”

Não tenho mais como segurar as lágrimas agora. Elas saem e escorrem pelas minhas bochechas. Sinto o gosto salgado em meus lábios.

“Já fui jovem”, meu pai murmura. “Sei que fazemos coisas idiotas quando os hormônios estão envolvidos, e sei que acidentes acontecem. Não fiquei feliz, mas não culpei você.” Ele esfrega os olhos de novo.

“Você nem conseguia me olhar depois.”

“Porque toda vez que te olhava me lembrava de te encontrar no chão do banheiro em uma poça de sangue.” Sua respiração é rasa. “Meu Deus, nunca tinha visto tanto sangue na vida. E você estava pálida como um fantasma. Seus lábios estavam azuis. Achei que tivesse morrido. Entrei e achei que tivesse morrido.” Ele solta o rosto nas mãos. Seus ombros largos tremulam.

Uma parte de mim quer se aproximar para abraçá-lo, mas faz tanto tempo que nosso relacionamento é contido. Faz tanto tempo que não nos abraçamos que me sentiria meio esquisita fazendo isso. Então só fico ali, vendo meu pai chorar, enquanto lágrimas escorrem por minhas bochechas também.

“Achei que você estava morta.” Ele levanta a cabeça, revelando sua expressão devastada. “Foi como tinha acontecido com sua mãe. Quando ligaram para contar do acidente e tive que ir identificar o corpo dela no necrotério.”

Solto o ar com força pelas narinas. É a primeira vez que ouço isso.

Sabia que minha mãe tinha morrido quando seu carro bateu em um pedaço de gelo e derrapou para fora da estrada.

Mas não sabia que meu pai tinha precisado identificar o corpo.

“Sua tia Sheryl não está sempre dizendo que você é a cara da sua mãe? Bom, é verdade. Você é igualzinha a ela.” Ele grunhe. “Era, quando te encontrei no banheiro, era igualzinha ao cadáver dela.”

Fico tão enjoada que tenho medo de vomitar de verdade. Nem consigo imaginar como deve ter sido para ele.

“Eu não conseguia olhar pra você porque estava assustado. Quase te perdi, e você é tudo o que me importa no mundo.”

“E o hóquei?”, brinco, sem força.

“Hóquei é um jogo. Você é minha vida.”

Opa. A enxurrada volta. Devo estar com uma cara horrível, mas não consigo impedir meu nariz de escorrer ou as lágrimas de rolarem. Meu pai tampouco me abraça. Ainda não chegamos lá. É um território totalmente novo para nós… ou melhor, é um território antigo que precisa ser reocupado.

“Quase te perdi, e não sabia como melhorar as coisas pra você”, ele admite. “Se sua mãe estivesse viva, saberia exatamente o que fazer. Você só chorava no hospital, e depois todos aqueles meses em casa. Aquilo estava fora da minha zona de conforto. Eu não sabia como encarar, e sempre que te olhava imaginava seu corpo sangrando no chão.” Ele estremece. “Nunca vou esquecer a imagem. Vai ficar na minha mente até eu morrer.”

“Desculpa se te assustei”, sussurro.

“Desculpa se te fiz pensar que tinha vergonha de você.” Ele solta o ar de forma entrecortada. “Mas não vou pedir desculpas pelo que aconteceu depois. Pelo castigo, por estabelecer um horário para voltar para casa. Você estava fora de controle.”

“Eu sei.” Abaixo a cabeça, arrependida. “Mas eu mudei. Cresci e fui para a faculdade. E não estou mais tentando chamar sua atenção. Você estava certo em me proteger na época, mas sou uma pessoa diferente agora. Queria que conseguisse ver isso.”

Seus olhos sombrios me avaliam. “Acho que estou começando a ver.”

“Ótimo. Porque só assim vamos conseguir seguir em frente.” Olho para ele, esperançosa. “Acho que podemos passar uma borracha em tudo? Esquecer o passado e conhecer um ao outro como adultos.”

Ele assente depressa. “Acho que podemos fazer isso.” Então, assente de novo, mais devagar dessa vez, como se seu cérebro tivesse chegado a uma conclusão. “Na verdade… é uma ótima ideia.”