Todos os Nossos Ontens
Sete
Marina
O tem po passa. Não sei quanto. O Serviço Secreto nos tira do salão — a cena do crim e — com o um a m anada, e eu acabo m e sentando no chão do lobby, a alguns m etros de onde as portas da frente abrem e fecham , m andando sopros de ar gelado sobre m im , sem m e im portar com os anos de suj eira incrustada que estou depositando em m eu lindo vestido. Em algum lugar, perdi um dos sapatos de Sophie, e um m achucado está escurecendo depressa no m eu braço, que eu não m e lem bro de ter batido. Por toda a m inha volta, as pessoas estão j untas em pequenos grupos, chorando ou respondendo a perguntas dos agentes, que se espalham para recolher depoim entos, m as não as vej o de verdade. Sei que deveria procurar Finn ou ligar para Luz ou cham ar um táxi, m as tudo o que consigo fazer é ficar sentada e olhar fixam ente e m e lem brar do dia em que Jam es enterrou os pais.
Jam es parecia entalhado em m árm ore no dia do funeral. Doze anos de idade, usando um terno preto novo e sapatos grandes dem ais para ele, com um a expressão que lem brava um a pedra branca e dura. Fiquei em pé no fundo da igrej a com m eus pais, cada um de um lado m eu, duas colunas altas de preto tão sólidas quanto as paredes da m inha casa, e tentei ver o rosto de Jam es, lá no banco da frente com Nate ao seu lado.
Ele estava quieto e parado, e eu fiquei esperando que chorasse. Eu teria chorado.
Meus pais m e disseram para dar um pouco de espaço para ele, m as, assim que chegam os à recepção dos Shaw, eu saí correndo e os deixei perto de um a m esa de bufê reunindo pratos de bolinhos de caranguej o. Deslizei em m eio à m ultidão com o um peixinho entre um cardum e, sacudindo e serpenteando na altura da cintura, procurando o cabelo escuro e o rosto pálido de Jam es. Dei duas voltas no térreo, m as ele não estava em nenhum lugar. Nate — que trabalhava cuidando de docum entos para o j uiz MacMillan na época e tinha sua própria casa na Colina do Capitólio, m as ainda ia para casa na m aioria dos fins de sem ana — estava apertando m ãos e aceitando pêsam es. Quando ele m e viu, inclinou a cabeça em direção à escada e fez um a m ím ica com o se abrisse um livro.
Na biblioteca do andar de cim a, encontrei o paletó de Jam es deitado nas costas do sofá e seus sapatos de couro brilhantes j ogados para um canto, m as não havia sinal de Jam es. Cham ei-o pelo nom e, porém apenas o silêncio m e cum prim entou. Entrei m ais na biblioteca e, enfim , encontrei-o enrolado em um a grande poltrona que ficava virada de costas para a porta, tão encolhido que estava invisível até eu m e aproxim ar. Sentei-m e de pernas cruzadas no chão ao lado dele, m esm o sabendo que m am ãe ficaria furiosa com os vincos no m eu m elhor vestido azul-m arinho.
— Você está bem ? — falei.
Eu sabia que ele não estava, é claro, m as não sabia o que m ais dizer.
— Por que os seus pais deram para você o nom e de Marina? — ele perguntou, a voz estável e norm al, com o se fosse um dia com o outro qualquer.
A calm a nada natural dele m e deixou brava.
— Foi ideia da m inha avó. É por causa de um a personagem de um a peça.
— Shakespeare, certo? Péricles, Príncipe de Tiro — ele disse. — Marina nasceu em um barco durante um a tem pestade.
— É.
— Mam ãe e papai deram o nom e de Nate por causa do m eu avô, que foi governador de Connecticut. Nunca esperaram que teriam a m im . Mam ãe disse que eles discutiram por m eses quanto a que nom e m e dar. Ela queria Jam es, e papai queria Michael.
— Com o a sua m ãe ganhou?
Ele enfim m e encarou, e a expressão nos olhos dele era com o cair e cair e nunca atingir o chão.
— Nunca perguntei.
Meu coraçãozinho se partiu, pois acho que, m esm o com dez anos de idade, eu j á estava um pouco apaixonada por ele.
— Jam es...
Ele ficou em pé depressa antes de eu conseguir term inar a frase e, depois, o abaj ur na m esa ao lado dele estava voando contra a parede e estilhaçando em m ilhares de pedaços.
— Não era para isso acontecer! — ele gritou, a m ão sangrando onde havia batido no abaj ur com a lateral do punho. — Com o pôde sim plesm ente acontecer e não ter j eito de m udar? Um segundo idiota e um a rua m olhada e tudo está arruinado para sem pre?
A m esa seguiu o abaj ur conform e ele a em purrou no chão. Ela caiu de lado, fazendo barulho. Eu m e levantei desaj eitada e m e afastei dele.
— Sinto m uito — falei, em lágrim as.
Mas Jam es não conseguia m ais m e ouvir. Estava além das palavras. Urrou com o um anim al ferido enquanto destruía a biblioteca. Eu sabia que devia pará-lo, consolá-lo de algum a form a, m as não conseguia. Meu m elhor am igo no m undo de repente era algo estranho e ausente, e isso m e assustou. Saí correndo da biblioteca e voltei para o lado dos m eus pais e, quando o som dos gritos de Jam es desceu pela escada, Nate pediu licença e os em pregados nos acom panharam até a saída.
Não vi Jam es de novo durante três sem anas, e nunca conversam os sobre aquele dia. Tentei esquecer que tinha acontecido.
Porém , agora é tudo em que consigo pensar.
— Marina?
Sinto um a m ão no m eu om bro e percebo levem ente que há alguém agachado ao m eu lado. Viro-m e e foco os olhos em baçados nele.
— Finn?
— Levante, ok?
Ele m e aj uda a ficar em pé, e eu não resisto.
— Meu Deus, você está congelando. Cadê o Jam es?
— Os, ahn... Os param édicos vieram e...
O casaco de Finn de repente está quente sobre m eus om bros.
— Jam es foi na am bulância com Nate?
O som do nom e de Nate j oga o m undo real em um a clareza aguda. Eu realm ente vejo Finn pela prim eira vez e bato forte no peito dele com as duas m ãos.
— Aonde você foi? — grito enquanto ele cam baleia para trás e bate contra um a m esa decorativa de canto, onde está apoiado um arranj o de flores vistoso.
— Marina...
Eu bato nele de novo, m as ele está preparado desta vez e pega as m inhas m ãos.
— Você nos deixou! Jam es precisava de nós!
— Eu corri atrás do atirador! — ele grita por cim a da m inha histeria. Aperta m inha m ão com força e a pressão m e traz de volta à Terra. — O tiro veio por detrás de nós, e eu achei... Foi idiota, m as achei que talvez eu pudesse pegá-lo. Não sei no que eu estava pensando.
Eu m e dissolvo em um choro soluçado, e os braços de Finn vêm hesitantes em volta de m im . Ele está praticam ente m e segurando em pé, m as eu ainda assim o em purro, j ogando m inhas m ãos entre nós, atingindo seu peito, sem conseguir parar, e ele sim plesm ente m e deixa fazer isso.
— Eu odeio você — eu falo.
— Eu sei — ele diz e m e segura até eu conseguir respirar de novo.
Eu m e afasto e enxugo os olhos.
— Desculpe — balbucio.
— Tudo bem . Tenho certeza de que vou m erecer isso um dia.
— Precisam os ir para o hospital. Jam es vai...
Eu engasgo e não consigo term inar a frase.
— Ele não pode ficar sozinho agora.
— Tem certeza de que é um a boa ideia? — Finn pergunta. — E se a gente apenas atrapalhar ou...
— A situação ficou séria dem ais para você? — eu brigo com ele. — Jam es precisa de nós e nós vam os. Você é quem está tão desesperado para ser am igo dele. Não vai escapar dessa agora.
— É, tudo bem . — Finn levanta as m ãos, rendendo-se. — Vam os encontrar seu sapato e pegar um táxi.
Já há um a pequena m ultidão se form ando do lado de fora do hospital. Alguém está distribuindo velas. Com o fazem isso tão rápido? Alguém correu e com prou todas? Ver aquilo quase m e faz com eçar a chorar de novo, m as aperto os dentes com tanta força que dói e m e concentro nisso.
Marcho em direção à recepção do lado de dentro das portas de vidro deslizantes com Finn m e seguindo. Um a enferm eira está ocupada com um a fila de pacientes do pronto-socorro que estão tossindo ou apertando m achucados ensanguentados ou bebês chorando, e outra está ocupada inserindo inform ações em um com putador. Eu abro cam inho entre as pessoas doentes até a frente da recepção.
— Preciso de aj uda — digo.
— Vai precisar ir para o fim da fila, senhorita — a enferm eira da triagem diz, m al olhando para m im .
— Ei, com licença! — Eu balanço a m ão para a segunda enferm eira em frente ao com putador. — Isso é im portante. Estou procurando Jam es Shaw, o irm ão do congressista. Preciso saber aonde eles foram levados.
— Não vam os dar nenhum a inform ação sobre o congressista — a enferm eira diz — e você precisa ir para o fim da fila.
— Olha, você não entende. Eu conheço Nate Shaw, e o irm ão dele vai querer que eu...
Finn m e em purra para o lado com grosseria. Eu fico furiosa, m as, antes de poder arrancar a cabeça dele, ele está falando com a enferm eira com um a voz suave e calm a.
— Enferm eira Shapiro? Peço desculpas pela m inha am iga. Ela não quis ser rude; ela só está preocupada. Sabe, som os am igos de Jam es Shaw e estávam os com ele hoj e à noite no Mandarin. Ele é só um adolescente, com o nós, e você deve saber o que aconteceu com os pais dele. Sei que você só está tentando fazer o seu trabalho e nós entram os do nada aqui fazendo exigências, m as não tem nada que você possa fazer?
Incrivelm ente, a expressão da enferm eira fica m ais suave. Ela pega o telefone na m esa.
— Só um m om ento.
Finn vira-se para m e olhar e m e vê boquiaberta.
— O que foi? Algum as pessoas m e acham charm oso.
— Parece que sim .
— Além disso, talvez você vej a que as pessoas são m ais solícitas se você não lhes der ordens com o se elas trabalhassem para você.
— Bem , levando em consideração quanto dinheiro m inha fam ília dá para os hospitais desta cidade, bem que poderiam trabalhar.
Finn revira os olhos e m e dá as costas, e eu observo a enferm eira Shapiro falar em voz baixa com a pessoa do outro lado da linha, tentando descobrir o que ela está dizendo. Depois de um m om ento, ela cobre a boca do fone com um a m ão.
— A enferm eira deste turno lá no andar de cim a foi falar com o sr. Shaw e os agentes especiais que estão lá. Vão precisar da perm issão deles para subir.
— Você acha que...
Viro-m e para Finn e paro quando vej o sua expressão. Ele está encarando a sala de espera do pronto-socorro, separada de nós por um a divisória de vidro. Em algum m om ento nos últim os 30 segundos, o rosto dele passou de norm al para um tom doente de cinza. Seu foco parece ser um a m ulher de cabelos brancos em um a cadeira de rodas que está j ogando cartas com um a m enina sentada ao seu lado.
— Você está bem ?
Ele não m e ouve e, assim , dou um tapinha no seu braço.
— Olá?
Ele se vira e pisca para m im , com o se se lem brasse de que estou ali.
— Sim .
— Qual é o problem a com você?
Ele desvia o olhar.
— Eu só odeio m uito os hospitais.
— Bem , desculpe por ter arrastado você até aqui — digo. — O Nate só levou um tiro, afinal de contas.
— Não é isso...
— Senhorita?
Eu giro e olho para a enferm eira.
— Sim ?
— Um agente está vindo escoltá-los para o andar.
Eu solto um suspiro.
— Graças a Deus.
A enferm eira nos direciona para um elevador no final do corredor e nos diz para esperar ali. Quando as portas de correr apitam e se abrem , um agente à paisana da Polícia do Capitólio está parado lá dentro com o prefeito McCreedy. Finn dem ora um pouco para perceber e fica surpreso, o que seria engraçado se a situação toda não fosse tão horrível.
— Ah, Marina, ainda bem que você está aqui. Jam es está fora de si. — O prefeito se vira para o agente ao seu lado. — Ela está liberada, eu a conheço. Esse é seu am igo?
— Finn Abbott — digo.
O agente pega o docum ento de identidade que Finn oferece.
— Ele estava conosco na arrecadação de fundos.
— Entrem , entrem . — O prefeito acena com a m ão e entram os no elevador. — Eles podem vir, certo?
O oficial faz que sim com a cabeça depois de ter verificado a identidade de Finn com parando-a com a lista de nom es nas suas m ãos e aperta o botão para o terceiro andar. Sinto m eu estôm ago despencar quando com eçam os a subir.
— Com o está o Nate? — pergunto.
— Não falaram nada ainda — o prefeito responde. — Mas não está bem , eu acho.
— Alguém ligou para a Vivianne? — questiono. Ela é a noiva de Finn e estava em Nova York a trabalho.
— Ela fretou um avião do aeroporto JFK. Deve chegar logo.
Então Jam es está sozinho. Presa neste espacinho, cercada pelo prefeito de Washington, um agente da Polícia do Capitólio e Finn Abbott, tenho um desej o repentino e louco de fugir. Jam es vai estar devastado; que bem eu poderia fazer a ele? Meu Deus, e se Nate morrer? Finn estava certo; não devíam os estar aqui. Eu deveria estar em casa sob as cobertas, com Luz m e levando canecas de leite quente e m urm urando para m im em espanhol. Não consigo respirar aqui.
Soa um apito e as portas do elevador se abrem . Minha claustrofobia sufocante deveria m elhorar, m as não m elhora. Ela piora. Estam os aqui e não há com o voltar.
O andar está quase deserto. Dois enferm eiros — um a m ulher de avental cor de pêssego e um hom em de verde — estão sentados na central dos enferm eiros, e há a Polícia do Capitólio em uniform es pretos, agentes especiais com roupas com uns e alguns m em bros do Serviço Secreto reunidos em pequenos grupos pelo corredor, m as não há m édicos apressados, nenhum paciente andando lentam ente e puxando um suporte de soro, nenhum visitante com flores. O andar foi esvaziado. Todos estão aqui apenas por Nate.
A sala de espera fica do outro lado do corredor em relação à central dos enferm eiros e tam bém é cercada de vidro. Há vários hom ens lá dentro — reconheço o senador Gaines —, todos conversando próxim os em voz baixa, e um oficial está ao lado da porta. Ele faz um aceno com a cabeça para nós conform e nos aproxim am os.
Jam es está sentado sozinho em um canto da sala, curvado em um a cadeira com as m ãos unidas à sua frente. Por um segundo, ele é aquele m enininho escondido na poltrona da biblioteca de novo.
Ele levanta o olhar, e seus olhos encontram os m eus. Eu corro para m e aj oelhar aos pés dele.
— Ah, m eu Deus, Jam es...
— E-ele está em cirurgia. Não sabem se... se...
Ele despenca para a frente, enterrando o rosto no lugar onde m eu om bro se encontra com o pescoço, e eu sinto lágrim as quentes contra m inha pele. Levanto os olhos para Finn, que se aproxim ou de nós, e trocam os um olhar desam parado. Ele se senta ao lado de Jam es e coloca um a m ão hesitante em seu om bro.
— Por que alguém faria isso? — Jam es diz entre os soluços. — Por que o Nate?
— Não sei — digo, im potente.
— Não tem m otivo, cara — Finn diz. — Você não vai encontrar sentido nisso.
— Queria que m inha m ãe e m eu pai estivessem aqui — Jam es fala.
Eu esfrego as m ãos nas costas dele.
— Eu sei.
Jam es acaba se afastando de m im , lim pando o rosto com a m anga. Ele se inclina para trás na cadeira, para descansar a cabeça contra a parede, e eu vej o pela prim eira vez que a cam isa branca do seu sm oking está m anchada de sangue. Um a grande m ancha verm elha no seu peito, onde ele aninhou o irm ão, secou e ficou m arrom e dura. Sangue de Nate. Seco e m orto na cam isa de Jam es.
Não consigo olhar para isso.
De repente, estou cheia até a borda pela im potência. Não posso consolar Jam es, não posso consertar Nate, não posso m udar o que aconteceu.
Mas, que diabos, posso conseguir um a cam isa lim pa para Jam es.
— Vou encontrar outra coisa para você usar, tudo bem ? — digo, trêm ula.
Jam es baixa os olhos para o peito e franze as sobrancelhas, com o se estivesse reparando na cam isa ensanguentada pela prim eira vez. Toca na m ancha com leveza, quase reverência.
— Tinha tanto sangue — ele sussurra.
Eu engulo em seco.
— Eu sei. Vam os lim par você.
— É. — Finn fica em pé de repente. — Venha, Jim bo. Vam os até o banheiro.
Jam es não resiste. Ele nem sequer repara direito que Finn o está puxando para levantar e m anobrando-o em direção ao banheiro m asculino no final do corredor. Eu sigo para a central dos enferm eiros.
— Preciso de algum avental ou algo assim — digo — para o m eu am igo usar.
Os enferm eiros parecem surpresos. Muito bem , Marina.
— Desculpem — falo. — Mas vocês têm algum a coisa que ele possa vestir? As roupas dele estão...
Não consigo term inar a frase.
— Tenho alguns uniform es extras no m eu arm ário — o enferm eiro diz, levantando-se. — Vou pegar para você.
Ele volta com um conj unto de uniform e azul dobrado com capricho. Conform e eu o pego, não m e sinto com pletam ente inútil por m eio segundo inteiro.
Consegui um a cam isa lim pa para Jam es. Que conquista.
Bato na porta do banheiro.
— Meninos? Eu tenho um as roupas lim pas.
— Entre — Finn cham a.
Nunca estive em um banheiro m asculino antes e, com tudo o que está acontecendo agora, não deveria ser tão estranho para m im quanto é, m as, m esm o assim , abro a porta devagar, com o se estivesse com m edo de ser pega. Lá dentro, Jam es está inclinado contra um a pia, e Finn está lim pando gotinhas de sangue do seu pescoço com um a toalha de papel úm ida. A cam isa e o paletó de Jam es ensopados de sangue estão dobrados sobre a porta de um cubículo, e sua barriga e seu peito estão m olhados por terem sido lavados. Tento não olhar para o torso nu de Jam es. Tenho um a im pressão de pele pálida por m eses de inverno e um abdôm en firm e por horas de braçadas na piscina e, depois, fecho os olhos. Não confio que eu não vá pensar em coisas terríveis.
— Marina? — Finn diz. — Pode m e passar isso?
Abro os olhos de novo e vej o Finn m e olhando, irritado. Ele está com um a das m ãos parada na toalha de papel contra o pescoço de Jam es e a outra esticada.
— Desculpe — eu m urm uro e dou um passo à frente para entregar-lhe o uniform e.
Jam es m e m ira com olhos confusos, e, com o corpo nu até a cintura, ele de repente parece incrivelm ente vulnerável. Com o se eu pudesse quebrá-lo com um a das m ãos.
— Braços para cim a — Finn diz.
Ele pega a cam isa lim pa e, quando Jam es levanta os braços, Finn a desliza nele com a habilidade de um pai vestindo um bebê. É um a visão estranha. Jam es em erge da cam isa com o cabelo bagunçado, o que o faz parecer tão criança quanto Finn o está tratando.
— Calças — Finn diz, todo prático, e Jam es, obediente, coloca as m ãos na braguilha da calça do sm oking.
— Ah. Meu Deus. — Eu m e viro. — Vou sair.
— Eu disse, cara — ouço Finn dizer enquanto saio. — Tirar a calça não é a m aneira de conseguir um a garota. Isso só assusta.
Antes de fechar a porta, eu chego m esm o a ouvir Jam es rir.
Alguns m inutos depois, um Jam es lim pinho e trocado segue Finn de volta para a sala de espera. Ele se senta por cerca de dez segundos antes de levantar para ficar indo e voltando pela extensão da pequena sala, m urm urando.
— Com o fizeram isso? — ele diz baixinho. — Com o entraram ?
O prefeito McCreedy acha que Jam es está falando com ele e responde:
— Alguém vai vir nos dar notícias...
— É com o o Bobby Kennedy, não é? — Jam es continua, com o se o prefeito nunca tivesse falado. — É igualzinho, só que...
O prefeito McCreedy, o senador Gaines e os outros oficiais da arrecadação de fundos tentam esconder seus olhares confusos. Na m aior parte, não conseguem , m as Jam es não repara. Ele não repara em nada quando está assim . Às vezes, quando Jam es tem um problem a — com o a m aneira de resolver um a equação para o dr. Feinberg ou m esm o algo tão trivial quanto que tipo de com ida pedir no delivery para o j antar —, ele se recolhe à sua m ente para resolver. Ao contrário dos hom ens na sala, Finn e eu vim os esses episódios vezes suficientes para não ficarm os perturbados.
O prefeito dá um passo na direção dele.
— Filho, você está...
Eu seguro o braço dele.
— Por favor, não o interrom pa. É só um a coisa que ele faz. É m elhor se você não interrom per.
O que quer que estej a passando na cabeça de Jam es é algo que ele precisa resolver. Se for im pedido ou distraído, pode ficar furioso. Jam es não perde a calm a com frequência, m as, quando o faz, é espetacular.
O prefeito dá um tapinha na m inha m ão.
— Estou feliz por você estar aqui por ele, Marina — ele diz, e deixa Jam es sozinho.
— Nate estava na Inteligência, então, talvez, ele... — Jam es m urm ura. — Mas o vice-presidente estava lá! Não devia ter acontecido. Não devia...
Jam es ainda está andando de um lado para o outro e falando sozinho quando a noiva de Nate, Vivianne, entra correndo na sala, seu casaco com os botões em casas erradas e um tom esbranquiçado na pele m orena. Eu sou a pessoa que está m ais perto dela, e ela m e agarra, prendendo-se a m im com o se estivesse se afogando.
— Ah, Marina — ela diz, trêm ula. Vê Jam es por cim a do m eu om bro e se afasta. — Ah, não. Há quanto tem po ele está assim ?
— Não m uito. Vinte m inutos.
— Ótim o. — As unhas dela afundam nos m eus om bros. — Marina, o que eu vou fazer?
Não sei o que dizer a ela. Não há nada a dizer.
— Posso pegar algum a coisa para você, Viv? — Finn pergunta. — Água ou café?
— Um chá de ervas seria ótim o, obrigada.
Finn vai buscar um a bebida para ela na m áquina e Vivianne, sem soltar de m im , afunda em um a cadeira, puxando-m e para baixo ao seu lado. Ela e Nate se casariam no verão. Eles estão j untos, indo e voltando, desde a faculdade de Direito, alm as gêm eas que não conseguiram acertar o m om ento m uito bem . Ela estava trabalhando em Nova York em um escritório superpoderoso especializado em litígios, tentando pagar seu em préstim o estudantil, e ele estava aqui, criando o irm ão m ais novo. Levou anos para ele convencê-la a largar o em prego e vir para Washington trabalhar para um a das entidades sem fins lucrativos que ela am a, porém não pagam quase nada e ela não o queria a sustentando. Mas, enfim , ele venceu pelo cansaço e a convenceu a se casar com ele.
O que talvez ela nunca consiga fazer agora.
— Eles j á falaram algum a coisa para vocês? — ela pergunta.
Faço que não com a cabeça.
— Só que ele está em cirurgia.
— Viv?
Ela e eu levantam os o olhar. Jam es parou de andar e viu Vivianne pela prim eira vez. Ela fica em pé e envolve-o em um abraço.
As horas seguintes são um borrão. Nate fica em cirurgia de em ergência noite adentro, e não há nada para nós fazerm os além de esperar. O prefeito McCreedy é cham ado em outro lugar e, assim que sai, o senador Gaines e os outros com eçam a desaparecer com desculpas m urm uradas. Depois de um tem po, ficam os apenas nós quatro e o agente da Polícia do Capitólio à porta.
Vivianne m antém um m onólogo quase constante.
— Liguei para a sua prim a Alice, e ela está vindo de avião de Westchester. Ela disse que a Nancy está procurando alguém para tom ar conta das crianças... Você sabe que o Benj am in acabou de com pletar dois anos e parece que a babá está de férias... Mas, depois, ela e o John estarão a cam inho. O William está em Xangai, m as tenho certeza de que ele virá para cá assim que puder...
Enquanto isso, Jam es não fala, apenas encara o chão com um a ruga fina vincando sua testa. Com o se o fino carpete m arrom o tivesse insultado.
Eu peço licença da sala de espera e tiro o celular da bolsa clutch que Sophie roubou do arm ário da m inha m ãe. Mandei um a m ensagem de texto para Luz quando chegam os para avisar onde estávam os — não podia suportar ouvir a voz dela, porque sabia que cairia no choro com o um bebê —, m as, depois, desliguei o celular por causa do fluxo constante de m ensagens de am igos e pessoas que m al conheço. Ligo-o outra vez e espero para ver se tenho algum correio de voz. Apenas dois, am bos de Tam sin. Fico m exendo no telefone. Estou pensando em fazer a ligação há horas, m as, m esm o agora, com o dedo posicionado sobre o núm ero, não tenho certeza. Por que eles não m e ligaram ? Devem ter sabido a essa altura. Se eu não ligar, então eles não podem deixar de atender. Se eu não quiser, não posso m e decepcionar.
Aperto o núm ero, identificado com o PAI CELULAR, e o telefone com eça a tocar. Fecho os olhos e tento im aginar o que vou dizer quando ele atender. Pai, o mundo está acabando, por favor, faça parar.
— Oi. Você ligou para Daniel Marchetti. Não posso atender...
Eu bato o dedo no telefone para finalizar a ligação. Tento a m am ãe. O telefone dela cai direto na caixa postal, e estou disposta a apostar um m ilhão de dólares que ela está no spa. Papai vai para Vail por causa do esqui, m as ela passa quase todos os m om entos sendo m assageada ou depilada ou esfoliada.
Ou é o que eu ouvi dizer, j á que eles nunca m e levaram j unto.
Enfio o telefone de volta na bolsa, m eus dedos se enrolando dentro do tecido conform e cerro os punhos. Os delicados cristais Swarovski que adornam o lado de fora são forçados contra as linhas e eu os ataco com um a das m ãos, m eus dedos acertando e arrancando m eia dúzia de peças brilhantes. Mam ãe vai m e m atar, m as eu não ligo.
Vou ao banheiro e j ogo um pouco de água fria no rosto. Tento não prestar m uita atenção ao m eu reflexo. Meu cabelo e m aquiagem estão um estrago e, de repente, não reconheço a pessoa que olha para m im . Ela é com o a fotografia de um a prim a distante. Vagam ente fam iliar, m as estranha. Não eu.
— Você está bem ? — Finn pergunta em voz baixa quando m e j ogo de volta na cadeira da sala de espera. Ele está olhando para m inha bolsa destroçada.
— Sim — respondo. — Você ligou para os seus pais?
— Mandei um a m ensagem . Não quis acordar a m inha m ãe. — Ele levanta a cabeça para m im . — O que seus pais disseram ?
Eu desvio o olhar.
— Nada.
Meus olhos voltam para Jam es, que está sentado no canto da sala, exatam ente com o estava quando saí, m as agora está com a cabeça baixa sobre um bloco de folhas am arelas e escreve com fúria. A expressão fantasm agórica sum iu do rosto dele, e seus olhos distantes agora estão focados enquanto ele encara o bloco, enraivecido.
— O que ele está fazendo? — eu sussurro.
— Não tenho certeza — Finn responde. — Ele foi e pediu para a enferm eira caneta e papel depois de você sair, e está assim desde então. Você acha que ele está bem ?
— Não sei.
Os olhos de Jam es estão acesos com tal fogo que tenho m edo de que ele possa incendiar o papel. É um pouco aterrorizante, m as m enos assustador do que o olhar perdido e vazio que ele tinha havia horas.
— Pelo m enos ele está fazendo alguma coisa.
— É, só m e preocupa o quê.
Olho para Finn e estou tentando decifrar sua expressão franzida quando ouço o bloco de papel atingir o chão atrás de m im . Jam es ficou em pé de repente, e eu sigo a linha de visão dele até o m édico em roupa de cirurgia parado na porta.
Ah, m eu Deus, é agora.
Vivianne se levanta com Jam es de um lado e eu do outro, e exam ino o rosto do hom em enquanto ele tira a m áscara. Estou procurando algum a pista sobre as notícias que ele está trazendo, m as seus traços são perfeitam ente im penetráveis, com o um a segunda m áscara. No com eço, fico aliviada. Se Nate tivesse m orrido, ele pareceria chateado, não? Mas, se tudo está bem , é quase cruel ele não sorrir.
Nós quatro encaram os o m édico com o se ele fosse o pelotão de fuzilam ento e nós fôssem os os prisioneiros.
— Ele está bem ? — Jam es pergunta.
— O congressista Shaw foi ferido com m uita gravidade — o hom em diz, e eu m al resisto à vontade de sacudi-lo. Sabem os que ele foi ferido com gravidade; estávam os lá. — Ainda estam os trabalhando para consertar o estrago feito pela bala, m as ele j á passou pela parte m ais difícil.
Jam es desm onta, e eu coloco o braço em volta da cintura dele para estabilizá-lo. Graças a Deus. Apoio m eu rosto no om bro dele.
— Ele ainda está em estado crítico, no entanto. As próxim as 48 a 72 horas são cruciais.
Jam es se endireita, seus m úsculos ficando rígidos sob m inha m ão.
— O que isso significa?
— Vam os nos sentar e eu explicarei tudo. — O doutor se vira para Finn e eu. — Desculpem , m as detalhes sobre a condição do congressista são confidenciais, então vou precisar que vocês dois esperem lá fora.
Finn aperta o om bro de Jam es antes de sair da sala. Eu fico na ponta dos pés e deixo um beij o na testa dele, e ele pega m inha m ão enquanto eu saio por um m om ento e, depois, deixa que ela deslize. É um a coisa tão pequena, m as o toque m e deixa trem endo. Eu m e odeio por m e sentir desse j eito enquanto Nate está lutando pela vida no fim do corredor, m as, por um segundo, é quase com o se Jam es precisasse de m im a seu lado.
Finn e eu nos sentam os em duas cadeiras j unto da parede para esperar. Não falam os. Ele m e surpreendeu nas últim as horas, sendo tão paciente e gentil e nem um pouco idiota. Eu m al o reconheço.
O m édico logo vai em bora, fazendo um aceno para nós com a cabeça ao voltar para a sala de operações, e eu volto correndo para o lado de Jam es.
— É ruim — Vivianne diz. — Ele está vivo, m as não está respirando sozinho. O m édico disse que a chance é de apenas 50% de ele passar... passar dos próxim os dias.
— Jesus — Finn sussurra.
— Ah, m eu Deus.
Quero tocar em Jam es, m as estou com m edo, e m inhas m ãos flutuam inúteis a m eu lado.
O rosto pálido de Jam es está sem expressão.
— Ele disse que devem os poder vê-lo em algum as horas, m as...
De repente, ele perde a vontade de falar, e sua cabeça cai nas m ãos. Penso em Jam es no dia do funeral dos pais, sangrando no corte na m ão que ele não parecia sentir, j ogando m óveis pela biblioteca. Quase posso ver o fio que o segura no lugar agora com eçando a desfiar. Se nada m udar, tenho m edo de que ele arrebente.
Coloco um a m ão hesitante nas costas dele.
— Que tal irm os para a m inha casa e você dorm ir um pouco? Voltam os de m anhã cedo, quando Nate estiver pronto para ver você.
— Acho que pode ser um a boa ideia — Vivianne diz.
Jam es faz que não com a cabeça, a voz abafada pelas m ãos.
— Não. Vocês podem ir, m as eu tenho de ficar. Eu nunca m e perdoaria se...
... se eu saísse e Nate morresse. Eu ouço as palavras m esm o no silêncio.
— Certo. — Olho para Finn e encolho os om bros. — Vam os ficar tam bém .
Tiro m eu telefone e ligo para Luz. Se vam os ficar, vou precisar de algo m enos ridículo para vestir.
É claro que o m otivo real de eu ligar para Luz é que não aguento m ais um segundo fingindo que sou forte. Se é que é isso que tenho sido até agora. Preciso que alguém m e abrace e m e diga que vai ficar tudo bem .
Luz leva m ais de um a hora para ser revistada e liberarem sua entrada, em grande parte porque trouxe duas bolsas enorm es. Depois de ela receber a perm issão, passa depressa pelo agente posicionado do lado de fora da sala de espera e vem direto até Jam es e eu, pegando-nos em seus braços carnudos e deixando beij os em nossas cabeças.
— Ay, Dios mío — ela m urm ura. — Meus queridos. Deus abençoe vocês.
Eu escondo um sorriso enquanto sofro a indignidade de ter m eu rosto am assado no peito de Luz, m as Jam es parece não estar ali, com o se parte dele tivesse ido em bora e deixado o corpo para trás.
Luz desfaz as m alas. Um a contém um a troca de roupas para cada um de nós, e a outra contém m ais com ida do que o hospital inteiro consum iria em um a sem ana, de sanduíches e frutas a um a travessa de enchiladas e biscoitos recém -feitos. Luz cozinha quando está preocupada e, a j ulgar pelo conteúdo da bolsa, ela estava enlouquecendo.
Não com em os nada além de lanches de m áquina desde o salm ão de 800 dólares e, assim , Finn m ergulha na com ida, Vivianne pega um pêssego e até Jam es consegue m ordiscar um sanduíche de m anteiga de am endoim . Finn m e oferece o prato de biscoitos com gotas de chocolate, m as faço que não com a cabeça e, em vez disso, pego as roupas que Luz trouxe. Peço licença para ir ao banheiro m e trocar. É difícil im aginar por que eu antes era apaixonada por este vestido. Quando chegar em casa, vou queim á-lo.
Saio do cubículo do banheiro vestindo j eans e um a m alha, e encontro Luz apoiada na pia, os braços cruzados em frente ao peito.
— Mi hija, você está bem ?
Eu desato a chorar.
Luz m e envolve em seus braços, esfregando círculos contra m inhas costas com a palm a da m ão com o costum ava fazer quando eu era pequena. Estou fazendo sons incrivelm ente constrangedores e irregulares e tenho certeza de que m eu nariz está escorrendo no m oletom de Luz, m as ela não deixa que eu m e afaste, e fico feliz.
— Sinto m uito pela noite passada — falo. — Sei que sou um a vaca com você às vezes.
— Xiu, xiu. — Ela tira m eu cabelo do rosto e enxuga m inhas bochechas com a ponta da m anga. — Você ligou para sua mama?
Faço que não com a cabeça. De algum a form a, é m ais fácil fingir que nem tentei. Luz m e aperta m ais, até m inhas costelas doerem . Não sei no que eu estava pensando quando dem orei tanto para ligar para ela.
Voltam os para a sala de espera, onde Finn está rem exendo em um baralho que ele encontrou, Vivianne está encarando o telefone e Jam es voltou a rabiscar no bloco de papel. Ninguém levanta o olhar quando entram os. Luz senta-se perto da porta e tira um tricô de um a de suas bolsas infinitas. Sento-m e entre os m eninos e procuro algo para fazer com as m ãos. Enfim , desisto e com eço a m astigar um a unha enquanto observo Jam es.
Essa escrita frenética está com eçando a m e preocupar. É intensa dem ais, até para ele. Quero que ele olhe para m im e diga algum a coisa, qualquer coisa para interrom per os rabiscos m aníacos da caneta contra o papel e, assim , pergunto:
— Você com eu, Jam es?
— Ele com eu — Finn diz.
Jam es risca algo no seu bloco de notas com traços febris.
— Você quer dizer aquele sanduíche com três m ordidas? — falo, acenando com a cabeça para o sanduíche de m anteiga de am endoim e geleia esquecido na m esa. — Porque eu não tenho certeza se isso conta com o com er.
— E você tem m oral para dizer isso? — Finn com enta, suave.
Sinto o sangue ser drenado do m eu rosto. Luz levanta o olhar para m im , m as logo se volta para o seu tricô.
— O que isso significa? — pergunto.
— Nada.
— Não, fale para m im !
— Significa dá um tem po, certo, Marina? Ele vai com er quando tiver fom e.
— Só estou tentando cuidar dele, não...
— Jesus, eu ainda estou aqui, sabiam ?
Viro a cabeça depressa para olhar Jam es. Ele está em pé e j oga o bloco de notas no canto m ais distante da sala, onde ele bate contra a parede e cai atrás de um a cadeira.
— É o Nate que está m orrendo — ele diz. — Não eu.
O ar sai dos m eus pulm ões.
— Jam es...
— Oh, querido — Vivianne diz. — Eles só estão tentando aj udar.
Jam es veste seu casaco.
— Vou tom ar um pouco de ar.
Eu dou um pulo.
— Vou com você.
— Não, Marina! Eu preciso... — Ele respira fundo e baixa a voz. — Eu só preciso de um m inuto, tudo bem ?
Afundo de novo na cadeira e pisco para conter as lágrim as.
— É. Tudo bem .
Quando ele sai, eu apoio a testa nos j oelhos e cubro a cabeça com as m ãos.
— Deixe que ele respire, M.
— Cale a boca, Finn! — respondo.