The Risk
29. Jake
29
JAKE
Cada jogador tem um jeito de se preparar para uma partida. Alguns caras são obcecados por superstições, como Dmitry, que se cortou com papel uma vez e acabou com o time adversário, então agora faz um corte de propósito antes de cada jogo. Ou Chilton, que precisa que a mãe diga: “Quebre a perna, Coby!”. E tem que ser essas palavras exatas, porque no ensino médio elas supostamente fizeram com que o time dele ganhasse o estadual.
Já eu preciso da minha pulseira de confiança e de silêncio. Preciso ficar quieto num canto e me preparar mentalmente, porque hóquei é igualmente cabeça e corpo. Exige muito foco, a capacidade de reagir bem a qualquer situação ou obstáculo. Não há espaço para dúvida no gelo. Tenho que confiar no meu cérebro, nos meus instintos, na minha memória muscular, para criar oportunidades e chegar ao resultado esperado.
A temporada inteira, não conversei com o time antes do jogo. Ninguém espera que eu faça isso. Todos sabem que, quando estou curvado no banco, sem olhar para ninguém, sem dizer nada, é porque estou me preparando mentalmente.
Todo mundo presta atenção quando o treinador entra no vestiário. Ele passa os olhos pelos corpos uniformizados lotando o espaço. “Homens”, Pedersen nos cumprimenta.
Batemos os tacos no chão em cumprimento. Precisamos ir para o gelo para o aquecimento, mas o treinador tem algumas palavras a dizer antes.
“Esse é o jogo mais importante de toda a temporada. Se vencermos Briar, vamos para o nacional. Se vencermos Briar, estaremos um passo mais próximos do título.” Ele fala por mais um minuto, nos motivando, dizendo que precisamos ganhar, que o troféu é nosso, que precisamos trazê-lo pra casa. “O que vamos fazer?”, ele grita.
“Trazer a taça pra casa!”
“Não consegui ouvir.”
“Trazer a taça pra casa!”
Pedersen assente em aprovação. Então, me pega de surpresa. “Connelly, pode falar.”
Levanto a cabeça. “Como?”
“Você é o capitão, Jake. Diga algo ao time. Pode ser o último jogo da temporada. Seu último jogo por Harvard.”
Merda. Não gosto que ele atrapalhe meu ritual. Mas não posso me negar, porque, diferentemente de quase todos os atletas no mundo, o treinador não acredita em sorte ou superstição. Só em habilidade e trabalho duro. Admiro sua filosofia, mas… respeite os rituais, droga.
Pigarreio. “Briar é um bom time”, começo. “Um ótimo time.”
“Belo discurso!” Brooks aplaude com vontade. “Todo mundo de pé!”
Coby ri alto.
“Quieto, bunda-bolha. Ainda não terminei.” Pigarreio de novo. “Briar é um bom time, mas somos melhores.”
Todos esperam que eu continue.
Dou de ombros. “Agora terminei.”
Risos ecoam à minha volta, até que o treinador bate as mãos para silenciar a galera. “Muito bem. Vamos lá pra fora.”
Estou prestes a fechar meu armário quando o celular se ilumina lá dentro. Inclino o pescoço para dar uma olhada, e um sorriso satisfeito surge em meus lábios. É uma mensagem de Brenna, me desejando boa sorte. Também tem uma de Hazel, parecida, mas eu já esperava isso dela. De Brenna, não.
“Treinador, é meu pai ligando”, minto quando noto Pedersen me olhando. “Deve ser pra desejar boa sorte. Só vou levar um minuto, tudo bem?”
Pedersen me olha desconfiado antes de murmurar: “Só um minuto”.
Enquanto ele e os caras do time rumam para o túnel, ligo para Brenna. Mas ela não atende da forma calorosa que eu esperava.
“Por que está me ligando?” Parece ultrajada. “Deveria estar no gelo se aquecendo.”
Dou risada. “Achei que fosse ficar feliz em saber que ainda não fui pro aquecimento.”
“Espera aí, está tudo bem? Você ainda vai jogar, não?”, ela pergunta, a preocupação ecoando do outro lado da linha.
“Claro que vou. Mas vi sua mensagem e queria me certificar de que está tudo bem.”
“Por que não estaria?”
“Porque você me desejou boa sorte. Imaginei que tivesse alguém apontando uma arma pra sua cabeça.”
“Ah, não seja pentelho.”
“Está me desejando boa sorte de verdade?”
“Isso.”
“E está sendo sincera?”
“Não.”
“Quem é a pentelha agora?” Hesito. “Olha… não importa o que aconteça esta noite, não quero parar de te ver.” Seguro o ar e espero, porque não sei o que Brenna vai responder.
Sei o que quero que diga. Quero que diga que não conseguiu me tirar da cabeça desde que dormimos juntos, porque eu não consegui tirá-la. O sexo foi surreal. Incrível. E foi nossa primeira vez. Se foi assim bom quando nem sabemos o que deixa o outro com tesão… Quando não sabemos exatamente como fazer o outro gozar… Significa que só vai melhorar. Isso me deixa louco.
“Quero continuar te vendo”, insisto, porque ela ainda não respondeu. “Quer continuar me vendo?”
Outra pausa. Então Brenna suspira. “Sim. Quero. Agora sai daí pra gente acabar com você.”
Sorrio de lado a lado. “Até parece, linda.”
Fecho o armário e viro, recuando quando noto o treinador na porta.
Merda.
“Linda, é?”, Pedersen zomba. “Você chama seu pai assim?”
Solto um suspiro cansado. “Desculpa por ter mentido.”
“Connelly.” Ele segura meu ombro quando tento passar. Mesmo de ombreira, posso sentir a pegada de aço. “Essa garota… goste você dela mesmo ou não… tem que se lembrar de que ela é filha de Jensen. Precisa considerar a possibilidade de que só esteja mexendo com sua cabeça.”
Hazel disse a mesma coisa. Mas acho que os dois estão sendo paranoicos. Brenna não faz joguinhos. “Vou levar isso em consideração.” Forço um sorriso. “Mas não se preocupe. Não vai afetar meu desempenho no gelo. Está no papo.”
Não está no papo.
Desde o segundo em que o disco cai, o jogo é duro. É velocidade e agressividade. Os dois times não estão competindo pela vitória, só tentam matar um ao outro. Os golpes são brutais, e imagino que os árbitros estejam deixando muita coisa passar por causa da intensidade do jogo. É como o hóquei deve ser jogado. Com entrega completa.
Os fãs estão pirando. Nunca senti essa arena tão viva. Gritos, vivas e vaias se chocam em uma sinfonia que enche minhas veias de adrenalina.
Apesar de tudo, Briar está melhor que a gente. Eles são mais rápidos, principalmente Davenport. E não sei o que Nate Rhodes anda tomando no café da manhã, mas… minha nossa. Ele faz o primeiro gol do jogo, uma bomba que Johansson não tem nenhuma chance de impedir. Até eu fico impressionado, mas só de olhar para os olhos vermelhos de fúria do treinador sei que não posso demonstrar.
“Vão deixar que façam isso com vocês?”, Pedersen ruge. “Vão deixar que façam isso na casa de vocês?”
“Não, senhor!”
A dose de adrenalina faz com que eu forme um verdadeiro muro com Brooks e Coby. Somos a linha mais forte, e tem vários motivos para isso. Brooks é o Incrível Hulk quanto está no gelo. Seus encontrões derrubam qualquer um. Coby é esperto com o cotovelo e se vira nas placas como ninguém. Recupero o disco, mas, em vez de passar, driblo Fitzgerald e sigo em frente. Espero que os outros cruzem a linha azul antes de passar o disco para Coby, mais ao centro.
Ele circula a rede, para por um segundo, então dispara. Dá uma tacada e erra. Davenport quase consegue o rebote, mas dou um empurrão nele para controlar o disco. Arrisco e erro. O disco vai para perto de Brooks, que erra também. Um rugido ensurdecedor vem das arquibancadas.
Puta que pariu. Três tiros, todos defendidos. Quando foi que Corsen ficou tão bom? Grunho em frustração quando o treinador substitui nossa linha, e vamos para o banco.
Respirando forte, sento ao lado de Brooks. “O que está acontecendo?”
“Não sei”, ele murmura. “Corsen não costuma ser tão rápido.”
“Temos que continuar atirando até cansar o cara.”
Brooks assente, sombrio.
O treinador aparece atrás de nós e coloca a mão no ombro de Weston. “Precisamos de um jogador deles fora”, ele diz.
Fico tenso, porque sempre que Pedersen encoraja Brooks a tirar alguém do jogo, é grande a chance de dar confusão. Voltamos ao jogo, e Brooks tem sangue nos olhos. Já na disputa do disco, ele começa a provocar Davenport, agachado à direita de Nate Rhodes, que por sua vez tem Mike Hollis à sua esquerda.
Estou focado demais no disco para registrar o que Brooks diz, mas, o que quer que seja, desperta um rosnado feroz de Davenport. “Vai se foder”, ele retruca.
“Já chega”, o árbitro diz.
De novo, ganho a disputa. Passo o disco para Brooks, que vai abrindo caminho até a área adversária. Ele devolve o disco para mim, mas não arrisco. A defesa está protegendo Corsen e a rede parece a porra da guarda real de Game of Thrones. Preciso de uma abertura. Preciso…
O apito toca. Não vi o que aconteceu, mas viro e vejo Hollis gritando com Weston.
Hollis toma uma suspensão por levantar o taco. Brooks e eu nos entreolhamos. Ele fez seu trabalho. Agora é hora de eu fazer o meu.
Nossa linha vai ficar no gelo até a suspensão terminar, mas não precisamos de muito tempo. Briar tem um a menos, e, embora ganhem o disco, assim que o recuperarmos, damos o troco. Passo por Davenport e dou uma tacada que nem mesmo esse novo Corsen consegue bloquear. O disco entra e o alívio toma conta de mim.
Empatamos o jogo.
“Bom trabalho”, o treinador diz quando passo por ele.
Tiro o protetor bucal, que não é obrigatório, mas sou muito apegado aos meus dentes para não usar. Respiro com dificuldade, o peito subindo e descendo, enquanto vejo meus colegas passando. Foi cansativo. Fiquei mais de três minutos no gelo, o que é incomum.
“Se controla aí”, ouço Heath dizer a Jonah.
Olho mais para a frente no banco, franzindo a testa. “Algum problema?”, pergunto aos novatos.
“Não, tudo bem”, Heath diz.
Não me convenço. O rosto raivoso de Jonah está virado para a ação à nossa frente, mas não sei o que aconteceu. Talvez tenha levado um golpe sujo e esteja puto com o jogador adversário.
A linha de Dmitry consegue segurar Briar. Quando McCarthy senta ao meu lado, dou um tapinha no ombro dele. “Boa briga”, digo.
“Valeu.” Ele fica vermelho com o elogio, e sei que está se segurando para não sorrir. Não costumo fazer elogios à toa, então todos sabem que, quando faço, estou sendo sincero.
A felicidade óbvia dele me faz sentir uma pontada de culpa. Brooks mexeu com a minha cabeça na outra noite com aquela história de fazer a coisa certa com McCarthy. Decidi contar a ele que estou saindo com Brenna, mas só depois do jogo. Não queria correr o risco de que a notícia o distraísse.
O treinador troca a linha de novo. Agora somos eu, Brooks e Jonah, que entra no lugar de Coby. Ele é um ala direito que fica com todos os rebotes. Quase em seguida, os árbitros marcam alguma coisa. Quando ouço o apito, vou até o disco e me posiciono.
A disputa é um desastre desde o início. A falação começa, mas dessa vez não vem de Weston, e sim de Jonah.
“Davenport”, ele rosna.
O jogador da Briar só dá uma olhada para ele antes de focar no árbitro.
“Estou falando com você, cretino. Não finge que não ouviu.”
“Não estou fingindo nada”, Davenport retruca. “Só não estou ligando pro que tem a dizer.”
O disco cai. Eu o pego, mas Jonah ainda está distraído por causa da conversa e nem vê quando o passo a ele. Davenport o intercepta e parte para o ataque. Vamos atrás dele, mas é Johansson quem nos salva do erro que poderia nos custar muito. Ele defende o tiro e passa o disco para Brooks.
“Isso é inaceitável”, sibilo para Jonah ao passar. Ele não costuma fazer esse tipo de cagada. “Foco no jogo.”
Acho que Jonah nem me ouve. Ou não se importa. Quando ele e Davenport estão emaranhados nas placas no nosso próximo turno, Jonah recomeça a falar. “Quinta à noite”, ele grunhe. “Onde você estava?”
“Vai se foder.” Davenport dá uma cotovelada forte em Jonah e vence a disputa pelo disco.
Obstruo Davenport e recupero o disco, mas de novo Jonah está envolvido demais no que quer que esteja acontecendo entre os dois. Ele não vai embora como deveria fazer, e tomamos uma falta. O árbitro apita.
Não sei o que está acontecendo, mas não estou gostando.
A próxima disputa de disco ocorre à esquerda do nosso gol. Enquanto nos reposicionamos, Jonah retoma o interrogatório. “Quinta à noite, idiota”, ele fala. “Você estava no Brew Factory.”
“E?” Davenport parece irritado.
“Você nem vai negar?”
“Por que negaria? Fui a um bar. Agora cala a boca.”
“A ruiva com quem você foi embora. Se lembra dela?”, Jonah pergunta.
Sinto um buraco no estômago e torço para que soltem logo o disco — neste instante —, porque já sei aonde ele vai chegar, e é melhor que não chegue. Agora.
“Quem? Violet? Por que se importa com quem eu como?”
“ Ela é minha namorada!”
Jonah parte para cima dele e derruba o árbitro, que se esparrama no gelo em um emaranhado de membros.
Merda. Merda, merda, merda!
“Hemley!”, grito, mas Jonah nem me ouve.
Ele derruba Hunter Davenport e começa a socá-lo. Quando tira as luvas, fico enraivecido, porque, porra, isso é motivo para expulsão. Tento tirá-lo de cima do cara, mas Jonah é forte. Ele grita com Davenport por ter dormido com Vi, enquanto apitos soam por toda parte.
Davenport parece genuinamente confuso. “Ela não me falou que tinha namorado! Sai de cima de mim!” Ele nem tenta bater de volta.
Jonah tira sangue do canto do lábio de Davenport. O jogador de Briar ainda está de luva, sem ter dado um único soco. Se alguém for ser expulso, vai ser Jonah, sozinho.
Tento mais uma vez acalmar meu jogador. Nate Rhodes, o capitão da Briar, se aproxima e tenta me ajudar. Juntos, conseguimos levantar Jonah. Ele continua puto. “Ele trepou com a minha namorada”, Jonah grita.
Outro apito soa. É o caos. Davenport consegue levantar, mas Jonah se solta e parte para cima do adversário de novo, empurrando-o contra as placas. Os dois voltam a cair no gelo.
Só que, dessa vez, ouço um grito alto de dor.
Puxo Jonah de novo, mas o som agonizante não vem dele.
O capacete de Davenport cai. Ele tira as luvas e segura o pulso, pressionando-o contra o peito. O cara solta uma série de xingamentos, a dor em seus olhos é inconfundível. “Você quebrou meu pulso”, Davenport reclama. “Qual é o seu problema?”
“Você mereceu”, Jonah solta. De repente, noto um borrão se movendo e Nate Rhodes soca o queixo do meu jogador.
Outros jogadores entram na briga, e o caos vira catástrofe. Apitos continuam soando enquanto os árbitros tentam controlar a confusão. Mas isso é impossível agora.