The Risk

Elle Kennedy · Capítulo 4 de 43

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The Risk

4. Brenna

4

 

BRENNA

 

Na maior parte das situações, consigo manter o controle. Nunca sofri de ansiedade e nada me assusta de verdade, nem mesmo meu pai, que é conhecido por fazer homens adultos chorarem só com um olhar. E não é exagero, já vi acontecer.

Mas esta manhã minhas mãos estão suando e meu estômago não para de se revirar, tudo graças a um executivo da HockeyNet totalmente desconcertante, Ed Mulder. Ele é alto, careca e assustador, e a primeira coisa que faz depois de apertar minha mão é perguntar por que uma garota bonita como eu está se candidatando para um trabalho atrás das câmeras.

Tento não fazer careta diante do comentário machista. Tristan, que é assistente de um professor da Briar, foi estagiário aqui e me avisou que Mulder é um babaca completo. Ele também disse que os estagiários não respondem diretamente para o cara, o que significa que não vou precisar lidar com ele se passar pela entrevista. É só um obstáculo que preciso ultrapassar para chegar até o estágio.

“Bom, como minha carta de apresentação diz, no futuro gostaria de ser comentarista ou repórter, mas espero adquirir experiência nos bastidores também. Vou me formar em rádio e TV na Briar, como você já sabe. No ano que vem tenho estágio curri…”

“É um trabalho não remunerado”, ele interrompe. “Tem consciência disso?”

Sou pega de guarda baixa. Minhas mãos estão escorregadias quando as esfrego, então as apoio nos joelhos. “Ah. Hum. Sim, eu sei.”

“Ótimo. Os candidatos homens costumam já saber dos detalhes quando chegam, mas as mulheres às vezes esperam um salário.”

Está decidido, ele é totalmente machista. E o comentário nem faz sentido. O anúncio no site especificava claramente de que se tratava de um estágio não remunerado. Por que os homens esperariam uma coisa e as mulheres outra? Ele está sugerindo que as mulheres nem leem o anúncio direito? Ou que não sabem ler de modo geral?

Gotas de suor escorrem pela minha nuca. Não estou no meu melhor agora.

“Então. Brenda. Me fale sobre você.”

Engulo em seco. O cara me chamou de Brenda. Devo corrigir?

É claro que deve. Foda-se esse cara. Ele não vale nada. A Brenda confiante — ou melhor, a Brenna — eleva sua cabeça espetacular.

“Na verdade, é Brenna”, digo, com delicadeza. “Acho que tenho tudo a ver com este lugar. Para começar, amo hóquei. É…”

“Seu pai é Chad Jensen.” Seu queixo sobe e desce, e eu percebo que está mascando chiclete. Quanta classe.

Respondo num tom cuidadoso. “Isso.”

“Técnico campeão. Ganhou vários títulos universitários.”

Assinto. “Ele é muito bom no que faz.”

Mulder assente de volta. “Deve ter orgulho dele. Qual você diria que é sua principal qualidade, além de ter um pai quase famoso?”

Me forço a ignorar o tom malicioso de sua pergunta e digo: “Sou esperta. Não tenho dificuldade de tomar decisões em situações difíceis. Lido bem com a pressão. E, mais que tudo, amo o esporte de verdade. Hóquei é…”.

Eeeee, ele não está mais me ouvindo.

Seus olhos foram para o computador. Mulder mastiga o chiclete como um cavalo comendo aveia. A janela atrás da mesa dele reflete a tela de maneira difusa, me permitindo um vislumbre… ele está em um fantasy game de hóquei? E acho que é o da ESPN.

Ele me olha de repente. “Pra quem você torce?”

Franzo a testa. “Universitário ou…”

“Profissional”, ele me interrompe, impaciente. “Pra quem você torce, Brenda?”

“Brenna”, digo, por entre os dentes cerrados. “E torço para os Bruins, claro. E você?”

Mulder desdenha da minha resposta. “Oilers. Sou canadense dos pés à cabeça.”

Finjo interesse. “Ah, que legal. De Edmonton?”

“Isso.” Os olhos dele voltam para a tela. Em um tom de voz distraído, ele diz: “Qual você diria que é sua maior fraqueza, além de ter um pai quase famoso?”.

Engulo uma resposta atravessada. “Posso ser impaciente às vezes”, confesso, porque de jeito nenhum vou fazer aquela babaquice de dizer que minha maior fraqueza é me preocupar ou trabalhar demais. Afe…

A atenção de Mulder volta para o joguinho dele. O silêncio recai sobre o escritório espaçoso. Me remexo irritada na cadeira e olho a vitrine onde estão expostos todos os prêmios que o canal ganhou ao longo dos anos, além da parafernália de inúmeros jogadores de hóquei. Tem muita coisa dos Oilers, noto.

Na parede oposta, duas telas grandes mostram programas diferentes: os destaques do fim de semana da liga profissional e um ranking com as dez melhores temporadas de novatos de todos os tempos. Queria que as TVs não estivessem no mudo. Pelo menos poderia ouvir algo interessante enquanto sou ignorada.

A frustração sobe pela minha coluna como uma trepadeira e se enrosca na minha garganta. Ele não está prestando um pingo de atenção em mim. Ou é o pior entrevistador do planeta, ou um cretino mal-educado ou nem está me considerando de verdade para a vaga.

Mas também pode ser D) todas as anteriores.

Tristan estava errado. Ed Mulder não é um babaca — é um cretino da pior espécie. Infelizmente, estágios bons e interessantes em grandes canais como a HockeyNet não aparecem todo dia. Não há muita oferta no mercado. E não sou tão inocente a ponto de achar que Mulder seja um caso especial. Muitos professores e professoras me alertaram para o fato de que o jornalismo esportivo não recebe bem as mulheres.

Vou encontrar caras como Mulder por toda a carreira. Perder o controle ou simplesmente ir embora não vai me ajudar a atingir meus objetivos. E, se bobear, vai “provar” o pensamento misógino dele de que as mulheres são emotivas demais, fracas demais, não contam com as ferramentas necessárias para sobreviver no mundo dos esportes.

“Então.” Pigarreio. “Qual vai ser exatamente meu trabalho caso consiga o estágio?” Já sei a resposta — praticamente memorizei o anúncio, sem mencionar o interrogatório digno da CIA que fiz com Tristan. Mas é melhor fazer algumas perguntas, já que Mulder não está interessado em se ocupar disso.

Ele levanta a cabeça. “Temos três vagas no departamento de produção. Sou o chefe.”

Me pergunto se Mulder sabe que não respondeu a pergunta. Solto o ar com calma. “E quanto ao trabalho?”

“É bem intenso”, ele responde. “O estagiário tem que fazer compactos, separar os melhores momentos, ajudar a produzir teasers e takes suplementares. Ele participa de reuniões de produção, dá ideias de matérias…” Mulder deixa a frase morrer no ar enquanto clica algumas vezes no mouse.

É o trabalho perfeito para mim. Quero isso. Preciso disso. Mordo a bochecha por dentro, me perguntando como posso reverter essa entrevista horrorosa a meu favor.

Não consigo. Há uma batida forte na porta, e ela se abre antes que Mulder possa dizer alguma coisa. Um homem animado com barba malcuidada entra voando no escritório.

“Roman McElroy acabou de ser preso por violência doméstica!”

Mulder se levanta da cadeira de couro. “Está brincando comigo?”

“Tem um vídeo rolando na internet. Não da mulher apanhando, mas da prisão.”

“Algum outro canal já deu?”

“Não.” O cara de barba pula como uma criança em uma loja de brinquedos, embora não possa ter menos do que cinquenta e cinco anos.

“Quem pode dar a notícia?”, Mulder pergunta, já a caminho da porta.

“Georgia acabou de chegar…”

“Não”, o chefe interrompe. “Não a Barnes. Ela vai tentar dar um jeito de incluir alguma besteira feminista nessa história. Quem mais?”

Mordo o lábio para não dar uma resposta atravessada. Georgia Barnes é uma das duas comentaristas da HockeyNet, e é ótima. Seus comentários são sempre certeiros.

“Kip Haskins e Trevor Trent. Mas estão ao vivo agora.”

“Dane-se. Faça o Gary escrever qualquer coisa, então Kip e Trevor podem conversar a respeito e destrinchar o vídeo da prisão quadro a quadro. Quero o programa inteiro sobre essa coisa do McElroy.” Mulder para à porta, quando se lembra da minha existência. “Terminamos isso na segunda.”

Meu queixo cai. “Desculpa, mas… como?”

“Volte na segunda”, ele rosna. “Estamos lidando com uma matéria exclusiva importantíssima aqui. A notícia não espera por ninguém, Brenda.”

“Mas…”

“Segunda, às nove.” E ele vai embora.

Fico olhando incrédula para a porta sem ninguém. O que acabou de acontecer? Primeiro, ele abriu a entrevista com um monte de comentários machistas, então não ouviu nem uma palavra do que eu disse, e agora me abandona no meio da entrevista? Entendo que um jogador de hóquei profissional ser preso por violência domiciliar é uma notícia importante, mas… não posso voltar na segunda. Tenho aula. Tristan me avisou sobre Mulder, mas o cara pareceu ainda pior do que eu esperava.

Pego minha bolsa, raivosa, e levanto. Foda-se. Não vou voltar na segunda. Não vou deixar esse cretino…

É seu estágio dos sonhos, lembro a mim mesma, então repito a frase de novo e de novo na minha cabeça. A ESPN e a HockeyNet são os dois maiores canais do país em termos de cobertura de hóquei. E a ESPN não está contratando.

Portanto…

Acho que vou ter que faltar à aula segunda.

Rochelle, a recepcionista loira e bonita de Mulder, levanta os olhos de sua mesa quando chego. Ela remarca a entrevista oficialmente e saio do prédio da HockeyNet com uma sensação horrível na boca do estômago.

Pela primeira vez em muito tempo não está chovendo, então chamo um Uber e fico esperando na rua. Ligo para minha prima enquanto isso. “Oi”, digo quando Tansy atende. “Saí da entrevista.”

“Já?”

“Pois é.”

“Como foi?”

“Um desastre completo. Depois te conto direito. Acabei de pedir um Uber. Posso ir direto pro seu dormitório?” O plano era que eu ficasse lá sozinha enquanto Tansy estivesse em aula.

“Claro. Deixei minha chave com a responsável pelo andar. Ela fica no 404. Bate lá pra pegar a chave e depois vai pro meu quarto. É o 408.”

“Beleza.” Volto a olhar para o prédio alto do qual acabei de sair, com janelas brilhantes, lobby de vidro e o enorme logo da HockeyNet, em vermelho e branco. Solto um suspiro. “Espero que esteja pronta para encher a cara esta noite, porque preciso beber para esquecer essa entrevista.”

“Te odeio muito. Como consegue estar sempre linda sem nem tentar?”, Tansy me diz mais tarde.

Estamos no apartamento dela no Walsh Hall, um dos prédios residenciais do Boston College. Tansy mora com outras três garotas, dividindo o quarto com Aisha, que foi visitar os pais em Nova York esse fim de semana. Aisha é das minhas, porque transformou sua escrivaninha em uma penteadeira. Eu faria a mesma coisa em casa se tivesse uma. Sempre preferi fazer a lição de casa esticada na cama ou no sofá.

Sorrio para o reflexo de Tansy no enorme espelho de Aisha, então continuo passando rímel nos cílios superiores. “Estou me maquiando”, digo. “Isso é tentar.”

Ela grunhe. “Chama isso de maquiar? Você só passa um pouco de corretivo e rímel. Não conta.”

“E batom”, eu a lembro.

“E batom”, ela consente, então revira os olhos para mim. “Sabe que existem outras cores além de vermelho nesse mundo vasto e maravilhoso, né?”

“Vermelho é a minha cor.” Aperto os lábios para ela, então mando um beijinho no ar. “Uma amiga da Briar diz que é minha marca registrada.”

“Verdade. Nem consigo lembrar a última vez que te vi sem. Talvez na manhã de Natal.” Ela faz uma pausa. “Não, espera, estávamos as duas de batom vermelho, pra combinar com o chapéu de Papai Noel. Mas eu fiquei péssima. Lembro bem. Não posso usar batom vermelho.”

“Temos o mesmo tom de pele, Tans. É claro que pode.”

“Não, quero dizer em termos morais. É preciso ter certo grau de ousadia pra sustentar o vermelho.”

Ela não está errada. É um visual que requer confiança. Ironicamente, também é o visual que me dá confiança. Sei que parece absurdo, mas me sinto invencível toda vez que passo batom vermelho.

“Posso te emprestar um pouco da minha ousadia, se quiser”, ofereço.

Tansy franze o nariz ao rir. O piercing prateado em sua narina esquerda reflete a luz e parece brilhar. “Ah, valeu, Bee. Sabia que havia um motivo para você ser minha prima preferida.”

“Bom, as outras não são exatamente candidatas à altura. Leigh e Robbie são religiosas demais. E não vou nem começar a falar de Alex.”

Ambas sorrimos. Alex é filha de tio Bill e incrivelmente irritante.

Ouço o toque de mensagem recebida no meu celular. “Pode ver pra mim?” Meu celular está sobre a mesa de Tansy, mais perto dela.

Ela se estica da cama. “Alguém chamado BG diz que sente sua falta. Ele usou uma centena de ‘As’ e cinco, não, seis, coraçõezinhos. E é o coraçãozinho vermelho, o que significa que está falando sério. Então. Quem é BG e por que não me contou dele?”

Morro de rir. “BG é abreviação de Barbie de Greenwich. É como chamo minha amiga Summer. É uma garota rica de Connecticut.”

“Mentira. Nunca ouvi você falando de uma Summer”, Tansy acusa.

“Ela se transferiu para a Briar no começo de janeiro.” Enfio o pincel no tubo de rímel e fecho a tampa. “A garota é doida, no bom sentido. É muito engraçada e está sempre animada. Mal posso esperar pra vocês se conhecerem.”

“Você marcou alguma coisa com ela nesse fim de semana?”

“Infelizmente, não. Ela vai ser uma boa namorada e apoiar o time de hóquei da Briar na semi contra Yale amanhã à noite. O namorado dela é do time.”

“E por que ela está com tanta saudade?”

“A gente não sai desde o fim de semana passado. Sei que uma semana não parece muito tempo, mas para Summer é uma década. Ela é meio melodramática.”

Meu celular toca de novo.

“Está vendo só?” Dou risada, então enfio o rímel e o batom na nécessaire que trouxe comigo. “Me passa o celular? Se eu não responder é capaz de Summer ter um ataque de pânico.”

Tansy dá uma olhada na tela. Seus ombros se enrijecem ligeiramente. “Não é ela”, minha prima informa.

Franzo as sobrancelhas. “E quem é?”

Há uma longa pausa. O clima muda. De repente, há uma nuvem de tensão entre nós.

Tansy me avalia com cuidado. “Por que não me disse que continua em contato com Eric?”