The Risk
22. Jake
22
JAKE
Hazel vai comigo para Gloucester, na manhã de sábado, visitar meus pais. No trem, é quase só ela que fala. Me esforço para prestar atenção, porque faz um tempo que não nos vemos, mas minha cabeça está em outro lugar. De volta a Hastings, na casa de Brenna, repassando aquela noite inteira.
Não entendo a estranha tensão entre ela e o pai. Brenna admitiu que nem sempre foi comportada, mas não consigo não pensar no que pode ter feito para que ele não confie mais nela. Matou o bicho de estimação da família ou coisa do tipo?
A garota está me ignorando há três dias, e minha autoestima está lá embaixo. Quatro mensagens sem resposta? Isso nunca me aconteceu. Falta uma semana para a final da conferência e estou completamente perdido. Os jogos beneficentes de hoje e de amanhã nem me preocupam, porque não se trata de ganhar ou perder, mas de ajudar uma boa causa: a Sociedade Contra o Câncer de Boston. Mas preciso me recompor para o fim de semana que vem.
“Ah, e sabe quem vai casar?”, Hazel diz.
“Hum?”
“Você não está me ouvindo?”, ela pergunta.
Passo uma mão pelo rosto. Dormi mal pra caralho ontem à noite. “Estou”, digo, distraído. “Você disse que vai casar… Espera aí, como assim? Você vai casar?”
“Não, eu não estava falando de mim. Não vou casar, seu tonto.” Ela revira os olhos e prende uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha.
Só então me dou conta de que Hazel está de cabelo solto. Em geral, ela usa trança ou rabo de cavalo. “Você soltou o cabelo”, comento.
Suas bochechas ficam levemente vermelhas. “Pois é. Faz uns quarenta minutos.”
“Desculpa.”
“O que está acontecendo? Por que está tão distraído hoje?”
“Estou pensando no jogo de hoje.” A expressão cética dela me diz que não acredita em mim, então não lhe dou chance de dizer nada. “Mas quem é que vai casar?”
“Tina Carlen. Ela estava um ano atrás da gente na escola.”
“A irmã do Petey?”
“Isso.”
“Mas quantos anos ela tem?”
“Vinte.”
“E vai casar? Você foi convidada?”
“Fui. Você deve ter sido também. Mas nunca olha seus e-mails.”
Meu queixo cai. “Ela mandou os convites pro casamento por e-mail?”
“Esses jovens são assim…”
Dou risada.
O trem chega à estação dez minutos depois, então seguimos para a casa dos meus pais. “Minha mãe vai ficar louca quando vir você”, digo a Hazel ao nos aproximarmos da porta.
“Você não avisou que eu vinha?”
“Não. Achei que seria legal fazer surpresa.”
E eu estava certo. Minha mãe fica muito feliz ao vê-la entrando. “Hazel!”, ela exclama, abraçando minha amiga de infância. “Não sabia que você vinha! Que maravilha!”
Hazel retribuiu o abraço. “É tão bom ver a senhora.”
“Pendura o casaco e vem ver o que fizemos na sala! Mudamos toda a decoração.” Minha mãe a pega pelas mãos e a puxa para lá. Pouco depois, Hazel está fingindo ter gostado do novo visual. Sei disso porque ela nunca foi muito feminina. O papel de parede floral e as cortinas frescas são delicados demais para o gosto dela.
“Jake.” Meu pai aparece à porta da cozinha, com o cabelo escuro bagunçado como sempre. “Desculpe por semana passada, mas fico feliz por te ver hoje pelo menos.”
“É bom ver você também.” Nos cumprimentos da maneira mais masculina possível, em uma combinação de abraço de lado, batida de ombro e aperto de mão.
Entro atrás dele na cozinha. “Café?”, ele oferece.
“Por favor.”
Ele me serve uma xícara, então vai até a geladeira e começa a retirar coisas de lá. “Sou eu quem vou cuidar do café hoje. O que acha de omelete?”
“Acho ótimo. Precisa de ajuda?”
“Pode picar aquilo ali.” Ele aponta para uma variedade de legumes na bancada.
Encontro uma tábua, pego uma faca e começo a picar. Do outro lado da ilha da cozinha, meu pai quebra ovos em uma tigela de cerâmica.
“Vi uma reportagem na HockeyNet ontem à noite”, ele diz, enquanto bate os ovos. “As dez maiores promessas do hóquei para a próxima temporada. Você ficou em segundo lugar.”
“Quem ficou em primeiro?”, exijo saber. Porque… porra. Não quero me gabar, mas o último jogador universitário que chegou perto das minhas estatísticas foi Garrett Graham, que está detonando em Boston.
“Wayne Dodd”, meu pai diz.
Relaxo. Tudo bem. Dodd é goleiro. É um excelente jogador, mas a posição exige habilidades completamente diferentes das outras. Posso ser o número dois, mas sou o atacante número um. Posso viver com isso.
“Dodd é fera”, digo. “Vi um jogo dele na televisão, e o cara pareceu assustador.”
Meu pai estreita os olhos. “Acha que vai enfrentar o cara nas finais do nacional?”
“Tem uma boa chance. Temos que esperar as finais de conferência pra saber quem vai seguir em frente.” Esse deveria ser meu foco — levar meu time ao campeonato nacional. A pressão é insana. No nacional, dezesseis times são reduzidos a quatro em um único fim de semana. Então, quatro viram dois e só um é campeão. É esse que queremos ser.
Meu pai muda de assunto. “Já está procurando onde morar em Edmonton? Dando uma olhada na internet?”
“Não tive muito tempo pra isso”, admito. “Estou concentrado no jogo contra Briar.”
“Verdade, bem pensado.” Ele pega a tábua de mim e com a faca empurra os cogumelos e os pimentões picados para a omelete na frigideira. “Então… Hazel veio com você…”
“Isso é um problema agora?” Dou risada, porque Hazel já veio à casa deles se não centenas, milhares de vezes.
“Não, de maneira nenhuma.” Ele olha por cima do ombro largo para mim e ri, inocente. “Foi só meu jeito viril e descontraído de perguntar se vocês dois estão finalmente juntos.”
Meus pais são incorrigíveis quando se trata desse assunto. “Não, não estamos.”
“Por que não? Além de deixar sua mãe muito, muito feliz, seria bom pra você também. Manteria seus pés no chão em Edmonton.”
Sento numa banqueta. “Somos só amigos, pai.”
“Eu sei, mas talvez…”
“Que cheiro bom”, Hazel declara, e sou grato pela interrupção.
Minha mãe chega por trás de mim e bagunça meu cabelo, então me dá um beijo no topo da cabeça. “Você não me deu um abraço quando chegou”, ela cobra.
“É, porque você estava desesperada pra mostrar a sala pra Hazel.”
Hazel senta na banqueta ao meu lado e o clima na cozinha fica muito mais leve. Por dentro, no entanto, volto a remoer o fato de que faz três dias que não falo com Brenna.
É só quando estamos voltando a Cambridge que Hazel é direta comigo. “Tá, o que é que está acontecendo, Connelly? Você passou a manhã inteira distraído e mal-humorado. Até sua mãe notou.”
“Não tem nada acontecendo”, minto.
Ela me encara. “Está nervoso por jogar contra a gente no próximo fim de semana?”
“De jeito nenhum. Vamos acabar com vocês.”
Hazel me mostra a língua. “Nem sei pra quem torcer.”
“Sabe, sim. É claro que vai torcer pro seu melhor amigo.”
Hazel descansa a cabeça no meu ombro enquanto o trem ganha velocidade. “Você está esquisito, quer admita ou não. E pareceu distante das últimas vezes que conversamos”, ela diz. “Está puto comigo ou algo assim?”
“Claro que não. Só tenho muita coisa na cabeça.”
Ela hesita por um bom tempo. “É uma garota?”
“Não.”
Hazel levanta a cabeça de repente, fixando seus olhos desconfiados em mim. “É uma garota, não é? Está saindo com alguém?”
“Não.”
“Está mentindo pra mim?”
“Sim.”
Hazel ri, mas sem muita vontade. Não consigo decifrar sua expressão, mas acho que pode estar escondendo certa reprovação.
“Que foi? Não posso sair com alguém?”, pergunto, casualmente.
“Não é isso. É só que… você não namora, lembra?”
“É, e esse é um dos motivos.” Fico mais sombrio. “Ser ignorado é uma droga.”
“Ela está ignorando você?”, Hazel pergunta. “O poderoso Jake Connelly está levando um gelo?”
“Mais ou menos… Não é exatamente isso, porque não é como se ela não tivesse me avisado. Ela falou comigo ao vivo, mas foi um término meio vago.”
“Término?”, Hazel repete, surpresa. “Quanto tempo vocês ficaram juntos?”
“Pouco, na verdade. Algumas semanas.”
Hazel começa a brincar com o anel no dedão. Ela usa bastante bijuteria mais casual, principalmente anéis e pulseiras, e esse anel em particular foi meu presente de Natal para ela. A prata reflete a luz do trem conforme Hazel o gira no dedão.
“E você está assim apegado depois de algumas semanas?”, ela por fim diz.
“Bom, estou de olho nela há mais tempo que isso. Mas só ficamos juntos agora.”
“Vocês saíram de verdade? Tipo, tiveram um encontro?”
“Sim.”
Ela gira mais o anel. “E foi bom?”
“Muito bom”, confesso. “Não sei, a gente estava se dando bem, então ela desencanou.”
“Então, é uma tonta.”
“Não, nem um pouco. É bem legal, na verdade. Acho que você ia gostar dela.”
“Como ela chama?”
“Bre…” Paro de repente.
“Bre?” Uma ruga se forma na testa de Hazel. “Que nome é esse?”
Hesito antes de decidir ser sincero. Hazel nem é do mundo do hóquei, não vai saber de quem realmente se trata.
“O nome dela é Brenna”, revelo.
“É um nome bonito.” Hazel inclina a cabeça. “Ela é bonita?”
“Linda.”
“Imaginei que fosse. Quer dizer, uma garota qualquer não ia conquistar o coração do escorregadio Jake Connelly.”
Dou de ombros. “Ela não conquistou meu coração e não sou escorregadio.”
“Cara, todas as meninas da escola queriam ficar com você, e nenhuma conseguiu. Você é inquestionavelmente escorregadio. Tipo uma enguia.” Hazel volta a brincar com o anel. “Me conta mais dela.”
“Não, não quero fazer isso.”
“Por quê? Não podemos falar de relacionamentos?”
“Nunca falamos.”
“E?”
“Tá. Você começa”, desafio.
“Tudo bem. Vamos falar do meu namorado.” Ela sorri para mim. “Ele não existe. Sua vez.”
Tenho que rir. Ela me pegou. “Não sei, o que quer que eu diga? O nome dela é Brenna. Ela é incrível. Terminamos. Ou talvez só estejamos dando um tempo. É tudo o que tem pra saber.”
“Ela estuda em Harvard?”
“Não.”
“Mas faz faculdade?”
“Sim.”
Hazel suspira dramaticamente. “Vai me contar onde?”
Penso a respeito. “Promete não contar pra ninguém?”
“Claro.” A ruga em sua testa se aprofunda.
“Ela é da Briar.”
Um brilho indecifrável passa pelos olhos de Hazel. Sua mandíbula fica tensa por um instante, então relaxa. Ela volta a girar o anel. “Tá. Ela é da Briar. E?”
“E é filha do técnico do time de hóquei deles.”
Apesar de seu completo desinteresse por hóquei, até Hazel compreende como isso é complicado. “Está falando sério?”
Assinto. “O nome dela é Brenna Jensen. É a filha de Chad Jensen.” Solto o ar com força. “E está me deixando louco.”
“Como assim?”
“Não consigo parar de pensar nela. Sei que é uma péssima ideia me envolver, principalmente quando vamos jogar contra vocês no próximo fim de semana. Mas…” Me remexo, desconfortável. “Gosto dela.”
“Você gosta dela”, minha amiga repete.
“Isso.”
“E está distraído e mal-humorado porque ela tem ignorado você.”
“Isso.”
Hazel fica em silêncio.
“Que foi?”, pergunto. Sempre sei quando ela tem algo em mente. “Em que está pensando?”
“É só que… já te ocorreu que pode ter sido parte do plano dela?”
“Que plano?”
“É sério que não enxerga?” Hazel me encara como se eu fosse o maior tapado do mundo. “Todo mundo sabia que a final da conferência provavelmente seria entre Harvard e Briar. Algumas semanas antes desse jogo superimportante, a filha do técnico da Briar de repente se interessa por você e, como disse, te deixa ‘louco’. Agora você está distraído e aposto que não está dando tudo de si nos treinos por causa dessa obsessão com a garota. Está vendo aonde quero chegar, Jake?”
Estou, e é engraçado, porque naquela primeira noite do jantar eu a acusei de fazer exatamente o que Hazel está sugerindo. Brenna negou, e eu acreditei na época e ainda acredito. Não sou mais cínico em relação a Brenna Jensen.
“Ela não é assim”, digo apenas. “Pode torcer pelo time e apoiar o pai, mas não está tentando me sabotar.”
“Como sabe disso?”
“Só sei.”
“Apostaria sua vida nisso?”, Hazel pergunta, me desafiando.
“Não preciso”, respondo, seco. “Mas, sim, tenho certeza de que não é tudo um plano maligno da parte dela.”
“Se você diz…”
Mas o olhar de “meu Deus do céu, você é tão idiota” no rosto de Hazel me diz que ela não acredita nisso.