The Risk
23. Jake
23
JAKE
“Você acha que tenho bunda-bolha?”
Passo os olhos pelas mensagens, mas não tem nenhuma de Brenna. Faz cinco dias. Cinco dias de silêncio completo. É inaceitável.
“Ei! Está me ouvindo?”
Levanto a cabeça e olho para Brooks. Estamos na sala de vídeo da arena, esperando o resto do time chegar. Vamos assistir a gravações de jogos esta manhã, o que é sempre legal. Vou poder ver os amigos de Brenna patinando na tela grande.
Merda. Hazel está certa. Não consigo parar de pensar nela, e isso não é bom.
“Não vai responder?”, Brooks pergunta.
“Não, porque não entendi a pergunta.” Deixo o celular de lado e me recosto na cadeira estofada, cruzando os braços atrás da cabeça.
“Não é tão difícil, Connelly. Você acha que tenho bunda-bolha?”
Eu o encaro. “O que é uma bunda-bolha?”
“É autoexplicativo.” Ele passa a mão pelo cabelo loiro, frustrado.
“É tipo uma bunda gorda?”
“Não, não é uma bunda gorda. Caralho. São tipo duas bolas perfeitamente redondas e durinhas. Tipo duas bolhas, só que na bunda. Daí o nome.” Ele parece exasperado. “Que parte você não entendeu?”
Continuo confuso. “Por que quer saber?”
Ele se joga numa cadeira. “Porque, ontem à noite, peguei a Kayla…”
“Ah, eu sei”, digo, seco. “Ouvi tudo.”
“… e a gente estava pressionado contra a parede, sabe? Com as pernas delas em volta da minha cintura. Fiquei segurando a bunda dela e descendo o corpo no meu pau…”
“Cara, não quero ouvir isso, sério.”
“Juro que vou chegar a algum lugar com isso”, ele insiste.
O pessoal do time começa a chegar. Coby, McCarthy, Dmitry. Heath e seu companheiro no crime do chantili, Jonah. Alguns caras do último ano.
Brooks não se incomoda com o público. “Bom, a gente estava trepando de pé, com ela agarrada aos meus ombros. A porta do armário estava aberta, então ela conseguia ver a gente no espelho de corpo inteiro.” O tom de voz dele é ultrajado. “De repente, ela começa a rir, e eu fiquei, tipo, do que é que você está rindo? Ela disse que era porque tinha acabado de notar minha bunda-bolha.”
“O que está rolando aqui?”, Adam, um calouro, pergunta, desanimado. O coitado do garoto ainda não se adaptou ao time. Seria de imaginar que depois de uma temporada quase inteira estaria mais acostumado com essa maluquice.
Brooks gira a cadeira em que está sentado. A sala de vídeo em que estamos é bem legal. As cadeiras são estofadas e giratórias, e tem uma tela gigante que ocupa quase toda a parede. Fora toda a tecnologia que o treinador gosta de usar para separar imagens e destacar certas jogadas.
“O que é uma bunda-bolha?”, Heath pergunta.
“Quando sua bunda é feita de duas bolas redondinhas”, Coby responde.
“Viu? Ele sabe do que estou falando!” Brooks aponta para ele, assentindo em aprovação. “A minha é assim?”, ele pergunta ao pessoal.
“Cara, odeio decepcionar você”, digo, “mas nunca olhei sua bunda direito. Ou a bunda de outros caras, aliás. E como não sei qual é a aparência de uma bunda-bolha, não posso julgar a sua. Então, pelo amor de Deus, podemos falar de outra coisa?”
Parece que não, porque Brooks já está marchando em direção a um dos laptops na mesa do treinador. O cara dá alguns cliques e, então, uma página de internet aparece na grande tela atrás dele. “Tá. Então…” Ele digita “bunda bolha” na busca de imagens.
Dois segundos depois, fileiras e fileiras de fotos aparecem na tela, todas de bundas femininas muito interessantes.
“Argh, não, não quero ver bunda de mulher.” Ele altera a busca para “bunda bolha homem”.
A primeira imagem que aparece é de um homem completamente vestido dentro de uma bolha de verdade.
“O que é que esse cara está fazendo dentro de uma bolha?”, Coby pergunta.
“Vai ver ele tem aquela doença da bolha”, alguém sugere. “Que faz você ter que se isolar do resto do mundo.”
“A bolha não é a doença”, Dmitry diz, rindo. “É a solução.”
“Por que é tão difícil encontrar imagens de bunda de homem?”, Brooks reclama. “Tá bom, galera. Se prepara.”
“Weston”, alerto. “O que quer que esteja prestes a fazer, por favor, não faça.”
Infelizmente, não tem como parar o cara quando está obstinado, especialmente se for algo relacionado à aparência dele. Brooks é vaidoso pra caralho.
Quando um site pornô surge na tela, sou rápido em outro alerta: “É melhor sair antes que o treinador chegue”.
Brooks dá uma olhada no relógio em cima da porta. “Ainda temos dez minutos, e ele nunca chega antes. É um cara pontual.”
É verdade, mas não significa que quero ficar vendo pornografia no laptop da universidade.
Brooks clica na área de pesquisa e escreve “bunda bolha”. De repente, me dou conta de que não é só um site pornô. É um site de pornô gay. Ótimo.
“Pronto!”, diz Brooks, triunfante. “Ela acha que minha bunda é assim!” Ele clica em uma imagem com a legenda “metendo forte na bunda-bolha”.
Coby resmunga. “Cara, não quero ver essa merda.”
Mas Brooks pausa o vídeo antes que o sexo comece. Na verdade, só tem um cara na imagem, um loiro alto de aparência nórdica que decide tirar toda a roupa na academia de jiu-jítsu porque aparentemente é isso que as pessoas fazem.
Brooks dá um close na bunda do cara. Não vou mentir: a bunda dele lembra mesmo duas bolhas. O resto do corpo é magro e malhado, então a bunda chama toda a atenção.
“É a primeira coisa que se nota no cara”, Coby admite. “Meu olho foi direto pra bunda.”
“O meu também”, concordo. “Esquisito, não?”
“É o meu caso?”, Brooks quer saber. “Porque, se for, é uma merda. Olha só. Completamente desproporcional em relação ao resto do corpo.”
“Cara, acabamos de falar que nunca prestamos atenção na sua bunda”, digo, irritado. “Não dá pra comparar.”
“Tá bom, tá bom…”
Ele vira e abaixa a calça.
O treinador Pedersen entra na sala no mesmo instante.
Ele para na mesma hora. Seu olhar vai do homem pelado na tela para a bunda exposta de Weston. Então, ele faz cara feia para o restante de nós. “Qual é o problema de vocês?”
“Não é o que parece”, Brooks tenta assegurá-lo.
“Não é? Porque parece que você quer que comparem sua bunda com a bunda da tela, e a resposta é: são idênticas. Agora fecha essa calça, desliga essa porcaria e vai sentar, Weston.”
Brooks parece genuinamente devastado ao fechar a calça. “Tenho bunda-bolha. É como se minha vida inteira tivesse sido uma mentira.”
Johansson, o goleiro, ri. “Cirurgia plástica é sempre uma opção.”
“Já chega”, o treinador corta. “Não temos tempo pra essa merda. Vamos enfrentar o time de Jensen em cinco dias. O jogo vai passar em todas as TVs locais, e ouvi rumores sobre uma transmissão pela HockeyNet também. Então, me digam: querem passar vergonha ou ganhar?”
“Ganhar”, todo mundo murmura.
“Querem bater uma olhando pra bunda do Weston ou querem ganhar?”
Levantamos a voz. “Ganhar!”
“Ótimo. Então, calem a boca e prestem atenção.”
Depois da reunião, Pedersen me segura antes que possa seguir meus colegas saindo. “Connelly, venha aqui.”
Enfio as mãos nos bolsos e caminho em sua direção. “O que foi, treinador?”
“Sente.” Com base em sua expressão dura, ele não me chamou para inflar meu ego. Obedeço, e ele fica de pé à minha frente, com os braços cruzados sobre o peito musculoso. “Qual é o problema?”
“Como assim?”
“Só quero saber qual é o problema com você. Patinou mal no treino da manhã. Foi dois segundos mais lento que o normal. Ainda foi mais rápido que a média dos jogadores, mas pra você foi devagar.”
“Eu estava distraído”, admito.
“E à tarde? Em geral, você chega cedo, e quando entro já está conduzindo a reunião, repassando os vídeos. Hoje entrei e Weston estava mostrando a bunda pra todo mundo enquanto viam pornô gay.”
“Não estávamos vendo pornô gay”, garanto. “Só estávamos…” A frase morre no ar.
Porque ele está certo. Sempre fui muito focado no jogo. Tenho me dedicado exclusivamente a ele desde que tinha idade suficiente para patinar. Eu conduzo as reuniões do time. Chego cedo, ofereço ajuda a quem estiver precisando. Sacrifico meu próprio tempo, meu próprio sono, meus próprios estudos para garantir que cada arma no nosso time esteja travada, carregada e funcionando.
Nos últimos cinco dias, minha cabeça não esteve no jogo. E talvez não pareça muito tempo no plano geral, mas é quando só se tem outros cinco dias para se preparar para o jogo mais importante da temporada. Não o segundo mais importante, porque não temos certeza de que vamos classificar para o nacional. Precisamos vencer Briar para seguir em frente. Portanto, este é o jogo mais importante, e a única coisa que deveria importar no momento.
“Você está certo”, digo. “Não tenho estado tão focado quanto deveria.”
“O que está acontecendo? É a faculdade? Precisa de um professor particular?”
“Não, está tudo bem com os estudos. Tenho alguns trabalhos para fazer, mas não são um problema. Só preciso entregar em maio, de qualquer forma.”
“Então, o que é? Problemas em casa?”
“Não.” Eu me ajeito na cadeira. Uma vergonha que não me é característica esquenta minha nuca. “Me sinto meio tonto de dizer isso, mas é uma garota.”
O treinador resmunga em desagrado. “Quer um conselho?”
“Por favor.”
“Esqueça ela.”
Tenho que rir. Bom. Isso não ajuda muito. “É uma solução”, digo, com cuidado, porque o treinador não gosta de ser desafiado.
“Acredite em mim, garoto, é a única solução. Mulheres só dão dor de cabeça. Mesmo as boazinhas”, ele diz, balançando a cabeça. “É como se todas conseguissem um diploma em manipulação. Como se aprendessem a brincar com suas emoções. Ou nos transformam em escravos ou em tolos.”
Sua reação me pega com a guarda baixa. Sinto muita amargura em seu tom, e me pergunto quem foi que partiu seu coração. Até onde sei, Pedersen nunca foi casado. Ele não tem filhos, e se tem uma namorada nunca fala dela. Alguns caras levantaram a teoria de que ele é gay, mas não acho que seja o caso. No ano passado, o treinador deixou um evento do time em um hotel em Boston acompanhado de uma ruiva gostosa de vestido justo. Isso não significa que ele não seja gay, mas, cara, não dá para saber com certeza.
Pelo modo como fala, no entanto, parece que não tem o menor interesse em ter um relacionamento com uma mulher.
“No fim das contas, as mulheres sempre querem algo de você, garoto. Sempre querem. Elas pegam, pegam e pegam, sem dar nada em troca. Ninguém dá a mínima para os outros, então é melhor tomar conta de si mesmo, entendeu?”
Em geral, faço isso. Fiz isso minha vida inteira. Não sei bem por que não está dando certo ultimamente. Desde que Brenna terminou comigo, é como se eu vivesse com as entranhas contorcidas.
“Sabe do que mais gosto em você, Jake?”
“Do quê?”, pergunto, cauteloso.
“Do seu egoísmo.”
Fico tenso. Ele fala como se fosse um elogio, e para ser sincero não é novidade pra mim — sei que sou egoísta. No entanto, por algum motivo, ser chamado de egoísta por meu treinador me deixa puto.
“Você não deixa que nada se coloque no caminho do gol”, Pedersen continua. “Suas necessidades vêm primeiro, e é assim que deve ser. É por isso que sei que está destinado a ser um astro do esporte.” O treinador balança a cabeça de novo. “Esqueça a garota que está te causando todo esse sofrimento. Foque em vencer, foque no trabalho incrível que você vai ter a partir de agosto. Um passo em falso no gelo pode acabar com uma carreira. Falta de foco é perigoso, e não só porque pode terminar em contusão. Um jogo ruim prejudica sua imagem, e pode acreditar que seus novos chefes vão assistir a todas as partidas e estudar vídeos seus depois.”
Ele está certo.
“Então, mantenha a cabeça no jogo. Esqueça a garota. Vão surgir outras. Posso garantir que quando estiver em Edmonton vai ter um monte delas atrás de você.” O treinador se inclina para a frente e põe a mão no meu ombro. “Estamos conversados?”
Assinto devagar. “Sim. E não se preocupe. Vou colocar a cabeça no lugar.”
“É o que eu queria ouvir.”
No entanto, a primeira coisa que eu faço quando saio da arena é escrever para Brenna de novo.
O discurso do treinador surtiu efeito, mas não o que sei que ele queria. Não quero ser o tipo de cara que sofre por uma garota e passa a desprezar as mulheres em geral. Não quero ser amargo ou raivoso.
Não posso forçar Brenna a sair comigo de novo, mas pelo menos posso deixar claro que ainda penso nela.
EU: Oi, eu de novo. Pode continuar me evitando se quiser, mas saiba que estou aqui se mudar de ideia.