Todos os Nossos Ontens
Vinte e Quatro
VINTE E
QUATRO
Em
Fico encarando o painel por pelo m enos um a hora enquanto Finn dirige, seguindo os faróis velozes da BMW. Tenho repassado o dilem a na m inha cabeça, exam inando-o de todos os ângulos e testando-o para encontrar um a fraqueza, m as é im penetrável.
— Acabou — eu digo enfim . — Agora que ele sabe, não vai deixar Marina e Finn saírem do lado dele, e o doutor vai m andar alguém de volta am anhã para nos caçar, se o tem po não nos apagar prim eiro. Estam os acabados.
— É provável.
Baixo os olhos para a arm a no m eu colo. Não sei por que ainda não a guardei. Toco nela com a ponta de um dedo.
— Mesm o se conseguirm os pegá-lo sozinho de novo, não sei se vam os conseguir fazer isso. Eu j á tive três chances e fracassei em cada um a dela.
— Três?
Eu levanto o olhar, percebendo o que eu disse. Idiota. Dou um a olhada em Finn e no m achucado verm elho-vivo aum entando em seu queixo.
— Teve a vez... enquanto você estava dorm indo no carro na sua casa. Eu vi a Marina e o Jam es por um a j anela.
— Juntos?
— Eles só estavam dorm indo — digo baixinho.
Sem um a palavra, Finn vira o volante com violência. Nós desviam os da autoestrada para um a pequena saída.
— O que você está fazendo? — eu grito. — Nós vam os perdê-los!
— Não m e im porto. Você disse que nós j á falham os m esm o.
Ele dirige até o estacionam ento de um posto de gasolina e sai do carro, batendo a porta. O som reverbera pelo m eu corpo, com o se ele tivesse berrado sem nem abrir a boca. Ele desaparece dentro do posto superilum inado, e eu fico sentada im óvel no carro, a vergonha m e apertando contra o banco, fazendo-m e sentir pequena.
Ele dem ora m uito tem po. No com eço, tento acom panhar, contando os segundos m entalm ente e observando pelas j anelas à procura da sua cabeça de cabelos claros. Porém , acabo desistindo. Esfrego as m ãos pelos braços para evitar o frio que invade pela j anela quebrada que rem endam os com um saco de lixo.
Quando ele enfim volta para o carro, pelo m enos m eia hora depois, está segurando dois copos de café e tem um a sacola plástica pendurada no pulso. Ele abre a porta e volta para a frente do volante.
— Desculpe por eu ter perdido a calm a — ele diz. — Mas, por favor, não fale com igo ainda.
Eu engulo a seco e faço que sim com a cabeça.
Ele m e entrega um copo, que fica deliciosam ente quente nas m inhas m ãos, e despej a o conteúdo da sacola. Dois sanduíches de peru, salgadinhos de batata e um pacote de Oreos. Meu Deus, quantas vezes sonhei com Oreos naquela cela? Quantas vezes eu disse a Finn que o m aior arrependim ento da m inha vida foi não com er m ais delas quando pude, porque fui idiota o bastante para m e preocupar com açúcar e gordura? Meus olhos de repente ardem . Eu levo o copo à boca e uso o m ovim ento para esconder que estou secando as lágrim as.
— Você ainda é apaixonada por ele — Finn finalm ente diz, com calm a.
Eu queria que ele gritasse com igo ou m e chacoalhasse. Seria m ais fácil do que ele parecer tão esgotado, tão triste.
— Finn...
— Eu sabia — ele diz. — Eu deveria ter sabido sem pre, e talvez soubesse, m as, quando vi você com ele naquele quarto de hotel, a form a com o você o abraçou...
Ele passa os dedos pela fina cicatriz na parte de trás da sua m ão direita, um hábito nervoso. Ele a ganhou enquanto trocava um pneu em algum lugar da Carolina do Sul. Teria se curado do j eito certo se tivesse ido a um m édico para tom ar pontos, m as ele não quis nos atrasar.
— Eu sei que o am or por alguém nunca vai em bora por com pleto, m as é difícil para m im . Eu vej o a m aneira com o a Marina é com ele, e ainda m e destrói por dentro. Não consigo suportar isso de você tam bém . Não posso ser sem pre o prêm io de consolação para você, Em . Eu só... Eu te am o tanto.
Eu sou um peixe em terra seca, com olhar bobo e ofegando.
— Sei que você se im porta com igo ou sei lá — ele continua —, m as, se ainda está apaixonada pelo Jam es, preciso saber. Eu m ereço ao m enos isso.
— Finn... — eu digo, estendendo a m ão para ele.
Não consigo term inar a frase. O puxão com eça pelo m eu um bigo, e sou tom ada pelo terror. De novo, não. Não quero reviver outro m om ento. Mas não tenho escolha; sou varrida pela m aré e j ogada para trás com tanta força que o m undo vira um borrão em volta de m im .
Eu abro os olhos, sem perceber que os tinha fechado. Estou sentada na varanda dos fundos da casa em West Virginia, olhando para as m ontanhas a distância, que são silhuetas pretas contra o céu cinza com o ardósia. Todos os outros estão lá dentro, discutindo em volta da m esa da sala de j antar. De novo.
A porta de correr atrás de m im é aberta, m as não m e dou ao trabalho de m e virar. Eu sei, talvez pela form a com o o ar ao m eu redor m uda, quem é. Finn se senta nos degraus ao m eu lado.
— Você está bem ?
Faço que sim com a cabeça.
— Só precisava de um intervalo de toda aquela gritaria.
— Com certeza.
— Eles j á decidiram quando tornar público?
— Talvez daqui a algum as horas.
Olho de novo para o grupo à m esa, Jonas à cabeceira. Nós o conhecem os há alguns m eses quando nós três estávam os sendo levados escondidos para cruzar fronteiras de estados pelo m esm o cam inhão, e estam os com ele desde então. Ele era um especialista em dem olições que o FBI trouxe para dar consultoria quanto às evidências dos bom bardeios da Filadélfia, m as decidiu que precisava dar o fora da Pensilvânia quando descobriu explosivos m ilitares bem fundo na cratera da refinaria da Sunoco. Com o que sabíam os m ais o que ele sabia, com eçam os a deduzir o que estivera acontecendo de verdade no país nos últim os três anos. Os bom bardeios, as m ortes m isteriosas, as m udanças repentinas de com portam ento dos políticos e líderes m ilitares: tudo levava a Cassandra.
Depois, conhecem os Rina e Sahid e m ais um punhado de outros. Rina é a dona desta casa, bem no m eio das Montanhas Blue Ridge, a quilôm etros do vizinho m ais próxim o, e estam os aqui há sem anas, investigando a SIA e reunindo nossas inform ações. Há um a facção do governo responsável pelo que está acontecendo, e acham os que podem os provar.
Seria bom se pudéssem os concordar quanto a com o fazer isso.
— Você acha que vai fazer algum a diferença? — pergunto. — Tornar público o que sabem os?
— É provável que não — Finn diz —, m as tem os de tentar.
— Não entendo por que ele quis isso. — Apoio a cabeça contra um pilar. — Ele queria melhorar as coisas. Será que realm ente acha que bom bas e pontos de fiscalização e prisões em m assa são o m elhor?
— Não tenho certeza se um dia vam os entender. — Eu o vej o m e analisar. — Você parece cansada.
— E estou. — Esfrego m eus olhos secos. — Não durm o há dois dias. Para um a m ulher tão pequena, Jocely n ronca de um j eito que você não acreditaria.
Ele dá um sorriso m aldoso e balança as sobrancelhas para m im .
— Você sem pre pode vir dividir a cam a com igo.
Eu reviro os olhos e em purro o om bro dele, m as não é com o se nunca tivéssem os feito isso. Teve o prim eiro cam inhão que nos tirou de Washington, escondidos atrás de um pallet de caixas de cereal. Era o ápice do inverno e nós ficam os abraçados para nos aquecerm os durante a viagem de dez horas para o sul. Depois, teve m eia dúzia de hoteizinhos noj entos com apenas um a cam a onde tive pena dele e não o fiz dorm ir no chão, m esm o quando ele ofereceu. E, na últim a vez, quando estávam os ficando na casa de um a am iga de Rina e acabam os dividindo a bicam a, eu acordei no m eio da noite com o braço de Finn j ogado em torno da m inha cintura e seus lábios roçando m inha nuca, e não m e m exi. Apenas olhei fixo para a escuridão, o coração disparado, esperando que ele não acordasse.
— Você provavelm ente ronca m ais — eu digo.
— Provavelm ente. Quer trocar de cam a? A Jocely n não vai m e incom odar.
Faço que não com a cabeça, e as pontas do m eu cabelo novo m ais curto raspam em m inhas bochechas. Faço de novo.
— Parece estranho?
— É. Não acredito que fiz isso.
Eu estava m e olhando no espelho na m anhã anterior e, de repente, não conseguia aguentar m inha im agem , tão sem m udanças do lado de fora quando m e sentia tão diferente por dentro. Encontrei um a grande tesoura atrás do espelho do banheiro e com ecei a picar, sentindo-m e estranham ente satisfeita conform e o cabelo se acum ulava na pia e aos m eus pés, restos descartados da m inha velha vida.
— Devo estar parecendo m eio louca.
Finn toca a ponta do m eu cabelo, esfregando as m echas entre o polegar e o indicador.
— Eu gosto. Com bina com você.
Sinto o calor do hálito dele no m eu rosto quando ele diz as palavras. Quando se aproxim ou tanto? Seus j oelhos estão tocando nos m eus, e os nós dos seus dedos estão roçando em m eu pescoço conform e ele toca m eu cabelo.
— Em ? — ele diz.
Não consigo m uito bem olhar nos olhos dele.
— Sim ?
— Estou feliz por você não m e odiar m ais — ele fala —, porque não consigo im aginar fazer isso sem você.
— Eu nunca odiei você.
O rosto dele se ilum ina.
— É?
— É.
Ele se inclina na m inha direção, elim inando os centím etros entre nós, e m inha m ente m eio que... para. Tudo em que consigo pensar é que Finn Abbott está prestes a m e beij ar. E eu estou prestes a deixar.
Um ruído agudo corta o ar. Finn e eu giram os a cabeça em direção à casa e vem os corpos vestidos de preto j orrando pela porta da frente, que está pendurada de um j eito estranho nas dobradiças, a j am ba estilhaçada. Eles levantam arm as e gritam .
— FBI!
— Ah, m eu Deus — eu digo, sentindo cada gram a de força vazar de m im . — Ele nos encontrou.
Finn m e puxa, m ole e sem resistência, para ficar em pé e m e em purra pelos degraus da varanda abaixo.
— Corre! Sai daqui!
— Vem com igo! — eu falo.
Lá dentro, o tim e da SWAT está forçando nossos am igos a se aj oelharem e vasculhando o resto da casa. Vão chegar até nós em segundos.
— Vai! — Finn sibila.
Ele entra de volta na casa, as m ãos erguidas para se render, para m e dar segundos preciosos de fuga.
Eu m e viro e corro cegam ente para a floresta. Percorro m enos de 6 m etros antes de um a m ão sair da escuridão e m e agarrar. A casa está cercada; eu nunca tive chance. A pessoa que m e pegou puxa m inhas m ãos para trás das costas e as algem a e m e arrasta, escorregando e tropeçando, em direção ao pátio da frente. Finn, Jonas e os outros estão aj oelhados na lam a, e Finn retrai o corpo ao m e ver. Um dos oficiais o puxa e o coloca em pé.
— O que você está fazendo? — pergunto. — Para onde ele vai ser levado?
— Em , está tudo bem ! — ele diz.
Finn é arrastado para a escuridão, longe do resto de nós.
— Finn! — eu grito.
Há m ãos pesadas nos m eus om bros, e eu luto contra elas.
— Em , acorde! — Finn berra enquanto é arrastado para longe.
Eu vej o os lábios dele se m exerem , m as as palavras não fazem sentido. As m ãos m e sacodem .
— Não — eu falo chorando. — Pare!
Finn é enfiado na parte de trás de um a van e desaparece, m as ainda ouço sua voz.
— Em , está tudo bem ! Abra os olhos.
Eu pisco. As m ãos em m im são gentis e quentes. Pisco de novo e, desta vez, a lam a e a m ontanha se dissolvem . Percebo que estou dentro do Honda, segura, quatro anos antes. Finn está pairando sobre m im , um a m ão no m eu rosto, os olhos arregalados.
— Ei — ele fala baixinho. — Você voltou?
— É.
Eu m e sento m ais ereta, trêm ula. Minha língua está seca e grudenta e, assim , estendo a m ão para m eu copo de café, m as ele ficou totalm ente frio.
— Está piorando, não está? — Finn diz. Ele se encosta no banco e passa um a m ão trêm ula pelo cabelo. — Você ficou fora por m uito tem po. Eu pensei que...
— Tudo bem , estou aqui — falo, colocando a m ão no j oelho dele. Dou um a olhada no relógio do painel. Fiquei fora de m im por m ais de m eia hora. — Jesus.
— O que você viu?
A m em ória volta para m im , tão fresca que ainda consigo sentir o arom a de gram a m olhada e fum aça de escapam ento. Envolvo o pescoço de Finn com os braços e tento afastar a im agem dele sendo arrastado para longe de m im , enterro os dedos na pele dele para m e certificar de que está aqui m esm o.
— Eu sinto m uito m esm o — falo. — Eu am o você, Finn, e m e odeio por não ter dito isso até agora.
Ele parece ter percebido que eu estou trem endo e deixa um beij o doce e instável em m eus lábios.
— Acho que posso perdoar você.
Eu o abraço de novo, seguro-o até nossas respirações se alinharem , m as a paz que isso m e traz dura pouco. Minhas preocupações voltam a m e invadir, da m aneira com o o frio invade o carro quando o aquecedor não está no m áxim o. Não paro de vê-lo sendo levado em bora. E eu sem ter com o im pedir.
— Mas... — eu falo.
Finn suspira.
— Mas.
— Eu ainda sinto algo pelo Jam es, sim — digo. — É m uito fácil m e lem brar da m enina que eu era quando o am ava. Não sei se consigo fazer isso. Sei que devo, m as, até agora...
— Eu fui egoísta, deixando que você assum isse a responsabilidade por puxar o gatilho. — Ele prende um a m echa de cabelo solta atrás da m inha orelha. — A verdade é que eu m eio que am o que você não consiga fazer isso. Essa é quem você é, Em . Se fosse fácil para você, você não seria m elhor do que ele.
— Mas a Marina — eu falo. — E o Finn. Eles vão sofrer se nós falharm os.
— Vam os pensar em algum a coisa. — Ele põe um beij o na m inha testa e, depois, na sobrancelha e na bochecha, cada um m ais quente e dem orado do que o anterior. — E não vam os desistir.
— Finn... — eu sussurro, m eu corpo ficando pesado conform e os lábios dele continuam a se m over pelo m eu rosto.
— Nós j á perdem os o rastro deles. — O beij o lânguido que ele deixa no canto da m inha boca m anda um arrepio pela m inha espinha. — Não tem sentido tentar alcançá-los. Nós deveríam os descansar um pouco.
— Descansar — eu m urm uro.
Ele m e beij a, finalm ente, nos lábios, tirando o m eu fôlego até eu ficar ofegante e tonta. Ele se afasta e engata o carro. Com um a das m ãos, ele pega a m inha, enlaçando nossos dedos, e, com a outra, ele nos guia para um hotel do outro lado da rua.