Todos os Nossos Ontens
Dezoito
Em
Finn estaciona o Honda na lateral da estrada a 90 m etros da guarita dos Shaw e apaga as luzes.
— O que acha que eles estão fazendo aqui? — pergunto.
— Não sei. Talvez só quisessem sair da cidade?
— Bem , eles provavelm ente querem dorm ir um pouco, então duvido que vão em bora antes de am anhecer. O que significa que vai ser um a longa noite para nós.
Eu abaixo m eu banco e enrolo um a das cam isas extras que Connor nos deu em baixo da cabeça.
— Ugh. Estou tão cansada deste carro.
— Eu tam bém . A gente devia roubar um novo logo. Vão procurar por um .
— Podem os pegar um com bancos de couro? E um rádio m elhor?
— Pode apostar. — Finn solta o cinto de segurança. — Vem , vam os sair um pouco daqui.
— O quê?
Ele abre a porta, o que deixa um a raj ada de ar gélido entrar no carro.
— Vem logo.
— Está gelado! — eu falo, m as j á estou fechando o zíper do m eu agasalho até onde ele chega e saindo do autom óvel.
Finn sobe no capô e m e oferece a m ão.
— Está gostoso e quentinho aqui em cim a.
— Você é tão esquisito.
Mas eu subo no capô ao lado dele. Está quente, após horas de m otor funcionando e aquecendo o m etal. Ele se deita, dobrando as m ãos sob a cabeça, e eu faço isso tam bém .
As estrelas são chocantes. Faz tanto tem po desde que eu as vi, e j uro que se m ultiplicaram na m inha ausência. Aqui fora, longe da cidade, elas são com o pequeninas explosões de luz. Milhares de diam antes aloj ados na atm osfera.
— Uau — eu sussurro.
— É. Eu tinha esquecido que elas eram tão brilhantes.
Nós ficam os sentados em silêncio, encarando o céu, e, depois de alguns m inutos, Finn pega m inha m ão e a esfrega na sua para esquentá-la.
— No que você está pensando? — eu pergunto.
— Nas panquecas do Connor.
— Hum m m . E chocolate quente.
— Ah, m eu Deus — ele gem e. — Eu poderia m atar você por m e fazer pensar em chocolate quente agora. Eu faria qualquer coisa para conseguir um pouco.
— Você que com eçou com essa história de panqueca!
— Você perguntou! E, além disso...
O m undo gira sob m im e o resto do que Finn diz se perde. Agora eu sei o que é, m as não tenho certeza se isso torna a coisa m ais fácil de aceitar ou ainda m ais aterrorizante. Só tenho tem po de agarrar a m ão de Finn antes de a corrente se enrolar na m inha cintura e m e puxar do presente.
Está escuro, apenas a fraquíssim a luz azul de segurança do corredor invadindo a j anela na porta da m inha cela. Tam inez, um dos nossos guardas da noite, apagou as luzes há m uito tem po, m as não consegui dorm ir.
Finn, é claro, está dorm indo há horas. Babaca.
Ouço passos do lado de fora e m e sento na cam a. Um soldado que não reconheço abre a porta de correr da cela e o doutor entra.
— Obrigado, Greggson — ele fala. — Pode nos deixar.
Então, vai ser um a daquelas noites.
O soldado faz um a saudação e fecha a porta depois de sair. O doutor se senta no chão da cela, encarando-m e. É estranho vê-lo ali no chão de concreto com seu j aleco branco de laboratório e calças caras, levantando os olhos para m im . Isso o faz parecer pequeno. Eu aperto m ais o cobertor em volta de m im e espero.
Os olhos dele baixam para o seu colo.
— Sinto falta de você, Marina.
Odeio essas noites. Acho que as odeio m ais do que qualquer outra coisa.
— Estou bem aqui — digo. — Foi você quem foi em bora.
— Eu entendo, sabe, por que você m e odeia. — Ele exam ina suas m ãos com atenção. — Fiz coisas terríveis.
— Quer m eu perdão? Foi por isso que veio aqui?
— Não sei. Talvez. — Ele puxa um fôlego trêm ulo. Meu Deus, ele está chorando? — Talvez eu só precise ficar com um a am iga esta noite.
— Não sou sua am iga — respondo. — Você pode m e prender aqui para sem pre e fazer confidências para m im toda noite, m as nunca serei sua am iga de novo.
— Marina, não é com o você pensa — ele diz, e o desespero em sua voz é palpável agora. — Se você soubesse o que eu sei... São necessários alguns sacrifícios terríveis, m as estam os fazendo coisas boas...
— Estou cansada. Posso voltar a dorm ir agora?
Ele estende a m ão para m im .
— Por favor, eu preciso que você entenda...
— Boa noite, doutor.
A m ão dele fica pairando no ar, trem endo, e cai ao longo do corpo dele. Ele se m exe com o um velho ao ficar em pé e bate na porta para que o deixem sair. O soldado que eu não conheço reaparece e abre a porta.
O soldado que eu não conheço.
— Cadê o Tam inez? — eu falo. — É o turno dele.
O doutor para e não olha para m im .
Meu estôm ago aperta. De repente, percebo por que o doutor está aqui.
— Ah, m eu Deus. O que você o m andou fazer?
— Eu não tive escolha — o doutor diz, e a porta se fecha atrás dele com um baque.
— Em !
Eu pisco e puxo o ar. O m undo se endireita, e eu vej o estrelas, de verdade.
— Em , acorde! — A voz de Finn está engasgada. — Você está quebrando m eus dedos.
Sinto a m ão de Finn na m inha. Eu a estou apertando com toda a m inha força. Solto-a e ele aninha a m ão ao peito.
— Caram ba, m enina — ele diz. — Quando você ganhou essa força absurda?
— E-eu sinto m uito.
Eu m e forço a ficar em pé e esfrego os olhos. A lem brança pode ter sido breve, m as os efeitos dela estão durando m ais do que os das outras. Ainda sinto o m edo na boca do estôm ago e vej o a som bra das paredes da cela em frente aos olhos.
— Você está bem ? — ele pergunta. — O que você viu?
Faço que não com a cabeça. Não quero falar a respeito daquilo.
— Quanto tem po eu fiquei apagada desta vez?
— Dez m inutos — ele responde. — Talvez 15. Pareceu um a eternidade.
Eu estrem eço. O capô do Honda está frio sob nós e o frio da noite invadiu m inha corrente sanguínea.
— O que está acontecendo conosco?
— Você... — Finn hesita e faz que não com a cabeça, e eu percebo o quanto ele está pálido. — Enquanto estava apagada, você m eio que... piscou por um segundo. Com o um hologram a ou algo assim . Eu tive m edo de que você fosse desaparecer. — Ele toca na m inha bochecha. — Tipo, m uito m edo.
— Sinto m uito — eu sussurro.
Tento im aginar o quanto eu ficaria assustada se pensasse que Finn estava desaparecendo e m e deixando sozinha para encarar tudo isso, m as m e im peço porque só a ideia j á é horrível dem ais.
Ele sorri.
— Acho que posso perdoar você.
— Jam es sem pre disse que o tem po deve ter um m ecanism o para consertar paradoxos — digo. — Talvez ele estej a tentando descobrir a que m om ento pertencem os de verdade. Talvez estej a tentando nos apagar.
— Cada flash parece estar durando m ais e m ais — Finn com enta. — Você acha que isso significa...
Faço que sim com a cabeça. Posso não ser um gênio da ciência, m as sinto a verdade disso. O tem po está vindo nos pegar, está vindo depressa.
É quando a viatura de polícia passa por nós, seguindo para a casa dos Shaw.