The Risk

Elle Kennedy · Capítulo 16 de 43

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The Risk

16. Brenna

16

 

 

BRENNA

 

Nada de bom pode vir de beijar Jake. Mas estou muito fraca para me defender. Ed Mulder ficou desgastando minha armadura a noite toda, provando mais uma vez que nossas interações são uma completa perda de tempo. Graças a ele, estou com os nervos à flor da pele e a barriga cheia de conhaque.

E Jake é muito atraente. Seu rosto perfeito é de parar o trânsito. Seu corpo largo e atlético poderia causar um engavetamento de uns dez carros. Basicamente, se você estiver dirigindo e se deparar com Jake Connelly, corre sério perigo.

Olho para os lábios dele. Não são carnudos, mas o inferior é levemente mais cheio que o superior. Não posso negar que quando tocaram os meus no show do fim de semana passado, eu quis mais. Quis um beijo de verdade. E ainda quero. Quero saber que gosto ele tem. Quero ouvir o som que ele vai fazer quando minha língua entrar em sua boca.

A expectativa acelera meu coração. “Um beijo”, concedo.

“Você não vai se satisfazer só com um.”

O brilho arrogante nos olhos dele me deixa com tesão. Gosto de caras assim. Diretos, assertivos, seguros. Macho-alfa, mas não do tipo que quer mandar em você ou é dominador demais.

Jake é bastante confiante, tem certeza de quem é e do que quer. Acho que é por isso que o perdoei tão facilmente por seu comportamento no jantar. Não só tenho uma leve (tá, mais que isso) queda por babacas arrogantes como gosto de um homem que vai atrás do que quer. Essa é a diferença entre Jake e alguém como Mike Hollis. Hollis é ousado, mas no fundo não é o tipo de cara que sentaria ao meu lado no banco e diria que vai me beijar. Hollis esperaria que eu o beijasse.

Mas por que estou pensando nele agora?

Deslizo os dedos pela coxa de Jake e levo a mão até o peito. Seus músculos são tão definidos que consigo sentir as elevações tentadoras através da camisa azul-escura. Eu o acaricio, numa provocação rápida que faz seus olhos se acenderem. Quando meus dedos chegam à clavícula, o pomo-de-adão dele se movimenta, sinal de que engoliu em seco.

Abro um sorriso vago. “Tudo bem?”

“Tudo. Tudo bem.” Ele pigarreia.

Meus dedos chegam ao seu destino — seu rosto inacreditavelmente lindo. Passo o meu polegar por seu lábio inferior. Os olhos dele parecem ainda mais sedutores. Antes que eu possa piscar, dedos compridos se enroscam nos meus cabelos e uma mão grande segura minha nuca.

Jake puxa minha cabeça e aproxima os lábios dos meus. É o tipo de beijo que venho esperando há muito tempo. Começa com um fogo baixo, um encontro suave de lábios com um toque de línguas leve como uma pena. É como se ele estivesse preparando o terreno para algo ardente. Está preparando a fogueira, e cada beijo provocador é um graveto, até que ele finalmente solta um gemido e aprofunda o beijo, de modo que somos engolfados pelo fogo. A boca de Jake é quente e voraz, mas ele não lambe meu rosto ou me devora. É um beijo controlado, firme e ávido, cheio de paixão e com a quantidade perfeita de língua.

Gemo. Não consigo evitar. Ele ri nos meus lábios antes de se afastar. “Você beija bem”, Jake diz.

“Você também não é tão ruim.” Então, estamos de novo com as bocas coladas, numa pegação forte no banco. Nem ligo quando noto o som de gente vibrando por cima da música. Que todo mundo olhe. Que distribuam pipoca se for o caso.

A garota que encontrei no banheiro na semana passada, que elogiou tanto a língua de Jake, estava certíssima. A língua dele é incrível. É o paraíso na minha boca. A mãozona quente dele agora aperta minha coxa. Quero subir no colo dele e atacá-lo, mas estamos num bar e totalmente vestidos. O fato de estarmos em público é a única coisa que me impede de tomar uma decisão bem idiota.

Eu me afasto, respirando forte. Os olhos maravilhosos de Jake focam em mim. São de um verde-escuro profundo, como uma floresta depois da chuva forte. Dá pra entender por que as mulheres piram nele.

Dou um gole rápido no conhaque e estremeço quando ele pega o copo da minha mão. As pontas calejadas de seus dedos roçam os nós dos meus. Me arrepio toda.

“Esse copo era meu”, acuso quando ele termina a bebida.

“Vamos pedir outra rodada.”

“Provavelmente não é uma boa ideia.” Minha voz sai grave, então pigarreio. Duas vezes. “Tenho que ir.”

Jake assente. “Tá. Vou pedir a conta.”

Aponto para os copos vazios. “Aliás, isso conta como um encontro.”

Ele solta uma risada baixa e sedutora. “Só porque você quer. Isso não foi um encontro. Ainda estou sendo seu namorado de mentira.”

“Ah, é? E isso foi um beijo de mentira?”

“Esse não é o encontro de verdade”, ele diz, firme. “Temos que marcar um. Quando você está livre?”

“Nunca.”

“Que tal amanhã?”

Duas noites seguidas? Ele está maluco? Não faço isso nem com caras com quem estou saindo de verdade. “Nossa. Você está mesmo louco para me ver de novo.”

“Estou”, Jake admite, e meu coração me trai batendo mais forte. “Então, amanhã?”

Desmorono como um castelo de cartas. “Tá. Mas não vou voltar a Boston. Esgotei minha cota pra vida inteira só esta semana.”

“Vou escolher algum lugar mais perto de Hastings”, ele garante. “Vou estar com o carro de Brooks. Quer que te busque em casa?”

“Nossa, não.” De jeito nenhum que vou deixar Jake aparecer na casa do meu pai para me pegar. “A menos que esteja a fim de ser assassinado.”

Ele dá risada. “Não achei que fosse querer, mas tinha que oferecer. Posso pagar seu táxi, pelo menos.”

“Não preciso de caridade”, brinco.

“Você gosta de ser difícil, né?”

“Gosto.” Reviro a bolsa atrás da carteira.

“Quer dar mais uns pegas antes de ir?” O tom de voz dele é esperançoso.

“Não.”

Seu olhar se torna diabólico. “Que tal um boquete, então?”

“Ah, obrigada, mas não tenho pau.”

A risada dele aquece meu sangue. É profunda e rouca, e eu quero gravar para ouvir quando tiver vontade. O que é superesquisito e bastante perturbador. Estou começando a gostar da companhia do cara, o que me preocupa. Muito.

“Você chegou tarde ontem à noite.” Sou recebida na cozinha pela reprovação do meu pai. “Farreando?”

Enfio a cabeça na geladeira e reviro os olhos para o pote de margarina, porque não posso fazer isso na frente dele. “Cheguei por volta da meia-noite, pai. Em uma sexta. Sendo que tive que pegar o trem às onze para chegar aqui esse horário. Então a ‘farra’” — viro para que ele possa ver que estou fazendo aspas no ar — “teve que terminar ainda antes. Em uma sexta.”

“Você está velha demais para essa insolência.”

“E estou velha demais para ser repreendida por você por conta da minha vida social. Já falamos disso. Você disse que não haveria sermão.”

“Não, você falou. Eu não disse nada.” Ele não tem medo de revirar os olhos abertamente. Passa por mim com sua calça xadrez, suas meias de lã e o suéter com o escudo do time de hóquei da Briar.

Meu pai para na máquina de café, uma chique que tia Sheryl comprou para ele no último Natal. Fico surpresa que esteja usando. Meu pai não se importa com esse tipo de tecnologia, a menos que se trate de equipamento de hóquei. Caso contrário, não está nem aí.

“Quer uma xícara?”, ele oferece.

“Não, obrigada.” Sento em uma banqueta à bancada da cozinha. Está desnivelada, então oscila um pouco antes que eu encontre o equilíbrio. Abro um iogurte e como, enquanto meu pai fica de pé perto da pia, esperando o café sair.

“Você não precisava ter ido de trem”, ele diz, seco. “Podia ter pego o Jeep.”

“Sério? Posso voltar a dirigir seu precioso Jeep? Achei que estava proibida depois do incidente com a caixa de correio.”

“E estava. Mas quanto tempo faz? Dois anos? Seria de esperar que tivesse ficado mais esperta desde então e aprendido a dirigir direito.”

“Seria mesmo.” Tomo outra colherada de iogurte. “Não me importo de pegar o trem. Aproveito o tempo pra ler as coisas da faculdade e ler as notícias sobre hóquei. Aliás, este fim de semana tem o jogo beneficente.”

Meu pai assente, mas não parece muito animado. Este ano, o comitê da nossa divisão de hóquei decidiu que todos os times têm que participar de partidas beneficentes no fim de semana depois da semi, adiando a final em uma semana. Os jogos serão realizados em nome de várias entidades ligadas ao tratamento do câncer no país, e todo o lucro vai para elas. É claro que isso é ótimo, mas meu pai e os caras do time estão ansiosos para decidir o campeonato.

“E quanto à final? Estão prontos?”

Ele assente de novo. De alguma maneira, consegue demonstrar muita confiança com isso. “Vamos estar.”

“Harvard é um adversário difícil.”

“É, eu sei.” Meu pai realmente tem o dom da conversa.

Raspo o restinho de iogurte do pote de plástico. “Eles estão bem este ano”, comento. “Muito, muito bem.”

E não só no hóquei. Jake Connelly, por exemplo, está se saindo muito bem em outras áreas. Como no beijo. E em me deixar com tesão. E…

E preciso interromper essa linha de pensamento agora. Meu corpo está formigando, e não posso formigar estando tão perto do meu pai.

“Você pode fazer um ou outro elogio a Harvard”, digo. “Não é porque odeia o técnico que os jogadores são ruins.”

“Alguns são bons”, ele reconhece. “Outros são bons em jogar sujo.”

“Como Brooks Weston.”

Ele assente de novo. “O garoto só está lá para bater, com o apoio de Pedersen.” Há veneno em sua voz quando menciona o nome do técnico adversário.

“E como ele era?”, pergunto, curiosa. “Pedersen, digo.”

O rosto do meu pai se contrai, a tensão emanando de seu corpo largo. “Como assim?”

“Estou falando de quando Pedersen estava em Yale. Vocês jogaram juntos por algumas temporadas, não?”

“Jogamos.” Agora seu tom é cauteloso.

“E como ele era?”, repito. “Um atacante potente? Alguém que só criava confusão? Ele jogava sujo?”

“Muito sujo. Nunca o respeitei como jogador.”

“E agora não o respeita como técnico.”

“Não.” Meu pai toma um longo gole de café enquanto me observa por cima da borda da xícara. “Mas você respeita?”

Penso a respeito. “Sim e não. Quer dizer, tem jogo sujo e jogo duro. Muitos treinadores encorajam os jogadores a jogar duro”, aponto.

“O que não torna isso correto. Eles também promovem a violência.”

Tenho que rir. “Hóquei é um dos jogos mais violentos que há! É um bando de homens sobre patins com lâminas afiadas e segurando tacos. Eles são jogados contra as placas laterais, apanham o tempo todo, tomam discos na cara…”

“É disso que estou falando. Já é um esporte violento o bastante por si só”, meu pai diz. “Então, por que piorar? É dever de todos jogar limpo, de forma honrada.” Ele cerra o maxilar. “Daryl Pedersen não sabe nem o significado dessas palavras.”

É um ponto válido. E suponho que eu não tenha noção do nível de sujeira do jogo de Pedersen. Só vi alguns poucos jogos de Harvard essa temporada, o que torna difícil definir com precisão como o time joga sujo.

Mas sei quanta sujeira se passa na minha mente quando penso em Jake. Isso conta?

“O que vai fazer hoje?”, meu pai pergunta, mudando de assunto.

“Preciso terminar um artigo para a aula de escrita jornalística, mas vai ficar pra mais tarde. Vou passar na casa da Summer agora.”

“No sábado de manhã?”

“É, ela quer ajuda para arrumar o guarda-roupa.”

“Não entendo as mulheres”, meu pai diz.

“Somos bem bizarras. Tenho que concordar.”

“Ouvi boatos sobre essa garota”, ele acrescenta, com o cenho franzido que é sua marca registrada.

Franzo o meu também. “Ela é muito minha amiga.”

“O irmão disse que ela é louca.”

“Ah, sim. Não posso negar. Ela é esquisita, melodramática e muito engraçada. Mas você não devia acreditar em tudo o que Dean diz.”

“Ele disse que ela pôs fogo na faculdade em que estudava.”

Sorrio para ele. “Considerando que a Brown ainda está lá, acho que podemos concluir que ele exagerou.” Desço da banqueta. “Preciso me trocar. Te vejo depois.”

Uma hora depois, estou deitada na cama de Summer olhando o celular. Nem preciso dizer que cansei bem rápido de vê-la provar todas as roupas do armário e então me mostrar.

“Bee!”, Summer reclama. “Presta atenção.”

Largo o celular e me sento. “Não”, digo. “Porque isso é maluquice. Você acabou de provar quatro blusas de frio do mesmo tom de branco. Eram idênticas. E todas pareciam novinhas!”

Ela começa a me dar um sermão sobre as diferenças entre Prada, Gucci e Chanel. Levanto a mão para impedi-la, porque juro por Deus que se Summer desembestar a falar de Chanel vou perder o controle. Ela é obcecada com a marca e poderia falar a respeito por horas sem parar.

“Entendi, são blusas de marca. Mas a ideia de arrumar o armário é se livrar de algumas coisas, e você não separou quase nada.” Aponto para a pífia pilha de roupas na cama. É a que vai para doação, e consiste em duas camisetas, um jeans e um cardigã.

“Tenho dificuldade de abrir mão das coisas”, ela diz, jogando o cabelo loiro por cima do ombro.

“Você não tem um closet enorme na sua casa em Greenwich? E outro em Manhattan?”

“Tenho. E?”

“Ninguém precisa de tanta roupa, Summer! Eu tenho só alguns looks que fico alternando.”

“Você só usa preto”, ela retruca. “É claro que é mais fácil montar um look só com peças pretas. E não está nem aí pra moda: só coloca blusa preta, calça preta, bota preta e batom vermelho e pronto. Bom, preto não me cai bem. Fica parecendo que eu curto sadomasoquismo. Preciso de cor, Brenna! Minha vida é cheia de cor. Sou uma pessoa cheia de cor…”

“Você é uma pessoa louca”, digo.

“Não sou, não.”

“É, sim”, Fitz confirma ao entrar no quarto. As tatuagens que fecham seus braços ondulam quando ele abraça Summer por trás, inclinando a cabeça para dar um beijo meigo na bochecha dela.

“Odeio vocês dois”, resmungo. “A felicidade de vocês é repulsiva. Vão ser felizes em outro lugar.”

“Desculpa, Bee, mas não vamos esconder nosso amor do resto do mundo”, Summer diz, e começa a dar beijinhos em todo o rosto de Fitz, fazendo barulho de propósito e me deixando com vontade de vomitar.

Bom, nem tento, mas finjo que vomito porque ela está mesmo sendo ridícula.

“O que estão fazendo?” Fitz olha pra mim. “Nem sabia que você estava aqui.”

“Você ainda estava dormindo quando ela chegou”, Summer diz. “Estamos arrumando meu armário. Vou doar algumas coisas.”

Ele olha para o armário cheio e então para a minúscula pilha na cama. “Legal. Acabaram de começar?”

Dou risada. “Faz mais de uma hora! Em uma hora ela separou uma camiseta.”

“Separei mais que isso”, Summer contesta.

A voz dela atrai Hollis, que passava pelo corredor. Ele entra no quarto de Summer e se acomoda na beirada da cama. Está de calça de moletom e regata. Seu pé descalço toca a minúscula pilha de roupas para doação, mas ele nem a nota.

“Eba! Está fazendo um desfile? Quando vai chegar à seção de lingerie? Fitz, fala pra sua namorada que preciso de um desfile de lingerie pra compensar o desgaste emocional que tive por conta dela.”

“Do que você tá falando?”, pergunto.

Estou na cabeceira da cama, então ele precisa virar o pescoço para me olhar. “Summer me contou o que vocês duas fizeram comigo.”

Não tenho ideia do que ele está falando.

“Minha stalker”, Hollis continua. “Sei que encorajaram a garota.”

“Ela não é uma stalker”, Summer diz.

“Está falando sério?” Hollis a encara. “A garota me ligou todos os dias desde que saímos pra jantar.”

“Isso foi na quinta”, Summer o lembra. “Faz só dois dias. O que quer dizer que ela te ligou duas vezes. Relaxa.”

“Duas vezes? Bem que eu queria! Ela me liga pelo menos três vezes por dia.”

“É, e você sempre atende”, Summer retruca. “E fala com ela por uma hora, às vezes mais.”

“Eu falo?!” Hollis passa as duas mãos pelo cabelo. “Só ela fala! A garota não cala a boca.”

“Imagino que estamos falando de Rupi”, digo, tentando não rir.

“É claro que estamos falando de Rupi”, ele rosna. “Vocês sabem que ela é louca, né? Tem certeza de que não fugiu de um manicômio em Bali?”

“Bali?”, repito.

“É onde ela diz que a mãe é uma estrela de cinema.”

“A mãe dela é uma estrela de Bollywood.” Summer ri. “Isso significa que ela é da Índia.”

“Ah.” Ele pensa a respeito, então balança a cabeça em negativa. “Não, isso não ajuda. Ela ainda é maluca.”

“Como foi o jantar?”, pergunto.

Ele se vira para me encarar.

Pisco, educada. “Mal?”

O rosto dele se anuvia. “Ela falou o tempo inteiro e não me deixou nem dar um beijo de despedida.”

“Espera aí, você está dizendo que tentou beijar a garota?”, Fitz pergunta. Ele está apoiado na beirada da escrivaninha de Summer, que por sua vez voltou ao armário e está passando pelos cabides.

“Foi exatamente isso que eu disse, Colin”, Hollis diz, todo arrogante. “Não é porque a garota é louca que não quero dar uns pegas nela.”

“Fino”, digo. “Você é um romântico, no fundo.”

Ele movimenta as sobrancelhas. “Ei, ainda estou aberto pra negócios. Pode vir quando quiser, Jensen.”

“Eu passo. Mas então não teve beijo?”

“Não!” Ele parece ultrajado. “Ela não beija no primeiro encontro. Vai me fazer esperar! Até o terceiro encontro.”

Fitz morre de rir. “Espera aí”, ele diz. “Vai sair com ela de novo?”

Sorrio. “E de novo?”

“Acho que não tenho escolha”, Hollis resmunga. “Aparentemente vou levar a garota ao cinema na terça.”

Fitz assente. “Legal. É mais barato na terça. Vocês deviam ir ver o novo filme da Marvel.”

“Não quero ver o novo filme da Marvel, seu mané. Não quero sair com essa garota. Ela é nova demais, irritante demais e…” Ele tem um sobressalto, então enfia a mão no bolso da calça, pega o celular e dá uma olhada na tela. “Ah, não. É ela.”

“Você tem o número salvo?”, pergunto.

“Ela salvou. Pegou meu celular no meio do jantar e adicionou o número dela aos contatos. Escreveu Rupi e dois emojis com corações no lugar dos olhos. Ela está gravada no meu celular com emojis, porra.”

Viro de lado e meu corpo se sacode com a risada que tento disfarçar.

Da escrivaninha, Fitz balança a cabeça, achando graça. “Você sabe que pode mudar isso, né?”

Mas Hollis está ocupado atendendo. Ele mal diz “alô” antes que o som de uma fala animada comece a vir do outro lado.

Fitz e eu sorrimos um para o outro. Não tenho ideia do que Rupi está dizendo, mas ela fala bem depressa, e a expressão horrorizada no rosto de Hollis é impagável. Faz anos que não me divirto tanto.

“Mas não gosto de comédia romântica”, ele choraminga.

A falação continua do outro lado.

“Não gosto mesmo. Não quero ir ao cinema. Se está tão a fim de me ver, então vamos trepar em algum lugar.”

Gritos se seguem.

Morro de rir.

“Afe, tá bom! Vamos ver seu filme idiota. Mas é melhor a gente dar uns pegas, Rupi, e não quero ouvir nenhum blá-blá-blá sobre não beijar no segundo encontro, porque se fosse qualquer outra garota a gente já estaria trepando.”

O resto do mundo já não existe para Mike Hollis. Ele desce da cama e sai do quarto de Summer. Ouço sua voz frustrada vindo do corredor. “Não sou tarado! Nem fiz sexo desde que conheci você.”

Olho para Fitz. “É verdade?”

“Acho que sim. Mas, falando sério, não é como se ele estivesse pegando geral antes disso. Hollis fala muito, mas na verdade é muito mais exigente do que dá a entender. Não acho que o cara se dê bem tanto quanto alega.”

“Ah, mas não dá mesmo.” A resposta abafada vem do guarda-roupa. “Ele não leva jeito nenhum pra coisa.”

“Hollis joga hóquei”, aponto. “Nem precisa se esforçar muito fora do gelo. Tem sempre um monte de fãs esperando por ele.”

“O que acham desse vestido?” Summer reaparece usando um tomara que caia branco com franja na barra.

“É legal”, Fitz diz.

“Bee?”

“Inocente demais. Eu nunca usaria.”

“É claro que você nunca usaria, não é preto. Mas me diz se eu fico bem nele ou não.”

“Você fica bem em tudo. É ridículo e eu te odeio. Poderia se livrar de metade desse armário e ainda parecer uma supermodelo com qualquer roupa que tiver restado.”

Ela sorri. “Você está certa, é um vestido lindo. Vou guardar.”

Troco olhares com Fitz. Ainda me surpreende que eles estejam juntos. Mas, de alguma maneira, a estudante de moda e o nerd gamer são um casal.

“O que vão fazer esta noite?”, pergunto. “Imagino que meu pai vá ficar no pé do time a semana inteira, então essa pode ser a última chance de vocês darem uma relaxada.”

“Certeza”, Fitz diz. “Mas não sei, provavelmente vamos só…” Ele dá de ombros, inocente.

Traduzindo: os dois pretendem passar a noite toda na cama.

“E você?”, ele pergunta.

“Acho que vou ficar em casa”, minto.

“Sério? Não vai sair de novo com o cara do Tinder?” Summer volta à conversa. Ela joga duas blusas de frio desbotadas na pilha de doações.

“Que cara do Tinder?”, Fitz pergunta.

“Bee teve um encontro outro dia. Mas não quer me contar a respeito.”

“Não tem nada pra contar. Não deu liga e não vou ver o cara de novo.” É preocupante a naturalidade com que consigo mentir.

Summer abre um sorriso culpado para mim. “Eu podia até te convidar pra vir aqui, mas vamos estar ocupados fazendo sexo.”

Fitz solta um suspiro pesado. “Linda.”

“Que foi?”

Ele só balança a cabeça.

“Não tem problema”, digo, sorrindo pra eles. “Estou com os estudos atrasados.”

“Parece tentador”, Summer brinca.

E ela não sabe nem da metade.