The Risk
38. Brenna
38
BRENNA
“Puta merda!”
Meu pai, que está fazendo o café da manhã, vira para me olhar. É sábado de manhã, e acabei de receber no celular a notícia mais inesperada e chocante do mundo desde que Ryan Wesley, jogador do Toronto, anunciou que é gay.
“Está tudo bem?”, meu pai pergunta.
“Puta merda”, repito, relendo a mensagem. “Tansy ficou noiva.”
Ele pisca. “Sua prima Tansy?”
“É.”
“Ficou noiva?”
“É.”
“De quem?”
“Lamar, o jogador de basquete com quem vive terminando. De acordo com a mensagem, ele ficou de joelhos em uma casa noturna ontem à noite e a pediu em casamento. Tinha uma aliança e tudo o mais.” Viro o celular para que meu pai consiga ver a foto que minha prima mandou. O diamante da aliança não é gigante, mas é muito maior do que seria de esperar considerando o orçamento de um universitário.
Nossa. Acho que ela não estava brincando quando me disse que os dois andavam pensando em ficar noivos.
“Nossa”, meu pai diz. “Sheryl vai subir nas tamancas.”
Morro de rir, o que faz meu pai rir também. Só tem cinco dias que conversamos, e nosso relacionamento já mudou. Está mais fácil, quase totalmente livre de tensão. É claro que não nos abraçamos a cada dois minutos, mas nossas conversas fluem com muito mais facilidade, e fazemos mais piadas. E piadas de verdade, não comentários sarcásticos cheios de veneno.
Estamos recomeçando.
“Espera aí. Vou responder pra ela.”
EU: Oiê! Não posso falar agora porque estou tomando café com meu pai, mas MEU DEUS!! Parabéns! É uma ótima notícia, e estou feliz por vc. Vai ser a noiva mais linda do mundo!! <3 <3
Estou sendo sincera? Na verdade, não. Ainda não acredito que um relacionamento com o histórico deles vá durar. Lamar a pediu em casamento em uma casa noturna, pelo amor de Deus. Mas Tansy é minha prima e vou apoiá-la independente de qualquer coisa. Estou feliz que ela esteja feliz. E, se por acaso eu estiver errada e os dois acabarem chegando a se casar de fato, acho mesmo que Tansy vai ser uma noiva linda.
Ela me responde de imediato.
TANSY: Valeu!! ME LIGA ASSIM QUE ESTIVER LIVRE!!
Sorrio para a tela e deixo o celular de lado enquanto meu pai coloca dois pratos na mesa. Ovos mexidos, bacons e fatias de pepino. Agradeço pelo café da manhã e começo a comer imediatamente, falando com a boca cheia.
“Nem acredito que ela está noiva. Vai ser um desastre total. Tansy é nova demais. Ou melhor, imatura demais. Quer dizer, até eu estou mais preparada pra casar que ela.”
Sua expressão se torna irônica. “Isso quer dizer que devo esperar que você e Connelly anunciem o noivado a qualquer momento?”
Congelo. Então, pego o garfo e espeto os ovos. “Não. Não precisa se preocupar com isso.”
“E por que não?”
Mastigo especialmente devagar para retardar a resposta. “Porque a gente terminou.”
“E por quê?”, ele volta a perguntar.
“Porque sim.” Reviro os olhos. “Podemos estar mais ou menos bem agora, mas isso não significa que somos melhores amigos. Não vou revelar todos os meus segredos mais terríveis.”
“Em primeiro lugar, não estamos mais ou menos bem. Estamos bem. Ponto final. E, como prometeu nunca mais me matar de susto, não me agrada ouvir que esse término pode ter sido terrível.” Há preocupação genuína em seu tom.
“Não foi”, garanto a meu pai. “Se quer saber, Jake me deu um pé porque quer focar no hóquei.”
Meu pai franze a testa.
“Mas tudo bem. O namoro não ia a lugar nenhum mesmo. Jake vai mudar pra Edmonton, lembra? Relacionamentos à distância nunca funcionam.”
“Comigo e com sua mãe funcionou”, ele diz.
Levanto os olhos, surpresa. “Quando isso aconteceu?”
“Ela era um ano mais nova”, meu pai me lembra. “Quando me formei, sua mãe ainda tinha mais um ano pela frente em Yale. Foi quando o filho da puta deu em cima dela e…”
“Espera aí. Volta. Que filho da puta?” Perco o fôlego de repente. “Está falando de Daryl Pedersen?”
“Isso. Ele estava no mesmo ano que sua mãe. E faziam o mesmo curso: rádio e TV.” Meu pai sorri. “Como você. Bom, ele esperou que eu me formasse antes de dar em cima da sua mãe.”
Fico horrorizada. “A mamãe…?”
“Nossa, claro que não. Sua mãe era uma mulher doce e comportada da Geórgia. Totalmente fiel.”
“Então, Pedersen tentou ficar com a mamãe e ela não quis.” Adoro a ideia. É sempre chocante pensar que seus pais viveram uma vida longa e completa antes mesmo que você chegasse ao mundo.
“Daryl usou o velho golpe do ‘pode deixar que eu cuido da sua garota enquanto não estiver por perto’”, meu pai diz, com desdém. “Não éramos muito próximos. Eu não gostava dele, mas o tolerava. Precisava tolerar, já que éramos colegas de time. Sua mãe tinha uma opinião diferente. Achava que ele era doce e me acusou de ser paranoico por não confiar no cara. Mas eu tinha jogado três anos com o filho da puta, então sabia o tipo de homem que era. Um babaca arrogante, desonesto, sorrateiro. Era um mulherengo, mas perto da sua mãe agia como um santo.”
Meu pai leva uma garfada de ovos mexidos à boca, mastiga e engole, então pega a xícara de café. “Não é nem o fato de ter dado em cima da sua mãe que me incomoda, sabe? Ele poderia ter sido honesto quanto às suas intenções. Poderia ter dito: ‘Olha, gosto da Marie e vou dizer isso a ela’. Sua mãe teria rido na cara dele, mas eu teria dito: ‘Claro. Vá em frente’.” Meu pai sorri. “Nunca duvidei do que ela sentia por mim.”
Quero dizer que isso deve ser legal. Nunca duvidei do que Jake sentia por mim, mas do nada ele terminou comigo.
“Mas ele foi tão dissimulado. Ninguém tem que amar os colegas de time, mas respeito é importantíssimo. Pedersen se aproximou de sua mãe, de modo que eles estudavam juntos, passeavam juntos. Então, uma noite, depois de saírem com um grupo de amigos, ele a acompanhou de volta pra casa. Chegou a subir e tentou passar a mão nela na porta do apartamento.”
“Por favor, me diz que ele parou quando ela disse que não queria.”
Meu pai assente. “Ele parou. Não antes de acusar sua mãe de ter incentivado aquilo. De ter se aproveitado dele para estudar. De ter aceitado o tempo e o afeto dele e depois negado o que imagino que Pedersen achasse que fosse direito seu. Então encerrou o discurso dizendo que ela precisava que um homem de verdade a satisfizesse.”
“Que nojento.”
“Quando descobri, fui até New Haven. Eu estava em Burlington, trabalhando como assistente técnico na Universidade de Vermont. Levei quatro horas pra chegar, mas valeu a pena quando ouvi o som do osso quebrando quando dei um soco no maxilar de Pedersen.”
“Boa!”
“Ela era minha namorada. Ele não podia ter feito aquilo.” Meu pai dá de ombros. “Pedersen nunca mais se aproximou da sua mãe.”
“Isso faz vinte anos e você ainda odeia o cara.”
“E?” Ele leva uma fatia de pepino à boca.
“E será que não é hora de enterrar essa história?”
“Posso enterrar Pedersen em vez disso?”
Dou risada. “Eu estava pensando em um enterro mais metafórico. O passado é passado, e ponto final. Você ficou com a mamãe, teve uma filha linda…” Pisco para ele. “Ganhou três vezes o campeonato como técnico. E ele é um babaca amargo. Por que não deixar pra lá?”
“Porque não gosto dele, e isso nunca vai mudar. Às vezes, as pessoas não se gostam, princesa. É melhor se acostumar, porque é um fato. Pessoas vão te odiar porque você as magoou, de propósito ou sem querer. Pessoas vão te odiar porque não gostam da sua personalidade, do jeito que você fala, ou de qualquer besteira superficial que não conseguem deixar passar. Vai ter gente que só vai te odiar na hora, sem nenhum motivo, o que é esquisito.” Meu pai toma um gole de café. “Mas, no fim do dia, é como é. Nem todo mundo vai gostar de você, e você não vai gostar de todo mundo. Não gosto do cara. Isso não precisa mudar.”
“Justo.” Baixo os olhos para o prato quando volto a pensar em Jake.
“Sinto muito por você e Connelly.” Acho que minha expressão triste e o motivo dela não são difíceis de decifrar.
“Desde quando? Você me mandou ficar longe dele, lembra? Comparou o cara a Eric.”
“Posso ter feito isso em meio à raiva”, meu pai grunhe. “Connelly tem uma boa cabeça, até onde sei.”
“Eu te disse isso. Foi ele quem me ajudou com Eric.”
“Falando nisso, teve notícias de Eric depois?”
“Não, e estou com um pressentimento de que não terei mais.”
“Ótimo. Tem como encaminhar todas as ligações dele pro meu celular? Pra que eu possa dizer uma coisinha ou outra a ele?”
“Pai.” O brilho assassino em seus olhos é ligeiramente preocupante. “Não quero que aterrorize o cara. Vamos esperar que a mãe dele o tenha convencido a se tratar. Talvez desmaiar nos arbustos de um desconhecido tenha sido o fundo do poço aonde Eric precisava chegar.”
“Talvez.” Ele não parece convencido.
Nem eu estou. Faz cinco anos que saí da escola, e Eric ainda não reconheceu que tem um problema.
“Mas sinto muito quanto a Connelly”, meu pai repete, voltando a conversa para ele.
“Eu também.”
Meu pai ergue uma sobrancelha. “Achei que tivesse dito que o namoro não ia a lugar nenhum.”
“Eu disse. E disse isso pra ele, aliás. Fingi nem ligar quando Jake terminou comigo”, confesso. “Não queria que visse como me magoou. Mas fiquei magoada. Ele é o primeiro cara que conheço em muito tempo que consigo me imaginar namorando. Jake era bondoso comigo, me fazia bem. Tipo, quando estava com medo de vir conversar com você, ele me emprestou seu… ah, porra!”
“Olha o palavrão”, meu pai me repreende.
Pulo da cadeira. Esqueci a pulseira de Jake. Esqueci de devolvê-la, droga.
Depois da conversa com meu pai na outra noite, subi para tomar um banho e deixei a pulseira no criado-mudo. Então, passei a maior parte da quinta e da sexta na casa da Summer, porque, ainda que meu apartamento esteja pronto, não voltei a ficar lá cem por cento porque não queria ficar sozinha. Tenho medo de pensar em Jake o tempo todo. Consegui tirá-lo da minha cabeça por completo nos últimos dias. E, com isso, também me esqueci por completo do amuleto dele.
Harvard vai jogar contra Michigan hoje. Droga. Por que Jake não me ligou ou escreveu? Não se deu conta de que fiquei com a pulseira?
“Estou com o amuleto dele”, solto. “Jake me deu antes de terminarmos, e me esqueci completamente de devolver. E ele vai jogar hoje em Worcester!”
Como treinador de hóquei há mais de vinte anos, meu pai lida com todo tipo de baboseira supersticiosa ou ritualística. Não fico surpresa quando sua expressão fica séria. “Isso não é bom.”
“Não é mesmo.” Mordo a bochecha por dentro. “O que eu faço?”
“Receio que não tenha escolha.” Ele apoia a xícara na mesa e afasta a cadeira.
“O que está fazendo?”
“Não brinque com o ritual de um jogador, Brenna.” Meu pai confere o relógio. “Que horas o jogo começa?”
Já estou olhando no celular. “Uma e meia”, digo, um momento depois.
São onze. Leva mais ou menos uma hora até Worcester. O alívio enche meu peito. Consigo chegar antes que o jogo comece.
Meu pai confirma isso. “Se sairmos agora, vamos chegar com folga.”
“Se sairmos?”
“Acha que vou te deixar dirigir o Jeep em pânico? Por favor. Estremeço só de pensar nas caixas de correio derrubadas que deixaria em seu encalço.” Meu pai desdenha. “Eu dirijo.”
Jake não atende minhas ligações nem responde minhas mensagens. Me ocorre que talvez tenha bloqueado meu número, mas seria muita cretinice. Foi ele quem terminou comigo. Não tem motivo para me bloquear. A menos que achasse que eu seria do tipo que fica ligando quinhentas vezes por dia para implorar por uma segunda chance. Nesse caso, não me conhece nem um pouco.
A alternativa é que está tão focado nos rituais de dia de jogo que nem confere o celular.
Está garoando de leve, e as gotas escorrem preguiçosas pelo para-brisa do Jeep. Do banco do passageiro, me pergunto se há outra maneira de entrar em contato com ele. Não tenho o número de Brooks, e deletei o de McCarthy. Poderia descobrir o perfil de Jake nas redes sociais com um pouco de pesquisa, mas isso exigiria um nível de desespero a que ainda não cheguei.
Temos tempo de sobra, e quando chegarmos vou acabar encontrando algum jogador de Harvard ou alguém que possa se comunicar com um jogador de Harvard. Com sorte, vou conseguir dar a pulseira a alguém que possa entregá-la a Jake sem que eu precise vê-lo. Não sei o que diria se ficasse cara a cara com ele. Além disso, Jake me acusou de ser uma distração. Me ver antes de um jogo crucial poderia mexer com ele.
Quando estacionamos na arena, meu pai passa o estacionamento e segue direto para a entrada. “Desce aqui”, ele manda. “Vou estacionar e te encontro lá dentro. Deixa o celular ligado.”
Só então me dou conta. “Ah, não”, digo, desanimada. “Não temos ingressos.”
“Temos, sim. Liguei para Steve Llewellyn enquanto você se trocava e disse que precisava de um favor. Tem dois ingressos pra gente na bilheteria, com o seu nome. Só que vamos ter que assistir ao jogo de pé. Foi tão em cima da hora que ele não conseguiu coisa melhor.”
Llewellyn é o treinador de Michigan. Acho que ajuda ter um pai com bons contatos. “Você é incrível.”
Salto do carro e corro para a entrada. Enquanto pego os ingressos, ligo outra vez para Jake. Ele não atende.
O jogo só vai começar daqui a quase uma hora e meia, mas um monte de gente já está entrando na arena e ocupando os lugares. Vejo um aglomerado de fãs de Harvard, além do dourado e azul das cores de Michigan. Passo os olhos pela parte carmesim da multidão à procura de qualquer rosto familiar. Nada. Então procuro indicações para o vestiário. Localizo uma placa e sigo na direção indicada.
Estou chegando a um corredor quando finalmente topo com um rosto conhecido.
Hazel, a amiga de Jake.
Ótimo. “Oi”, cumprimento. “Estou procurando Jake.”
Depois de me avaliar com frieza, um lampejo de repulsa passa por seus olhos. “O que está fazendo aqui?”
“Acabei de te dizer. Estou procurando Jake.” Mexo em uma das contas da pulseira dele. Eu a mantenho no pulso para não perder. “O ônibus de Harvard já chegou?”
“Não.”
“Sabe quando vai chegar? Falou com Jake hoje?”
“Não.” Ela franze a testa levemente. “Ele não está atendendo. Estou com os pais dele…”
Meu estômago se retorce. Não. Não é ciúme. Não estou com ciúme.
“… e nenhum de nós conseguiu falar com Jake hoje. Talvez o telefone dele tenha morrido. Às vezes, quando está focado em um jogo, se esquece de fazer coisas básicas, como carregar o celular.”
Odeio essa garota. Não sei se faz isso de propósito, mas é cheia das alfinetadas sugerindo que o conhece melhor. Talvez eu só esteja me sentindo insegura. Ou talvez ela nem se dá conta do que faz. Ou quem sabe só o conheça tão bem que as palavras saem instintivamente.
De qualquer maneira, ainda bem que Jake não está aqui. Agora não preciso vê-lo, e ele não precisa me ver. Quer focar no hóquei? Parabéns, vai ter a chance de fazer isso.
“Quando Jake chegar, pode dar isso a ele?” Tiro a pulseira do pulso, desajeitada. Tirá-la me dá uma pontada de tristeza. É como me despedir da última parte de Jake que tenho comigo.
Os olhos de Hazel se turvam de desconfiança. “Onde conseguiu isso?”
Ergo o queixo. Não gosto da acusação nem tão velada assim. “Se acha que roubei, pode relaxar. Jake me emprestou outro dia. Eu estava nervosa por causa de um negócio e ele disse que ia me dar sorte.” Tenho que sorrir, porque algo bom veio disso. Meu pai e eu tivemos um novo começo, afinal de contas. “Me esqueci de devolver, e vim até aqui pra isso, então…” Estendo a mão. “Pode entregar quando Jake chegar, por favor?”
“Jake te emprestou o amuleto dele.” O tom dela tem um toque maçante.
“Isso.” Estou começando a me irritar. Continuo com o braço esticado, como uma idiota. “Olha, sei que não gosta de mim. E sem motivo, diga-se de passagem. Nem me conhece. Mas me preocupo com Jake, e você também. Isto…” — sacudo a pulseira para ela — “é importante pra ele. Jake vai me odiar pelo resto da vida se não estiver em seu pulso quando o jogo começar. Então pode simplesmente pegar, por favor?”
Após um momento de hesitação, Hazel aceita a pulseira. Ela a coloca no pulso e diz: “Pode deixar que eu entrego”.