The Risk

Elle Kennedy · Capítulo 30 de 43

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The Risk

30. Brenna

30

 

 

BRENNA

 

No segundo em que o sinal indicando o fim do primeiro período toca, levanto. Summer faz o mesmo, mas levo uma mão a seu ombro. “Não vão te deixar entrar.”

“Como sabe?”, Summer pergunta.

“Conheço meu pai. Cara, talvez ele não deixe nem a própria filha entrar. Mas, se alguém tem uma chance, sou eu. Prometo que te mando uma mensagem assim que souber de algo.”

“Tá.” Summer parece em estado de choque, e não é a única. Todo mundo à nossa volta permanece atordoado.

Ninguém sabe o que foi que aconteceu, mas de alguma forma o jogo se transformou em uma guerra. Hunter foi retirado do gelo antes que o período terminasse, segurando o próprio braço. Assim como Nate e um jogador de Harvard cujo nome e número de camisa não consegui guardar.

Pelo restante do primeiro período, ficamos sem nossos dois melhores jogadores, mas de alguma forma conseguimos segurar Harvard até que o sinal tocasse. Agora faltam dois períodos e não tenho ideia do que está acontecendo. Os árbitros não anunciaram por que os três saíram, e não houve nenhum anúncio pelo alto-falante. No hóquei universitário, brigas não são permitidas. Elas são motivos de expulsão. Só que Hunter não começou a confusão, nem retrucou de maneira alguma. E não sei por que Nate se envolveu na situação. Ele costuma ter mais autocontrole.

Corro da arquibancada em busca de respostas. Tem mais gente saindo, então abro caminho pela multidão distribuindo cotoveladas até chegar ao vestiário. Meu pai sempre me deixa com uma credencial, caso seja necessário. Não tenho garantia de que vou poder entrar no vestiário em si, mas pelo menos significa que tenho acesso a áreas restritas ao público. Mostro a credencial para um segurança e pego um corredor.

Outro segurança está postado diante do vestiário dos visitantes. “Oi”, cumprimento, mostrando a credencial. “Sou filha do treinador Jensen e membro da equipe técnica.” A segunda parte é mentira, mas espero que possa me ajudar.

E ajuda. O cara me abre passagem rapidamente.

Abro a porta e ouço a voz do meu pai. Parece mortal. “Por que caralho você fez isso, Rhodes?”

Não ouço a resposta que Nate murmura.

Me esgueiro lentamente até o lugar onde os jogadores estão reunidos. Ninguém me nota. Por que notaria? Estou escondida num mar de corpos grandes se assomando sobre mim.

“Bom, Davenport está fora. Foi tirar um raio X, mas a médica disse que o pulso está visivelmente quebrado.”

Sinto um buraco no estômago. Meu pai não parece feliz, e não posso culpá-lo. Hunter está fora da final.

“E Rhodes, você foi expulso por participar da confusão.”

Ah, merda. Nate não vai voltar? Os dois são os melhores jogadores do time!

“Do outro lado, Jonah Hemley foi expulso. O que não é grande perda para eles.” Meu pai desdenha. “O garoto entrou no lugar de Coby Chilton, com suspeita de ter estirado o posterior da coxa. Só que ele não estirou porcaria nenhuma e a linha mais forte de Harvard está de volta à ativa.”

Ah, não. Isso é um absurdo. O pânico enfraquece meus músculos, porque… agora talvez a gente perca.

Meu pai não externa meu receio, mas sei que está pensando nisso também. Ele parece furioso ao se dirigir aos jogadores. “O que foi que aconteceu lá?”

Há um silêncio longo e temeroso. Fitz é o único que reúne coragem para falar. “Pelo que entendi, Hunter dormiu com a namorada de Hemley. Sem saber”, ele acrescenta.

“Está brincando? E, se fosse pra trepar com a namorada de alguém, que fosse a do Connelly”, meu pai rosna. “Assim pelo menos não teríamos mais que nos preocupar com ele.”

Ainda que esteja chateada pelo meu time, tenho que engolir a vontade de rir — porque não acho que meu pai apoiaria fazerem sexo com a namorada de Connelly se soubesse que sou eu.

Não que eu seja a namorada dele, mas é comigo que ele está envolvido agora e… Não, não posso pensar nisso. Estamos em meio a uma crise.

“Meu Deus, Rhodes. No que estava pensando?” Meu pai está claramente furioso com o capitão do time.

Eu mesma não estou muito satisfeita com ele. O que aconteceu com aquele papo de não cair na provocação? Nate foi tão inflexível ao ignorar o incidente do chantili, quando impediu Wilkes de retaliar. Agora ele se descontrola no meio do jogo? Agride Hemley por causa de Hunter? Não parece algo que Nate faria.

O tom do capitão me diz que ele está tão furioso e decepcionado consigo mesmo quanto meu pai está. “Perdi o controle”, Nate diz, envergonhado. “Mas o babaca quebrou o pulso de Hunter. Então, teve a coragem de dizer que ele merecia. Foi a coisa mais absurda que já ouvi, e eu… perdi o controle”, Nate repete. “Sinto muito, treinador.”

“Eu entendo. Mas um pedido de desculpas não vai te colocar de volta no jogo.”

Ou seja, estamos ferrados.

Me afasto e saio do vestiário. “A coisa não parece boa lá dentro”, o segurança comenta, simpático.

“Não está mesmo.”

Corro para nossos assentos, onde atualizo Summer e o resto do pessoal. “Parece que Hunter e Nate estão fora do jogo.”

Summer se sobressalta.

Rupi também. Como sempre, ela está vestida como uma modelo do catálogo da J. Crew. Ou uma boneca superluxuosa. Imagino quantos vestidos de gola bem de menininha ela tem. Milhares, provavelmente.

“É um desastre!”, Summer murmura.

“É”, digo, morosamente, e não estamos erradas.

O segundo período começa, e dá para ver a diferença no nível de jogo da Briar quase imediatamente. É como ver um velocista olímpico que detonou nos primeiros cem metros de repente deparando com obstáculos na pista. Sem Nate, o capitão, e Hunter, o melhor atacante, fica muito difícil. Fitz e Hollis não conseguem carregar o time sozinhos. Os jogadores mais jovens ainda não estão prontos, e os melhores, Matt Anderson e Jesse Wilkes, são fisicamente incapazes de acompanhar Connelly.

Meus olhos seguem Jake quando ele marca logo no começo do segundo período. É uma bela tacada, uma obra de arte. Agora Harvard lidera por dois a um. Dois minutos antes do fim do período, Weston faz com que Fitz tome uma suspensão, coisa que raramente acontece, e Harvard fica com um jogador a mais no gelo.

Summer deixa o rosto cair nas mãos com as unhas pintadas. “Ah, meu Deus, isso é péssimo.” Ela levanta o rosto, à procura do namorado. “A cabeça dele parece prestes a explodir.”

Fitz parece mesmo estar soltando fumacinha do banco de reservas. Seu rosto está vermelho, seus dentes estão cerrados e seus músculos chegam a tremular.

Harvard tira vantagem da suspensão que o babaca do Weston provocou. Termos jogado Scrabble juntos e ele ter me ajudado com Eric não altera o fato de que é o inimigo neste momento. Agora, eu o odeio. Talvez daqui a alguns dias possamos jogar Scrabble de novo, mas por enquanto quero apagá-lo da face da Terra.

Infelizmente, Weston acaba marcando um gol no período em que ficamos com um a menos no gelo. Então, Fitz volta e podemos voltar a respirar.

Weston tenta fazer o mesmo com Hollis em seu próximo turno, mas o cachorrinho não vai na dele, ainda bem. Os árbitros marcam o golpe sujo de Weston e é ele quem toma uma suspensão de dois minutos. Logo estamos todos de pé gritando até não poder mais porque Briar marcou.

Três a dois.

O segundo período termina. “Vocês conseguem”, sussurro para os garotos que desaparecem no túnel que leva aos vestiários. Fico torcendo para que meu pai faça um discurso digno do filme Desafio no gelo e para que eles voltem, empatem logo no começo do terceiro período e marquem mais um para ganhar essa porcaria.

“Ainda temos chance, não?” Os olhos de Summer brilham de esperança.

“Claro que temos. Está tudo sob controle”, digo, firme.

Ficamos de pé quando o terceiro período começa. Ninguém marca por quase seis minutos, então, no meio de uma disputa de disco na defesa de Harvard, Jesse Wilkes acerta uma tacada que passa pelo meio das pernas de Johansson. Foi sorte total, mas não importa. A torcida de Briar fica louca quando o placar muda para três a três.

Nem dá para acreditar que os garotos estejam mantendo a velocidade com que começaram o jogo. Devem estar exaustos depois de dois períodos tão duros. Mas ambos os times continuam jogando como se toda a temporada estivesse em jogo. Porque é exatamente isso.

Fico deslumbrada observando Jake fazer o que ele faz de melhor. É impossivelmente rápido e não posso evitar imaginá-lo em Edmonton ano que vem. Vai ter uma ótima temporada se jogar metade do que vem jogando esta noite.

“Ele é bom”, Summer comenta a contragosto quando Jake dribla três jogadores nossos rumo à rede.

Ele dá um tiro. Por sorte, não é bem-sucedido, e tenho vergonha de dizer que fico ligeiramente decepcionada quando o goleiro frustra sua tentativa.

Ah, droga. Para quem estou torcendo? Quero que Briar vença, de verdade. E odeio o que aquele jogador de Harvard fez com Hunter e Nate.

Mas também quero que Jake seja bem-sucedido. Ele é incrível.

O jogo continua empatado, e o tempo está terminando. A possibilidade de prorrogação me preocupa. Não sei se o time tem fôlego sobrando para se segurar. Principalmente Corsen. Ele é bom no gol, mas não é o melhor.

Por outro lado, eu certamente colocaria Johansson entre os três melhores goleiros da liga universitária. Ele segura tudo, como um profissional. Não foi selecionado no draft, apesar de já ser elegível, mas espero que tente assinar com algum time depois que se formar. É bom demais para não conseguir.

“Vamos lá, pessoal!”, Summer grita. “Vamos marcar!” Os gritos de encorajamento dela são abafados pelos de todo mundo à nossa volta.

Meus ouvidos vão ficar zunindo depois desse jogo, mas vale a pena. Não tem nada melhor que ver uma partida de hóquei na arena. O entusiasmo no ar é contagioso. Viciante. Gostaria de poder ganhar a vida com isso, não como jogadora, mas como uma profissional que participa desses eventos. Quero torcer pelos atletas, conversar com eles quando ainda estão sob efeito do que quer que seja que vem à tona quando estão no gelo. Adrenalina, talento, orgulho. Quero ser parte disso, da forma que for.

Faltam três minutos, e o placar continua três a três.

A linha de Jake voltou ao jogo. Brooks recorre a seus truques de sempre, só que ninguém mais cai neles. Acho que isso o deixa puto, a julgar pelos ombros endurecidos. Ótimo. O cara merece. Não vai ser o jogo sujo que vai ganhar essa partida para Harvard. Vai ter que ser a habilidade. Infelizmente, eles têm um monte de jogadores habilidosos.

Faltam exatamente dois minutos e quarenta e seis segundos quando Jake consegue uma brecha. Fico com o coração na mão, e ele se despedaça assim que Jake domina o disco, mas se recupera enquanto se aproxima da nossa rede. Ele afasta o braço para dar uma tacada e é outra obra de arte. Um tiro incrível. Quando os alto-falantes anunciam “GOOOOOOL!”, meu coração fica entre uma pirueta e a queda livre. Fico surpresa por não vomitar em meio à sensação nauseante.

Harvard está em vantagem agora, e só temos dois minutos e meio para empatar de novo. Os fãs de Briar gritam da arquibancada. O relógio não para.

Dois minutos.

Um minuto e meio.

Briar vai para o ataque. Fitz arrisca uma tacada, e um grito coletivo balança as arquibancadas quando Johansson defende. Ele segura o disco e um apito soa.

Levo as mãos à boca para gritar “Vamos lá, pessoal!” enquanto os jogadores se alinham para a disputa de disco. Eles têm um minuto e quinze segundos para fazer alguma coisa.

Mas Pedersen não é tonto. Ele coloca seus melhores jogadores no gelo nesse último minuto, para dar tudo de si. É o time dos sonhos: Will Bray e Dmitry Petrov na defesa; Connelly, Weston e Chilton no ataque. E eles são confiáveis. O disco fica em sua posse o tempo todo. Harvard se mantém no ataque e nosso goleiro parece um ninja, defendendo uma tacada depois da outra. Embora ajude, não é isso que precisaríamos estar fazendo agora. Não deveríamos estar segurando um tiroteio, e sim produzindo um no gol adversário.

Faltam dez segundos. A decepção se acumula dentro de mim. Espio o banco da Briar, em busca do meu pai. Sua expressão não revela nada, mas seu maxilar está tenso. Ele sabe o que está prestes a acontecer.

O sinal soa.

É o fim do terceiro período.

Briar perdeu.

E Harvard ganhou.

“Não consigo acreditar.” Summer prende uma mecha de cabelo dourado atrás da orelha. Estamos ambas a um canto do saguão. “Me sinto tão mal por Fitzy.”

“Eu também. E pelo resto do time.”

“Ah, sim, claro. Pelos outros também.” Ela descansa a cabeça no meu ombro. Seus olhos tristes estão fixos na boca do corredor. Estamos esperando os jogadores saírem, e não somos as únicas. Fãs se acumulam no espaço cavernoso, prontos para oferecer seu apoio aos vencedores ou perdedores. Pelo menos os jogadores da Briar vão se dar bem com as garotas sem precisar se esforçar muito esta noite.

Como estamos fora de casa, meu pai e os jogadores vão voltar ao campus no ônibus do time. Alguns jogadores de Harvard aparecem primeiro, e as namoradas e interessadas vão até eles como um enxame de abelhas. Jake e Brooks aparecem, os dois indiscutivelmente bonitos de terno escuro. Adoro jogadores que respeitam o código de vestimenta do pós-jogo. O paletó dos dois cobre ombros impossivelmente largos, e meu coração dá uma pequena cambalhota quando noto que o cabelo de Jake está úmido do banho. De modo que agora tenho em mente a imagem dele pelado no chuveiro. Que é deliciosa.

O rosto de Weston se ilumina quando ele vê Summer. “Di Laurentis!” Ele se aproxima e abre os braços para cumprimentá-la.

Summer faz cara feia. “Nem vem. Nada de abraço hoje.”

“Ah, por favor, não seja má perdedora.” Ele abre ainda mais os braços.

Depois de um momento, ela lhe dá um abraço rápido.

Jake pisca para mim por cima do ombro de Weston e da cabeça de Summer.

Meus lábios se curvam ligeiramente. “Bom jogo, Connelly.”

Sei que ele se esforça para reprimir um sorriso. “Valeu, Jensen.”

Então, Summer solta Weston. “Parece que suas provocações não funcionaram tão bem no segundo e no terceiro período”, ela diz.

“É, e os árbitros ficaram mais severos depois daquele lance com o Jonah.”

“Daquele lance com o Jonah?”, Summer repete, cutucando o centro do peito de Brooks. “Foi mais do que isso. O cara quebrou o pulso do Hunter!”

“Foi um acidente”, Brooks contesta.

Enquanto discutem, um rosto familiar atrai minha atenção. É a garota daquele dia no café, amiga de Jake. Era Hazel o nome? Ela se aproxima em meio à multidão, à procura de alguém, até que nossos olhares se cruzam. Então, a garota nota Jake a dois passos de mim e franze a testa.

Fico tensa, antecipando sua aproximação. Por algum motivo, no entanto, ela para no lugar. Interessante. Não disse que era a melhor amiga de Jake? Sua confidente?

Levanto uma sobrancelha para ela, que franze ainda mais a testa.

Quebro o contato visual, e de canto de olho localizo outra figura familiar. Viro e vejo meu pai emergindo do corredor. Infelizmente, sua saída é perfeitamente sincronizada com a de Daryl Pedersen.

Opa.

Os dois treinadores trocam algumas palavras quando deparam um com o outro. A expressão do meu pai é impassível, como sempre. Ele assente quando Pedersen diz algo. Posso imaginar a conversa: o bom jogo/obrigado de sempre, a falsa camaradagem. Conforme se aproximam, posso ouvir claramente Pedersen dizer: “Foi um belo truque”.

Não sei bem do que está falando, e acho que meu pai também estranha, porque, em vez de se afastar, ele para. “O que quer dizer com isso?”

“Você sabe muito bem. Foi uma boa tentativa.” Pedersen ri. Quando me vê perto de Jake, ele levanta as sobrancelhas, e um sorrisinho se forma em seus lábios.

Sinto meu estômago se revirar.

Como meu pai não é muito racional quando se trata do treinador de Harvard, ele finca o pé e assume uma postura agressiva. “Que truque?”, ele insiste, frio.

“Só quis dizer que seu plano para distrair meu principal jogador não funcionou.”

De canto de olho, vejo Jake franzir a testa.

“Mas eu não esperava isso de você.” Pedersen dá de ombros. “Nem parece o Chad que eu conheço.”

Jake se aproxima de mim, e é quase um gesto protetor. Meu pai não nota, no entanto. Está ocupado demais encarando Pedersen. A interação entre os dois atraiu um pequeno público, composto principalmente de jogadores da Briar.

“Ainda não sei do que está falando”, meu pai diz, irritado.

“Imagino que não.” Pedersen volta a rir. “Mas é bom saber que não tem problemas em usar sua própria filha.”

Ah, não.

De repente, tudo é silêncio. Minha pulsação acelera, e tenho certeza de que minha pressão cai, porque fico um pouco tonta.

Meu pai me olha por um segundo, antes de lançar um olhar glacial para seu inimigo. “Como sempre, Daryl, você está falando merda.”

O outro sobe e desce as sobrancelhas. “Para ser honesto, foi ótimo ter minhas suspeitas comprovadas. Sempre achei que você não era o mártir honrado e obediente às regras que alardeia. Um pilar da honestidade e da integridade.” Pedersen revira os olhos. “Sempre achei que era enganação. E, embora eu fique feliz em descobrir a que nível você pode descer, pelo amor de Deus, Chad. Usar sua filha como uma armadilha para Connelly? Entendo que me odeie, mas por favor, isso é muito baixo para você.”

Pedersen vai embora, deixando meu pai e o resto do público absorvendo o impacto de sua acusação. Todos ficam em silêncio por alguns segundos.

Summer é a primeira a falar a respeito. “Bee?”, ela diz, incerta. “É verdade?”

De repente, todos os olhos estão em mim e Jake.