The Risk
14. Brenna
14
BRENNA
“Ah, Bee, você ia morrer!” É sexta à noite e estou no celular com Summer, que está me pondo a par da maluquice que acabou de acontecer, graças a Rupi Miller.
“Rupi apareceu mesmo na sua casa e obrigou Hollis a sair com ela?” A garota é corajosa. Adorei.
“Exato! Ela estava com um vestidinho preto lindo, com gola de renda branca, e sapatos fofos. Hollis estava sentado no sofá de calça de moletom, jogando videogame com Fitz. Rupi deu uma olhada nele e gritou: ‘Lá pra cima! Agora!’. Você precisava ver a cara dele.”
Estou na rua, então não posso rir tanto quanto quero. Mas rio por dentro, porque posso imaginar a cara de Hollis. “Aposto que ele pensou que ia se dar bem.”
“Não sei o que ele pensou. Ela mandou mensagens pra ele a semana toda falando do ‘grande encontro’, mas Hollis achou que era brincadeira. Não acreditou de verdade que ela ia aparecer até que a garota estava na nossa porta.” Summer começa a rir histericamente. “Ela foi com Hollis lá pra cima e escolheu a roupa dele…”
Uma risada escapa. Não posso evitar, nem ligo se todo mundo na estação ouvir. Isso é impagável.
“Faz uma hora que eles saíram. Não sei se entro com uma queixa de desaparecimento ou se espero para ver o que acontece.”
“É melhor esperar”, digo imediatamente. “Não se coloque entre Rupi e o amor da vida dela, te imploro. Hollis precisa saber como é ser assediado.”
“Acho que os dois podem ter sido feitos um para o outro.”
“Tomara.”
Faróis chamam minha atenção. Faz dez minutos que estou do lado de fora da estação de trem, esperando que um Civic azul chegue, e parece que está finalmente aqui. Aperto os olhos conforme ele estaciona. “Desculpa, tenho que ir. Meu carro chegou.”
“Não consigo acreditar que você vai sair e não sei nada sobre o cara.”
“Não tem nada pra saber. É só alguém do Tinder. Provavelmente não vai dar em nada além de uma noite.” Sim, sou uma mentirosa. Me processe. E, sim, é claro que me sinto mal por mentir para minha amiga, mas de jeito nenhum vou contar a Summer a verdade sobre esta noite. Já é ruim o bastante que eu saiba o que estou fazendo.
Me despeço rapidamente dela e desligo bem quando a porta do passageiro do Civic se abre. Hum… Jake está sentado na frente, com o motorista. Dou uma olhada e vejo que na verdade é uma jovem bonita com brincos turquesa e cabelão. Por que não me surpreende?
“Oi”, Jake diz quando sai do carro.
Por um segundo, perco a voz. Ele está com a jaqueta de Harvard, um pecado que perdoo com relutância de tão atraente que é o resto. O cabelo escuro está penteado para trás, enfatizando as maçãs do rosto proeminentes e um queixo que me faz babar. Na semana passada, Jake tinha uma leve barba por fazer, mas hoje está totalmente sem. Ele parece mais jovem, mais arrumado e… tá, ele está incrível.
Infelizmente, Jake Connelly é um homem muito atraente.
Vou até ele. “Oi.” Então entro pela porta traseira que ele mantém aberta para mim, cumprimento a motorista e me acomodo.
Jake entra ao meu lado, colocamos o cinto e partimos. De acordo com o e-mail que a secretária de Ed Mulder me mandou, ele mora em Beacon Hill. Deve receber um belo salário da HockeyNet.
“Você está estranha”, Jake murmura.
“Como assim?” Não é o tipo de coisa que se deve dizer à namorada de mentira. Meus nervos já estão à flor da pele.
“Está usando batom rosa.”
“E?”
“E eu não gosto”, ele diz.
“Ah, não? Meu Deus do céu! Vamos correr pra casa pra escolher um tom que te agrade mais!”
A motorista dá risada.
Os olhos verde-escuros de Jake brilham de divertimento. “Tá, ignora minha opinião. Mas curto a boca vermelha. Rosa não funciona comigo.”
Tampouco funciona comigo, mas não vou dar a ele a satisfação de admitir isso. Passei uma cor mais discreta de propósito esta noite. Uma parte triste e errada de mim espera impressionar Ed Mulder.
Conforme seguimos para Beacon Hill, vejo as notícias esportivas pelo celular. Franzo a testa para uma manchete. “Está acompanhando a história do Kowski?”, pergunto a Jake. “Sério, os juízes estão todos contra ele.”
“Acha mesmo?”
“É o jogador que mais apanha na liga. E a quantidade de faltas não marcadas nele é astronômica. Tem alguma coisa rolando.” Passo os olhos pelo restante do texto, mas o jornalista não contribui com nada de novo. Basicamente, os árbitros continuam não marcando faltas e Sean Kowski continua pagando por isso.
A motorista vira na Cambridge Street e para em frente a uma série de casinhas altas de arenito castanho-avermelhado. Cara, o que eu não daria para morar num lugar assim. São construções antigas e charmosas, muitas delas mantendo suas características originais. Cheio de árvores grandiosas e postes de iluminação a gás, Beacon Hill é um dos bairros mais bonitos da cidade.
“Chegamos”, a motorista diz.
Jake se inclina para ela e toca seu ombro. “Valeu, Annie. Aproveite o resto da noite.”
“Você também, Jake.”
Tento não revirar os olhos enquanto saio do carro. Pelo visto viraram melhores amigos. Por algum motivo, o modo como Jake se dá bem com todo mundo me irrita. É difícil pensar no cara como O INIMIGO diante de evidências de que pode ser alguém legal.
“Você está meio pálida”, Jake comenta enquanto subimos os degraus da frente. “Achei que não tivesse medo de nada.”
“E não tenho”, murmuro, mas ele está certo. Estou mais que nervosa. Culpo os dois encontros terríveis que tive com Mulder. “Não sei. Acho que me sinto mal por ter que impressionar esse babaca.”
“Ninguém está obrigando você”, ele aponta.
“Quero o estágio. Não tenho opção.”
Toco a campainha, e dois segundos depois a porta se abre revelando uma mulher de calça preta, camisa preta e avental branco. Duvido que seja esposa de Mulder, porque vejo outra mulher com roupa idêntica se apressando para uma porta que imagino que dê para a cozinha.
“Entrem, por favor”, ela diz. “Vocês são os últimos convidados a chegar. O sr. e a sra. Mulder estão com os outros na sala de estar.”
Ah, não, eles são esse tipo de casal? Imagino que vamos todos nos reunir na sala de estar antes de nos instalar na sala de jantar, depois os homens vão para o escritório enquanto as mulheres lavam a louça. É a cara do Mulder, na verdade.
“Posso pegar os casacos?”, a mulher oferece.
Jake tira a jaqueta e a entrega. “Obrigado.”
Desabotoo meu casaco de lã e o tiro também. Ouço alguém inspirar fundo, então vejo que Jake está me admirando. “Você fica bem arrumada, Jensen”, ele murmura.
“Obrigada.” Eu não podia usar minhas roupas pretas de sempre, então escolhi um suéter cinza justo, legging preta e botas de camurça marrons de cano baixo. Fiz uma maquiagem leve, e me sinto nua sem o batom, minha armadura. Mas queria parecer refinada esta noite.
Não sei o que esperar conforme nos aproximamos da sala de estar. Vão ser todos mais velhos? Ou jovens? Estarão em quantos?
Para meu alívio, não é muita gente. Vejo Mulder e uma mulher de pele clara ao seu lado que assumo que seja sua esposa, um casal na faixa dos quarenta e um na faixa dos vinte. O homem mais novo parece familiar, mas é só quando Jake sussurra no meu ouvido que me dou conta de quem se trata.
“Puta merda, é o Theo Nilsson.”
Nilsson é defensor dos Oilers. Sua humildade e sua aparência nórdica o tornaram muito popular com os fãs e mesmo com os rivais. Infelizmente, ele está fora da temporada, por causa de uma lesão na perna.
“Ouvi dizer que ele é de Boston, mas não sabia que estava por aqui”, Jake murmura. “Que incrível!”
Quando Mulder nota a gente se aproximando, seu rosto se ilumina. “Jake Connelly!”
Engulo a raiva. E eu, sou transparente por acaso?
“Que bom que pôde vir!”, Mulder exclama. “Venha, venha. Vou te apresentar a todo mundo.” Ele gesticula para que nos aproximemos.
As apresentações são rápidas. A mulher de pele clara, esposa de Ed, se chama Lindsay. As sobrancelhas dela são tão loiras que parecem brancas, e seu cabelo está preso em um coque baixo e rígido. Ela nos cumprimenta com um sorriso sem vida. Em seguida vem Nilsson, que é chamado de “Nils”, e a esposa, Lena, que tem um forte sotaque sueco, mas fala um inglês perfeito. O casal mais velho é formado por David, irmão de Mulder, e a esposa Karen.
“É uma honra conhecer você”, Jake diz a Nils, parecendo um pouco embasbacado. “Acompanhei seu desempenho a temporada toda. Foi péssimo te ver ficar de fora assim.”
“Foi muito difícil assistir àquele jogo”, digo, simpática. Lesões são parte do hóquei, mas não é muito comum que alguém quebre a perna no gelo. “Mas parece que você está melhor.”
Ele assente. “Tirei o gesso há algumas semanas. Comecei a fisioterapia, mas é dolorido demais.”
“Posso imaginar”, digo.
Nils olha para Jake. “Eu estava acompanhando quando você foi escolhido para a liga profissional na primeira rodada do draft. Estamos muito animados por poder contar com você no ano que vem.”
“E eu estou muito animado para me juntar ao time.”
Pelos próximos minutos, Jake e Nils discutem os Oilers. Os irmãos Mulder entram na conversa, e não demora muito para que os homens se afastem das mulheres e rumem para o bar, ao lado de um piano.
Sério?
Ficamos relegadas a dois sofás pequenos perto da imponente lareira. A frustração queima minha garganta ao vê-los conversando sobre hóquei, enquanto preciso ouvir Karen falando sobre o estúdio de ioga em Back Bay que acabou de descobrir.
“Ah, o Lottus!”, Lena Nilsson diz, efusiva. “É aonde eu vou agora que estamos de volta à cidade. Os professores são ótimos.”
“Quanto tempo vão ficar por aqui?”, pergunto a Lena.
“Até Theo se apresentar para a pré-temporada. Gostaria de poder ficar para sempre. Não me anima muito voltar a Edmonton.” Lena faz uma espécie de beicinho. “Faz muito frio lá.”
As outras continuam conversando, mas não tenho absolutamente nada para acrescentar ao papo. Fico encarando Jake, envolvido em uma conversa animada com Nils. Ele deve sentir meu olhar, porque de repente vira para mim. Vejo a compreensão chegar a seus olhos. Jake diz algo para Nils, então acena para mim. “Ei, vem contar sobre sua teoria de conspiração dos árbitros contra Kowski.”
“Com licença.” Eu me levanto agradecida e torço para que Lindsay e as outras não se ofendam com minha vontade óbvia de escapar delas.
Ed Mulder não parece muito animado com minha chegada, mas Nils me recebe com simpatia. “Conspiração, é? Pra ser sincero, está parecendo mesmo isso.”
“Não tem outra explicação”, digo. “Viu as imagens de ontem? O árbitro claramente viu e decidiu não dar falta. Sinceramente, toda vez que marca uma infração, é porque Kowski levaria vantagem. Ele é rápido, mas não tem como usar isso se está sempre sendo caçado, sem que nada aconteça com os adversários.”
“Concordo”, Nils diz, balançando a cabeça incrédulo. “É muito esquisito. O árbitro de ontem… era o McEwen? Acho que sim. Bom, foi na cara dele que o ala dos Kings barrou a passagem do Kowski com o taco.”
Mulder parece irritado. “Foi Kowski quem iniciou o contato.”
“Ele só estava protegendo o disco”, digo. “E a obstrução poderia ter terminado em uma lesão séria.”
“Mas não terminou”, Mulder diz, revirando os olhos. “Além disso, lesões são parte do jogo, não é, Nils?”
Escondo minha irritação.
Nils dá de ombros. “Na maior parte dos casos, sim. Mas concordo com Brenna em relação a Kowski. Há uma diferença entre contato normal e o tipo de contato que pode terminar em uma lesão cerebral.” Ele abre um sorriso seco para Jake. “Ainda quer jogar com a gente na próxima temporada, sabendo que um árbitro pode permitir que te matem?”
“Com certeza.” Jake nem hesita, embora em seguida venha uma rara demonstração de humildade da parte dele: “Só espero não decepcionar vocês”.
“Você vai arrasar”, digo, firme, porque acredito de verdade nisso. “Aposto que vai ser o jogador mais novo a receber o Art Ross.” É o prêmio pelo maior número de gols numa temporada. Lendas como Gretzky e Crosby já o receberam.
“É muita pressão”, Jake murmura. “Já vou ficar feliz se der uma ou outra assistência.” Então ele sorri, voltando à sua confiança de sempre. “Ou vencer o campeonato.”
Nils levanta o copo em um brinde. “Tomara!”
“Vocês com certeza merecem”, digo. “Os Oilers não vencem o campeonato desde quando? A era Gretzky, em 1989?”
Nils assente em confirmação. “Você entende de hóquei.”
“Fomos para a final em 2006”, Jake comenta, então faz uma pausa. “Mas perdemos.”
Então se seguiram onze anos sem nem ir para os playoffs, o que é uma vergonha quando se considera que mais da metade dos times da liga profissional se classificam. Não menciono essa estatística, no entanto. Nem sonharia, não diante de um fã dos Oilers, de um jogador superimportante para o time e de outro já contratado.
Falando no fã, sinto que Mulder está me olhando, então viro e vejo sua expressão embasbacada. A princípio, penso que ficou impressionado.
Mas deveria saber que não é o caso.
“Desculpa, é que é tão engraçado.” Ele gira as pedras de gelo no copo, rindo. “Ouvir estatísticas e comentários sobre hóquei saindo da boca de uma mulher. É bonitinho.”
Bonitinho?
A raiva nubla minha visão. Esse tipo de cara é o motivo pelo qual as mulheres ainda enfrentam inúmeros obstáculos para trabalhar com jornalismo esportivo. É um mercado machista, e ainda não há muitas mulheres estabelecidas nele. E não é por falta de talento — é por causa de homens assim, que acham que não pertencemos ao mundo do esporte.
“O conhecimento de estatísticas é só uma das muitas qualidades de Brenna”, Jake diz, seco.
Ed Mulder tira uma conclusão totalmente errada do que ele disse. Sei que Jake não está sendo desrespeitoso, considerando que fez questão de me incluir na conversa sobre hóquei. Mas o cérebro de Mulder opera em outro nível.
“Aposto que sim”, ele diz, então olha para os meus peitos por alguns segundos — o que me dá vontade de socá-lo — antes de piscar e dar um tapinha no ombro de Jake.
Noto que Jake fica rígido.
Cerro os dentes e fecho as mãos em punho. Esse cara é um porco. Só quero socar a cara dele e dizer que pode enfiar o estágio no rabo.
Jake vê meu rosto e balança a cabeça levemente em negativa. Eu me forço a relaxar. Ele está certo. Não vou me ajudar em nada fazendo uma cena.
A esposa de Mulder fala com a empregada à porta, então se dirige a nós. “O jantar está servido!”