The Risk
37. Brenna
37
BRENNA
Na noite seguinte, vou para a casa de Summer, de tão desesperada que estou para não pensar em Jake. Estou disposta a entrar na cova dos leões, me aproximando de Hollis, Hunter e talvez até Nate, amigos que traí dormindo com o inimigo. Estou disposta a lidar com as palavras raivosas que possam me dirigir, porque é melhor do que ficar obcecada e sofrer com o fato de que Jake não quer ficar comigo.
Ironicamente, ficar com meu pai esta noite teria me deixado perfeitamente satisfeita. Depois de anos evitando ficar no mesmo cômodo que ele, finalmente estou animada para passarmos um tempo juntos. Mas ele tinha uma reunião esta noite. O reitor da universidade queria discutir a possibilidade de estender o contrato do meu pai. Ele merece. Mas isso significa que eu ficaria sozinha em casa. Com meus pensamentos.
Para minha surpresa, não sou açoitada quando passo pela porta da frente. Na verdade, quando ponho a cabeça dentro da sala de estar, Hollis dá uma olhada do sofá e diz apenas: “Oi, Jensen”.
“Só isso? Achei que haveria gritos.”
“Por que eu gritaria?”
Fico confusa: “Está brincando comigo? Da última vez que nos falamos, você me chamou de traíra”.
“Ah, é.” Nunca o ouvi tão blasé e desinteressado. Levo um segundo para me dar conta de que ele não está vendo TV. Está encarando a tela preta, enquanto seu celular permanece intocado na mesa de centro.
“O que está acontecendo?”, pergunto. “Tudo bem com você? E onde estão Summer e Fitz? Lá em cima?”
“Não, foram pegar a pizza. Summer não pediu mais delivery desde que o garoto da entrega a xingou por ter dado só cinco dólares de gorjeta.”
“E cinco dólares não está bom?” Se não estiver, estou fazendo errado há anos.
“Não de acordo com o ricaço do entregador.”
Tiro a jaqueta e a penduro antes de me juntar a Hollis no sofá. Seu olhar vago é alarmante, para dizer o mínimo. “Certo. O que está rolando?”
Ele dá de ombros. “Nada. Estou estudando pras provas finais. Rupi me deu um pé, mas tudo bem.”
“Espera aí, o quê?” Fico chocada de verdade ao ouvir isso. “Sério? Por que ela fez isso?”
“Tanto faz. Quem se importa?” Ele levanta. “Vou pegar uma cerveja. Quer?”
“Claro. Mas essa conversa ainda não acabou.”
“Acabou, sim.”
Quando ele volta e me entrega uma Bud Light, me lembro do jogo de boliche com Jake e de como tivemos que engolir a cerveja aguada. Não me surpreende que Hollis beba isso. Ele é exatamente esse tipo de cara.
“Não acredito”, digo.
“No quê?”
“Não acredito no que está dizendo sobre não ligar para o que aconteceu com Rupi. Você liga. Gostava dela.”
“Gostava nada. A garota era um pé no saco.”
“Sério? Então, por que saiu tanto tempo com ela?”
“Porque estava tentando trepar, Brenna. Por favor. Me acompanha.”
“Sei. Então, era só isso que você queria?”
“Era. E agora não preciso mais fazer tanto esforço. Tem umas doze outras garotas fazendo fila pra dar pra mim. Rupi já foi tarde.” Seu tom não é nada convicto.
“Admite logo, Hollis. Você gosta dela. Gosta da voz estridente, do jeito mandão e do falatório constante.”
“Não gosto”, ele insiste. “Ela nem é meu tipo.”
“Não é mesmo”, concordo. “Não é uma interesseira com um corpo deslumbrante, ou uma daquelas garotas artificiais que você xaveca no Malone’s. Rupi é esquisita, pequenininha e dona de uma autoconfiança inexplicável.” Sorrio para ele. “E você gosta dela. Admite logo.”
As pontas das orelhas dele estão vermelhas. Hollis passa as mãos pelo cabelo, então levanta o queixo. “Eu estava começando a me acostumar”, ele finalmente confessa.
“Rá!”, digo, vitoriosa. “Eu sabia. Então liga e diz isso pra ela.”
“De jeito nenhum. Ela terminou comigo.” Ele me olha em desafio. “Se seu namorado de Harvard te desse um pé na bunda, você correria atrás dele?”
Começo a rir, quase histérica. Não consigo evitar. Descanso a cabeça no ombro de Hollis e solto risadinhas descontroladas.
“O que está acontecendo?”, ele pergunta, confuso. “Você fumou alguma coisa?”
“Não. É só que…” Rio mais um pouco. “Ele terminou comigo mesmo.”
Hollis se endireita, chocado, derrubando minha cabeça de seu ombro. Seus olhos azuis estão arregalados de surpresa. “Está falando sério? Ele fumou alguma coisa?”
“Não fumou, e estou falando sério, sim. Jake terminou comigo ontem. Disse que precisava focar no campeonato e no time, que eu era distração demais e blá-blá-blá.”
“Quanta merda. Sempre soube que os caras de Harvard eram uns idiotas, mas esse é um nível completamente novo de idiotice. O cara já te viu? Você é a garota mais gostosa do planeta.”
Ainda que o elogio venha de Mike Hollis, fico lisonjeada de verdade. “Valeu.”
Ele passa o braço por mim. “Isso só confirma tudo o que eu já sabia. Harvard é péssima, e Connelly é pior ainda.”
“Apoiado”, diz Hunter, entrando na sala com uma cerveja na mão, uma Founders IPA. Espera aí, por que não me deram essa opção?
Contraio o rosto quando noto o gesso em seu pulso esquerdo. Menos mal que ele é destro. E a temporada terminou, de modo que não vai perder mais nenhum jogo. De qualquer maneira, o gesso desperta minha pena.
“Oi”, digo, com cuidado. “Como está o pulso?”
“Ah, não dá pra ver?” Ele levanta o braço. “Quebrou.” Mas Hunter não soa puto. Está mais para resignado.
“Posso assinar?”, provoco.
“Sinto muito, mas Hollis estragou a experiência pra todo mundo”, Hunter diz em um tom seco. Então se aproxima do sofá e me mostra o gesso melhor.
Alguém desenhou um pau e duas bolas com caneta preta.
Suspiro. “Quanta maturidade, Hollis. E as bolas estão surpreendentemente detalhadas.”
Ele dá de ombros. “Bom, você sabe o que dizem.”
Franzo a testa. “Não. O que dizem?”
Hunter se ajeita na poltrona. “Também estou curioso pra saber.”
“Porra. Sério? Não tenho mais nada a dizer”, Hollis resmunga, irritado. “A maior parte das pessoas deixa pra lá quando alguém fala ‘você sabe o que dizem’.”
Eu adoraria passar um dia no cérebro de Hollis. Só um, no entanto. Mais que isso e provavelmente ficaria presa num mundo virado do avesso. “Tá. Você já se esquivou o bastante. Por que Rupi terminou com você?”
“Rupi terminou com você?”, Hunter pergunta. “Isso quer dizer que não temos mais que ouvir vocês gritando um com o outro no meio da noite? Maravilha!”
“Seja bonzinho, Davenport. Ele está bem chateado.”
Hunter inclina a cabeça. “Sério?”
“Não”, Hollis diz, firme. “Não estou. Não me incomoda nem um pouco.”
“Se não incomoda, então não há motivo para não contar por que ela terminou com você”, retruco.
“Foi idiotice. Nem vale a pena repetir.”
“O que você fez?”, Hunter pergunta, interessado.
Hollis solta o ar devagar. “Ela queria que tivéssemos um apelido e eu não.”
Hum. Tá.
Me esforço para não rir.
Hunter não toma o mesmo cuidado, e solta uma gargalhada. “Quais eram os apelidos?”
“Ela nem sabia. Queria que fizéssemos uma lista e…” Hollis range os dentes visivelmente. “E discutíssemos sobre como sentíamos em relação a cada um.”
Hunter assente, solene. “Claro. Porque todo mundo faz isso.”
Eu o silencio com um olhar. Hollis está se abrindo conosco agora, e não merece ser zombado.
Ah, meu Deus. Quem eu sou? Já estou num mundo do avesso? Desde quando deixo passar oportunidades de tirar sarro de Mike Hollis?
“Você gostou de alguma ideia dela?”, pergunto, com cuidado.
Ele me encara. “Nem deixei que ela começasse a pensar a respeito. Quem faz uma lista de apelidos e se senta pra votar como se fosse a porra do American Idol? Eu disse que era maluquice e que ela era maluca, então falei que seu apelido talvez devesse ser ‘maluca’. Rupi perdeu a cabeça e deu um chilique. Depois me mandou uma mensagem dizendo que não pode ficar com alguém que não está, e uso as palavras dela, ‘totalmente investido’ na relação.”
“Rupi tem razão nesse sentido. É difícil manter um relacionamento em que os dois não estão na mesma pegada.” Dou de ombros. “E não posso culpar a garota por terminar. Quem quer ser chamada de maluca o tempo todo? A pessoa fica complexada.”
“Mas o complexo dela já tem nome. Chama-se insanidade.”
“Hollis”, eu o repreendo.
Ele fica devidamente envergonhado.
“Aposto que chamou Rupi de maluca mais vezes do que disse que gostava dela. Na verdade, aposto que nunca disse claramente: ‘gosto de você’. Disse?”, eu o desafio.
“Disse.”
“Hollis.”
“Tá. Não disse.”
“Seja sincero: você quer continuar saindo com ela?”
Depois de um silêncio longo e constrangedor, Hollis assente.
“Tá. Então, me dá seu telefone.”
Apesar da desconfiança em seus olhos, Hollis obedece. Passo pelos contatos até encontrar o nome de Rupi — com um emoji com corações no lugar dos olhos. Ela atende ao primeiro toque, o que indica que ainda há esperança.
“O que você quer, Mike?” Rupi não parece animada como sempre.
“Oi. É a Brenna.”
“Brenna? Por que está com o celular do Mike?”
“Vou te colocar no viva-voz, tá? Ele está aqui comigo. Dá oi, Hollis.”
“Oi”, ele murmura.
“Bom, estávamos aqui conversando”, prossigo, “e tem algo que ele quer te falar.”
“O quê?”, ela pergunta, cautelosa.
“Hollis”, eu o incito.
Ele não diz nada.
“Tá, então eu falo. Hollis gosta de você, Rupi. Ele finge que não, mas no fundo gosta. E finge que não gosta das discussões, mas no fundo curte um drama. O programa de TV favorito dele é Keeping Up with the Kardashians, pelo amor de Deus.”
Hunter dá risada da poltrona e toma um gole de cerveja.
“É, mas a Kardashian favorita dele é a Khloe”, Rupi diz, sombria. “Todo mundo sabe que a melhor é a Kourtney.”
“Kourtney não está nem entre as três melhores”, Mike resmunga.
“Viu? Não tem como dar certo!”
“Não”, discordo. “É por isso que vai dar certo. Ninguém quer ficar com alguém idêntico a si. Todo mundo quer alguém que o desafie, que o inspire a se abrir depois de uma vida inteira fechada…” Minha voz falha. Ah, não. Estou pensando em Jake de novo. Noto que Hollis me olha de um jeito estranho. Ignoro e continuo falando com a stalker dele. Ou melhor, namorada. “Olha, sei que Hollis sempre te chama de maluca, mas, vindo dele, é um elogio.”
Hunter ri de novo.
“Explica isso”, Rupi manda.
“Você não conhece o cara? Ele é maluco. E, pelo que parece, a família dele também.”
“Ei!”, Hollis protesta. “Não mete minha família no meio.”
“Quem muito quer, nada abstém”, digo, convencida, o que cala a boca dele. “Na verdade, Rupi, quando Hollis te chama de louca, é porque está reconhecendo que você é como ele.” Pisco para Hollis. “Que é sua alma gêmea.”
Ouço um suspiro ofegante do outro lado da linha. “É verdade, Mike?”
Ele faz cara feia pra mim, então passa um dedo pela garganta indicando que vai me matar por ter falado em “alma gêmea”. Mas, depois do fiasco com as Kardashian, tive que apelar.
“Mike?”, Rupi chama.
“É verdade”, ele murmura. “Gosto de você, tá? E não te acho louca. Te acho incrível.”
“Então, por que não quer me dar um apelido fofo?”, ela quer saber.
“Porque é muito…”
Balanço a cabeça em alerta.
“… importante”, ele finaliza, se salvando. “É um passo enorme num relacionamento.”
Fico preocupada que Hunter morra de rir. Ele esconde o rosto no braço para abafar o som.
“Mas tudo bem”, Hollis diz. “Se quer que a gente se chame por apelidos, vamos fazer isso. Minha sugestão é ‘bola de pelo’.”
“Bola de pelo!”, Hunter repete.
“Não sei se combina comigo”, Rupi diz, devagar.
“Não, pra mim. Também acho que… Espera aí, vou te tirar do viva-voz.” Ele toca na tela e leva o aparelho à orelha. “Vou subir. Brenna e Hunter não têm direito a opinião nessa história dos apelidos.” Ele para de repente, já perto da porta. Então, olha pra mim por cima do ombro e diz “Valeu” sem produzir som.
Meu coração se derrete um pouco. Por causa de Hollis. Quem diria?
Sorrio, feliz. Quando ele vai embora, viro para Hunter e digo: “Meu trabalho aqui acabou”.
Ele sorri. “Você se saiu muito bem.”
Eu o avalio. “Você parece estar de bom humor, considerando… você sabe.” Indico o gesso com a cabeça. “E não parece puto comigo.”
“Nunca fiquei puto com você.”
“Você me mandou uma mensagem antipática pedindo pra agradecer ao meu namorado por você”, tenho que lembrá-lo.
“É, um dia depois que o babaca do Hemley quebrou meu pulso. Eu ainda estava chateado com tudo que tinha acontecido no jogo, e você era um alvo fácil.”
“Ah, que ótimo.”
Ele dá de ombros. “E eu também estava puto com Connelly, mesmo que indiretamente. Mas, na verdade, o cara não fez nada de errado. Até tentou separar a briga.” Outro dar de ombros. “Dito isso, ainda acho que, se Nate e eu tivéssemos continuado no jogo, seríamos nós encarando o Michigan este fim de semana.”
“Concordo.” Solto o ar, melancólica. “Ficamos à frente a maior parte do primeiro período, até vocês serem tirados do jogo. O jogo estava na nossa mão.”
“Estava mesmo”, ele concorda, antes de tomar um gole apressado de cerveja. “Mas perdemos por minha culpa.”
“Que nada. Você não teve culpa de se machucar.”
“Não, mas meu comportamento fora do gelo nos custou o jogo. Passei os últimos meses trepando com todo mundo no campus. Então, quando fiquei entediado, comecei a passar pelos bares de Boston pra conhecer gente nova. Olha só no que deu.” Ele grunhe. “Parece que a Violet queria dar o troco no Hemley por causa de alguma briga. Ela sabia quem eu era quando nos conhecemos.”
“Sério?”
“Sério. A primeira coisa que fez depois que eu saí foi ligar para ele para contar. Quando Hemley entrou no gelo na final, começou a me provocar, e… bom, você sabe o resto.”
Hunter balança a cabeça em desgosto. Claramente dirigido a ele mesmo, no entanto.
“Eu não costumava ser assim. Pegava umas garotas, claro, mas não era meu objetivo de vida dormir com qualquer uma que cruzasse meu caminho. Perdi a cabeça, virei um caça-boceta, como Hollis gosta de chamar.” Ele abre um sorriso seco. “Preciso me recuperar, deixar de bobagem. Quero levar o time às finais nacionais na próxima temporada. Nate vai se formar, e não sei se quem vai escolher o novo capitão é o treinador, se vamos votar ou sei lá o quê. Mas quero que seja eu.”
Assovio. “É uma bela meta.”
“Eu sei. E pretendo trabalhar duro pra conseguir isso. Então… chega de vadiagem. Literalmente.”
“O que isso significa?”
“Que estou fazendo um voto de castidade.”
Solto uma gargalhada. “Hum… Isso não vai dar certo. Te dou uma semana, no máximo.”
“Acha que não consigo me segurar por mais de uma semana?” Ele parece ligeiramente ofendido.
“Você é um jogador de hóquei de vinte anos. Não, não acho que consiga se segurar por uma semana.”
Hunter sorri. “Então tá. Acho que vou ter que provar que você está errada.”