Todos os Nossos Ontens
Onze
Em
Finn e eu nos separam os quando seguim os de volta para o hospital. Ele se j unta à vigília à luz de velas e à m ultidão da im prensa na entrada da frente, e eu contorno o edifício até os fundos. Fico parada do outro lado da rua em relação ao estacionam ento e de olho na baia de am bulâncias. Os repórteres e pessoas da vigília são m antidos fora dessa área para que veículos de em ergência ainda possam passar e, assim , m inha visão é relativam ente desim pedida, m as estou longe o bastante para não atrair atenção indesej ada.
Alguns repórteres estão aqui atrás, film ando inform es sobre o segundo tiro, m as a m aioria está na localização privilegiada da frente, onde Finn está. Finj o observá-los enquanto fico de olho nos fundos do hospital. É im portante acom panharm os o paradeiro das nossas versões m ais j ovens, porque as coisas estão diferentes agora. Depois de eu ter dado aquele tiro em Jam es, m udei o futuro e, assim , não sei m ais o que Marina vai fazer ou aonde ela vai. Minhas antigas m em órias são inúteis.
No bolso do agasalho que peguei em prestado com Connor há um a barra de proteína e um dos celulares pré-pagos que Finn e eu com pram os assim que chegam os a Washington. Finn está com o resto dos nossos suprim entos na m ochila: a arm a e a m unição extra, um pouco de com ida e algum as cam isetas a m ais. Espero não precisar das roupas nem da com ida; espero que não fiquem os aqui por tanto tem po.
Observo as portas de vidro na parte de trás do hospital abrirem e fecharem do outro lado da rua e ataco a barra de proteína. Não estou com fom e, m as preciso fazer algum a coisa com as m ãos. Pensei que ver Jam es lentam ente tornar-se duro e im piedoso fosse a pior coisa que j á vivi, m as estava errada. Isto é pior. Talvez eu tenha sido ingênua de pensar que poderia fazer isso. De algum a form a, ainda estou descobrindo aspectos nos quais ainda sou só um a criança.
Olhar o rosto dele, lem brar-m e do m enino que ele foi e do quanto eu o am ava m e fez voltar no m esm o instante a ser aquela m enina de 16 anos que pensava que Jam es Shaw era a pessoa m ais im portante do m undo. Sinto falta dessa m enina, e desse m enino. Sinto falta deles há anos, m esm o que não tenha sido capaz de adm itir. E, agora, tenho de acabar com a vida de um e devastar a da outra.
É insuportável.
O telefone no m eu bolso vibra, dou um pulo. Pego-o e aperto o botão com dedos trêm ulos.
— Eles estão indo em bora?
— Não — Finn diz do outro lado. — Eu só queria dizer oi.
Eu sorrio.
— Está verificando com o eu estou?
— Por favor, com o se eu m e im portasse. Só estou entediado.
— Estou bem , ok?
— Bem , pelo m enos um de nós está.
As portas da baia de am bulâncias se abrem e por elas sai um cara usando um terno com “segurança especial” escrito por ele todo. Eu vou para trás de um a das vans de reportagem enquanto o observo andar até o carro — um Crown Victoria preto sem placa — e levá-lo para a lateral do hospital, bem em frente à saída de em ergência.
— Acho que eles estão saindo — eu sussurro.
A saída de em ergência é aberta, e alguém cuj o rosto está coberto por um casaco sai depressa, acom panhado por um policial fardado e outro agente, e entra na parte de trás do carro. Mesm o sem ver o rosto, sei que é Jam es. As duas equipes de televisão que ainda estão aqui atrás devem achar o m esm o, porque com eçam a film ar.
— Estou indo — Finn diz no m eu ouvido enquanto eu observo o outro Finn (m eu Deus, ele está tão j ovem ) entrar no carro depois de Jam es. — O que eles estão fazendo?
— Entrando em um carro com alguns agentes.
Ele solta um palavrão.
— Finn, se estiverem levando o Jam es para um a custódia com proteção, nós nunca...
— Eu sei. — Posso ouvir o cansaço na respiração dele enquanto corre em direção a m im . — Estou indo.
Marina sai em seguida. Quero dizer, eu saio em seguida. É m eu prim eiro vislum bre da m inha antiga versão, e m eu coração se aperta por pura saudade da m enina que eu era. Ela é crítica e fútil, m as só porque não aprendeu a gostar de si m esm a. Com o ela não consegue ver com o é bonita, com o é especial? Tudo o que ela vê é Jam es, inclinando-se na direção dele com o um a flor para o sol.
— Vam os, Finn! — eu digo.
Ele vem correndo pela esquina do hospital quando o Crown Victoria com eça a sair para o canto oposto do estacionam ento.
— Depressa! Eles vão escapar!
Finn passa por m im correndo.
— Fique de olho no cam inho deles — ele diz ao telefone. — Vou avançar alguns quarteirões.
Eu observo o carro virar à direita para sair do estacionam ento e parar no sem áforo da esquina. Vira à esquerda quando o sinal abre, e eu sigo cada m ovim ento dele até virar, saindo do m eu cam po de visão. Faço um giro e vou atrás de Finn, encontrando-o a dois quarteirões do hospital.
— Eles seguiram para o norte — digo quando o alcanço.
Ele está serpenteando entre carros estacionados no m eio-fio, esfregando os vidros congelados para olhar dentro das j anelas. Encontra o que está procurando em um Honda azul em poeirado e pega a arm a na m ochila. Ele usa o cano para quebrar o vidro de trás. O tilintar do vidro quebrado soa extrem am ente alto para m im , m as nenhum grito ou sirene se segue a ele.
— Seguiram para Georgetown, então — ele diz.
— Talvez. Espero que sim .
Ele estende a m ão através dos dentes pontiagudos da j anela quebrada e abre a trava da porta do m otorista. Coloca-se atrás do volante e abre a porta do passageiro para m im , e eu o observo escavar os fios abaixo do volante e fazer ligação direta no carro da m esm a m aneira com o fez um a dúzia de vezes nos nossos anos de fuga.
Depois de várias tentativas e m uitos palavrões, o carro ganha vida com um urro em baixo de nós, e partim os na direção em que o Crown Victoria foi. De volta para Georgetown. De volta para casa.
Marina
A saída da frente está entupida de pessoas em vigília e repórteres, e a baia de am bulâncias tem de ser m antida livre, então os policiais e os hom ens de terno escuro nos levam para um a pequena saída de em ergência na lateral do prédio que só é usada em situação de urgência. Um dos agentes — acho que o nom e dele é Morris — vai pegar o carro, enquanto seu parceiro, Spitzer, espera conosco dentro da porta. Spitzer nos garante que eles passaram pente-fino no estacionam ento e reforçaram a segurança no perím etro do hospital, m as ainda estou tensa, esperando o som de um tiro, porque agora sinto que eles podem vir de qualquer lugar a qualquer m om ento.
Quando Morris para o carro, Spitzer e um policial protegem Jam es dos dois lados enquanto ele entra no veículo. Finn vai em seguida, entrando na porta oposta, e, depois, eu, praticam ente m ergulhando na porta m ais próxim a, de form a que Jam es fica cercado por nós dois. Spitzer entra no banco de passageiro e nós partim os para Georgetown. O céu fora da j anela é de um cinza de aço, a noite quase acabada. Não tenho certeza se estou surpresa por tanto tem po ter se passado ou chocada por ter sido tão pouco.
— Quer que levem os você para casa prim eiro? — Morris diz, olhando para Finn pelo espelho retrovisor.
— Tudo bem — Finn diz. — Eu pego o m etrô.
Morris franze as sobrancelhas.
— Tem certeza? — ele pergunta. — Eu nem acho que o m etrô estej a aberto tão cedo e...
— Tenho certeza — Finn interrom pe, e percebo que não sei onde ele m ora.
Jam es fica em silêncio, observando as ruas passarem pelo lado de fora da j anela.
— Você está bem ? — pergunto.
É um a pergunta idiota, m as tenho de falar alguma coisa.
Ele não m e ouve.
Nós viram os na nossa rua, e nunca fiquei tão feliz de vê-la antes. A casa dos Shaw está escura, m as a luz da cozinha ainda está acesa na m inha. Luz provavelm ente deve estar cozinhando com afinco desde que saiu do hospital. Não vou deixar Jam es ficar na casa dele; os investigadores estiveram lá, e haverá lem branças de Nate por toda parte. Ele vai ficar na m inha. Os agentes podem protegê-lo da m esm a form a na m inha casa, onde haverá m il panquecas e cam as com lençóis recém -lavados esperando por nós.
— Vocês podem nos levar para a casa com a luz acesa. Jam es vai ficar com igo. — Faço um a pausa. — Você pode ficar tam bém , Finn. Se quiser.
Antes de qualquer um dos m eninos responder, um flash de luz explode nos m eus olhos. Eu grito e cubro o rosto, esperando um a explosão de barulho e sangue e dor. Morris fala um palavrão e o carro acelera de repente sob nós. Forço m eus olhos a se abrirem e pisco para elim inar as auréolas de luz que passeiam pela m inha visão.
— Você está bem ? — Eu agarro Jam es sem ver. — Está m achucado?
— Estou bem — Jam es responde, trêm ulo. — O que foi aquilo?
— Fotógrafos — Spitzer diz. — Acam pados do outro lado da rua. Equipes de reportagem estarão aqui a qualquer m inuto.
— Filhos da puta! — Finn diz.
Eu m e deixo cair de volta no banco. Nem consigo trazer à tona a raiva com os cretinos que invadiriam a privacidade de Jam es assim . Estou aliviada dem ais por ele não ter levado um tiro.
— Tem algum outro lugar para onde você prefira ir? — Morris pergunta. — Podem os proteger sua casa, m as não há nada que possam os fazer quanto à im prensa.
Jam es ainda está pálido.
— Não, eu não quero voltar lá. Mas vocês podem deixar a Marina. Os fotógrafos vão em bora quando virem que eu não estou com ela. Vou para um hotel, eu acho.
Eu com eço a fazer que não com a cabeça antes de ele ter acabado a frase.
— Sem chance.
— Vou ficar...
— Diga que vai ficar bem e eu j uro que em purro você deste carro! — eu retruco. Odeio quando Jam es fica assim , tão perversam ente determ inado a não incom odar ninguém , com o no ano passado, quando ele quebrou o pulso e insistiu em rabiscar suas equações em um a letra ilegível com a m ão ruim em vez de m e deixar escrever por ele. Ele não vê o quanto eu quero ser incom odada por ele, o quanto isso significa que eu sou m esm o im portante para ele. — Não vou deixar você ficar sozinho em um hotel.
— Então vou voltar para o hospital.
— Tem ainda m ais repórteres lá! Você vai ficar cercado!
— Eu não preciso que você cuide de m im , Marina.
— Você precisa que alguém...
— Pessoal — Finn diz. — Pessoal!
Nós dois nos viram os para olhar para ele.
Está afundado no banco e encarando o teto do carro.
— Vocês dois podem ficar com igo, se quiserem .
Jam es pisca.
— É sério?
— Claro. — Finn suspira. — Por que não?
A voz de Jam es está suave.
— Finn, você não precisa fazer isso.
Eu olho de um m enino para o outro, confusa.
— Você não pode ir para a casa da Marina e não pode ir para o hospital — Finn diz. — Você vai para um hotel e alguém que trabalha lá vai reconhecer você. Jesus, cara, você acabou de levar um tiro. Ninguém pensaria em procurar por você na m inha casa. É a m elhor opção que tem os.
— Então, para onde vam os? — Morris pergunta.
— Colum bia Heights — Finn responde. — Gresham Place.
Eu fico im óvel. Finn olha resoluto para fora da j anela, sem se virar para nós. Não sou idiota; tinha reparado nos sapatos baratos de Finn e no fato de que ele vai de m etrô para qualquer lugar quando tem idade o bastante para dirigir e, assim , sabia que ele devia receber um a bolsa do governo. Mas sem pre im aginei que ele fosse filho de um professor de classe m édia ou algo assim , porque pessoas pobres sim plesm ente não estudam na Sidwell. Mas Colum bia Heights? É, tipo, mais do que pobre. Mam ãe teria um ataque nível dois com prim idos de Xanax se soubesse que eu estava andando com um m enino dessa parte da cidade.
Nós cruzam os Washington conform e o sol com eça a nascer, e os dois m eninos ficam em silêncio. Tento olhar pela j anela para as ruas ao nosso redor da m aneira m ais discreta possível. Um a luz cinza enevoada está invadindo Colum bia Heights, ilum inando as frentes de loj as com venezianas e o pavim ento rachado. Ela m anda as pessoas que estão vagando pelas ruas correndo para casa, com o ratos procurando um buraco para se esconderem até o anoitecer. Algum as ruas não são tão ruins. A via principal é contornada por filiais de restaurantes conhecidos e butiques, m as afaste-se alguns quarteirões da Starbucks e da Urban Outfitter e você cai no m undo das gangues.
É, vam os ficar m uito m ais seguros aqui.
Finn orienta Morris até a sua casa e, pelo m enos, poderia ser pior. Gresham Place não é Georgetown, m as não é exatamente a Central dos Assassinatos pela qual passam os alguns quarteirões atrás. A pequena casa gem inada de Finn está precisando m uito de um a nova cam ada de tinta, e a gram a está m uito alta, m as não há grades nas j anelas, e há um banco e dois vasos de am or-perfeito na pequena varanda.
— Lar, doce lar — Finn diz com um a voz sem em oção conform e Morris estaciona o carro no m eio-fio.
Jam es e eu o seguim os subindo os degraus da varanda e entram os na casa. As luzes estão apagadas, m as, m esm o sem nada além do sol fraco através das cortinas, posso ver que o lugar está velho e apertado e cheio de coisas. Nenhum dos m óveis com bina e praticam ente todas as superfícies têm algo em cim a que não deveria estar lá: um a pilha de j ornais velhos, um a caneca de café m eio cheia, um a m alha descartada. Há um a pilha de pratos na pia e um a de roupas lavadas e dobradas no sofá, com o se alguém tivesse apertado o botão de pausa na vida. Isso nunca aconteceria na m inha casa. Mesm o sem Luz, acho que enlouqueceria m inha m ãe o suficiente para ela m esm a lim par. Ou pelo m enos m e obrigar a fazer isso.
— Desculpe pela bagunça — Finn m urm ura, atirando um m onte de correspondências fechadas em um a gaveta e passando a m ão para j ogar várias m igalhas de um balcão para a pia.
— Tudo bem — Jam es diz.
Não posso falar nada. Estou tentando não ser a esnobe horrível que Finn acha que sou, m as nunca conheci ninguém que vivesse assim . A casa inteira quase poderia caber na m inha sala de estar. Im agino o que Tam sin e Sophie diriam se soubessem .
— Finn, querido, é você? — um a voz cham a de outro aposento.
— Sou eu, m ãe!
— Você pode m e aj udar aqui? Seu pai foi cham ado cedo.
Finn m al olha para nós.
— Volto logo.
Quando ele sai, eu m e viro para Jam es, que está tirando a pilha de roupas para poder se sentar no sofá.
— Você sabia que o Finn m orava aqui?
Ele responde que não com a cabeça.
— Ele nunca m e dizia, sem pre ficam os na m inha casa. Eu sabia que a fam ília dele não tinha dinheiro com o a nossa, m as não achei que fosse assim tão ruim .
Eu m e em poleiro no braço do sofá ao lado dele.
— Com o eles podem pagar a m ensalidade da Sidwell? Mesm o com auxílio financeiro?
— Ele tem bolsa de estudos integral. Não queria que ninguém soubesse.
— Você quer dizer que o Finn é inteligente? — pergunto, só m eio de brincadeira.
— Eu escondo m uito bem , né? — Finn pergunta ao voltar para a sala. O sorriso m alicioso dele é afiado, com o a ponta de um a faca. — Jam es, você pode ficar no m eu quarto.
— Não, tudo bem — Jam es diz. — Não quero expulsar você...
— Eu insisto, então cale a boca, com binado? É a prim eira porta à esquerda.
Jam es suspira.
— Certo. Apenas algum as horas. Depois vou voltar para o hospital.
— É claro.
Jam es fica em pé, e eu estou prestes a m e levantar e abraçá-lo quando vej o Finn m e observando. Eu m e seguro, de repente envergonhada.
— Boa noite — eu falo.
— Boa noite.
Por um segundo, parece que Jam es vai dizer algum a coisa, m as ele então se vira e vai em bora.
Finn levanta a tam pa de um baú de m adeira que serve com o m esa de centro e tira um a pilha de travesseiros e cobertores extras.
— Você pode ficar com o sofá — ele diz. — Eu fico com o chão.
— Certo.
Ele levanta o olhar de repente para m im .
— Você poderia m e fazer a cortesia de discutir por pelo m enos um segundo.
— Oh. Eu, ahn... — Nunca pensei em m e oferecer para ficar com o chão. Mas é a casa dele. — Acho que posso ficar com o chão...
Isso o faz rir.
— Eu estava brincando, M.
Graças a Deus.
Nós fazem os um a cam a im provisada aceitável para ele no chão, deitando as alm ofadas do encosto do sofá no espaço entre a m esa de centro e a entrada para a cozinha. Minha cam a é m ais fácil de fazer, apenas um travesseiro e um a velha m anta com cheiro de lavanda e naftalina j ogados no sofá. Não é algodão egípcio com penas hipoalergênicas, m as j uro que a sensação é ainda m elhor quando m eu corpo afunda nas alm ofadas. Estou quase dorm indo antes de m inha cabeça chegar ao travesseiro.
— Marina?
— Hum ?
Ele faz um a pausa tão longa que eu quase caio no sono durante o silêncio.
— Você está apaixonada pelo Jam es? — ele enfim pergunta.
Meus olhos se abrem depressa. Aquelas cinco palavrinhas na voz sussurrada de Finn afastam qualquer ideia de dorm ir.
— O quê?
— Você m e ouviu.
— Isso não é da sua conta.
— Eu sei.
Eu m e viro e vej o que ele está olhando para m im , as m ãos cruzadas atrás da cabeça. Mas consigo olhar nos olhos dele.
— Então, por que se im porta?
Ele encolhe os om bros.
— Só m e im porto.
— Bem , não estou, certo? — digo, esperando que m inha voz pareça m ais equilibrada do que eu m e sinto. — Ele é m eu m elhor am igo, só isso.
A expressão de Finn não m uda.
— Certo.
— Posso dorm ir agora?
— É claro.
Eu m e viro de novo, ficando de costas para ele.
— Boa noite, Marina.
A voz dele está tão estranham ente gentil quando diz isso que eu m e afundo m ais na coberta para fugir do som dela e não respondo.