Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 1 de 40

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Todos os Nossos Ontens

Um

 

Em

Encaro o ralo no centro do chão de concreto. Foi a prim eira coisa que vi quando m e trancaram nesta cela, e m al desviei o olhar desde então.

No com eço, eu estava sim plesm ente obstinada, arrastando os pés com os finos chinelos de prisão que m e deram , de form a que eles fossem forçados a m e puxar pelo corredor pelos dois braços. Porém , quando vi o ralo, com ecei a gritar. Ele cresceu à m inha vista até dom inar a pequena cela de blocos de concreto, e eu chutei os hom ens que m e seguravam , tentando arrancar m eus braços das m ãos de ferro deles. Eu só conseguia conj urar os cenários m ais repulsivos com o m otivo de eles precisarem de um ralo no chão.

Quaisquer que fossem os horrores que eu im aginei, eles não aconteceram — pelo m enos, ainda não —, m as o ralo ainda dom ina m inha atenção. É com o um a estrela guia para m im , puxando m eu foco de volta para ela de novo e de novo. Mesm o agora, estou deitada de lado em m inha cam inha estreita contra a parede e encarando a coisa com o se ainda houvesse algo a aprender com ela. Quatorze centím etros de diâm etro, 32 buraquinhos e um am assado do tam anho de um a m oeda de cinco centavos um pouco fora do centro.

— O que você está fazendo? — A voz conhecida está fraca através da ventilação do aquecedor.

— Um bolo.

Ele ri, e o som m e faz sorrir. Estou um pouco surpresa por m eus m úsculos ainda se lem brarem de com o fazer o m ovim ento.

— Você está encarando aquele ralo de novo?

Não digo nada.

— Em , por favor — ele diz. — Você só vai se enlouquecer.

Mas tenho outra ideia na cabeça.

Hoj e, enfim , vou descobrir todos os segredos do ralo.

 

Ouço os passos de um guarda se aproxim ando algum tem po depois. É difícil definir o tem po aqui, sem relógios ou j anelas ou qualquer atividade para quebrar o longo fluxo de segundos. Tudo o que tenho para m arcar o tem po são m inhas conversas com o m enino na cela ao lado e o aum ento e a dim inuição da m inha fom e.

Meu estôm ago resm unga com o som das botas contra o cim ento. O som é com o um sino para um dos cães de Pavlov. Deve ser hora do alm oço.

As pesadas portas de m etal de correr são abertas e revelam Kessler, o guarda com o rosto que parece a lenta com bustão de um incêndio controlado. A m aioria dos guardas é indiferente a m im , m as ele m e odeia de verdade. Ressente-se de ser obrigado a m e servir, eu acho, trazendo m inhas refeições e peças lim pas das roupas azuis sim ples que m e dão para usar. Isso m e faz sorrir. Ah, se ele soubesse com o que eu estava acostum ada antes de o m undo desm oronar ao nosso redor com o um a casa com ida de dentro para fora pela podridão.

Kessler estende a bandej a do alm oço para m im , e eu m e m exo com rapidez para tom á-la das m ãos dele. Quando não sou veloz o bastante, ele a deixa cair com barulho no chão, fazendo pedaços de com ida voarem para todas as direções. A falta de dignidade de brigar por qualquer coisa que Kessler m e ofereça queim a dentro de m im , m as, pela prim eira vez, estou ansiosa pela refeição. Em bora não pela com ida m arrom e m olenga na bandej a, é claro.

Pelos talheres que vêm com ela.

Kessler se vira para m im com um sorriso cortante e zom beteiro e fecha a porta da cela de novo. Assim que ele se vai, pego a colher e o garfo da bandej a e com eço a exam iná-los. Não há faca; nunca há. A carne m ole não precisa ser cortada, e eles provavelm ente têm m edo de eu encenar um a tentativa de fuga audaciosa com o utensílio de plástico sem fio, brandindo-o para os hom ens com m etralhadoras do lado de fora da cela.

Coloco a bandej a de lado e m e sento com as pernas cruzadas perto do ralo. Tento o garfo prim eiro, apertando os dentes em um dos parafusos que seguram a grade no lugar. Com o eu suspeitava, são m uito grossos para caberem no sulco e, assim , eu j ogo o garfo de lado. Ele desliza pelo concreto e para próxim o à bandej a.

Minha única esperança é a colher. Aperto a curva dela contra o m esm o prego e, desta vez, a borda fica presa. Prendo a respiração, com o se qualquer m udança na pressão do ar da cela pudesse desfazer as coisas, e aperto a colher para baixo, tentando usá-la para afrouxar o parafuso. Ela escorrega. Tento m eia dúzia de vezes, m as não adianta; a colher continua escorregando para fora do parafuso, de form a que estou apertando e virando nada além de ar. A curva da colher é m uito acentuada para caber na ranhura reta da cabeça do prego, e eu quase lanço a colher contra a parede, frustrada.

Paro com a m ão erguida. Respiro. Pense.

O cabo da colher é grosso dem ais para caber no sulco e a base é m uito larga, m as... Toco no concreto áspero do chão da cela, que é granulado e está frio contra a m inha palm a. Pode funcionar.

Quando Kessler volta para pegar a bandej a, estou esperando por ele. Meu estôm ago está vazio e doendo, m as eu não toquei na com ida. Preciso da bandej a de lavagem com pleta e intacta. Kessler desliza a porta para abri-la e, assim que o espaço torna-se grande o bastante, eu arrem esso a bandej a por ele.

— Isso é noj ento! — grito. — Não som os anim ais!

Kessler se abaixa e a bandej a voa contra a parede atrás dele, fazendo barulho. Ele estrem ece e solta um palavrão quando pingos de com ida m arrom e verde salpicam o seu rosto e o uniform e. Eu contenho um sorriso m aldoso por m eio segundo antes de Kessler levantar a m ão e bater com força no m eu rosto. Caio no chão, com lágrim as ardentes subindo para os m eus olhos com o golpe.

— Vadia louca — ele diz ao m e fechar lá dentro.

Só posso esperar que fique tão bravo por ter de lim par a suj eira que não repare na falta da colher.

 

Espero o quanto posso só para garantir. Um a hora, talvez duas? Depois, puxo a colher de onde eu a escondera sob a espum a fina do colchão. Quebro a cabeça dela, o que deixa um a ponta afiada, e a m eço com os dedos, com parando-a com o sulco no parafuso.

Corro até a parede e coloco o rosto perto da ventilação do aquecim ento.

— Ei, você está aí?

Ouço o guincho torturado de m olas enferruj adas conform e Finn rola para fora da cam a.

— Estou saindo. Você teve sorte de m e encontrar aqui.

Aperto os dedos contra as paletas frias da ventilação. Às vezes, é difícil acreditar que apenas 30 cm de concreto nos separam . Ele parece estar tão longe.

Será que ele às vezes toca no seu lado da parede e pensa em m im ?

— Você pode cantar? — digo.

— Cantar?

— Por favor?

— Hum , certo.

Confuso, m as disposto. Finn nunca diz não.

— Algum pedido?

— A escolha é sua.

Ele com eça a cantar algo que parece de igrej a. Um hino, talvez. Eu não soube até depois de tudo ter com eçado — depois de estarm os na estrada, tudo de nossas antigas vidas deixado para trás com o o escapam ento puxado pelo cam inhão que nos tirava escondidos da cidade —, m as Finn ia à igrej a toda sem ana com a m ãe. Ele até gostava. Fiquei chocada com isso na época, em bora não possa m e lem brar do porquê agora. Talvez porque a religião nunca fez parte da m inha vida, ou porque a ideia de oração e alm oços e j antares com unitários na igrej a e serm ões parecesse tão distante do Finn que eu conhecia então.

O Finn que eu pensava conhecer então.

A voz dele é boa, um tenor forte com um a textura com o algodão frio contra a pele. Você nunca adivinharia só de olhar para ele. Ou, não sei, talvez adivinhasse. Não ponho os olhos em Finn há m eses. Talvez ele não tenha a aparência de que m e lem bro.

Com a voz de Finn reverberando contra as paredes de blocos de concreto até preencher cada rachadura e fenda, pressiono a ponta afiada da colher quebrada contra o concreto. Eu a arrasto para a frente e para trás sobre a superfície áspera, lixando o plástico lentam ente. Mexo cada vez m ais rápido, o arranhão da colher contra o chão m isturando-se com a voz de Finn em m eus ouvidos.

Apesar do frio na cela, o suor pinga na m inha testa com o esforço. Eu paro e verifico a largura da colher contra o parafuso. Não está fina o bastante ainda, m as está perto. Volto a lixá-la, apertando-a com tanta força que m inha m ão com eça a doer. Vai funcionar; tenho certeza.

Finn para de cantar, m as eu m al reparo, de tão concentrada na m inha tarefa.

— Em , o que você está fazendo?

— Vai funcionar —sussurro para m im m esm a.

— O quê?

Verifico a colher de novo e, desta vez, a ponta lixada se encaixa com perfeição no sulco do parafuso. Eu a aperto dentro dele e sinto a tem peratura do m eu sangue aum entar. Um a vozinha fraca no fundo da m inha m ente m e pergunta por que m e im porto tanto com esse ralo idiota, m as eu m al a escuto por cim a das batidas na m inha cabeça, com o um tocador de tam bor guiando soldados para a guerra. Com eço a girar a colher, m as o parafuso não se m exe, preso no lugar por anos de suj eira e ferrugem e Deus sabe o que m ais. Giro com m ais força, tentando fazê-lo se m over, até o plástico ranger e am eaçar se partir.

— Vam os, que droga!

Eu seguro a colher bem na base, o m ais perto do parafuso que m eus dedos conseguem chegar, e viro. Com um guinchinho, o parafuso com eça a se m exer. Eu rio, pequenas bufadas de ar que parecem estranhas, m as m aravilhosas, nos m eus lábios. Quando o parafuso cede, eu ataco o seguinte e o seguinte, arranhando-os com as unhas até elas sangrarem quando a colher não trabalha rápido o bastante e, por fim , arrancando a grade quando apenas algum as voltas do últim o parafuso a prendem .

Ela se desprende na m inha m ão, de repente nada além de um a peça fina de m etal, e eu a deixo cair com um baque.

— Em , o que está acontecendo?

Finn parece ansioso agora, m as não tenho tem po para m e im portar. O ralo está aberto e exposto, enfim . Coloco a m ão dentro dele, a parte racional do m eu cérebro m e dizendo que não vou encontrar nada ali além de um cano frio, m as algo m ais profundo e instintivo dentro de m im sussurra sobre... o quê? Propósito? Destino? Outra dessas coisas im portantes em que parei de acreditar há anos?

Esse algo não m e surpreende quando m eus dedos se fecham em volta de um obj eto escondido no cano. Meu corpo fica tenso quando um a sensação selvagem e alegre estoura dentro de m im , com o se m eus m úsculos soubessem que devem conter a explosão. Eu puxo o obj eto para fora, tirando-o para a luz, e o encaro.

É um saco plástico para com ida, antigo e salpicado por anos de m arcas de água com m inerais e m ofo. Um obj eto tão m undano — que traz à tona lem branças dos sanduíches de m anteiga de am endoim que eu costum ava achar enfiados na m inha bolsa da academ ia — parece absurdam ente fora de lugar na m inha pequenina cela de prisão. Dentro, um a única folha de papel, branca com linhas azuis, com o as que eu usava na escola, com um a borda cheia de pontas, indicando que foi arrancada de um caderno.

Abro o saco com os dedos trem endo, sentindo um súbito m edo. Eu sabia que havia algum a coisa im portante no ralo desde o m om ento em que coloquei os olhos nele. Não é natural. Nada nisso pode ser bom .

Tiro a folha e dou a prim eira boa olhada nela. A cela se torna um vácuo em volta de m im . Tento inspirar e percebo que não consigo, com o se todo o ar tivesse sum ido.

A página está quase toda coberta de palavras escritas. Algum as linhas estão em tinta, outras, a lápis; as linhas de cim a estão tão desbotadas pelo tem po que são difíceis de ler, e as de baixo parecem quase novas. Cada frase, exceto a últim a, está riscada com linhas finas e cuidadosas.

Há um nom e no topo da folha, escrito com letras m aiúsculas bem conhecidas, e a linha do final da página é grossa e escura, as palavras entalhadas com o se a pessoa que as escreveu tivesse apertado m uito a caneta contra o papel.

Essa pessoa era eu.

Nunca vi esse papel antes na vida, m as a letra é com certeza m inha: m eu e cursivo quando todas as outras letras são de form a, m eu k inclinado e m eu a m agro dem ais. Algum a parte prim itiva m inha a reconhece, com o um telefone tocando em outro aposento.

Com eço a trem er. Neste m om ento e lugar, um a carta que não m e lem bro de ter escrito significa algo m uito específico.

Porém , é a últim a linha que m e faz correr desaj eitada para o vaso sanitário no canto da cela.

Você tem de matá-lo.