Todos os Nossos Ontens
Trinta e um
TRINTA E
UM
Marina
No táxi com Finn, eu ligo m eu telefone. Estam os quase na m inha casa, m as m inha m ãe pode sair a qualquer m inuto, se é que j á não saiu. Preciso sair desta cidade. Todo o resto perde a im portância com parado com a necessidade de ficar o m ais longe possível de Jam es Shaw agora. Ligo para o núm ero de m am ãe sem ouvir as três m ensagens de voz que j á tenho dos m eus pais.
— Marina! — Ela atende depois do segundo toque. — Você está bem ?
— Acho que sim — respondo. Não há palavras para com o estou de verdade.
— Você está m uito encrencada, m ocinha.
— Eu sei — falo —, m as estou indo para casa. E quero ir para Nova York.
Algo na m inha voz a acalm a.
— Vai ser bom para você, querida. Eu acredito m esm o nisso.
Não im porta. Neste m om ento, nada im porta.
— Até daqui a pouco.
— Você está bem ? — Finn pergunta com delicadeza quando eu desligo.
Eu respondo que não com a cabeça. A fúria que queim ou dentro de m im sum iu, deixando-m e fria e vazia. Parece a vez que cortei o pé em um a garrafa quebrada. O m édico do pronto-socorro m e deu um anestésico para poder m e dar os pontos, m as eu sabia que a dor ainda estava ali, à espreita por trás da dorm ência, esperando por m im .
— Você fez a coisa certa — Finn diz.
Eu m e viro para ele.
— Fiz? Eu abandonei o Jam es quando ele precisava de m im .
— Talvez fosse isso de que ele realm ente precisava. Algo para dar um choque nele e fazê-lo recuperar um pouco da noção.
Ou talvez isso vá deixar tudo pior. Talvez ele com ece a agir com ainda m enos cuidado, e eu não estarei lá para im pedi-lo.
— Eu m e odeio.
— Ei, não fale isso.
— É verdade.
Cubro o rosto com as m ãos. Não quero que ele m e vej a chorar.
— Eu nunca fiz nada de bom para ninguém . O Jam es é a única pessoa além da Luz que se im porta de verdade com igo, e eu o abandonei. Sou m á e egoísta e fútil e feia, e nunca faço nada certo, e...
— Pare! — Finn tira m inhas m ãos do m eu rosto, os dedos firm es em volta dos m eus pulsos. — M, não diga isso.
— Ninguém m e am a, e por que am aria? — Estou quase enlouquecida agora, as lágrim as grossas na m inha garganta. Tento tirar os braços das m ãos de Finn, m as ele segura com força. — Com o poderia?
— Marina. — Ele coloca as m ãos no m eu rosto, os polegares lim pando as lágrim as das m inhas bochechas, e guia m eu olhar para o seu. — Isso não é verdade.
Pela prim eira vez, não há o m enor traço de hum or nos olhos cor de oceano dele.
O táxi breca de repente, cantando pneu no m eio da rua. Isso m e j oga para a frente e eu bato a cabeça contra a parte de trás do banco do m otorista. Pontos negros enchem m inha visão, e o m undo gira diante de m im . Tenho um a leve percepção de Finn gritando com o m otorista, m as tudo em que consigo pensar é um a m úsica que aprendi no j ardim de infância:
Prenda o cinto de segurança,
Sempre que passear.
Não esqueça nunca,
Sua vida ele pode salvar!
Minha cabeça está latej ando, m as é um a m em ória tão absurda que eu rio. As m ãos de Finn estão no m eu rosto de novo.
— Marina? Você está bem ?
Eu toco na m inha testa, e os dedos voltam lim pos.
— É, acho que sim .
A porta do m otorista está aberta e ele está parado fora do táxi, gritando com algum a coisa, balançando os braços no ar. Eu giro o pescoço para ver através do para-brisa. Minha visão ainda está escurecida nos cantos, m as posso ver claram ente o carro preto parado no m eio da rua, bloqueando todo o cam inho.
Finn está verificando se eu tenho ferim entos, então não vê a porta do carro preto ser aberta nem o hom em que sai dali. Alto e m agro, com cabelos escuros arrum ados e pele pálida. Eu fecho os olhos e descanso a cabeça pulsante nos j oelhos.
— Ai, m eu Deus — eu gem o. — Eu acho que eu estou mesmo m achucada.
Finn coloca a m ão na m inha cabeça, acariciando m eu cabelo, e norm alm ente isso seria bizarro, m as nem se com para à estranheza deste m om ento.
A m ão dele congela.
— Que diabos?
Depois, há um estouro, ensurdecedor. Sei exatam ente o que é. Levanto-m e depressa e vej o o taxista cam baleando até cair no chão, e a j anela ao m eu lado salpicada de gotinhas verm elhas. Tento gritar, m as o som se aloj a com dor na m inha garganta. Em m eio à névoa de sangue, vej o o hom em que eu pensei ser um a alucinação andando em direção a nós, a arm a ao lado do corpo. Não entendo com o ele pode estar aqui, com o pode ter m atado um hom em a sangue frio.
Porque é Jam es.
Ele é Jam es e não é Jam es. Com certeza não é o Jam es do qual eu fugi m enos de 20 m inutos antes. Minha visão tom ba e gira. Essa pessoa tem o rosto de Jam es, m as está retorcido em um a expressão estranha, o canto da boca se curvando para cim a com o em aversão e diversão ao m esm o tem po. Os olhos são cortantes dem ais, o cabelo é curto dem ais, o corpo é alto e largo dem ais.
Um trem or sobe pela m inha espinha. Estou tendo alucinações. Deve ser isso.
Fico sentada, im óvel, encarando o não Jam es pela j anela ensanguentada, m as Finn pula em m ovim ento. Ele m e agarra pela nuca e enfia m inha cabeça abaixo da j anela do táxi, cobrindo-m e com seu braço. Enquanto ficam os agachados ali, ele chuta a porta para abri-la e a atravessa abaixado, puxando-m e atrás de si.
— Tem os de dar o fora daqui — ele sussurra.
Nós nos agacham os no asfalto, m antendo o táxi entre nós e o atirador. Finn olha ao redor à procura de um a rota de fuga.
— Você o viu? — eu pergunto. — Você viu...?
Em algum lugar, há o barulho de pneus cantados e a batida da porta de um carro.
— Marina, corre! — um a voz conhecida grita.
Finn m e puxa pelo pulso e corre para um a brecha entre duas casas do outro lado da rua, arrastando-m e atrás dele. Dou um a olhada por cim a do om bro, esperando o im pacto de um a bala a qualquer m om ento, e o que eu vej o m e faz parar no ato.
O Jam es que não é Jam es está correndo em direção a nós. Mas, antes de chegar, é atacado por outro hom em .
Por Finn.
O m esm o Finn que está segurando m inha m ão está lutando com o não Jam es no asfalto.
Meu peso m orto puxa Finn para trás enquanto ele tenta correr. Ele se vira e congela ao ver aquilo.
Os dois hom ens na rua continuam a lutar. O hom em de cabelos escuros com o rosto de Jam es é m ais alto e forte, m as o hom em loiro que se parece com Finn é m ais rápido. Ele torce a m ão do m oreno para tirar a arm a dele e a j oga deslizando pelo chão. O m oreno o acerta no rosto com um punho não m uito fechado, e o som pesado do soco ressoa pela rua silenciosa. Depois, ele tira algo do cinto, um retângulo preto que se encaixa com perfeição na m ão dele e m ostra um pequeno brilho de m etal à luz.
— Marina! — o não Finn grita, seus olhos nunca deixando a arm a. — Corre!
O m oreno espeta o que eu acho ser um a m áquina de choque na lateral do corpo do loiro, e ele estrem ece um a vez, o corpo se arqueando acim a da rua, com o um boneco puxado pelas cordas, antes de cair no chão, os olhos fechados, a boca aberta.
O Finn real sai do seu choque antes de m im e m e puxa pelo pulso. Nós dois correm os, a batida de pés parecendo trovões atrás de nós conform e o m oreno vem nos seguir.
— Mais rápido, Marina! — Finn grita.
— Não consigo!
Finn dispara para o espaço entre as duas casas, puxando-m e tão depressa atrás de si que m eus pés m al roçam no chão e cada passo dá um solavanco na articulação do m eu om bro. Não vou conseguir. Sei que não vou.
— Vai! — eu ofego.
— Não!
Um a m ão se fecha em volta do m eu outro braço. Eu grito.
— Marina! — Finn berra.
O grito seca nos m eus lábios enquanto eu olho para o rosto do hom em que m e pegou. Perto assim , m irando esses olhos castanho-claros, não há com o negar.
— Desculpe — Jam es diz, e eu sinto o golpe do m etal em m inha barriga conform e o m undo vira de cabeça para baixo e fica escuro.