The Risk

Elle Kennedy · Capítulo 2 de 43

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The Risk

2. Jake

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JAKE

 

São umas nove e meia quando chego em casa. Nunca poderia bancar sozinho o apartamento de dois quartos que divido com Brooks Weston, que também é do time, mesmo com o belo contrato que assinei com os Oilers. Fica no alto de um prédio de quatro andares, e é ridículo: tem ilha na cozinha, bay window, claraboia, uma área aberta e vaga privada para a Mercedes do Brooks.

Ah, e eu não pago aluguel.

Brooks e eu nos conhecemos algumas semanas antes do primeiro ano. Foi num evento do time, um jantar do tipo “conheça seus companheiros antes que as aulas comecem”. Nos demos bem logo de cara, e, quando a sobremesa foi servida, Brooks já estava me chamando para morar com ele. O cara tinha um quarto sobrando em seu apartamento em Cambridge. E insistia que eu não precisava pagar nada.

Brooks já tinha recebido permissão para morar fora do campus, uma das vantagens de ser o filho rico de um ex-aluno cujas doações fariam muita falta caso a universidade o desagradasse. O pai de Brooks mexeu mais alguns pauzinhos para que eu tampouco precisasse ficar no dormitório. Dinheiro realmente abre portas.

Quanto à questão do aluguel, a princípio fiquei com um pé atrás, porque nada nessa vida é de graça. Mas, quanto mais conhecia Brooks Weston, mais ficava claro que para ele tudo era de graça. O cara nunca precisou trabalhar um dia na vida. Tem uma poupança imensa, e tem tudo o que quer entregue em uma bandeja de prata. Os pais dele, ou um de seus funcionários, conseguiram esse apartamento e insistem em pagar o aluguel. Então, nos últimos três anos e meio, tive um vislumbre do que é ser um jovem rico em Connecticut.

Não me entenda mal, não sou um aproveitador — tentei pagar Brooks. Mas nem ele nem seus pais aceitaram nem um centavo. A sra. Weston ficou horrorizada quando levantei o assunto uma vez que vieram visitar. “Vocês precisam se concentrar nos estudos”, ela disse, “não se preocupar em pagar as contas!”

Reprimi uma risada, porque venho pagando contas desde que consigo lembrar. Tinha quinze anos quando comecei a trabalhar, e era esperado que assim que recebesse meu primeiro cheque passasse a contribuir com a casa. Fazia compras, pagava a conta do meu celular, a gasolina do carro e a TV a cabo.

Minha família não é pobre. Meu pai constrói pontes e minha mãe é cabeleireira. Dá pra dizer que estamos bem estabelecidos na classe média baixa. Nunca nadamos em dinheiro, então experimentar o estilo de vida de Brooks é um pouco chocante. Já prometi que assim que for para Edmonton e estiver recebendo os frutos do meu contrato com a liga profissional de hóquei, a primeira coisa que vou fazer vai ser mandar um cheque para os Weston pelos mais de três anos sem pagar aluguel.

Meu celular vibra enquanto tiro meus sapatos Timberland. Eu o pego do bolso e vejo que recebi uma mensagem de Hazel, com quem jantei mais cedo em um dos refeitórios chiques da Briar.

HAZEL: Chegou bem?? Tá chovendo mto

EU: Acabei de entrar. Valeu pela janta

HAZEL: Imagina. Te vejo sábado no jogo!

EU: Ótimo

Hazel envia emojis mandando beijos. Outros caras talvez achassem que tem algo mais aí, mas não eu. Não tem nada de romântico entre a gente. Nos conhecemos desde o ensino fundamental.

“Ei!”, Weston grita da sala. “Estamos esperando você faz um tempão.”

Tiro a jaqueta molhada. A mãe de Brooks contratou um decorador antes de nos mudarmos para garantir que tivéssemos tudo aquilo em que os homens não pensam, como cabideiro, sapateira e escorredor — aparentemente homens não se importam muito com onde meter as coisas, exceto, bom, o próprio pau.

Deixo minhas coisas na entrada e pego o corredor que leva ao cômodo principal. O apartamento não tem muitas paredes, então o pessoal do time se aperta entre a sala de estar e a de jantar, sendo que alguns poucos estão acomodados nas banquetas da bancada da cozinha.

Olho em volta. Nem todo mundo apareceu. Deixo passar, porque convoquei a reunião de última hora. Quando estava voltando de Hastings, fiquei pensando na provocação de Brenna a respeito da final e em como estou preocupado com a maneira como ela anda distraindo McCarthy. O que me levou a considerar todas as outras distrações que poderiam nos atrapalhar. Como sou um homem de ação, mandei mensagem para todo mundo: Reunião do time, em casa, agora.

Mas a maior parte dos jogadores enche o lugar — somos quase vinte —, o que significa que minhas narinas são presenteadas com o aroma de diferentes sabonetes, perfumes e o cê-cê dos babacas que não tomaram banho antes de vir.

“Oi”, cumprimento. “Obrigado por virem.”

Alguns assentem, muitos dizem “beleza” e outros só grunhem.

Quem não faz nada é Josh McCarthy. Ele está apoiado na parede, perto do sofá de couro marrom, com os olhos grudados no celular. Sua linguagem corporal transmite frustração, considerando os ombros um pouco rígidos.

Brenna Jensen provavelmente mantém o cara na coleira. Tenho que lidar com minha própria frustração por conta disso. Ele não deveria estar perdendo tempo com aquilo. Está no segundo ano e até é passável, mas não é nada perto de Brenna. A garota é um show. É de longe uma das mulheres mais gostosas em que já pus os olhos. E aquela boca… é do tipo que precisa ser silenciada de vez em quando, talvez com outra boca a pressionando… ou com um pau entrando por entre seus lábios vermelhos.

Caralho. Afasto esse pensamento. Tá, Brenna é linda, mas também é uma distração. O fato de McCarthy não ter nem levantado a cabeça desde que entrei prova isso.

Pigarreio. Alto. Ele e os outros que estão mexendo no celular levantam a cabeça para mim. “Vou ser rápido”, digo.

“É melhor mesmo”, Brooks diz do sofá. Está só de calça de moletom preta. “Deixei uma garota me esperando na cama.”

Reviro os olhos. É claro que Brooks estava comendo alguém. Ele está sempre comendo alguém. Não que eu possa falar muito. Já recebi minha cota de garotas no apartamento. Tenho pena dos vizinhos de baixo, que têm de lidar com o desfile de sapatos subindo e descendo as escadas. Para sorte deles, não damos muitas festas. É sempre uma péssima ideia — quem quer ter a casa destruída? É para isso que servem casas de fraternidade.

“Parabéns pra você”, diz Dmitry, nosso melhor defensor. “Também saí da cama por causa dessa reunião. Mas estava descansando. Porque estou exausto.”

“Todos estamos”, diz um ala esquerda do terceiro ano chamado Heath.

“É, cara, bem-vindo ao clube”, diz Coby, um dos veteranos do time.

Atravesso a sala e pego uma garrafa de água na cozinha. Eu sei. O último mês foi intenso. Os campeonatos de todas as conferências da nossa divisão estão no momento crucial, o que implica um mês inteiro do hóquei mais competitivo que há. Todos estamos tentando entrar direto no nacional. Se não der certo, confiamos em números bons o bastante para passar à final. A temporada toda está em jogo.

“Sim”, concordo, abrindo a garrafa. “Estamos cansados. Mal consigo manter os olhos abertos nas aulas. Meu corpo todo é um hematoma enorme. Os playoffs são o ar que eu respiro. Fico pensando em estratégia toda noite antes de dormir.” Tomo um gole de água devagar. “Mas a gente sabia que seria assim, e estamos perto da nossa recompensa. A partida contra Princeton vai ser a mais dura que enfrentamos até agora nesta temporada.”

“Não estou preocupado com Princeton”, Coby diz, sorrindo com arrogância. “Já ganhamos deles este ano.”

“No comecinho da temporada”, aponto. “Eles embalaram depois daquilo. Ganharam fácil da Union nas quartas.”

“E daí?” Coby dá de ombros. “Também ganhamos.”

Ele está certo. No fim de semana passado jogamos bem como nunca. Mas estamos nas semifinais agora. A coisa é séria.

“Já passamos da fase de melhor de três”, lembro. “É um jogo só. Se perdermos, caímos fora.”

“Perder, depois da temporada que fizemos?”, diz Dmitry. “Vamos para o nacional mesmo se não avançarmos à final da conferência.”

“Apostaria toda a temporada nisso?”, eu o desafio. “Não prefere ter a classificação garantida?”

“Claro, mas…”

“Mas nada”, corto. “Não vou apostar nossas chances na possibilidade de que nosso desempenho este ano tenha sido bom o bastante para irmos ao nacional. Prefiro acabar com Princeton este fim de semana. Entendido?”

“Sim, senhor”, Dmitry murmura.

“Sim, senhor”, alguns dos mais jovens ecoam.

“Já falei que não precisam me chamar de ‘senhor’. Jesus…”

“Quer que a gente te chame de Jesus?”, Brooks pergunta, então pisca inocentemente.

“Não, só quero que ganhem. Quero que a gente ganhe.” E estamos tão perto que quase posso sentir o gosto da vitória.

Faz… porra, nem sei quantos anos faz que Harvard não ganha o nacional universitário. Não foi na minha época, pelo menos.

“Quando foi a última vez que ganhamos o campeonato?”, pergunto a Aldrick, nosso especialista em estatística. O cara é uma enciclopédia. Sabe todas as curiosidades que há sobre hóquei, até mesmo as mais insignificantes.

“Foi em 1989”, ele diz.

“Foi em 1989”, repito. “Faz quase trinta anos que não somos campeões nacionais. Não estou falando de ganhar o regional. Não estou falando de sermos campeões de conferência. Temos que mirar no prêmio máximo.”

Passo os olhos pela sala de novo. Para minha irritação, McCarthy está de novo conferindo o celular, sem nem disfarçar.

“Cara, tem ideia do que estavam fazendo com meu pau quando você mandou a mensagem sobre esta reunião?”, Brooks diz. “Envolvia calda de chocolate.”

Alguns caras vibram.

“E tudo o que você queria era fazer esse discurso tirado diretamente do filme Desafio no gelo? Porque a gente já sabia”, Brooks continua. “Precisamos ganhar.”

“Precisamos mesmo. E o que não precisamos é de distrações.” Lanço um olhar afiado para Brooks, então o direciono a McCarthy.

O garoto fica visivelmente assustado. “O que foi?”

“Estou falando com você também.” Fixo meus olhos nos dele. “Para de bobeira com a filha do Chad Jensen.”

Ele parece chocado. Não me sinto mal em falar sobre os dois na frente dos outros, porque tenho certeza de que todo o time — e todo o mundo — já sabe. McCarthy tem orgulho de seu relacionamento com Brenna. Não é tão descuidado a ponto de falar sobre isso para se tornar conversa de vestiário, mas também não para de falar como acha a garota linda.

“Olha, não costumo controlar o pau de vocês, mas estamos falando de algumas poucas semanas. Tenho certeza de que dá pra segurar.”

“Então ninguém pode se dar bem?”, diz chocado um cara do terceiro ano chamado Jonah. “Porque, se fosse o caso, gostaria que você ligasse pra minha namorada pra contar.”

“Boa sorte, capitão. Vi é ninfomaníaca”, Heath diz com uma risadinha, se referindo à namorada de longa data de Jonah.

“Espera um segundo. Você não saiu do bar com uma ruiva gostosa na outra noite?”, Coby pergunta. “Porque não parece que você está pondo isso em prática também, cara.”

“Hipocrisia é a muleta do diabo”, Brooks diz, solene.

Reprimo um suspiro e levanto uma mão para silenciar a galera. “Não estou dizendo que ninguém pode trepar. Só estou proibindo distrações. Se não conseguir lidar com o lance, evita. Jonah, você e a Vi sempre pareceram dois coelhos e isso nunca afetou seu desempenho no gelo. Então por mim podem continuar. Mas você…” Volto a olhar com severidade para McCarthy. “Você se saiu mal nos treinos a semana inteira.”

“Não é verdade”, ele contesta.

Nosso goleiro, Johansson, decide falar. “Você não acertou um tiro a gol hoje de manhã.”

McCarthy fica estupefato. “Porque você defendeu. Vou ouvir merda porque você é um bom goleiro?”

“Você é nosso principal pontuador depois do Jake”, Johansson diz, dando de ombros. “Deveria ter conseguido acertar alguns.”

“Como um dia ruim pode ser culpa de Brenna? Eu…” Ele para de repente e desvia os olhos para o celular na mão. Imagino que deve ter recebido uma notificação.

“Cara, você acabou de provar o ponto do Connelly”, um atacante chamado Potts diz a McCarthy. “Guarda esse celular. Alguns de nós querem que essa reunião acabe pra poder ir pra casa abrir uma cerveja.”

Viro a cabeça na direção de Potts. “Falando em cerveja… Você e Bray estão oficialmente banidos de festas de fraternidade até segundo aviso.”

Will Bray fica contrariado. “Qual é, Connelly?”

“Sei que jogos envolvendo bebida são divertidos, mas vocês dois precisam dar um tempo. Porra, Potts está até com uma barriguinha de cerveja.”

Todos os olhos na sala vão direto para o abdome dele. No momento está coberto pelo moletom com bolso canguru grosso de Harvard, mas vi o cara no vestiário outro dia. Sei o que tem por baixo.

Brooks faz tsc-tsc pra mim. “Não consigo acreditar que você está fazendo Potts se sentir mal pelo corpo que tem.”

Franzo a testa para meu colega de quarto. “Não estou fazendo nada disso. Só estou apontando que toda a cerveja o deixa mais lento no gelo.”

“É verdade”, Potts diz, desanimado. “Ando péssimo.”

Alguém desdenha.

“Você não anda péssimo”, garanto. “Mas dispensar a cerveja por algumas semanas só vai te fazer bem. E você…” É a vez de Weston. “É hora de um pouco de abstinência da sua parte também.”

“Foda-se. É o sexo que garante meus superpoderes.”

Reviro os olhos. Faço bastante disso com Brooks por perto. “Não estou falando de sexo. Estou falando das festinhas.”

O maxilar dele fica tenso no mesmo instante. Sabe exatamente do que estou falando, assim como os outros caras do time. Não é nenhum segredo que Brooks gosta de curtir drogas recreativas em festas. Um baseado aqui, uma carreira ali. Ele é cuidadoso com relação a quando e quanto, e imagino que ajude o fato de a cocaína só ficar no sangue por quarenta e oito horas.

Isso não quer dizer que eu tolere esse tipo de coisa. Porque não tolero. Mas dizer a Brooks o que fazer é quase tão eficiente quanto falar com uma parede. Uma vez ameacei contar tudo ao técnico, e Brooks disse que eu podia ir em frente. Ele joga hóquei porque é divertido, não porque ama o jogo e quer ser profissional. Desistiria do esporte em um minuto, e ameaças não funcionam com quem não tem nada a perder.

Brooks não é o primeiro a usar drogas de vez em quando e não vai ser o último. Mas parece mesmo que é puramente recreativo, e ele nunca usa em dia de jogo. Só que depois… Vale tudo.

“Se você for pego usando ou no antidoping, sabe o que acontece. Então, parabéns, você vai ficar limpo até o campeonato terminar”, informo. “Entendeu?”

Depois de um longo e tenso minuto, ele movimenta a cabeça em concordância. “Entendi.”

“Ótimo.” Volto a me dirigir aos outros. “Vamos focar em vencer Princeton no fim de semana. Todo o resto é secundário.”

Coby abre um sorriso convencido para mim. “E do que é que você vai abrir mão, capitão?”

Franzo o cenho. “Do que está falando?”

“Você convocou esta reunião. Disse ao pobre do McCarthy que não pode mais trepar, colocou Weston na abstinência e mandou Potts e Bray pararem com a cerveja. O que você vai fazer pelo time?”

O apartamento fica em silêncio.

Por um segundo, fico sem fala. Ele está falando sério? Marco pelo menos um gol por jogo. Se alguém mais marca, em geral foi com uma assistência minha. Sou o patinador mais rápido da Costa Leste, e um ótimo capitão.

Abro a boca para responder quando Coby começa a rir.

“Você precisava ver sua cara.” Ele sorri para mim. “Relaxa. Você já faz o bastante. É o melhor capitão que já tivemos.”

Muitos outros concordam.

Relaxo. Mas Coby tem razão. “Olha, não vou pedir desculpas por querer que estejamos todos focados, mas sinto muito por ser duro com vocês. Especialmente com você, McCarthy. Só estou pedindo para manter a cabeça no jogo. Podemos fazer isso?”

Cerca de vinte cabeças assentem para mim.

“Ótimo.” Bato palmas. “Podem ir agora. Vão dormir e estejam em seu melhor no treino de amanhã de manhã.”

A reunião acaba e o grupo dispersa. De novo, nossos vizinhos são forçados a ouvir a movimentação, agora os passos pesados de duas dúzias de jogadores de hóquei descendo as escadas.

“Posso voltar pro quarto agora, papai?”, Brooks pergunta, sarcástico.

Sorrio para ele. “Claro, filho. Eu tranco a porta.”

Brooks me mostra o dedo do meio e corre para o quarto. McCarthy se demora à porta, esperando por mim.

“O que eu digo a Brenna?”, ele pergunta.

Não sei dizer se está bravo, porque sua expressão não revela nada. “Diz que precisa se concentrar no campeonato. Que vocês podem sair quando a temporada terminar.”

Vocês nunca mais vão sair.

Não tenho coragem de falar isso, mas sei que é verdade. Brenna Jensen nunca aceitaria ser deixada “de lado” por ninguém, quanto mais um jogador de Harvard. Se McCarthy terminar com ela, mesmo que apenas temporariamente, vai ser permanente.

“Briar ganhou três campeonatos nacionais na última década”, digo apenas. “Enquanto isso, cá estamos nós, sem ganhar nenhum. É inaceitável. O que é mais importante pra você: trepar loucamente com Brenna Jensen ou ganhar do time dela?”

“Ganhar do time dela”, ele diz imediatamente.

Sem hesitar. Gosto disso. “Então vamos fazer isso. Faça o que precisa fazer.”

McCarthy assente e vai embora. Tranco a porta quando sai.

Talvez eu me sinta um pouco mal a respeito. Mas qualquer um consegue ver que ele e Brenna não estão destinados a ficar juntos. Ela mesma disse isso.

Só estou acelerando o inevitável.