Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 38 de 40

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Todos os Nossos Ontens

Trinta e Oito

TRINTA E

OITO

 

Em

— Não! — eu grito, m inha própria agonia parecendo o buraco no peito de Finn.

Esforço-m e para ficar em pé, com o se, se eu sim plesm ente conseguisse chegar até ele, pudesse im pedir que isso acontecesse de algum a form a. O j ovem Finn olha fixo sem enxergar. Sua respiração sai em um chiado forçado, um a bolha de sangue surgindo em seus lábios quando ele exala. Vou vom itar. Desvio o olhar daquela visão para ver o m eu Finn.

Ele encara com horror e um a dor inim aginável sua versão m ais nova e a flor de sangue que está rapidam ente ensopando sua cam isa. Tira os olhos devagar para encontrar os m eus. Aqueles olhos azul-escuros que eu nunca m ais vou ver. Seus lábios com eçam a se m exer, m as, antes que ele consiga falar, o Finn na cadeira deixa sair um últim o e longo fôlego, e o m eu Finn desaparece com o a névoa do com eço da m anhã ao calor do sol.

— Finn...

A palavra escoa de m im da m aneira com o o sangue escorre do ferim ento do m enino m orto. Eu sem pre soube que esta era um a m issão suicida para nós dois, m as não deveria ter de vê-lo partir prim eiro. A dor é insuportável. Ele sabia o quanto eu o am ava? Algum a versão m inha um dia vai vê-lo de novo?

— Finn? — Marina diz. — Finn!

Ouvi-la gritar o nom e dele acaba com igo. Não percebo m eus j oelhos derretendo em baixo de m im , m as, no m om ento seguinte, estou de volta ao chão com os braços do j ovem Jam es em volta de m im . Percebo que ele deve ter m e pegado e m e baixado. Seus braços estão trem endo.

— Com o você pôde fazer isso? — A voz dele m al é um sussurro, m as ganha força a cada palavra. — Você o assassinou! Você é um m onstro!

— Oh, m eu Deus — Marina chora.

O doutor está pálido, os m úsculos do seu m axilar salientes sob a pele, m as ele tenta fazer um a expressão calm a.

— Não im porta. Ele é apenas um a pessoa.

— Sinto m uito — Jam es diz para m im . — Sinto m uito m esm o!

Isso tem de term inar. O choro soluçado que derrubou m eu corpo vai desaparecendo, e o m undo fica m uito parado e silencioso em volta de m im . Finn está m orto, e eu tenho de acabar com isso de um a vez por todas.

Levanto os olhos para Jam es, m eu querido Jam es. Tudo m ais que há na sala — o louco com a arm a, a m enina chorando, o m enino m orto e sangrando — som e nos cantos da m inha visão. Som os apenas Jam es e eu.

Deus m e perdoe, eu penso ao erguer a m ão para o lindo rosto dele. Eu o am o tanto, m as não é suficiente.

— Jam es — eu falo, enfim calm a. — Você m atou o seu irm ão.

A expressão dele não m uda, presa no lugar pela incom preensão.

— O quê?

— Cale a boca, sua vadia! — o doutor berra.

— George Mischler não foi o assassino — digo. — Richter o incrim inou. O verdadeiro atirador era um hom em cham ado Evan Tam inez. Ele foi um soldado m andado para trabalhar em Cassandra, e você o m andou de volta no tem po para m atar o Nate.

— Por quê? — Jam es diz, enlouquecido. — Por que eu faria isso?

— O Nate estava virando um problem a m uito grande. Você m e contou certa noite, quando a culpa foi dem ais para você. O Nate estava tentando fechar Cassandra porque tinha m edo de que ela fosse m al utilizada, e você não podia aceitar isso.

— Mas... — Jam es faz que não com a cabeça com o se isso fosse im pedi-lo de com preender m inhas palavras. — Mas tudo o que eu quero é salvar o Nate...

— Você o salva — eu confirm o. — É um a das prim eiras coisas para as quais você usa Cassandra, m as, quando ele vira um problem a, você o m ata de novo. Você m ata e salva o Nate de novo e de novo.

A descrença na expressão de Jam es dá lugar ao horror. Ele sabia que algo estava errado com a fotografia que Richter lhe m ostrou. Acabou de ver sua versão futura m atar seu m elhor am igo a sangue frio. E sabe com o arde dentro dele a vontade de usar o tem po para m elhorar o m undo. No fundo, ele sabe que estou dizendo a verdade.

O doutor tam bém vê isso e desconta sua raiva em Marina. Ele vira m ais dois dedos dela para trás, quebrando os ossos com destreza, os gritos dela a m elhor vingança possível contra m im .

— Pare! — Jam es grita.

Ele levanta os olhos para sua versão m ais velha.

Pela prim eira vez, eu o vej o reconhecer o quanto foi longe, que grande m onstro ele vai se tornar.

— Sinto m uito — o doutor diz —, m as você vai entender um dia.

Então, vej o a expressão nos olhos de Jam es se alterar. Vej o o m om ento em que ele decide m udar o futuro, bem aqui, bem agora.

— Você está errado — ele diz.

Jam es se lança no doutor, e os dois caem no chão, corpos idênticos se retorcendo. Eu m e arrasto desaj eitada pelo chão até Marina e com eço a soltá-la com as m ãos trêm ulas.

— Vai ficar bem — falo para a garota, em bora saiba que é um a m entira. — Tudo vai ficar bem . Só feche os olhos, certo? Por favor.

Ela aperta os olhos, lágrim as rolando livrem ente pelo rosto.

— O que está acontecendo?

— Vai ficar tudo bem .

Dou um a olhada no m enino m orto na cadeira ao lado dela, seu corpo não passa de um a casca vazia agora.

— Mantenha os olhos fechados.

Um dos Jam es — não sei dizer qual — urra de raiva. O outro grita de dor, a batida seca de carne contra carne ressoando nos m eus ouvidos enquanto luto contra as am arras de Marina. De um j eito ou de outro, vai acabar logo.

Há um barulho alto, e um deles fica em pé. O Jam es m ais novo se ergue, o doutor está caído e confuso aos seus pés, sangrando no lugar onde sua cabeça foi batida contra o chão de m adeira. Jam es o deixa ali e olha para m im , os olhos verm elhos e decididos.

Ele ergue a arm a que, na luta, tirou da sua versão m ais velha.

— Não! — o doutor e eu gritam os j untos.

— Sinto m uito, Em — Jam es diz, um sorrisinho trêm ulo nos lábios. — Tudo o que eu sem pre quis foi m elhorar as coisas.

— Jam es? — Marina berra.

— Eu am o você, Marina — ele diz. — Você é a m elhor am iga que eu j á tive.

Ele vira a arm a e aponta para o próprio rosto, levantando-a na direção da boca. O doutor e eu percebem os ao m esm o tem po o que ele está planej ando fazer. Eu grito, e o doutor pula nele, um últim o grande esforço para salvar sua vida. É tarde dem ais. O doutor atinge Jam es bem quando ele aperta o gatilho.

Jam es cai desaj eitado, e eu m e arrasto até o lado dele. Ele ainda está vivo; a presença do doutor, que caiu no chão em um horror silencioso, é prova disso. O doutor não im pediu Jam es, m as conseguiu m exer a arm a o bastante para que o tiro não acertasse a parte vital do cérebro dele. A bala estilhaçou o osso da m açã do rosto, m as os olhos ainda estão abertos. Tudo o que o doutor fez foi garantir que a m orte do Jam es fosse lenta e dolorosa, e o fato de que ele tam bém vai m orrer m e conforta.

Eu agarro a m ão de Jam es e a trago j unto do m eu rosto, m inhas lágrim as caindo.

— Eu am o você tam bém . Você é um a boa pessoa.

Seus olhos estão fixos nos m eus, e talvez eu só estej a vendo o que quero ver, m as acho que enxergo paz neles. Devagar, eles se fecham . O terror m e atinge enquanto espero para desaparecer do m esm o j eito que Finn. Eu nunca quis m orrer e tenho m edo de que não exista nada além de escuridão e solidão aonde quer que eu vá. Agarro-m e à ideia de que Finn talvez estej a lá, esperando por m im .

Mas nada acontece. Ele está inconsciente, m as ainda com um a respiração superficial. Ou o tênue fio que prende Jam es à vida enfraqueceu o doutor, ou ele sim plesm ente desistiu, porque está sentado im óvel e olhando fixo para a frente sem ver de verdade. Não vai dem orar m uito agora, m as tenho alguns últim os m om entos. Deito a cabeça de Jam es no chão com delicadeza e beij o a testa dele.

Depois, eu m e arrasto de volta para Marina, que ainda está am arrada na cadeira, chorando m uito e trem endo, os olhos fechados. Um a sensação de tranquilidade profunda tom a conta de m im enquanto olho para ela.

— Jam es? — ela diz. — E-em ? Alguém?

Eu tiro o cabelo do rosto dela e trabalho com calm a nos nós que a seguram .

— Xiu — eu respondo. — Está tudo bem agora. Ouça com atenção.

Digo a ela que ela é linda e perfeita e vai ficar bem . Digo que não precisa m udar para se adequar às m eninas fúteis ou para ser im portante para alguém . Digo a ela tudo que eu j á quis saber. Digo a ela que a am o e percebo, enquanto faço isso, que eu m e am o tam bém .

No chão, Jam es solta seu últim o suspiro.

E, então, eu tam bém .