Todos os Nossos Ontens
Dois
Em
Fico arfando até m eu estôm ago se entender com o fato de não haver nada dentro de m im para vom itar e, depois, apoio a testa contra a parede fria e lim po a boca com a m anga.
Você tem de matá-lo.
Quando fecho os olhos, ainda posso ver as palavras. Estão queim adas dentro de m im , m as não posso aceitá-las. Tem de haver outro j eito. Não sou tão dura.
Ainda não.
Longe, no corredor, ouço o barulho m etálico de um a porta. Alguém está se aproxim ando. Levanto-m e de repente e m e j ogo para o ralo. Não sei o que o doutor fará se descobrir que eu o arrom bei, e se ele vir o papel...
A ideia faz gelo correr pelas m inhas veias. Ele vai m e m atar com certeza.
Com as m ãos desaj eitadas pela pressa, quebro a colher em vários pedaços e os j ogo pelo ralo. Agora consigo ouvir um par de botas pesadas contra o cim ento. Bato a grade de volta no ralo e recoloco os parafusos da m elhor m aneira que posso com as pontas dos dedos e as unhas. Pego o saco plástico e o pedaço de papel e m e atiro no colchão. Jogo os dois debaixo dele assim que o rosto de Kessler aparece na pequena j anela da porta da m inha cela.
— Cadê a colher? — ele diz.
Ótim o. Kessler não é tão idiota quanto eu esperava.
— Não sei do que você está falando — digo, inclinando a cabeça para trás, despreocupada.
Eu m e forço a tom ar fôlegos norm ais e regulares, em bora m eus pulm ões estej am queim ando com o intenso esforço.
Kessler vira-se para a direita, conversando com alguém que eu não consigo ver. Alguém que não está usando botas m ilitares e, por isso, não ouvi se aproxim ar. Os dedos dos m eus pés se enrolam dentro dos chinelos.
Kessler vira-se de novo para m im .
— Sabem os que você está com ela. Entregue-a.
Bem , não era m ais um a opção. Eu teria de desenterrar os pedaços do ralo e, depois, eles vasculhariam a cela toda para encontrar o que eu estava escondendo. Se encontrarem aquele pedaço de papel com um a longa lista de am eaças com a m inha letra, estou m orta.
Além disso, nunca darei a esses hom ens nada do que eles querem , não im porta quão pequeno sej a.
Dobro os braços atrás da cabeça.
— Vão se ferrar.
— É só um a colher de plástico, m enina. — É a voz do doutor, abafada pela porta. — O que você vai fazer com ela, cavar um túnel para sair daqui?
Levanto-m e de repente ao ouvir aquela voz.
— Vai para o inferno!
— Em ? — É Finn, pela ventilação do aquecim ento. — O que está acontecendo?
— Últim a chance.
Eu cuspo na j anela da cela. Minha pele está elétrica de fúria. A qualquer segundo, a porta será deslizada e aberta, o doutor vai entrar e algum novo horror vai com eçar. Tudo por causa de um a colher de plástico. Minhas pernas trem em com a necessidade de correr, m as não há para onde ir.
Além disso, eu consigo aguentar.
— Abra — o doutor diz.
Ouço o barulho de chave na fechadura, o ronco de um a porta deslizando, m as a m inha não se m exe. A com preensão chega um m om ento depois do que deveria.
— Não!
Eu m e j ogo na porta trancada, m eus punhos dando batidas ocas contra o m etal.
— Deixe-o em paz! Finn!
Do outro lado da parede, Finn grita de dor. Ouço o chiado fraco da arm a de choque m ilitar especial que o doutor prefere usar para não suj ar suas belas m ãos. Ela tem um a porção de configurações, algum as das quais podem deixar um a pessoa inconsciente ou parar instantaneam ente um coração. Já experim entei a prim eira e vi a segunda, e a ideia daquele aparelho sendo usado em Finn m e deixa louca. Grito o nom e dele e m e j ogo na porta de repetidas vezes.
O doutor aparece na j anelinha na porta da m inha cela, e eu dou um salto para trás com o se tivesse m edo de que ele coloque a m ão através do vidro e agarre m eu pescoço. Não que ele precise fazer isso. Só de ver o rosto dele, sinto com o se estivesse m e esganando até a m orte.
— Você pode fazer isso parar a qualquer m om ento — ele diz.
Parece o m esm o de sem pre. Duvido que eu fosse m e reconhecer em um espelho, m as o tem po o deixou intocado. A voz dele se suaviza, tornando-se algo parecido com gentileza.
— Só m e dê a colher.
Eu o encaro com olhos em baçados e em cham as. Finn está gem endo de dor agora, e não há nada que eu possa fazer, porque aquele papel acabaria com nós dois. Engulo em seco e sinto gosto de bile.
— Não estou com ela. O Kessler deve ter perdido.
O doutor parece triste e, m eu Deus, eu o odeio por isso. Depois, ele inclina a cabeça e Kessler faz algo que leva Finn a gritar.
Minha voz está rouca e as laterais dos m eus punhos estão em carne viva por bater nas paredes quando Finn silencia. Os passos pesados de Kessler e os leves do doutor passam pela m inha cela e, depois, o som vai sum indo. A culpa m e enche com o chum bo e deixa m eus m ovim entos lentos e cansativos conform e puxo o travesseiro e o fino cobertor de algodão da cam a e m e enrolo no chão frio perto da ventilação.
— Finn? — suspiro. — Está aí?
Silêncio. Ele m e odeia tanto quanto eu m e odeio agora?
— Finn?
— Acabei de chegar em casa. Saí para com prar pizza.
Eu desato a chorar.
— Ei — a voz dele está suave e rouca. — Ei, tudo bem .
— Cale a boca! — eu grito. — Não tente m e consolar! Acabei de fazer com que você fosse torturado!
— Xiu, Em , estou bem .
— Não está!
— Eu estou. Eu só...
— O quê?
Ele suspira.
— Eu só queria poder ver você.
Eu corro para perto da parede, até estar apertada contra ela, e abro os dedos contra os blocos de concreto com o se fosse ele que eu estivesse tocando. É bobo, e fico feliz por ele não poder ver, m as faz com que eu m e sinta um pouco m elhor.
— Eu tam bém .
— Lem bra o tem po em que você m e odiava?
Eu rio-fungo-soluço.
— Bem , você era insuportável.
— Acho que incorrigível é um a palavra m elhor.
Encosto a testa contra a parede e m e deixo im aginar por um m om ento que é o om bro dele, quente e firm e, ao m eu lado.
— Você é tão convencido.
— Ei, eu acabei de ser torturado por você. Controle o ego.
— Finn...
— Xiu — ele diz baixinho. — Agora, diga para m im com o você estava errada naquela época e com o eu sou m aravilhoso.
Ele é m aravilhoso. E não m erece isso.
Nem eu.
— Eu vou m atá-lo — falo baixinho.
— É, eu sei.
— Não, estou falando sério. Nós vam os sair daqui — digo —, e eu vou m atá-lo.
Explico tudo — o ralo, o papel e a m ensagem no final — em um sussurro pelas pás da ventilação. O silêncio de Finn é espesso e sólido com o a parede entre nós. Tento im aginar a figura dele. Cabelos loiros bagunçados provavelm ente precisando dem ais de um corte, form ando cachos em volta das orelhas e da nuca. Olhos azuis arregalados e sem foco por causa do choque. Ou são verdes? Não, com certeza azuis. Azuis com o a água profunda e lim pa. Boquiaberto, m as, não im porta o quanto eu tente, não consigo m e lem brar de com o a boca dele é. Lábios finos ou cheios, rosa ou pálidos?
Eu nem tenho m ais certeza de com o é a minha aparência.
— Nós vam os conseguir? — ele enfim pergunta.
Nós vamos conseguir matá-lo é o que ele quer dizer, m as talvez não consiga pronunciar as palavras.
— Não tenho certeza se tem os outra escolha.
— Mas, prim eiro — ele diz —, tem os de fugir daqui. Voltar. Acha que é possível?
— A j ulgar pelo bilhete, j á fizem os isso 14 vezes.
— Com o?
— Não sei. Mas tenho certeza de que eu teria m e contado se eu precisasse saber.
Ele ri.
— Não consigo acreditar na insanidade dessa frase.
— Não consegue?
Tenho invej a do dom de Finn em encontrar hum or em todas as situações. Mas nada nesta situação é engraçado para m im .
— Em ...
— Não m e diga que não tem os de fazer isso.
Devo ter tido um a razão m uitíssim o boa para escrever aquela frase, e a criaturinha perturbada dentro de m im , aquela form ada por toda m inha raiva e am argura, não se arrepende.
— Não m e diga que há outro j eito.
— Na verdade, eu ia perguntar o que você está vestindo.
Mordo o lábio para interrom per o sorriso. Certo, isso foi m eio engraçado.
— Meu Deus, sinto saudades de você — eu digo e, no m esm o instante, desej o retirar as palavras.
Viro o rosto para longe da ventilação, com um m edo irracional de que ele m e vej a corar.
— Eu sei — ele fala, a voz suave.
Eu o im agino apertando a m ão no outro lado da parede.
— Mas estou bem aqui.
Dias se passam . Finn e eu gastam os o tem po que separa as três refeições conversando sobre o que eu descobrira.
— Para que dia tem os de ir? — ele enfim pergunta.
Nós dois tem os evitado o assunto. É doloroso, e j á tem os m uita dor.
— Tenho pensado sobre isso — digo. — Precisam os estar lá no dia 4 de j aneiro. Quatro anos atrás.
Silêncio.
— Sério?
Entendo a hesitação dele. Tam bém não é um a época que eu queira reviver.
— Não podem os fazer isso antes de ele ter descoberto a fórm ula — eu afirm o. — O paradoxo seria tão enorm e que não tem os com o prever o que aconteceria. Tem de ser depois.
— Certo — ele concorda —, m as por que no dia quatro?
— Porque ele nunca vai pensar em nos procurar lá — explico. — Lem bra quando eu peguei os docum entos?
— É claro que sim . Foi naquele dia.
— Mas o doutor não sabe disso — digo. — Ele acha que eu os encontrei por acaso algum tem po depois. Sabe por quê?
— Por quê?
— Porque ele não se lembra de ter descoberto a fórm ula naquele dia. Ele acha que a escreveu três dias depois, no dia sete.
— Então, se vam os para o dia quatro — Finn diz —, terem os pelo m enos três dias antes de ele estar esperando por nós.
— Exato. — Eu suspiro. — Além disso, ele estará fraco por causa do que acabou de acontecer. Se dem orarm os m ais, ele estará m uito poderoso. Muito protegido.
Finn concordou. Ele sabe tão bem quanto eu que nenhum outro m om ento nos dará um a chance tão boa. Nós repassam os tudo, definindo com antecedência cada detalhe que podem os. No final, eu m em orizei cada palavra riscada do bilhete e acho que sei a cadeia de eventos que o trouxe até as m inhas m ãos. Não m e lem bro dos acontecim entos que m e fizeram escrever aquelas linhas, m as aquelas versões passadas de m im m esm a, cópias de m im que não existem m ais, deixaram -m e pistas suficientes para descobrir.
Sem m ais nada para discutir e sem o ralo para m e deixar obcecada, não há nada a fazer além de encarar o teto. A com ida ruim , a dor, até as visitas do doutor, eu posso suportar. Mas esse tédio? Essa espera para algo acontecer? Tenho certeza de que vai m e enlouquecer.
— Finn, você está acordado? — eu digo, rolando para ficar de lado.
Nenhum a resposta. A capacidade dele de dorm ir em qualquer circunstância m e adm ira. Ele deve passar 16 horas por dia dorm indo só para afastar o tédio.
— Você é um chato — eu sussurro.
Encaro a porta por um tem po para dar um intervalo ao teto. De algum a form a, um dia desses, eu devo sair desta cela. Pelo m enos, j á saí antes, cada versão anterior m inha que escapou e contribuiu para o bilhete sob m eu colchão. Com o eu faço isso? Queria poder m e lem brar dos eventos que aquelas outras Em s vivenciaram , porque escapar parece im possível. Eu passo cada opção em m inha cabeça pela centésim a vez. Poderia dom inar o guarda que traz as refeições, ou agarrar o doutor quando ele vier para um a das suas visitas à m eia-noite e usá-lo com o refém . Isso m e tiraria da cela e, talvez, tiraria Finn da cela dele. Porém , m esm o se pudéssem os fazer isso — e, vam os encarar, é um a grande dúvida —, ainda há um a gigantesca unidade do governo para além da m inha cela na qual só dei um a olhada, m eses atrás, no dia em que m e arrastaram para cá. Está cheia de soldados arm ados entre m im e Cassandra, m esm o se eu soubesse aonde ir, o que definitivam ente não sei. Todo plano que crio leva a um beco sem saída ou a um a bala na cabeça.
Com o todo o resto, contem plar m inha fuga e/ou m orte acaba ficando entediante. Tão entediante que fico quase aliviada quando a porta é aberta, revelando o doutor e o hom em que Finn e eu apelidam os de “o diretor”, o m estre das m arionetes que puxa as cordinhas do doutor.
Quase.
Finj o bocej ar, porque sei que isso o irrita, m as m eu coração está disparado.
— Já está na hora de novo?
O diretor inclina a cabeça, e um soldado avança para m e puxar, colocar-m e em pé e m e sentar na cadeira dobrável de m etal que trouxeram com eles. Ele prende m inhas m ãos nos suportes da cadeira com o m esm o tipo de lacres de plástico que nosso j ardineiro costum ava usar nas roseiras.
— Os pés dela tam bém — o diretor diz.
Estou satisfeita por ver que ele se lem bra do que aconteceu da últim a vez.
Depois de a adolescente indefesa cercada pelos hom ens com m etralhadoras estar adequadam ente contida, o interrogatório com eça. Eu costum ava contar quantas vezes o doutor e o diretor m e visitavam para um dos nossos papinhos — achando que cada vez poderia ser a últim a, que a paciência deles poderia se desgastar e eles finalm ente m e m atariam —, m as perdi a conta por volta dos vinte e poucos. Isso foi sem anas atrás.
— Onde estão os docum entos? — o diretor diz.
— Você nem vai m e perguntar com o foi o m eu dia prim eiro? Sua m ãe não lhe deu bons m odos?
O diretor m e dá um tapa no rosto. Diferente do doutor, ele não se im porta de suj ar as m ãos. Minha visão em baça. Os film es não m e prepararam para isso, para o quanto levar um tapa realm ente m achuca e, de algum a form a, ainda é sem pre um choque.
— Não tenho tem po para os seus j oguinhos hoj e — o diretor diz. — Precisam os saber onde os docum entos estão. Para quem você os deu? China? Índia?
— Vidas dependem disso — o doutor fala em voz baixa do canto da cela, com o se ele se im portasse.
Eu j ogo um beij o para o diretor o m elhor que posso sem usar as m ãos. Sei m uito bem que, no m om ento em que eu contar a eles onde os docum entos estão, vou perder m inha últim a chance de barganha. O fato de eu ter essa inform ação não foi a única coisa que m anteve Finn e eu vivos por tanto tem po. Mesm o quando eu gostaria de desistir e aceitar m inha m orte de um a vez, saber que tam bém tenho a vida de Finn nas m ãos m e faz ficar em silêncio. Não im porta o que eles façam .
E eles fazem o pior que podem .
Tenho certeza de que m eus gritos acordam Finn do seu cochilo, m as, pelo m enos, eu não abro m ão de nós.