The Risk
41. Brenna
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BRENNA
Como é um sacrilégio desperdiçar ingressos de hóquei, meu pai e eu ficamos em Worcester. Estamos na arquibancada sem assentos, que fica perto de uma das câmeras posicionadas no perímetro do rinque para transmitir o jogo. Noto um operador de câmera usando uma jaqueta da HockeyNet e me pergunto quem Mulder mandou para cobrir o jogo. Kip e Trevor não fazem transmissões ao vivo, então provavelmente foi Geoff Magnolia.
Tenho certeza de quem Mulder não mandou: Georgia Barnes. Me poupe… Mulheres no esporte? Nunca!
Um homem magro de terno se aproxima do câmera e eu xingo em voz baixa. Mas não baixa o bastante, porque meu pai levanta os olhos do e-mail que está respondendo no celular.
“O que foi?”
“Geoff Magnolia”, digo, assentindo discretamente na direção das câmeras. “A HockeyNet mandou esse cara pra cobrir o jogo.”
Como eu, meu pai não é muito fã do trabalho do cara. Ele acompanha meu olhar. “Ah. Ele cortou o cabelo. Ficou uma merda.”
Dou risada. “Pai! Quando foi que ficou tão sarcástico?”
“Como assim? Ficou uma merda mesmo.”
“Uau!”
“Para com isso.”
Fico olhando Magnolia conversar com o operador. Ele gesticula demais. Distrai bastante. Ainda bem que nunca faz isso na frente da câmera.
“Quer saber? A HockeyNet que se dane”, digo. “Vou me candidatar à ESPN no outono. Eles são muito mais propensos a contratar mulheres. Se estagiar lá, nunca mais vou ter que ver Ed Mulder. Ou aquele tonto ali.”
Volto a olhar para Magnolia, e, meu Deus do céu… o cara está tomando café de canudinho. Se não for café, é outra bebida quente, porque está saindo fumaça do copo.
“Argh. E ele não é só tonto. É simplesmente ridículo.”
“E o sarcástico aqui sou eu?”, meu pai pergunta. “Se olha no espelho, princesa.”
“Para com isso, velhote.”
Ele gargalha, então volta aos e-mails.
Viro o pescoço tentando encontrar outros rostos familiares na arena. Então, meu celular toca. Quando vejo o número desconhecido na tela, ignoro a chamada.
Três segundos depois, chega uma mensagem.
Oi, aqui é a Hazel, amiga do Jake. Ele me passou seu número. Jake está no vestiário e precisa muito te ver.
Franzo a testa. Não sei por que, mas parece uma armadilha. Como se Hazel estivesse me atraindo para o vestiário só para… o quê? Me bater com um taco de hóquei? Resisto à vontade de revirar os olhos. Estou ficando paranoica.
“Você se importa se eu for falar com Jake um minuto?”
Meu pai levanta os olhos da tela. “Como isso aconteceu?”
Mostro o celular. “Ele disse que quer conversar.”
Meu pai pensa a respeito por um segundo, depois dá de ombros. “Acaba com ele.”
“É a minha intenção.”
“Essa é minha garota.” Ele faz uma pausa, então volta a falar de forma brusca. “Se essa conversa terminar com minha filha voltando com um namorado, pode dizer que ele está convidado pro jantar hoje à noite.”
Meu queixo cai, mas não comento nada nem discuto o convite inesperado, porque não tenho ideia do motivo de Jake querer me ver.
E por que estou correndo para vê-lo?, me pergunto um minuto depois, ao atravessar outra porta dupla. Meus passos ecoam pelo corredor.
Jake terminou comigo. Eu não deveria estar tão disposta a atender seu chamado. E se só quiser me agradecer por devolver a pulseira? Seria muita humilhação. Não preciso da gratidão dele. Preciso de…
Preciso do quê?
Nem sei dizer. Meu coração certamente sabe o que quer. Ele quer Jake Connelly. Mas meu coração é tolo e descuidado. Não toma conta de si mesmo, o que significa que quem tem que fazer isso sou eu.
Quando chego aos vestiários, não tem nenhum segurança à vista. Não sei atrás de que porta Harvard está, então, como uma idiota, chamo: “Jake?”.
Uma das portas à minha esquerda se abre imediatamente. Fico esperando ver Hazel ali, mas não é ela. É Jake, e seus olhos verdes se abrandam ao me ver.
“Você veio. Não tinha certeza se viria.” Jake abre mais a porta para que eu entre.
Eu entro. O jogo começa em quarenta e cinco minutos, então é esquisito que o vestiário esteja vazio. Os armários grandes de madeira espalhados pelas paredes estão arrumadinhos, com os uniformes e as proteções pendurados, esperando por Jake e seus colegas de time.
“Cadê sua amiga?”, pergunto, voltando a olhá-lo.
“Na arquibancada, imagino. Desculpa a mensagem do celular dela, mas esqueci o meu em casa.”
“Ah. Foi por isso que não respondeu minhas mensagens sobre a pulseira.” Aponto com a cabeça para seu pulso, aliviada ao ver o amuleto familiar de contas cor-de-rosa e roxas ali. “Mas vejo que o recebeu. Que bom.”
“Foi por pouco”, ele murmura.
“Como?”
“Nada. Não importa. Não temos muito tempo antes que o resto do time chegue, então melhor não desperdiçar com essa pulseira idiota.”
Ergo as sobrancelhas. “Pulseira idiota? Estamos falando do seu amuleto, Jakey. Seja respeitoso.”
Um sorriso enorme se abre em seu lindo rosto.
“Por que está com essa cara?”, pergunto, desconfiada.
“Desculpa, é que senti falta disso.”
“Do quê?”
“De você me chamando de ‘Jakey’.” Ele dá de ombros, todo fofo. “Me acostumei com isso. Não me importa se é zoeira. Eu curto.”
Dou um passo para atrás, sem jeito. “Por que me chamou aqui?”
“Porque…” Ele hesita, passando uma mão pelo cabelo.
Estou começando a perder a paciência. “Você terminou comigo, lembra? Disse que não queria mais me ver, que eu era uma distração. E agora me arrasta até o vestiário antes de um jogo tão importante? Como isso não é uma distração? O que quer de mim?”
“Você”, ele solta.
“Eu o quê?”
“É isso que eu quero. Você”, ele diz apenas.
Eu o encaro, descrente. “Você me deu um pé na bunda.”
“Eu sei, e estou arrependido pra caralho. Fui um idiota. E egoísta. E…” Ele engole em seco. “E um covarde. É isso aí. Sempre fui egoísta, mas nunca fui covarde, e por isso terminei com você. Porque estava morrendo de medo. Nunca estive em um relacionamento de verdade, e comecei a sentir a pressão.”
“Que pressão?” Fico confusa por um momento, até me dar conta da verdade sombria. “Ah. Entendi. Contei sobre o aborto e tudo o que aconteceu, então… me tornei um fardo emocional pra você. É isso?”
“Quê? Não, claro que não”, ele exclama. “Juro que não foi isso. Fiquei feliz por ter se aberto pra mim. Fazia tempo que eu estava esperando que fizesse isso, e quando finalmente aconteceu foi como…” Seus olhos se abrandam de novo. “Foi muito bom sentir que alguém confiava em mim, ainda mais você. Sei que não confia em muita gente.”
“Não”, digo, seca. “Não confio mesmo.”
“A pressão que senti foi mais quanto ao relacionamento em geral. Fiquei pensando se daria certo comigo em Edmonton, como manteria você como prioridade, como seria a gente ficar muito tempo sem se ver. Poderia listar uma porção de coisas, mas tudo se resume ao fato de que… tive um ataque de pânico.” Ele suspira. “Homens são idiotas, lembra?”
Não consigo evitar sorrir.
“Fui um idiota. E agora estou pedindo que me perdoe.” Jake hesita. “E que me dê outra chance.”
“Por que eu faria isso?”
“Porque te amo.”
Meu coração se expande no peito, e por um momento me preocupo que atravesse a caixa torácica. Ouvir isso da boca linda de Jake Connelly desperta uma onda de emoção em mim que tento desesperadamente conter.
“Você me magoou”, digo, baixo.
Dessa vez, ele não joga minha vulnerabilidade na minha cara. “Eu sei. E não consigo nem dizer como me sinto péssimo por isso. Mas não tenho como mudar o que fiz. Só posso dizer que sinto muito e que vou fazer tudo o que posso para não te magoar de novo.”
Não consigo responder. O nó na minha garganta está apertado demais.
“Se quer que eu implore, posso fazer isso. Se quer que me desdobre por você, também. Vou passar cada hora até ter que me apresentar para a pré-temporada provando o quanto você significa pra mim.” Ele morde o lábio inferior. “Provando que sou digno de você.”
Sinto meus lábios tremulando e rezo para não chorar. “Caralho, Jake.”
“O quê?” A voz dele sai rouca.
“Ninguém nunca me disse nada do tipo.” Nem mesmo Eric, em todos os meses e anos em que tentou me reconquistar. Eric usava frases como “Somos almas gêmeas” e “Você não pode fazer isso comigo”. Nem uma única vez falou em usar cada fração de segundo em provar que era digno de mim.
“Tudo o que eu disse é verdade”, Jake diz apenas. “Estraguei tudo. Mas te amo. E quero você de volta.”
Engulo o nó na garganta. “Mesmo que eu ainda tenha um ano de faculdade?”
Ele abre um meio sorriso. “Minha primeira temporada vai ser puxada, linda. Vai tomar todo o meu tempo. Provavelmente, vai ser melhor pra gente se estivermos os dois ocupados.”
Jake tem razão.
“Podemos dar um jeito. Se realmente quisermos estar num relacionamento, vamos fazer funcionar. A pergunta é: você quer?” Ele hesita de novo. “Você me quer?”
A emoção gritante contida na pergunta me tira o ar. As palavras são tão cruas. Você me quer? Não é a confissão de uma hora de duração que fiz na outra noite, mas isso não significa que Jake esteja se expondo menos. Todas as suas inseguranças estão expressas em seus olhos, a esperança, o arrependimento, o medo de que eu o rejeite. Estranhamente, também noto um lampejo da confiança costumeira dele. Connelly consegue ser seguro até quanto à sua insegurança, e isso só me faz amá-lo ainda mais.
“Quero você.” Pigarreio, porque minha voz soa como se eu estivesse fumando um cigarro atrás do outro há uma semana. “É claro que quero.” Solto o ar depressa. “Eu te amo, Jake.”
O último garoto para quem eu disse isso escolheu a si mesmo em vez de mim, repetidas vezes, sem nem parar para pensar.
Mas tenho fé de que o homem para quem estou dizendo isso agora sempre vai me escolher, sempre vai escolher nós dois.
“Também te amo”, Jake sussurra. Quando percebo, ele já está me beijando, e como senti falta disso…
Só faz alguns dias, mas a impressão é de que Jake não pressiona seus lábios quentes contra os meus há anos. Enlaço seu pescoço, retribuindo seus beijos com voracidade até que ouço seu gemido rouco ecoando pelas paredes do vestiário.
“Opa”, Jake diz. “Temos que parar. Agora.” Ele olha para a virilha. “Merda. Tarde demais.”
Acompanho seu olhar e rio quando noto o volume de seu pau duro sob a calça. “Se controla, Jakey. Você vai jogar daqui a pouco.”
“Jogadores de hóquei funcionam à base de agressividade e paixão. Nunca ouviu isso?”, ele diz, suave como seda.
“Rá. Verdade. Esqueci completamente.” Devo estar com um sorriso grande e bobo no rosto, que se recusa a ceder. Estou transbordando de felicidade, algo que é bem estranho para mim. Não sei se gosto.
É nada.
Meio que adoro.
“É melhor você ir”, Jake diz, relutante. “O time vai chegar a qualquer segundo. Você vai ver o jogo?”
Confirmo com a cabeça. “Meu pai também veio.”
“Sério? Ah, merda, por que não me contou isso? Agora vou me sentir ainda mais pressionado no gelo.”
“Não se preocupa, Jakey. Falo por experiência própria quando digo que confio no seu desempenho.”
Ele dá uma piscadela. “Valeu, linda.”
“Ah, e não pire ainda mais por conta disso, mas ele quer levar a gente pra jantar depois do jogo.”
“Não pire ainda mais por conta disso?” Jake passa uma mão pelo rosto. “Meu Deus. É melhor ir embora, linda, antes que o prejuízo seja maior.”
“Te amo”, cantarolo no caminho para a porta.
“Também te amo.” Eu o ouço soltar um suspiro atrás de mim.
O sorriso enorme continua colado no meu rosto quando saio. Atravesso o corredor saltitando com uma alegria repugnante, como se eu fosse uma personagem da Disney. Ah, não. Estou encrencada. A Brenna Jensen durona não se apaixona assim por um cara.
Mas já era. É melhor se acostumar.
Isso aí.
Acho que essa é minha vida agora.
No fim do corredor, viro e meu passo animado vacila quando dou de cara com o peitoral amplo de Daryl Pedersen.
“Opa, calma aí”, ele diz, com um sorriso que morre no instante em que me reconhece. “Brenna.” Seu tom é cuidadoso agora. “Veio animar o Connelly, imagino.”
“É. E meu pai veio comigo.” Quando sua expressão se fecha, tento não rir. “Estamos torcendo por você hoje, treinador.”
Embora fique sobressaltado de início, ele se recupera rápido e sorri para mim. “Diga a Chad que não preciso do apoio dele. Nunca precisei e nunca vou precisar.”
“Ainda não superou, depois de tantos anos?”
A resposta dele é elegante: “Não sei o que está insinuando, mas…”.
“Fiquei sabendo que tentou ficar com minha mãe e ela não quis”, digo, animada. “Não estou insinuando nada. Estou dizendo, com todas as letras, que você ainda não se conformou de não ter dado certo.” Dou de ombros. “Dito isso, ainda vou torcer para Harvard hoje. Mas por causa de Jake, claro. Não sua.”
Os olhos de Pedersen se estreitam tanto que parecem duas fendas escuras. “Você é muito diferente da sua mãe”, ele diz, lentamente. Não sei se está feliz ou triste com isso. “Marie era doce, uma beldade do Sul. Você… você não tem nada a ver com ela.”
Encaro seus olhos perturbados e abro um sorriso fraco. “Acho que puxei ao meu pai.”
Então sigo em frente, minhas pernas ainda se movendo daquele jeito irritante que não consigo controlar, porque quem manda agora é meu coração satisfeito, e tudo o que quero fazer é voltar para a arquibancada e gritar até ficar rouca quando o homem que eu amo ganhar o jogo.