The Risk
3. Brenna
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BRENNA
“Onde você esteve? Liguei três vezes, Brenna.”
O tom brusco do meu pai sempre me deixa tensa. Ele fala comigo do mesmo jeito que fala com seus jogadores — de um jeito seco, impaciente e implacável. Gostaria de dizer que sempre foi assim, que ele latiu e rosnou para mim a vida inteira. Mas seria mentira.
Meu pai nem sempre se precipitava assim comigo. Minha mãe morreu em um acidente de carro quando eu tinha sete anos, o que fez com que ele assumisse a função materna também. E era bom nos dois papéis. Falava comigo com amor e ternura no rosto e na voz. Me colocava em seu colo, bagunçava meu cabelo e dizia: “Me conta como foi a escola hoje, princesa”. Ele sempre me chamava assim.
Mas isso faz muito tempo. Agora, sou só Brenna, e não consigo lembrar a última vez que associei “amor” ou “ternura” ao meu pai.
“Eu estava voltando pra casa na chuva”, respondo. “Não podia atender.”
“Voltando de onde?”
Tirei as botas no corredor bagunçado do porão onde moro. Alugo essa espécie de apartamento subterrâneo de Mark e Wendy, um casal simpático que viaja bastante. Como tenho uma entrada separada, posso ficar semanas sem encontrar os dois.
“Da lanchonete. Fui tomar um café com um amigo”, digo.
“Assim tarde?”
“Tarde?” Viro o pescoço para a cozinha que é ainda menor que o corredor e confiro as horas no relógio do micro-ondas. “Não são nem dez.”
“Não tem uma entrevista amanhã?”
“E daí? Acha que porque cheguei em casa às nove e meia não vou acordar com o despertador?” Não consigo evitar o sarcasmo. Às vezes, é difícil não ser tão agressiva com meu pai quanto ele é comigo.
A provocação é ignorada. “Falei com Stan Samuels hoje”, ele diz. “É operador de controle mestre e um cara muito confiável.” A voz do meu pai fica rouca. “Avisei que você iria amanhã e falei bem de você.”
Eu me derreto um pouco. “Ah. Que legal da sua parte. Obrigada.” Algumas pessoas ficariam incomodadas com isso, mas não tenho problema nenhum em usar os contatos do meu pai para conseguir o estágio. A concorrência é altíssima e, embora eu esteja mais do que qualificada — me matei para isso —, tenho a desvantagem de ser mulher. Infelizmente, é uma área dominada pelos homens.
O curso de TV da Briar prevê estágio no último ano, mas quero me adiantar aos outros. Se conseguir um estágio de férias na HockeyNet, há uma grande chance de poder continuar quando chegar a hora do estágio obrigatório. Isso não só representaria uma vantagem em relação aos meus colegas, mas uma possibilidade de ser contratada assim que me formar.
Meu objetivo sempre foi trabalhar como jornalista esportiva. Sim, a HockeyNet só tem uma década de existência (e a originalidade devia estar em falta quando escolheram esse nome), mas o canal cobre exclusivamente hóquei, e seu lançamento tapou um buraco profundo no mercado da cobertura esportiva. Vejo a ESPN religiosamente, mas uma das minhas maiores reclamações é a cobertura deficiente desse esporte. O que é notório. Quer dizer, na teoria, o hóquei é o quarto maior esporte do país, mas as maiores redes de televisão o tratam como se fosse menos importante que Nascar, tênis ou — credo — golfe.
Sonho em aparecer na tela sentada à mesa-redonda com todos aqueles comentaristas, mostrando os destaques, analisando jogos, fazendo previsões. O jornalismo esportivo é um caminho difícil para uma mulher, mas sei tudo de hóquei e estou confiante para a entrevista amanhã.
“Depois me conta como foi”, meu pai pede.
“Conto, sim.” Enquanto caminho pela sala, sinto a meia do pé esquerdo molhar e solto um gritinho.
Meu pai fica preocupado na hora. “Tudo bem aí?”
“Desculpa, está tudo bem. É só o carpete molhado. Devo ter derramado alguma coisa…” Paro quando noto uma pequena poça em frente à porta de correr que dá para o quintal. Ainda está chovendo lá fora, as gotas batendo em ritmo constante nas pedras do chão. “Droga. Está acumulando água na porta dos fundos.”
“Isso não é bom. Do que se trata? O escoamento está levando a água para dentro?”
“Como vou saber? Acha que estudei o escoamento antes de mudar?” Ele não consegue me ver revirando os olhos, mas faço o meu melhor para que perceba a minha reação na minha voz.
“De onde vem a umidade?”
“Já falei, está perto da porta de correr.” Contorno a sala, o que leva cerca de três segundos. Só está molhado perto da porta.
“Certo. É um bom sinal. Significa que provavelmente não é o encanamento. Mas se é o escoamento de água pluvial, pode haver vários culpados. A entrada da garagem é pavimentada?”
“É.”
“Os proprietários talvez tenham que considerar drenagem artificial. Ligue para eles amanhã e peça que verifiquem isso.”
“Tá bom.”
“Estou falando sério.”
“E eu disse ‘tá bom’.” Sei que meu pai está tentando ser prestativo, mas por que sempre tem que usar esse tom comigo? Tudo com Chad Jensen é uma ordem, nunca uma sugestão.
Ele não é um cara ruim, eu sei. Só é superprotetor, e houve um tempo em que tinha motivo para tanto. Mas estou morando sozinha há três anos. Posso cuidar de mim mesma.
“Você vai ao jogo no sábado, certo?”, meu pai pergunta, brusco.
“Não posso”, digo, genuinamente triste de perder uma partida tão importante. Mas planejei outra coisa há eras. “Vou visitar Tansy, lembra?” Ela é minha prima favorita, filha da irmã mais velha do meu pai, Sheryl.
“É esse fim de semana?”
“É.”
“Está bem. Mande oi por mim. Diga que espero ver Tansy e Noah na Páscoa.”
“Pode deixar.”
“Você vai dormir lá?” A pergunta é feita num tom cortante.
“Duas noites, na verdade. Vou para Boston amanhã e volto no domingo.”
“Não faça…” Ele para.
“Não faça o quê?” Desta vez, o tom cortante é meu.
“Não faça nada impensado. Não beba demais. Seja responsável.”
Gosto que não diga “Simplesmente não beba”, mas isso provavelmente é só porque sabe que não tem como me impedir. Depois que fiz dezoito anos, meu pai não podia mais me forçar a voltar para casa em determinado horário ou a seguir suas regras. Quando fiz vinte e um, já não podia mais me impedir de tomar uma bebida ou duas.
“Vou ficar bem”, prometo, porque é a única coisa que posso prometer com segurança.
“Bren”, ele diz, então para de novo.
Sinto que a maior parte das minhas conversas com meu pai é assim. Começa e para. Queremos dizer alguma coisa, mas não dizemos. É muito difícil estabelecer qualquer tipo de conexão com ele.
“Pai, podemos desligar agora? Quero tomar um banho quente e me arrumar pra dormir. Tenho que acordar cedo amanhã.”
“Tudo bem. Depois me diga como foi a entrevista.” Ele faz uma pausa. Quando fala de novo, é para me encorajar, o que é raro. “Vai se sair bem.”
“Obrigada. Boa noite, pai.”
“Boa noite, Brenna.”
Desligo e faço exatamente o que disse — tomo um banho escaldante, porque a caminhada de vinte minutos na chuva me deixou morrendo de frio. Estou mais vermelha que uma lagosta quando saio do box apertado. O pequeno cômodo não tem banheira, o que é uma pena. Banhos quentes de banheira são incríveis.
Não gosto de dormir de cabelo molhado, então me seco rapidamente e vou até a cômoda atrás do meu pijama mais quente. Pego uma calça xadrez e uma camiseta de manga comprida com o símbolo da Briar. Porões costumam ser frios, e o meu não é exceção. É uma surpresa não ter pegado pneumonia nos sete meses em que moro aqui.
Quando entro debaixo das cobertas, desconecto o celular do carregador e vejo que Summer ligou. Desconfio que vai ligar de novo se eu não ligar, provavelmente cinco segundos depois que eu dormir, então ligo para ela antes que estrague uma boa noite de sono.
“Está brava comigo?”, é como ela me cumprimenta.
“Não.” Eu me encolho de lado, com o celular apoiado no ombro.
“Mesmo eu tendo marcado o encontro com Jules e dito que ele era legal?” Sua voz está cheia de culpa.
“Sou adulta, Summer. Você não me forçou a aceitar.”
“Eu sei. Mas me sinto péssima. Não acredito que ele não apareceu.”
“Não esquenta. Não estou nem um pouco chateada. Provavelmente me livrei de uma boa.”
“Então tá.” Ela parece aliviada. “Vou encontrar alguém melhor pra você.”
“Não vai, não”, digo, animada. “Está oficialmente dispensada de seus deveres de casamenteira. Que foram concedidos por você mesma, aliás. Confia em mim, não tenho nenhuma dificuldade em conhecer caras.”
“Você pode ser ótima em conhecer, mas em sair é péssima.”
Protesto na hora. “Porque não estou a fim de sair com ninguém.”
“Por que não? Namorar é superlegal.”
Talvez, se seu namorado for Colin Fitzgerald. Summer está saindo com um dos caras mais gente fina que já conheci. Inteligente, bonzinho, esperto e lindo pra caralho.
“Você e o Fitzy ainda estão obcecados um pelo outro?”
“Totalmente. Ele aguenta minhas maluquices e eu aguento as nerdices dele. Fora que é o melhor sexo do mundo.”
“Aposto que Hunter adora isso”, digo, seca. “Espero que você não seja do tipo que grita.”
Hunter Davenport mora com Summer e Fitz, e foi recentemente rejeitado por ela. Summer topou sair com ele uma vez, mas em seguida se deu conta de que seus sentimentos pelo outro eram fortes demais para ignorar. Hunter não levou isso numa boa.
“Nossa, você não tem ideia de como é difícil tentar ficar quieta enquanto Fitz faz sua magia mágica com meu corpo”, Summer diz com um suspiro.
“Magia mágica?”
“É, magia mágica. Mas se estiver preocupada que Hunter esteja deitado na cama ouvindo a gente e chorando inconsolável, não precisa. Ele traz uma garota diferente a cada noite.”
“Bom pra ele.” Dou uma risadinha. “Aposto que Hollis está morrendo de inveja.”
“Não sei nem se Mike notou. Está ocupado demais chorando por você.”
“Ainda?” Droga. Imaginei que já tivesse passado.
Fecho os olhos por um momento. Já fiz muita coisa idiota na vida, mas ficar com Mike Hollis foi a pior. Estávamos os dois muito bêbados, então só demos uns pegas descuidados e eu dormi enquanto batia uma pra ele. Definitivamente não foi meu melhor momento, nem foi memorável. Não sei por que o cara gostaria de repetir aquilo.
“Ele está apaixonado”, Summer confirma.
“Vai passar.”
Summer ri, mas seu bom humor morre rápido. “Hunter está sendo muito babaca com a gente”, ela admite. “Quando não está trepando com qualquer uma que use saia.”
“Acho que ele gostava de verdade de você.”
“Sinceramente? Acho que não é por minha causa. É mais o Fitz.”
“Entendo total que ele queira pegar o cara”, digo, solene. “Quer dizer, quem não quer?”
“Não, sua pentelha. Fitz mentiu na cara dura quando Hunter perguntou se ele gostava de mim. O cara vê isso como uma traição.”
“E é mesmo”, tenho que admitir. “Especialmente considerando que os dois são colegas de time.”
“Eu sei. Fitz diz que os treinos têm sido tensos.” Summer geme. “E se afetar o desempenho deles na semi, Bee? E se Yale for pra final?”
“Meu pai vai dar um jeito neles”, garanto a ela. “E pode dizer o que quiser sobre Hunter, mas ele gosta de vencer nos jogos. Não vai deixar que uma briguinha por causa de uma garota — sem ofensa — o distraia.”
“Será que eu devia…”
Sua pergunta é interrompida por uma vibração no meu ouvido.
“O que foi isso?”
“Mensagem de texto”, explico. “Desculpa, pode continuar. O que você estava dizendo?”
“Eu estava pensando se devia falar com ele.”
“Não acho que vá fazer diferença. O cara é teimoso. Mas uma hora vai crescer e superar.”
“Espero que sim.”
Conversamos por mais um tempo, até que minhas pálpebras começam a pesar. “Summer. Tenho que dormir agora. Tenho aquela entrevista amanhã cedo.”
“Tá bom. Me liga amanhã. Te amo.”
“Também te amo.”
Estou prestes a desligar o abajur quando me lembro da mensagem recebida. Clico no aplicativo e estreito os olhos quando vejo o nome de McCarthy.
Oi, B. Foi mto legal curtir com vc, mas preciso parar por um tempo. Pelo menos até o fim do campeonato. Tenho que focar no jogo, sabe? Te ligo qd tudo acalmar. Bjs
Meu queixo cai. É uma brincadeira?
Releio a mensagem, e é aquilo mesmo. McCarthy terminou comigo.
Parece que Jake Connelly acaba de declarar guerra.