Todos os Nossos Ontens
Vinte e Seis
VINTE E
SEIS
Marina
Devo estar m uito cansada, pois, m esm o com um coquetel nocivo de raiva, vergonha e desej o que não cede apertando m eu estôm ago, apago em alguns m inutos. Um a batida na porta m e acorda, e eu m e arrasto para fora do sono até despertar. Eu sonhei com aquilo? Jam es m e beij ando, suas m ãos na m inha pele nua, a sua saída sem explicação?
Finn está parado na porta.
— O Jam es acabou de receber um a m ensagem do Richter. Vai encontrar com ele em um restaurante no centro da cidade em um a hora e quer que a gente vá com ele.
— O quê?
Eu m e sento com esforço. Minha cabeça está pesada e girando. Quando tudo isso aconteceu? Por quanto tem po eu dorm i?
— Ele está agindo de um j eito m uito estranho, não é? Até m esm o para o Jam es. É com o se ele pensasse que...
— Ainda tem algo que ele possa fazer que vá m udar as coisas? — falo.
— É. — Finn suspira. — Não posso continuar correndo atrás dele, esperando a hora de ele desm oronar. Quase não passei em casa em dois dias. Você pode falar com ele?
Eu saio da cam a e aliso m inhas roupas.
— Com certeza eu vou tentar.
— Ah, e a propósito — ele acrescenta —, a fam ília chegou, e a Alice está furiosa com a gente.
— Ótim o.
Encontro Jam es no andar de baixo ao lado da ilha da cozinha, bebendo um a xícara de café com grandes goles. Ele tom ou banho e se trocou, m as, pelos olhos verm elhos, está claro que não dorm iu. Nancy Shaw-Brookline chegou, e seus três filhos estão brigando por causa de giz de cera à m esa de j antar. Alice, que provavelm ente nunca lavou um a louça na vida toda, tirou todo o conteúdo da geladeira e está esfregando a parte de dentro com um a loucura m al controlada, enquanto Vivianne, que está de olhos fechados e m assageando as têm poras, fala ao telefone com o que parece ser um a em presa de bufê. Ouço confusa até m e lem brar.
É claro. O velório.
— Quem é você? — Alice pergunta, virando-se da geladeira quando eu entro na cozinha.
Jam es apoia sua xícara de café vazia e responde sem olhar para m im .
— Essa é a Marina, Alice. Você j á a viu m ais ou m enos um a dúzia de vezes. Ela estava no hospital, lem bra?
— Ah, sim , aquela que fugiu de m im com o se nós estivéssem os j ogando algum j ogo.
— O quê? — eu digo.
— Ela tam bém estava com você quando você desapareceu na noite passada? — Alice diz, com o se eu não tivesse falado nada. — Pobre Vivianne, teria sido bom ela ter tido o apoio de vocês...
Jam es aperta a cabeça.
— Já pedi desculpas! Tinha coisas que eu precisava fazer!
— Não sei o que poderia ser m ais im portante do que estar com a sua fam ília num m om ento assim ...
As palavras de Alice ficam abafadas pela geladeira quando ela enfia a cabeça lá dentro e continua a esfregar. Jam es se serve de outra xícara de café e torce o nariz ao engolir o prim eiro gole do líquido am argo.
Vivianne desliga o telefone. Ela parece... vazia. Com o se o que quer que costum asse anim ar seus traços tivesse ido em bora. Ela poderia ser um a boneca com olhos de vidro.
— Eu queria ir m e casar no cartório, sabe? — ela diz, para ninguém em especial. — Foi o Nate quem m e convenceu a fazer um grande casam ento.
Nenhum de nós consegue olhar para ela.
— Agora, nunca serei a fam ília dele — ela fala e, depois, pega o telefone e continua suas ligações.
Nancy vai colocar um braço em volta dela, e até Alice para sua lim peza para lhe dar um a batidinha no om bro. Jam es apenas encara o chão e tom a o café.
Eu agarro o pulso dele e o puxo para o pátio dos fundos, onde a neve de dois dias atrás vira lam a sob nossos pés.
— O que deu em você? — pergunto. — Você ligou para o Richter? Sabe que conseguir ser m orto não vai trazer o Nate de volta, não é?
Jam es apoia a xícara na cerca.
— Então você j á cansou da abordagem suave, né?
— É, não tem funcionado m uito bem ! — eu digo. — Não sei o que está acontecendo nesse seu cérebro brilhante, Jam es, m as você realm ente está com eçando a m e deixar preocupada. E o Finn tam bém . Por que diabos você ia querer se encontrar com o Richter depois do que descobrim os? O que aconteceu com procurar o diretor Nolan?
Jam es cruza os braços e olha para o quintal congelado.
— As coisas m udaram .
— Que coisas?
Preciso m e im pedir de chacoalhá-lo até ele falar algo que tenha sentido. Quando ele não responde, pergunto:
— O que o dr. Feinberg disse? Ele deu suas anotações para o Nate?
Jam es atira a xícara nas pedras do chão, cheias de gelo, onde ela se estilhaça. Eu dou um berro e pulo para trás.
— O dr. Feinberg não atendeu ao telefone! Ele sumiu, Marina. Ninguém o vê há dois dias.
— T-talvez ele tenha ido viaj ar...
— Não. Foi o Richter. — Jam es fica quieto, sua raiva desaparecendo tão rápido quanto borbulhou. — Não há m ais ninguém . Só ele pode m e aj udar.
Eu pisco para conter lágrim as de frustração.
— Aj udar com o quê?
— Marina, por favor.
Jam es se aproxim a de m im , e tenho de cravar os dedos dos m eus pés para o chão para evitar m e afastar dele. Ele coloca as m ãos no m eu rosto e, por um m om ento entorpecido, penso que vai m e beij ar de novo, m as tudo o que ele faz é m e olhar nos olhos.
— Por favor. Eu preciso falar com o Richter, m as não posso fazer isso sozinho. Preciso de você com igo.
— Mas e se ele for perigoso? — eu pergunto. — E se ele quiser m achucar você?
— Ele não quer.
— Com o você sabe disso? Tudo o que encontram os aponta direto para ele...
— Eu sei que Chris Richter não teve nada a ver com as pessoas que atiraram em m im . — Ele passa a lateral do polegar pela m açã do m eu rosto. — Você confia em m im ?
— Sim — eu sussurro.
O que m ais posso dizer? Jam es é a única pessoa do m undo que nunca m e decepcionou.
— Então, venha, por favor. — Ele m e dá um beij o leve nos lábios. — Você prom eteu que não m e deixaria.
Minha decisão, com o um a casa sem alicerces sólidos, com eça a desm oronar.
— Certo.
— Vam os — ele diz. — Se não fizerm os barulho, ninguém nem vai notar que nós saím os.
— Nós vam os agora? — pergunto. — Mas e quanto à Vivianne e à sua fam ília? Precisam de você aqui.
Jam es encolhe os om bros e se afasta.
— Posso aj udar m elhor desta form a.
Ele m e pega pela m ão e m e leva de volta pela cozinha, onde ninguém nem olha para nós, e até o foy er para pegar nossos casacos. Finn está sentado na escada, esperando-nos.
— Vão a algum lugar? — ele diz.
— Ver o Richter.
Finn m e olha com dureza. Com o se eu o tivesse desapontado.
— Bem , faça o que você quiser, eu acho — ele fala —, m as eu vou em bora.
— O quê? — Jam es diz.
— A Marina acha que está aj udando ao deixar que você ande por aí em negação, m as eu não posso m ais fazer isso. — Ele fica em pé. — Você precisa parar por um m inuto e ficar de luto pelo seu irm ão, cara. E eu preciso ir para casa.
— Você não pode — Jam es diz. — Precisa vir com igo.
— Sinto m uito, Jim bo, m as isso não é...
— Você não entende. — Jam es o agarra pelos om bros. — Eu preciso de você com igo, Finn. Você não pode m e deixar, não até isso acabar. Você não pode!
— Opa! — Finn chacoalha o corpo para afastar Jam es. — O que há de errado com você?
— Eu sei que parece que estou agindo com o um louco agora, m as, por favor, acredite em m im quando eu digo que há bons m otivos para tudo que estou fazendo — Jam es afirm a. — Você não pode m e deixar agora, Finn. Nenhum de vocês pode. É im portante.
— Eu preciso ir para casa — Finn declara, m as a decisão na sua voz vacila.
— E vai em breve, eu prom eto — Jam es diz. — Só preciso que você venha com igo esta últim a vez.
Finn solta um suspiro.
— Está bem . Mas só m ais essa, e só porque estou preocupado com você.
— Obrigado.
— Jam es! — Alice cham a. — O que você está fazendo aí?
Jam es nos em purra em direção à porta.
— Vão.
Eu coloco m eu casaco.
— Você não deveria contar para eles...
— É m elhor assim — ele diz e fecha a porta, enquanto Alice o cham a, e corre para o carro.
Finn pega m inha m anga e sussurra:
— Que diabos está acontecendo?
— Não sei, m as... — Observo as costas de Jam es. — Da últim a vez que o Jam es pirou, depois de os pais dele m orrerem , eu não o vi por três sem anas. Não posso deixar isso acontecer de novo.
— Você não está aj udando ao dar corda para a loucura dele.
Eu puxo m inha m anga da m ão de Finn e m e viro para seguir Jam es.
— Ele m e apoiaria.
Em
A porta da frente da casa dos Shaw se abre, e três adolescentes entram de novo na BMW.
— Viu? — Finn diz, colocando seu banco na posição reta. — Eu disse que nós os encontraríam os de novo.
— Você é tão inteligente.
— Você tem sorte de eu estar ao seu lado.
Finn liga o Chevrolet cinza pelo qual trocam os o Honda no estacionam ento do hotel, e nós os seguim os para as ruas lotadas de Washington. Dirigim os para o centro da cidade, até um restaurante decorado com couro e painéis de m adeira, do tipo frequentado por lobistas e interessados no poder, e acham os um a vaga em um parquím etro do outro lado da rua para esperar. Cada segundo parece se arrastar m ais que o anterior.
— Não gosto disso — falo, depois de 15 m inutos terem se passado. — O que eles estão fazendo aqui? Ficaram com desej o de filé m ignon?
— É, isso é estranho.
Eu m ordo a unha de um polegar que j á está carcom ida até a carne.
— E se nós tiverm os m esm o feito Jam es passar do lim ite? E se tudo o que ele entendeu de nos ver é que ele tem sucesso em fazer a m aldita m áquina um dia? Com o Nate m orto agora...
— Será tudo em que ele vai conseguir pensar. — Finn olha fixo do outro lado da rua até o restaurante. — Que poderia salvar o Nate.
— Ele não vai se im portar com m ais nada que disserm os. Meu Deus, e se nós só deixam os a situação pior?
Eu m e enrolo em m im m esm a, descansando a testa nos j oelhos.
Finn acaricia m eu cabelo.
— Essa coisa de salvar o m undo é bem difícil.
— É, e nós som os péssim os nisso.
O peso do futuro se acom oda sobre m im , am eaçando furar m eu peito a cada suspiro. É dem ais para um a pessoa pequenina. Marina terá de lim par m inha bagunça um dia. Ela vai achar um bilhete no cano do ralo da sua cela na prisão e voltar a este m om ento para tentar de novo salvar um a versão m ais nova e inocente dela m esm a. Cada segundo deste tem po é um fracasso novo em folha.
A m ão de Finn ainda está no m eu cabelo.
— Ai, m eu Deus.
Eu m e sento ereta tão depressa que o sangue sai da m inha cabeça e m e deixa tonta.
— O que foi?
Os olhos de Finn se viram para trás, o queixo m achucado e sem barbear travando e destravando com o se ele estivesse batendo os dentes para conter grito depois de grito. Eu toco no rosto dele, m as ele não se vira para m im , não consegue m ais m e ver. Ele se foi.
Olho para o restaurante. Um m anobrista com um colete verm elho-vivo está entrando em um carro prateado, e o dono do autom óvel passa pelas portas da frente do restaurante. Só tenho um vislum bre do perfil dele antes de ele desaparecer lá dentro, m as é suficiente.
É ele. É o diretor.