Todos os Nossos Ontens
Vinte e Três
VINTE E
TRÊS
Marina
— Jam es?
Transfiro de um braço para outro as sacolas com as coisas que com pram os, para poder enfiar os dedos da m ão esquerda na fenda da porta. Ouço coisas se arrastando e um baque abafado, sussurros vindos lá de dentro.
— O que está acontecendo?
Silêncio.
— Jam es! — eu grito. — Abra a porta agora m esm o!
— Tire a m ão.
Eu suspiro de alívio e recolho os dedos, e a porta é fechada e depois aberta. O rosto de Jam es está verm elho, o que é de se esperar, m as parece estranham ente suado e corado, com o se ele estivesse correndo um a m aratona em vez de chorando. Ele m e encara com o se estivesse m e vendo pela prim eira vez. Finn passa por ele, sem parecer reparar em nada de errado.
— Ham búrgueres para todos — ele diz, j ogando o saco do Denny ’s na coberta floral am assada da cam a m ais próxim a.
Eu coloco m inha carga de junk food em um a pilha ao lado.
Jam es passa por nós nervoso, pegando m inha bolsa do chão e seu casaco das costas de um a cadeira.
— Vam os levar para viagem , tudo bem ? Acho que deveríam os voltar para a estrada.
— O quê?
— Devem os continuar em m ovim ento — ele fala. — Não quero ficar aqui.
— Você teve um choque. — Tento pegá-lo e segurá-lo no lugar, parar seu m ovim ento assustador pelo quarto, m as ele fica escapando de m im . — Precisa descansar um pouco.
— Eu preciso é dar o fora dessa merda de quarto de hotel!
Ele está trem endo visivelm ente, o corpo todo chacoalhando com o se estivesse m orrendo de frio de dentro para fora. Ele bate a lateral do punho contra a parede, e eu dou um pulo, de repente com m edo do estranho em frente a m im . Jam es vê isso e baixa a cabeça.
— Sinto m uito, Marina. Meu Deus, eu sinto m uito m esm o. Mas, por favor, preciso ir em bora.
Finn dá um passo entre nós e coloca a m ão no peito de Jam es.
— Certo. Nós vam os. Está tudo bem .
A voz de Jam es está em ocionada quando ele diz:
— Obrigado.
Nós voltam os para o carro — os ham búrgueres esfriando, esquecidos, no banco de trás ao lado de Finn — e Jam es dirige com o se fugisse do diabo. Eu m e sentiria m ais segura se Finn estivesse ao volante de novo. O velocím etro se aproxim a dos núm eros de três dígitos, e ele costura entre os outros carros, os olhos indo e voltando do retrovisor em espaços de segundos. Estou assustada dem ais para perguntar a ele o que há de errado ou até falar com ele. Esse Jam es silencioso e com raiva reprim ida m e lem bra desconfortavelm ente do dia do funeral dos Shaw, quando a ira nos olhos dele no m om ento em que bateu no abaj ur parecia capaz de queim ar e abrir um buraco em m im .
Finn não com partilha da m inha preocupação. Ele está j ogado no banco de trás, em um sono profundo, a boca só um pouquinho aberta. Quando percebo, reviro os olhos, m as acabo observando-o por m ais tem po do que tinha intenção. Ele parece tão j ovem quando está dorm indo; quase posso ver o m enininho que j á deve ter sido.
— Marina? — Jam es sussurra.
É a prim eira palavra que ele diz desde que deixam os o hotel.
— Sim ?
— Você acha que eu sou um a pessoa ruim ?
— O quê?
— Existe m aldade em m im ? — Ele observa a estrada em frente, com o se ela pudesse lhe dar respostas. — Posso m e tornar um a pessoa terrível um dia?
— Jam es. — Estou chocada dem ais para encontrar palavras. Coloco a m ão sobre a dele, apoiada no console. — Você é a m elhor pessoa que eu conheço.
— Eu quero ser bom . — Os lábios dele com eçam a trem er, e ele leva a m ão até a boca para cobri-los. — Eu quero fazer o bem . Eu quero aj udar as pessoas.
— Eu sei...
— É disso que se trata tudo o que está lá. — Ele indica com a cabeça o envelope de m anilha aos m eus pés. — Foi para isso que eu trabalhei todos esses anos.
— Jam es, eu sei.
Ele não está m e ouvindo. Quem quer que sej a a pessoa com quem está falando, não sou eu.
— Eu queria que o Nate estivesse aqui. — A voz dele falha. — Preciso dele.
— Vai ficar tudo bem .
— Não — ele diz, olhando para m im pela prim eira vez. Suas pupilas estão tão grandes que são com o buracos negros, bem da m aneira com o ele os explicou para m im , tão profundos que sugam toda a luz ao redor. — Não vai ficar tudo bem , Marina. Nada vai ficar bem , nunca.
Eu puxo a m ão de volta.
— Você está m e assustando.
— Eu sei. Estou assustado tam bém . — Ele aperta o volante com as m ãos. — Já tive m edo de tanta porcaria na m inha vida. Tirar um a nota ruim ou não m e encaixar nos grupos. Meu Deus, eu tinha m edo de você. E foi tudo um desperdício tão grande. Nada disso im porta nem um pouco agora que as m erdas assustadoras de verdade chegaram .
— Por que você tinha m edo de m im ? — eu sussurro.
Ele não olha para m im . Os postes da estrada passam do lado de fora da j anela, contornando a silhueta dele de laranj a e, então, j ogando-a na escuridão de novo. A pulsação im ita o batim ento do m eu coração.
— Não m e faça contar a você agora — ele diz. — Não assim .
A esperança incha dentro de m im até eu poder flutuar, m as eu a estouro e volto para a Terra. Sei com o essa conversa vai acontecer. Ele vai olhar para m im e dizer: eu te amo, Marina. Como a irmã que nunca tive. Eu tinha medo de dizer para você porque as pessoas que eu amo costumam ir embora. E eu vou tentar sorrir e dizer a ele que o am o tam bém , com o um irm ão, e, depois, vou chorar até desm ontar e nunca, nunca contar a ele a verdade. Já posso sentir a dor, a queim ação da tristeza em algum lugar atrás dos m eus olhos.
Mas, m eu Deus, e se eu estiver errada? E se m eu coração louco e disparado estiver certo?
Jam es estende a m ão para a m inha.
— Só não m e deixe, com binado, m enina? Por favor, nunca m e deixe.
Eu aperto os dedos dele.
— Nunca. Você não vai se livrar de m im , Shaw.
Acho que ele tenta sorrir.
— Vou cobrar essa prom essa, Marchetti.