The Risk
31. Brenna
31
BRENNA
Vinte e quatro horas depois do show de horrores que foi a final da conferência, ainda estou lidando com a crise. Minha raiva do que Daryl Pedersen fez não arrefeceu nem um pouco. O cretino vingativo não precisava ter feito aquilo, muito menos em público. Em seguida, os jogadores de Harvard o seguiram, meu pai foi com os da Briar para o ônibus e eu voltei para casa com Summer, que ficou visivelmente magoada por eu não ter contado sobre mim e Jake Connelly.
Mas pelo menos ela ainda está falando comigo. Meu pai não me dirigiu a palavra desde ontem à noite. Não sei se ele está puto ou se só não liga, de verdade. Sei exatamente o que Nate e os outros sentem, no entanto.
Os jogadores estão todos ofendidos. Hollis me chamou de traíra ontem à noite. Nate, ainda chateado por ter sido expulso da final, ficou horrorizado que eu ousasse continuar saindo com um cara de Harvard depois de toda a confusão que Jonah Hemley causou durante o jogo. Quando cheguei em casa de Cambridge, recebi uma mensagem amarga de Hunter: Quebrei o pulso em dois lugares. Agradeça ao seu namorado por mim.
Eles estão sendo infantis. Sei bem disso. Mas ainda são meus amigos, e lidaram com uma derrota brutal ontem. Uma derrota que poderia não ter ocorrido se um colega de time de Jake não tivesse tirado Hunter e Nate da partida.
Não importa que Jake em si não tenha nada a ver com isso. Ele é o capitão do time, o inimigo, e eu sou a babaca que “preferiu ele a nós” — palavras de Hollis, não minhas.
“Ainda não posso acreditar que você não confia em mim.”
A voz infeliz de Summer ecoa no meu ouvido. Estou deitada na cama olhando para o teto, tentando ignorar o estômago roncando. Achei que a ligação de Summer ia me distrair da fome, mas não foi o caso. Mais cedo ou mais tarde, vou ter que me arrastar lá para baixo e pegar algo para comer. O que significa que vou ter que encarar meu pai, que está recolhido na sala a noite toda.
“Confio em você”, garanto a Summer.
“É mesmo?”, ela diz, em dúvida.
“Claro que sim. Mas, como disse no carro ontem à noite, não queria arriscar. Você é do tipo que conta tudo ao namorado, e tudo bem, pelo menos na maior parte do tempo. Mas as coisas já estavam bem tensas entre Briar e Harvard, principalmente depois daquela brincadeira idiota com o carro de Jesse. Não queria correr o risco de Fitz ficar sabendo, pelo menos não antes da final. Mas agora o jogo já foi, e quem vai para o nacional é Harvard. Não tenho mais razão pra esconder nada.”
“Acho que faz sentido”, ela diz, ainda que a contragosto. Depois de um momento, muda ligeiramente de assunto. “Não consigo acreditar que aquele babaca quebrou o pulso de Hunter.”
“Eu sei.”
“E tudo porque ele tem ido atrás de qualquer coisa que use saia ultimamente. Se não tivesse dormido com a garota, poderíamos ter ganhado o jogo.”
“Ele não sabia que ela tinha namorado”, aponto.
“Eu sei. Mas mesmo assim. Por que os homens são tão idiotas?”
“Sinceramente, não sei.”
Outra pausa. “Então, Jake Connelly é seu namorado?”
“Não.” Mas não posso evitar sorrir, porque estou esperando pelo interrogatório desde ontem à noite. Acho que Summer estava chateada demais por ter ficado no escuro para pedir mais informações a respeito. Agora que a mágoa passou, a detetive Di Laurentis está de volta ao caso.
“Vocês dormiram juntos?”
“Sim.”
“Como foi?”
“Bom.”
“Só bom?”
“Foi muito bom”, corrijo.
“Só muito bom?”
“Não vou continuar com esse jogo, sua pentelha”, interrompo.
“Desculpa.” O interrogatório termina. “Então, você dormiu com ele. E os dois vêm se encontrando escondido há anos…”
“Não faz anos”, resmungo.
“Mas desde meu desfile de moda”, ela insiste.
“É, por aí.”
“Você gosta dele? Espera aí, por que estou perguntando isso? Sei que gosta.” Sua voz fica mais e mais animada a cada segundo. “Acho ótimo, aliás. Quer dizer, ele é insanamente lindo. Poderia ficar olhando pro cara por horas e horas.”
Tento não rir. “Que bom que aprova.”
Ela fica séria de repente. “E eu aprovo. De verdade.”
“Só você.”
“Eles vão superar.”
Conversamos por mais alguns minutos. Depois que desligamos, meu estômago ronca de novo, e decido que é hora de encarar a situação e ir lá para baixo. Não posso evitar meu pai para sempre. Além disso, estou morta de fome.
Sei que ele me ouve descendo a escada por causa dos degraus rangendo, mas não vira quando chego. Está vendo HockeyNet. Como o jogo foi transmitido ontem, não passaram um compacto, mas Kip Haskins e Trevor Trent estão falando sobre ele em seu programa.
Ou melhor: estão discutindo sobre ele.
“Sempre tem briga entre os profissionais”, Kip resmunga. “Não sei por que a liga universitária é tão severa nesse sentido.”
“Porque os jogadores são umas crianças”, Trevor aponta.
“Está de brincadeira comigo? Alguns são mais velhos que jogadores da liga profissional!”, Kip argumenta. “Toronto tem um jogador de dezoito anos no elenco. Minnesota tem dois de dezenove. Eles são colocados em um ambiente altamente violento e dão conta. E agora você vem me dizer que universitários de vinte e um ou vinte e dois anos são delicados demais pra aguentar alguns socos e…”
Meu pai pausa a imagem quando me nota.
“Oi”, digo.
Ele grunhe. Não sei se com isso quer dizer “oi” ou “cai fora daqui”.
“Podemos conversar?”
Outro grunhido.
Engolindo um suspiro, vou para a sala e sento na outra ponta do sofá. Meu pai observa com cuidado, sem dizer uma palavra. Está claramente esperando que eu comece, então o faço.
“Desculpa não ter dito que estava saindo com Jake Connelly.” Dou de ombros, sem jeito. “Se ajuda, não contei a ninguém.”
Ele bate os dentes. “Daryl Pedersen parecia saber.”
“Ele viu a gente juntos em Harvard um dia.”
A raiva toma conta de sua expressão. “Você teve contato com Pedersen?”
“Sim. Quer dizer, não. Só uma vez. Uma conversa.”
Meu pai fica em silêncio por um longo e tenso momento. Não consigo ler sua expressão e não tenho ideia do que se passa em sua mente.
“Quero que fique longe daquele homem”, ele finalmente murmura.
“Pai…”
“Estou falando sério, Brenna!” Ele levanta a voz, e agora sua expressão é fácil de decifrar: amarga, fria e reprovadora. Mas qual é a novidade aí? “Daryl Pedersen é um cretino egoísta. Era um jogador desonesto e agora é um treinador desonesto. Não tem honra dentro ou fora do jogo. Fique longe dele.”
Balanço a cabeça, exasperada. “Pai. Não ligo pra sua briguinha idiota com Pedersen. Nem um pouco. Não tem nada a ver comigo, e se estiver preocupado que vá passar meu tempo livre com ele, posso garantir que não vou. Por que faria isso? Quanto a Jake…”
“Fique longe dele também”, meu pai resmunga.
“Ah, não…” Solto o ar devagar. “Jake é um cara legal. Qual é o problema em sair com ele?”
“Não vou passar por isso de novo.” Ele fixa seus olhos nos meus. “Não vou ver isso acontecer de novo. Já bastou Eric…”
“Jake não é Eric. E nosso relacionamento não tem nada a ver com o que tive com Eric. Eu tinha quinze anos quando começamos a namorar. E dezesseis quando…”
“Não quero mais passar por isso!”, ele explode. “Ouviu bem?”
“Ouvi. Mas você não me ouviu.” Passo os dedos pelo cabelo, cada vez mais agitada por dentro. “Jake não tem nada a ver com Eric. Ele é inteligente, disciplinado, não é festeiro. Juro que o cara é o maior talento da geração dele. Vão falar de Jake por décadas. E ele é um cara legal. Estava comigo na noite em que precisei ajudar Eric…”
“Então, ele é o amigo com quem você passou a noite?” Os lábios do meu pai se contraem. “Imagino que também seja quem você fica indo encontrar em Boston. Foi por isso que não conseguiu o estágio na HockeyNet? Porque está tão envolvida com esse cara que nem pensou em se preparar para as entrevistas?” Ele ri, sem achar graça. “E está me dizendo que não tem nada a ver com Eric e tudo que aconteceu?”
Meu queixo cai. “Está brincando? Eu me preparei muito pras entrevistas. Não consegui o estágio porque o responsável acha que meu conhecimento de esportes é uma graça.” A raiva me aquece por dentro. “E, sim, passei aquela noite na casa de Jake, mas não vou me desculpar por isso.”
“Então, talvez você deva passar mais algumas noites lá”, meu pai retruca.
Um segundo passa. Dois. Três.
“Está me botando pra fora de casa?”, pergunto, surpresa.
“Não.” Ele balança a cabeça. “Na verdade, estou. Se está determinada a voltar ao comportamento absurdo da escola, passando a noite toda na rua e jogando sua vida fora com um jogador de hóquei…”
“Não estou jogando minha vida fora. Você está exagerando e sendo ridiculamente irracional agora.”
“Irracional? Você não tem ideia de como é quase perder sua filha”, ele solta. “Não tem ideia, Brenna. Então, me perdoe se não estou muito otimista quanto à sua relação com Connelly. Você tem um histórico de tomar péssimas decisões.”
Sinto como se tivesse levado um golpe. Meu coração bate duas vezes mais rápido enquanto tento ordenar as ideias — enquanto tento colocar em palavras, porque suas acusações são como um tapa na cara.
“Apesar do que pensa, faz tempo que venho tomando decisões inteligentes”, digo, com amargura. “Apaguei um histórico escolar fraco fazendo faculdade comunitária e me saindo superbem lá. Tanto que consegui entrar em uma das melhores universidades do país sem nenhuma ajuda sua, ou de qualquer outra pessoa. Acha que foi uma péssima decisão? Você se recusa a reconhecer que cresci ou amadureci. Prefere continuar pensando em mim como uma adolescente egoísta que perde a cabeça por causa de um garoto? Vá em frente, então.” Levanto, com as pernas rígidas. “Vou pegar minhas coisas e ir embora.”