The Risk
35. Brenna
35
BRENNA
Estou pegando o casaco para sair quando Jake entra no apartamento. Eu não sabia que estava voltando, portanto sua aparição súbita me assusta. “Afe!”, exclamo, rindo de alívio. “Você me assustou.”
Seu olhar se abranda. “Desculpa. Não foi minha intenção.”
“E o treino? Pedersen ficou muito puto?” Ainda me sinto mal por Jake ter se atrasado esta manhã. É claro que não foi minha culpa — nós dois participamos do sexo. Mas, se eu tivesse me lembrado do treino pela manhã, teria dado um jeito de tirá-lo da cama.
“É, ele não ficou nem um pouco feliz. Me fez trabalhar em dobro, mas mereci.” Jake tira a jaqueta e a pendura. Depois, passa as duas mãos pelo cabelo. “Ainda não foi encontrar seu pai?”
“Não. Estava saindo agora.” Mandei uma mensagem para ele avisando que ia, e a resposta que recebi foi: Estou aqui. Com meu pai, poderia significar Estou aqui pronto pra conversar ou Estou aqui esperando pra gritar com você. Não dá pra saber.
“Precisa ir neste instante ou tem um minuto pra uma conversa?”
Evito franzir a testa. Uma conversa? E por que ele não para de passar as mãos pelo cabelo? Jake não costuma ser tão agitado. A ansiedade se acumula no meu estômago. “Claro. Tenho um minuto, sim. O que foi?”
Ele vai para a sala, gesticulando para que eu o siga. Faço isso, mas não ajuda em nada. Porque agora noto seus ombros caídos. A falta de confiança, incomum a Jake, me preocupa.
Externo minha preocupação. “O que aconteceu?”, pergunto, baixo.
“Você sabe que me atrasei pro treino hoje”, Jake começa.
Não acabamos de falar sobre isso? Avalio sua expressão perturbada. “Sei. Você se atrasou e…?”
“Dei mancada com o time.” Ele passa os dedos compridos pelo cabelo de novo. As mechas escuras ficam cada vez mais emaranhadas. “Estamos a um jogo da semi do nacional. Se avançarmos, estaremos a dois jogos da taça.” Jake morde o lábio. “Não posso me atrasar para o treino.”
Sou inundada pela culpa de novo. “Eu sei. Acho que o que podemos tirar disso é… chega de sexo matinal?”, digo, em uma tentativa fracassada de piada.
Jake nem finge sorrir.
Ih.
Sento no braço do sofá. Ele permanece de pé.
“Quando os playoffs começaram, eu disse a todo mundo no time que era preciso fazer sacrifícios. Disse a Brooks que ele não podia farrear. Disse a Potts e Bray que não podiam beber. Estabeleci um limite alcoólico para os outros caras.” Ele olha para mim, cheio de intenção. “E forcei McCarthy a terminar com você.”
Meu estômago continua se revirando.
“Eles obedeceram sem nem questionar. Colocaram o time em primeiro lugar.” Jake balança a cabeça, claramente sofrendo. “Eu costumava colocar o time em primeiro lugar também. Mas perdi completamente a cabeça depois que te conheci.”
Começo a me sentir mal. Não preciso ser vidente para adivinhar aonde isso vai. Nem consigo acreditar.
Ontem à noite, me mostrei mais vulnerável a ele do que já tinha me mostrado a qualquer outra pessoa. Contei sobre a gravidez e o aborto espontâneo, sobre o colapso emocional, sobre o relacionamento ruim com meu pai. Me abri completamente e disse: Olha, aqui está. Aqui estou.
Pela primeira vez em muito tempo, me permiti não ser dura.
E o resultado é esse?
Meus olhos ardem. Pressiono os lábios. Não digo nada, porque tenho medo de começar a chorar, e me recuso a revelar mais fraqueza.
“Forcei todo mundo a se livrar das distrações. O que me torna um hipócrita total, porque não estava disposto a me livrar da minha.”
“Suponho que esteja falando de mim.” Fico surpresa — e até orgulhosa — ao ouvir como minha voz sai firme.
“Estou”, Jake diz apenas. “Desde que te conheci, só consigo pensar em você. Você me deixa louco.”
Meu pobre e confuso coração não sabe como reagir. Vai às alturas porque Jake — um cara que admiro e respeito, por quem estou me apaixonando — diz que o deixo louco? Ou se estilhaça porque ele está agindo como se isso fosse uma coisa ruim?
“É por isso que acho que precisamos dar um tempo.”
Ele se estilhaça. Meu coração se parte em mil pedacinhos doloridos.
“Não posso pedir aos outros jogadores que coloquem todo o seu foco, toda a sua energia no time se não estou disposto a fazer o mesmo. Então, quando você for no seu pai hoje…” Jake deixa a frase morrer no ar, então enfia as mãos nos bolsos, desconfortável. “Talvez seja bom…”
Outra dura dose de realidade me atinge.
“… ficar por lá”, ele conclui.
“Você quer que eu vá embora?”, pergunto, direta.
“Vou passar todas as horas dos próximos três dias me preparando para enfrentar Michigan. Não posso pensar em mais nada, Brenna. Você aqui é uma distração. Vimos bem esta manhã.” Sua voz sai torturada. “O time tem que poder contar comigo.”
E eu?, quero gritar. Por que não posso contar com você?
Mas sou mais esperta que isso. De jeito nenhum vou revelar como estou devastada por causa disso. Eu me abri ontem à noite, e agora estou levando um fora.
Aprendi a lição.
“O hóquei precisa ser prioridade pra mim agora.”
E é então que eu ouço um leve toque de desonestidade. Jake está mentindo? Sua expressão é tão sofrida e infeliz. É claro que não está pulando de alegria com a perspectiva de terminar. Mas não vou implorar para que ninguém fique comigo. Vou aceitar seus motivos. Porque sou adulta e não faço joguinhos. Se ele está me dizendo que acabou, então acabou.
“Tá certo. Entendi.”
Ele vacila. “É?”
“O hóquei é sua prioridade”, repito, dando de ombros. “E deveria ser mesmo. Foi por isso que trabalhou a vida inteira. Não espero que vá jogar tudo pro alto por causa de um relacionamento fadado a terminar.”
Ele contorce os lábios de leve. “Acha mesmo isso?”
“Acho”, minto. “Já te disse antes: isso não vai a lugar nenhum. Você vai se mudar pra Edmonton. Tenho mais um ano de faculdade. Seria burrice tentar alguma coisa.” Levanto do sofá. “Tenho certeza de que meu pai vai me aceitar de volta. E, se não aceitar, posso ficar com Summer. Os proprietários do meu apartamento disseram que logo mais deve estar tudo pronto. Talvez até já esteja pronto e só não conseguiram me ligar ainda.”
Jake passa os dedos pelo cabelo pela milionésima vez. “Brenna…” Ele não prossegue. O remorso é inconfundível.
“Está tudo certo, Jakey. Não vamos arrastar isso. Nos divertimos e agora é hora de seguir em frente. Não é nada de mais.”
Fingir que não ligo é uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Mas devo estar sendo muito convincente, porque Jake só assente, triste.
“Bom, já vou pegar minhas coisas, é mais fácil assim. Só tenho que esvaziar uma gaveta, então…” Minha voz falha. Ele me deu uma gaveta e agora está pegando de volta. É como se alguém tivesse pego uma faca enferrujada e enfiado no meu coração uma centena de vezes.
No quarto de Jake, esvazio rapidamente a gaveta e jogo tudo na mala. Então, vou até o banheiro e pego o que deixei ali. Tenho certeza de que esqueci alguma coisa, mas, se Jake entrar em contato a respeito depois, vou dizer para jogar fora. Mesmo sozinha, me forço a não revelar nenhuma emoção. Um deslize e vou chorar. Não vou derrubar uma única lágrima neste apartamento.
Volto à sala com a mala. Vou até Jake e aperto seu braço de leve. O toque me faz querer morrer.
Ele fica tenso por um momento, então levanta a mão e toca minha bochecha. Passa o dedão devagar pelo meu lábio inferior. Quando o tira, está levemente manchado de vermelho.
“De batom vermelho logo cedo, hein?”, Jake comenta, rouco.
“É minha marca registrada.” É minha armadura, penso.
Neste exato momento, a armadura é a única coisa que me impede de me desfazer em lágrimas aos seus pés.