The Risk
12. Jake
12
JAKE
O treino da manhã é fatigante, mas não espero menos do treinador. Ele já estava no nosso pé antes de irmos pra final — e agora é tudo ou nada. Temos que patinar mais rápido, bater mais forte, tentar mais gols. É um treino intenso, e alguns dos exercícios de patinação até me deixam sem ar, e sou o mais veloz aqui.
Não que eu esteja reclamando. Alguns caras gostam de se queixar de ter que sair da cama tão cedo. Criticam as orientações nutricionais, ou o jeito durão do técnico. Não posso negar que Pedersen tem um estilo de jogo muito mais físico do que eu. Prefiro confiar na minha velocidade e precisão do que na força bruta. Na época em que jogava, Pedersen se encarregava das brigas, e promove a mesma agressividade em seus jogadores. Brooks é nosso maior intimidador, mas ultimamente Pedersen tem insistido para que outros caras também usem mais o cotovelo. Mas ele não espera isso de mim. Sabe o que posso fazer.
O treinador está esperando por mim quando saio do vestiário, com o cabelo molhado do banho. Ele me dá um tapinha no ombro. “Se saiu bem no gelo, Connelly.”
“Valeu, treinador.”
“Vai levar essa mesma atitude para a final?”
“Sim, senhor.”
Ele inclina a cabeça. “Vai ser difícil ganhar da Briar.”
Dou de ombros. “Não estou preocupado. Vamos conseguir.”
“É isso aí.” Sua expressão se transforma em um sorriso. “Mas não podemos entrar com excesso de confiança. Jensen teve uma péssima temporada no ano passado, e deve estar louco para voltar com tudo. Não ficaria surpreso se estiverem treinando duas vezes ao dia.”
Nem eu. O time da Briar está muito melhor este ano. Não sei bem o que aconteceu na temporada passada, mas, desde que Garrett Graham se formou, eles não encontraram um atacante à altura. Nate Rhodes é bom, mas não é nada de mais. Hunter Davenport é quase tão rápido quanto eu, mas ainda é jovem. Está só no segundo ano, e precisa refinar suas habilidades. Acho que ninguém vai conseguir deter Briar no ano que vem, com Davenport comandando o time. Mas isso ainda vai demorar. Esta temporada é nossa.
“Preciso que chegue mais cedo amanhã”, o treinador Pedersen diz. “Seis e meia, pode ser? Quero que trabalhe no mano a mano com Heath.”
Assinto. Notei que Heath errou alguns passes vitais hoje. “Sem problemas.”
“Sabia que ia topar.” Ele me dá outro tapinha no ombro antes de ir embora.
Vou até o saguão, onde Brooks me espera. No momento em que o encontro, meu celular toca. É uma notificação do Instagram. Quase não uso o aplicativo, e estou prestes a ignorar quando vejo o nome.
BrenJen.
De Brenna Jensen?
A curiosidade toma conta de mim. “Ei, pode ir na frente”, digo a Brooks. Vamos almoçar no campus com alguns caras do time. “Encontro vocês lá. Preciso fazer uma ligação antes.”
“Beleza.” Ele me olha de um jeito esquisito e vai embora.
Abro o Instagram e vou direto para as mensagens. A foto de BrenJen mostra uma cortina de cabelo escuro e uma silhueta de perfil. Mas os lábios vermelhos a entregam. Só pode ser Brenna, e a bolinha verde indica que está on-line.
Connelly, é a Brenna. Podemos nos ver?
Minhas sobrancelhas se erguem até a linha do cabelo. Começo a digitar no mesmo momento, ignorando completamente o longo discurso que Brooks fez no outro dia sobre a etiqueta das redes sociais. Ele tem uma regra estrita sobre esperar no mínimo uma hora antes de responder para uma garota, para que ela não sinta que tem poder sobre você. Mas estou curioso demais para respeitar isso.
EU: É vc mesmo me mandando uma mensagem?
BRENNA: Infelizmente. Podemos nos encontrar?
EU: Está me chamando pra sair?
BRENNA: Vai sonhando
Sorrio para a tela enquanto Brenna escreve.
BRENNA: Estou na cidade e tenho uma hora antes de precisar voltar pra Briar. Estava esperando que pudesse me encontrar
EU: Vamos precisar de mais de uma hora. Só as preliminares já vão gastar todo esse tempo
BRENNA: Uma hora de preliminares? Ambicioso, não?
EU: Realista, eu diria
Talvez eu não devesse estar atraindo a garota para uma conversa de cunho sexual, porque a ideia de preliminares com ela é bastante tentadora.
EU: Pq quer me encontrar?
BRENNA: Preciso falar com vc. E não quero que seja nesse app idiota. Sim ou não?
Estou intrigado demais para recusar. Quer dizer, a filha do técnico principal da Briar está tentando marcar um encontro clandestino com o capitão do time de Harvard? Quem não estaria?
Então, escrevo: onde e quando?
Nos encontramos em um café na Central Square. De novo, está chovendo forte, e estou com frio e molhado quando me junto a Brenna a uma mesinha nos fundos.
Ela tem um café nas mãos, e o vapor sobe de seus lábios para seu nariz vermelho. Então, aponta para a xícara diante da cadeira vazia. “Pedi um pra você. Preto.”
“Obrigado”, digo, agradecido, então envolvo a xícara quente com minhas mãos molhadas. Meus dedos estão congelando.
Tomo um bom gole enquanto Brenna me observa.
Daí, devolvo o café à mesa. “Então”, começo.
“Então”, ela repete.
Cara, Brenna está bonita hoje. O cabelo comprido está preso em uma trança bem-feita e ela está sem maquiagem. Ou, se estiver com, optou por um visual natural. Há um brilho rosado e fresco em suas bochechas e… cacete, ela não está de batom vermelho. Seus lábios estão de um cor-de-rosa brilhante.
Quase pergunto o que tem de errado com o rosto dela, mas consigo me controlar antes que seja tarde demais. Nunca se deve perguntar isso a uma garota.
“Finalmente vai me explicar por que estou aqui?”, pergunto apenas.
“Vou, mas primeiro você tem que me prometer algumas coisas.”
“Não. Nunca prometo nada.”
“Tá. Então tchau. Pelo menos posso ir embora com a satisfação de saber que te fiz vir até aqui à toa.” Ela começa a se levantar. “Até mais, Jakey.”
“Senta essa bunda linda”, ordeno, revirando os olhos. “Tá bom. O que preciso prometer?”
“Primeiro, que vai ouvir até eu acabar. Segundo, que não vai rir na minha cara.”
O mistério se aprofunda. Eu me recosto na cadeira e digo: “Tudo bem. Eu prometo”.
“Tá.” Ela solta o ar. “Me candidatei a um estágio na HockeyNet.”
“Legal.”
“Seria mesmo. Se o cara que me entrevistou não fosse um idiota completo.” Os dedos de Brenna apertam a caneca com mais força. “Tive duas entrevistas, e o cara não me levou a sério em nenhuma.” Ela franze a testa para mim. “E antes que faça algum comentário espertinho sobre eu não ser qualificada para o trabalho…”
“Eu não ia fazer”, garanto.
“Ótimo. Porque eu sou. Acho que o cara não leva nenhuma mulher a sério. Ou pelo menos nenhuma mulher tentando trabalhar com esportes. Você precisava ter ouvido o jeito como desdenhou da Georgia Barnes. Era como se ela não pertencesse àquele lugar. E era como se eu não pertencesse também.” O tom de Brenna é marcado pela frustração, e seus olhos transmitem pura derrota. “Ele é um cretino.”
“Sinto muito”, digo, e é verdade. Acho que nunca vi Brenna perder a confiança. Fico surpreso que se deixe abalar por esse mané. “Quer que eu bata nele?”
“Se fosse assim fácil, eu mesma bateria. Um bom chute no saco ia ensinar muito ao cara.”
Dou risada. “Então, por que estou aqui?”
“Bom… ele é de Edmonton”, ela começa.
Meus lábios se contorcem de leve. Não tenho certeza para onde isso vai. Imagino que o cara seja fã dos Oilers, mas só vou entrar no time no ano que vem. “Ainda não vejo o que tenho a ver com isso.”
“O único momento em toda a entrevista em que o cara pareceu interessado em mim foi quando estávamos discutindo o time. E você”, ela acrescenta, a contragosto. “Ele acha que você é exatamente do que precisam pra ganhar o campeonato.”
Vou ter que concordar com ele. O retrospecto do time é bom, mas pretendo melhorá-lo. Sou um jogador de hóquei excelente, não só por uma questão de talento, mas porque me esforço muito. Me esforcei a vida inteira.
“Então…” Brenna deixa a palavra morrer no ar. Tomo um gole apressado de café.
“Por que me fez vir aqui, Jensen? Tenho aula daqui a pouco.”
“Porque, como eu disse, a única vez em que ele prestou atenção em mim foi quando eu disse que conhecia você.”
Sorrio, satisfeito. “Ah, então você mencionou meu nome, hein?”
“Cala a boca. Fiquei péssima de ter feito isso.”
Tenho que rir. Brenna é engraçada. Estou tão acostumado com as garotas se jogando em mim que é quase revigorante encontrar uma que faz o oposto.
“Fiz mais do que isso”, ela confessa.
Franzo a testa. “O que você falou?”
Ela murmura alguma coisa.
Me inclino pra frente. “Oi?”
“Eu disse que você é meu namorado”, ela fala. Seu maxilar está tão cerrado que fico surpreso que seus dentes não quebrem.
Eu a encaro por um momento. Quando me dou conta de que está falando sério, tenho que rir de novo. “Porra nenhuma.”
“É verdade. E você prometeu não rir.”
“Desculpa, mas vou ter que quebrar a promessa.” Não consigo parar de rir. “Isso é bom demais. Você foi muito além de mencionar meu nome. Foi tipo… puxação de saco pura.” Enxugo as lágrimas que se acumulam no canto dos olhos.
Brenna me lança um olhar afiado. “Primeiro: para com isso. Segundo: sinto muito, mas, diferente de você, preciso arrumar um trabalho quando me formar. Não tenho o luxo de um contrato multimilionário com um time de hóquei profissional. Sempre quis trabalhar com jornalismo, e se puxar o saco é o que preciso fazer para conseguir esse estágio, então tudo bem.”
Eu me forço a parar de rir. É difícil. “Tá, então você disse que a gente namora.” Cara, estou adorando. De verdade. Posso imaginar a expressão no rosto dela quando disse isso. A agonia. “Isso não explica por que estamos sentados aqui agora.”
“Nem preciso dizer que o cara ficou todo animadinho com a ideia de ter acesso a você.” Ela suspira. “Ele vai dar um jantar na sexta e quer que a gente apareça.”
“A gente?” Tenho um sorriso enorme no rosto. “Existe um a gente agora?”
“Pode acreditar, é a última coisa que eu quero, mas concordei. E agora, por mais humilhante que seja, estou pedindo que me faça esse favor e vá comigo.” Ela soa como se preferisse rolar em um buraco escuro cheio de lâminas de barbear.
Sorrio ainda mais. Acho que meu rosto vai rachar.
“Não faz isso comigo”, Brenna diz, desolada. “Sei que é ridículo, mas preciso da sua ajuda. Já fingiu ser meu namorado uma vez, lembra? E não teve problema em passar a mão em mim naquele show. Não tinha problema naquele caso só porque era ideia sua?”
Ela tem razão.
“Bom, preciso que você finja ser meu namorado de novo.” Há certa amargura no tom dela. “Só por uma noite. Posso até pagar se você quiser.”
“Ei, não sou um gigolô.”
“Tá, então faça de graça. Como um bom samaritano.”
Considero por um momento. “Acho que não.”
“Vamos, Connelly.” Acho que nunca vi Brenna tão nervosa. “Não me faz implorar.”
Um raio de luxúria corre direto para minha virilha. “Isso parece bem interessante.”
Os lábios dela se contraem. “Não vai acontecer.”
“Hummm… Você, de joelhos, implorando…” Meu pau se contorce.
É oficial. Tenho tesão por essa garota. Dormi com minha cota de mulheres, mas não consigo lembrar a última vez que fiquei tão interessado em alguém. Posso sentir meus olhos brilhando enquanto imagino a cena que acabei de descrever. Brenna de joelhos, descendo o zíper da minha calça. Pegando meu pau. Levantando seus olhos grandes para mim. Implorando.
“Não vou implorar”, ela diz, com firmeza. “Estou pedindo. Se recusar, tudo bem. Vou levantar e ir embora.”
Saio do meu transe luxurioso. “Eu não recusei.”
“Ótimo. Então vai comigo na sexta.”
Dou risada. “Ah, mas também não aceitei.”
Se um olhar pudesse matar, eu estaria no chão com minha silhueta marcada em giz agora. “Então o quê?”, ela pergunta.
“Quid pro quo. Não sei se você aprendeu a expressão na escola, mas significa que nada é de graça.” Pisco. “Eu te dou uma mão se você me der uma mão.”
“Não vou te dar minha mão, não.”
“Só estou dizendo que vou te ajudar se você me der algo em troca.”
“Tipo o quê?” Ela começa a mexer na ponta da trança, claramente infeliz.
Eu meio que queria que Brenna soltasse a trança de uma vez. Gostaria de ver seu cabelo escuro solto sobre o ombro. Na verdade, não. Gostaria de vê-lo pairando sobre meu peito nu enquanto ela vai descendo pelo meu corpo e…
“Tipo o quê?”, Brenna repete quando demoro demais para responder.
De novo, me forço a concentrar. “Bom, você precisa que eu saia com você na sexta à noite…”
“De mentira.”
“De mentira”, repito. “Em troca, quero que saia comigo de verdade.”
“Como assim?”
“Quero um encontro. Você tem seu jantar falso e eu tenho um encontro de verdade.”
“Está de brincadeira?” O queixo dela cai. “Quer sair comigo?”
Examino a expressão incrédula dela. “Pois é. Me pegou de surpresa também.” Dou de ombros. “Mas aconteceu e aqui estamos nós. Te acho bonita, e sei que você me acha bonito…”
“Acho que você se acha bonito”, ela interrompe com desdém.
“Eu não acho. Eu sei. E já notei o jeito como você me olha, então…” Levanto as mãos em um movimento desleixado antes de apontar de mim para ela. “Acho que tem algo rolando aqui.”
“Não tem. Nada.”
“Tá, tudo bem. Então vou indo.” Levanto a bunda da cadeira.
“Connelly”, Brenna rosna. “Senta aí.” Ela fecha os olhos por um momento. “Você está dizendo que para ir ao jantar comigo na sexta só tenho que sair com você outro dia.”
“É, mas não fala como se tivesse que encontrar um assassino em série. Pelo menos finja estar animada.”
“Tá!” Ela bate as mãos. “Vou sair com você! Eba!”
“Bem melhor”, digo. Acho que não parei de sorrir desde que soube por que me chamou aqui. “Isso é um sim?”
Ela suspira. Alto.