Todos os Nossos Ontens
Cinco
Em
A consciência volta para m im antes do m eu corpo. Eu entraria em pânico se tivesse um coração para bater ou sangue para correr ou cérebro para processar, m as não sinto nada. Não há sensação nem pensam ento, apenas um a vasta e infinita expansão de nada.
Funcionou? Ou isso é m orte?
Devagar, com eço a sentir coisas de novo. Prim eiro, é o peso incrível da m inha cabeça, que é com o um bloco de m adeira sem pontas m e em purrando para baixo, m as não m e im porto, porque é um grande alívio ter cabeça de novo. Depois, há o arranhar de um a superfície áspera contra m inha bochecha e um form igam ento dolorido nos braços e pernas, que m e lem bra que tenho braços e pernas.
Finn é m eu prim eiro pensam ento coerente. Tento m e m exer, estender a m ão para ele, m as estou congelada.
O form igam ento se intensifica até virar dor, forte e aguda e esfaqueando m inha pele, que se solidifica. Tento gritar, m as só ouço um gem ido baixo que m al percebo que deve estar vindo de m im .
Consigo abrir as pálpebras devagar, revelando vislum bres de um m undo em baçado e m uito ilum inado. Eu puxo fôlegos ofegantes e roucos por pulm ões que parecem novinhos.
Em algum lugar, Finn diz m eu nom e.
Um a agitação quente passa pelo m eu corpo, convulsionando m eus m úsculos em ondas de espasm os. Eu m e esforço para m e apoiar em um cotovelo enquanto vom ito o parco conteúdo do m eu estôm ago, e parece que m eu corpo está tentando se virar do avesso. As m ãos de Finn de repente estão em m im , tirando o cabelo da m inha bochecha grudenta, e eu m e inclino, grata, para a pele fria dele.
O feitiço passa, e eu consigo abrir os olhos. Finn sentado ao m eu lado, praticam ente com o corpo dobrado ao m eio, obviam ente tão exausto e dolorido quanto eu.
— Você está bem ? — ele pergunta.
Faço que sim com a cabeça e arrasto m inha m anga pela testa suada.
— Acho que sim . Foi horrível.
— É, prefiro um carro voador a isto em qualquer situação.
Ele espia ao redor de nós, os olhos varrendo cada centím etro do depósito vazio com o se fosse um planeta estranho e alienígena. Segundos antes, nós estávam os em um a salinha cercados por soldados, m as, agora, estam os em algum tipo de espaço de arm azenam ento, os corredores labirínticos que ficam em cim a do colisor de partículas substituídos por fileira após fileira de lixo não identificado.
— Conseguim os m esm o — ele diz. — Não acredito nisso.
Não sinto a m esm a adm iração. Viagem no tem po não é um a m aravilha; é um a abom inação.
Finn coloca um a m echa de cabelo atrás da m inha orelha, com o se fosse algo natural, algo que ele fez todo dia por anos.
— Você acha que consegue levantar?
Meu corpo parece oco e sem substância, com o se, por acidente, eu tivesse deixado um pouco dele quatro anos no futuro.
— Não sei. Você vai conseguir m e pegar se eu cair?
— Duvido — ele responde —, m as deixo você cair em cim a de m im . Vai ser um pouso bonito e esm agador.
Eu sorrio.
— Meu herói.
Nós dois com eçam os a j ornada para ficar em pé, causando um ao outro tanto bem quanto m al ao longo do cam inho. Quando ele cam baleia, quase m e derruba, e vice-versa, m as não m e passa pela cabeça que eu deveria soltá-lo até passarm os de engatinhar para andar agachados e com passos trêm ulos.
Nós nos levantam os e tem os dificuldade para deixar o corpo ereto, m as, depois de ficarm os estáveis, Finn sorri e m e abraça. Ele está tão satisfeito por ter conquistado um feito tão pequeno que não posso deixar de rir. Ele ri tam bém e, em pouco tem po, nós dois estam os histéricos, agarrando um ao outro e ofegando. Não sei se é a desorientação que ainda perm anece por causa da viagem ou apenas a alegria de enfim estarm os livres, m as não m e sinto tão feliz há m eses. Anos.
Porém , de algum a form a, em m eio à nossa risada, eu ainda assim ouço o clique.
— Parados!
Finn fica rígido em m eus braços, e eu levanto as m ãos para o céu com o a boa prisioneira que sou. O soldado que veio escondido até nós enquanto ríam os dá um passo m ais para perto, a arm a apontada para a m inha cabeça.
— O que vocês estão fazendo aqui? — ele pergunta.
Um trem or leve passa das m ãos do hom em até a arm a, fazendo-a oscilar diante dele.
Eu aperto os olhos para ele, olhos ainda m arej ados e em baçados, e, depois, reconheço seu rosto.
— Connor?
Ele leva um tem po para ser convencido, m as, depois de eu entregar a fotografia dele e de sua futura esposa — Laura, eu descubro, garçonete na lanchonete que ele frequenta, que j á recusou duas vezes o pedido dele de um encontro —, Mike Connor com eça a m udar de ideia.
Não que eu fosse culpá-lo se ele atirasse em nós bem ali.
Com o pedi, Connor nos leva para um canto distante do prédio. Em quatro anos, esta será um a instalação secreta do governo, abrigando o m aior colisor de partículas do m undo, m as, agora, conform e Connor explica para nós enquanto andam os, é apenas um depósito m ilitar guardando centenas de veículos antigos, arm as e m unições pequenas esperando descarte e outras coisas aleatórias. Connor é um oficial de pouca im portância encarregado do turno da noite.
Não consigo parar de dar um as olhadas nele enquanto cam inham os. Apenas m om entos antes, eu estava vendo um a versão m ais velha dele m orrer, um a com cabelo grisalho nas têm poras e rugas finas m arcadas nos cantos dos olhos. Apenas quatro anos separam os dois Connors, m as este parece um a década m ais novo e m ais suave. O futuro envelheceu Connor antes do tem po tanto quanto Finn e eu. Esse Connor j ovem m e parece um tipo de aparição, um fantasm a vivo.
Ele j á está m orto, a m enos que Finn e eu o salvem os.
— Não entendo isto — Connor diz enquanto andam os. — Digo, acredito em vocês, porque os vi aparecerem do nada e vocês têm aquela foto, m as parece que m inha cabeça está prestes a explodir aqui.
— Na verdade, é bem sim ples — digo. — Você conhece a teoria da relatividade de Einstein?
Connor só fica m e olhando.
— Vam os supor que eu não conheça.
— É, eu não conhecia tam bém , até... bem . — Eu sacudo a cabeça para apagar aquela linha de pensam ento. — Basicam ente, espaço e tem po são, na verdade, a m esm a coisa, tipo um a película gigante estendida pelo universo cham ada espaço-tem po. Obj etos densos deform am o tecido do espaço-tem po, da form a com o um tram polim afunda quando alguém sobe nele. Se você tiver algo pesado o bastante, tipo, absurdam ente pesado, pode abrir um buraco no tecido.
— Certo, eu entendo isso.
— Bem , no futuro, o governo desenvolve um enorm e colisor de partículas cham ado Cassandra. Quando ele faz as partículas subatôm icas certas chocarem -se sob as condições adequadas, as partículas se hipercondensam no im pacto e ficam pesadas o bastante para abrir um buraquinho no espaço-tem po. Nós viem os através desse buraquinho.
— Por quê?
— Porque o futuro precisa ser m udado. Precisam os destruir Cassandra antes que sej a construído, ou ele vai acabar com o m undo. Não é para as pessoas viaj arem no tem po.
— Mas... — Connor aperta os dedos nas têm poras. — Se vocês destruírem a m áquina antes de ser construída...
— Então, ela nunca vai ter existido para que a gente volte no tem po e a destrua? — Finn diz.
— Isso.
Faço que sim com a cabeça.
— É um paradoxo. Mas a questão do tem po é que, na verdade, ele não é linear com o pensam os. Um a pessoa que eu conheci tinha um a teoria sobre o tem po, de que ele tem um tipo de consciência. Ele lim pa as coisas e evita ser rasgado por paradoxos congelando certos eventos e evitando que eles m udem . As ações, com o nós fazerm os algo para im pedir que Cassandra sej a construído, perm anecem , enquanto a passividade, com o nós nunca voltarm os para evitar a m áquina porque não poderíam os fazer a viagem , não perm anece. Quando nós... fizerm os o que tem os de fazer para destruir Cassandra, isso deve virar um evento congelado, a salvo dos paradoxos.
— Com o vocês vão voltar para o seu tem po? — Connor pergunta.
Finn olha para m im antes de responder.
— Não vam os.
— Oh.
A expressão de Connor se fecha.
— Certo. Bem , aqui estam os.
Chegam os ao canto dos fundos do depósito. Em frente a nós, há um pequeno ralo no chão de concreto. Quatorze centím etros de diâm etro, 32 buracos, m as nenhum a m arca do tam anho de um a m oeda de cinco centavos ainda, e sem paredes de blocos de cim ento envolvendo-o.
— Para que é isso? — questiono. — Eu m e perguntava isso todo dia naquela cela.
Connor encolhe os om bros.
— Eles estão por toda parte. Caso os sprinklers sej am acionados e haj a um a inundação.
Um a resposta tão inofensiva. Lem bro-m e de todas as coisas horríveis que eu tinha pensado com o função para o ralo, que gastei horas encarando, im aginando m eu sangue indo em bora, descendo em espiral por ele.
— Você precisa aprender tudo o que pode sobre este prédio — eu digo —, todas as suas peculiaridades. É por isso que vão m anter você aqui em vez de m andarem para outro lugar quando assum irem o prédio. Você é leal e trabalha duro, e isso vai fazer com que sej a prom ovido. Um dia, você vai ouvir dizer que eu roubei um a colher, e nesse m om ento você saberá que estam os prontos para você nos libertar.
— Jesus, não acredito que você está m esm o m e dizendo essas coisas — ele fala. — Parece im possível.
— Eu queria que fosse.
— Com o eu soube que tinha de libertar vocês da prim eira vez? — ele pergunta. — Vocês não estavam aqui para m e contar antes que acontecesse.
— Não sei — respondo. — Acho que aquelas versões de você e de m im devem ter aprendido a confiar um a na outra de algum a form a.
Connor inclina a cabeça para trás, com o se estivesse tentando enxergar para além deste prédio e até o horizonte.
— O futuro é m esm o tão ruim ?
Finn avança e toca a parede do depósito que dá para o lado de fora, que um dia form ará parte da cela dele.
— Pior.
Olho nos olhos de Connor. Eles estão entorpecidos com o choque agora, m as, um dia, serão os únicos olhos gentis que olharão para m im por m eses.
— Não podem os m udar a situação sem você, Mike. Você é a chave para tudo isso.
Ele leva um m om ento para processar a inform ação e suspira.
— Bem , acho que vocês j á sabem que vou dizer sim , não sabem ?
— Agora nós sabem os.
Connor tira um canivete de ferram entas do bolso e com eça a desparafusar a grade em volta do ralo. Pego do bolso o pedaço de papel que carreguei ao atravessar os anos e olho para ele um a últim a vez. Não há nada para eu riscar. Versões anteriores m inhas, Em s que eu nunca conheci e que foram geradas por cada tentativa de m udar o tem po, deixaram evidências de cada plano que tentaram para evitar o futuro. Só resta um a opção e ela cabe a m im . Se m atá-lo não der certo, nada dará.
Beij o o pedaço de papel e coloco-o de volta dentro do saco plástico. Se eu falhar, talvez a próxim a Em — que está lá fora em algum lugar, andando por aí feliz e despreocupada, sem ter ideia do que está reservado para ela — tenha sucesso. Eu enfio o saco plástico bem fundo dentro do ralo e, conform e Connor aparafusa a grade de volta, peço a Deus que ela nunca estej a naquela cela para encontrá-lo.
Connor nos esconde em um canto especialm ente desolado do depósito pelo restante do seu turno. Ele nos traz biscoitos com m anteiga de am endoim e salgadinhos da m áquina de com ida e nos deixa escondidos dentro de um Hum vee quebrado. Finn divide os lanches — reparo que ele m e dá m ais do que a m inha parte e não o im peço — e com em os em silêncio, enrolados no couro rasgado na parte detrás do enorm e veículo.
— Ah, m eu Deus — Finn gem e, lam bendo pó laranj a das pontas dos dedos. — Você se lem brava de Doritos serem assim tão bons?
— Eu não m e lem bro de nada ser assim tão bom . — Tiro um a cam ada de m anteiga de am endoim de um biscoito e a sugo, tentando fazê-la durar o m áxim o possível. — Este banco não é m acio?
Finn pula na alm ofada de couro.
— É o paraíso.
O lado bom de ficar preso por alguns m eses? Não é necessária m uita coisa para agradá-lo.
Passam os o resto da noite no Hum vee. Finn se senta perto o bastante para tocar em m im , m as não toca, e eu fico grata. Já estou bem confusa por dentro sem isso. Em vez disso, apenas conversam os, e, no escuro dentro do veículo, para m im é tão difícil enxergar o rosto dele que é quase com o estar em nossas celas de novo. Acho isso reconfortante, o que m e surpreende. Nós passam os tantas horas conversando através da parede que nos separava, dizendo coisas um para o outro na segurança de nossas próprias e pequeninas prisões que nunca teríam os podido dizer cara a cara. É bom poder relem brar com o é estar no m esm o espaço que ele.
— O que tentam os antes disto? — Finn pergunta. — Digo, nossa últim a versão.
— Nós... eles... se livraram de Noah Hickson — respondo.
Era o item 14 da lista. Eu a encarei por tanto tem po que ainda posso ver cada palavra quando fecho os olhos.
— Ah, certo. O engenheiro?
— É. Acho que pensaram que o doutor não conseguiria proj etar Cassandra sem a aj uda dele.
— Ainda não consegue falar o nom e dele, hein?
Faço que não com a cabeça. A ideia de aquele nom e estar na m inha língua m e dá ânsia.
— Nem eu — Finn sussurra. — Então... livraram -se dele com o? Eles o m ataram , você acha?
— Não sei — digo.
Espero que não, o que é bobagem . Por que eu deveria m e im portar com o que um a versão diferente de m im certa vez fez com um com pleto estranho?
— Mas Cassandra foi construída m esm o assim .
— É.
— Então não tem os escolha m esm o, tem os?
— Acho que não.
— Em .
— Sim ?
— Sei que as coisas ainda estão m eio estranhas entre nós, e isso vai m e fazer parecer um a m enininha, m as... — Ele se aproxim a de m im de repente no escuro. — Posso segurar sua m ão?
Com um nó na garganta, eu ofereço a m ão para ele. Ele enlaça nossos dedos e nós nos seguram os um ao outro até adorm ecerm os.
Connor nos acorda algum tem po depois e, à luz, para m im é difícil olhar Finn no rosto.
— Eu trouxe um sapato para você — Connor diz, largando um par de tênis desbotados no concreto em frente a Finn. — Você não pode salvar o m undo descalço.
Finn desliza os pés, cuj as solas ainda estão m anchadas com o sangue dos soldados que m orreram no futuro, para dentro dos tênis. Meus chinelos de prisioneira são finos, m as vão m e levar aonde quer que estej am os indo. Finn am arra os cadarços enquanto Connor explica seu plano para nos tirar escondidos do depósito, que envolve a plataform a de carga e m eia dúzia de pallets de m adeira velhos que Connor disse ao chefe que quer transform ar em estantes para arm azenar ferram entas. Vinte m inutos depois, estam os na caçam ba da picape de Connor, deitados sob um a lona j unto com os pallets em poeirados, enquanto ele passa pela guarita dos seguranças na estrada que sai do depósito.
— Bom — Finn sussurra. — Isto pelo m enos parece fam iliar.
Depois de term os percorrido alguns quilôm etros pela estrada, Connor para e nós nos apertam os na cabine da picape. Ele nos leva para a sua casa, onde nos deixa tom ar banho e nos dá roupas lim pas suas para usarm os. Eu saio do banheiro com o cabelo m olhado pingando pelas costas do enorm e casaco de capuz preto de Connor, e vou procurar por Finn. Eu o encontro — usando j eans escuros finos de tão gastos nos j oelhos e um a cam iseta de m angas longas — com endo panquecas à m esa da cozinha. Connor desliza um prato em direção a m im .
— É tudo o que eu sei preparar — ele diz.
Eu m e sento e apenas encaro a pilha de panquecas, que tem xarope escorrendo e está salpicada com pequenas poças de m anteiga, por um m inuto inteiro. Quero m e enrolar nelas.
Não sei por quanto tem po Finn e eu com em os, m as sei que Connor tem de fazer outra rodada de m assa porque acabam os com a prim eira em m inutos. Quando enfim eu baixo m eu garfo, estou tão cheia de panquecas que acho que vou ficar enj oada, e é a m elhor sensação do m undo. Eu aprecio a m inha náusea, e, a j ulgar pelo gem ido baixo de Finn, ele tam bém .
Enquanto Finn lava a louça, Connor desaparece da cozinha e volta com um a bolsa de tecido grosso em um a das m ãos e um estoj o de plástico na outra.
— Roupas extras — ele diz. — Algum as coisas de prim eiros socorros, algum as barras de proteína. Não é m uito, m as...
— Está ótim o, Connor — eu falo. — Obrigada.
— Tam bém peguei...
Ele abre o estoj o e, dentro, há um a pistola sem iautom ática e um a caixa de m unição. Finn e eu olham os um para o outro; não contam os a ele que estam os planej ando atirar em ninguém .
— Vocês vão precisar disto, certo?
Finn força um a risada.
— Não! Nós não precisam os de um a arma...
— Não da sua — eu interrom po. Connor m erece a verdade, pelo m enos, por tudo o que fez por nós. E é óbvio que ele não é idiota. — Não podem os deixar que sej a rastreada até você. Você tem de estar trabalhando em Cassandra daqui a quatro anos, e isso nunca vai acontecer se sua arm a for usada para com eter um crim e.
— Eu a com prei em um a exposição de arm as quando estava m orando no Arizona. Não precisou de registro. Nunca será rastreada até m im . — Ele m e oferece o estoj o de novo. — Tudo bem . Eu sei que não dá para m udar o m undo sem que alguém se m achuque.
Eu encaro a arm a. A verdade é que nós provavelm ente vam os precisar dela. Com um a arm a, você pode m atar à distância; não tem de olhar a pessoa nos olhos ao encerrar a vida dela. Finn e eu vam os precisar disso. Eu estendo a m ão para a caixa.
— Em ... — Finn diz.
— Vocês sabem com o usar? — Connor pergunta para m im .
Verifico a trava de segurança da arm a, fecho o estoj o e o guardo dentro da bolsa.
— É — respondo, lem brando-m e das horas de treino de tiro pelo qual Jonas nos fez passar nas m ontanhas, atirando em alvos rudim entares, desenhados à m ão, pregados em árvores. — Nós sabem os.
Com isso, o calor agradável da pequena cozinha e o gosto ainda presente do xarope na m inha língua evaporam . Estas não são férias de volta ao nosso passado confortável; é um a m issão. Não posso m e deixar esquecer isso, nem por um instante, porque relem brar dói dem ais.
Connor nos leva de carro até o ponto de ônibus na cidade seguinte, que eu descubro ser Oakton, Pensilvânia. Todos esses m eses, Finn e eu não fazíam os ideia de onde estávam os. Eu apoio a cabeça contra o vidro frio da j anela da picape de Connor e olho o m undo que passa do lado de fora. Prim eiro, não há nada além de terras de plantações, polvilhadas de gelo branco cintilante e quebradas por um a casa de vez em quando ou um celeiro verm elho-vivo ou um cavalo pastando. O céu é com o um a tigela azul perfeita colocada de cabeça para baixo sobre o m undo — a cor vibrante acim a de nós e desbotando para o branco no horizonte — e é m aior do que eu poderia ter lem brado. Entram os na pequena cidade onde o ônibus para, e m inha respiração fica presa na garganta.
Há toldos coloridos sobre as portas das loj as ao longo da rua principal, e os postes de rua de ferro forj ado ainda estão decorados com fartas luzes de Natal. As pessoas que andam pela rua não se apressam com a cabeça baixa nem olham para trás com m edo de soldados se aproxim arem . A últim a vez que eu estive ao ar livre, havia fuzileiros com m etralhadoras em cada esquina das ruas m ovim entadas, e podiam exigir seu docum ento de identidade sem nenhum m otivo. Estávam os em guerra contra a China e com m edo de bom bardeios aéreos em inentes contra a Califórnia, enquanto um grupo de terroristas detonava bom bas em cidades pequenas por toda a Costa Leste. Nem m esm o nossas casas eram seguras. Com o governo m onitorando telefones celulares e o uso da internet, um a palavra questionável era suficiente para o Departam ento de Segurança Interna derrubar sua porta e arrastá-lo para um cam po da Agência Federal de Gestão de Em ergências com o suspeito de terrorism o.
Mas, aqui, no passado, há luzes de Natal. Viro-m e para Finn e vej o que seus olhos estão tão arregalados quanto os m eus.
— Sem pre foi bonito assim e nós sim plesm ente nunca notam os? — pergunto.
Ele segura m inha m ão, m as não responde, e continuam os a olhar esse nosso velho m undo em basbacados antes de Connor parar no estacionam ento do Burger King, onde o ônibus está esperando.
Connor paga ao m otorista nossas passagens e m e dá o restante das notas da sua carteira. Eu queria poder protestar, m as sei que vam os precisar delas. Ele aperta a m ão de Finn e m e dá um abraço esquisito enquanto o m otorista guarda o resto das bagagens.
— Quando eu era pequena — falo no ouvido dele —, tinha um am igo im aginário cham ado Miles. Ele era um canguru roxo.
— Ahn. — Connor m e solta. — Certo.
— Ninguém m ais sabe disso — conto. — Ninguém.
— Oh, então é assim que...
— É assim que eu vou saber que posso confiar em você — digo.
— Entendi.
Finn toca o m eu om bro.
— O ônibus está pronto para sair.
— Nós nos vem os depois, eu acho — Connor brinca.
Eu pisco e o vej o cravej ado de buracos, seu rosto gentil salpicado de sangue conform e ele cai no chão. Pisco de novo e ele está parado em frente a nós, sorrindo, j ovem e inteiro.
— Você é o m elhor, Mike — eu falo, e, quando ele se afasta, acrescento-o à lista de pessoas em que espero nunca m ais pôr os olhos.