Todos os Nossos Ontens
Catorze
Marina
O som de m adeira deslizando sobre m adeira m e acorda. Eu pisco, sem reconhecer a tinta azul desbotada ou as pilhas do que parecem peças de com putador am ontoadas na escrivaninha do canto.
Ou o braço atirado em volta da m inha cintura.
Minha cabeça com eça a ficar pesada conform e todas as lem branças voltam . Nate. O sangue. O hospital. Cada pensam ento pesa sobre m im até eu m al conseguir virar a cabeça na direção do som que m e acordou.
Finn está parado ao lado de um a côm oda perto do pé da cam a, encarando Jam es e eu, aninhados na sua cam a.
— Só vim pegar um as roupas lim pas — ele diz.
— Finn...
— Estarei na cozinha.
Ele sai e fecha a porta. Meu peito dói quando puxo o ar, com o se a expressão nos olhos dele tivesse m e deixado em carne viva, em bora eu não saiba o porquê. Deslizo para sair do braço de Jam es e o sigo até a cozinha, onde ele está quebrando ovos sobre um a frigideira.
— Então, você finalm ente o atraiu, hein? — ele diz, balançando as sobrancelhas para m im .
— O quê? — digo, surpresa com a m udança súbita no com portam ento dele.
— Você tem de dar crédito para o Jam es. — Ele m exe os ovos com um a colher com tanta força que um pouco cai pela borda da frigideira para a boca do fogão, onde solta um chiado e fica preto. — Ele resistiu bastante, m as acho que sua astúcia fem inina... ou é graça fem inina? Nunca tenho certeza... De qualquer form a, suas qualidades fem ininas enfim o fisgaram . Suas am igas vão ficar m uito orgulhosas, você j á m andou m ensagem para elas?
— Você é um im becil — eu sussurro. — O irm ão dele levou um tiro na noite passada.
Ele m e ignora.
— Qual você acha que vai ser o nom e dos seus filhos? Tenho certeza de que você j á escolheu algum as opções.
Eu o em purro.
— Cale a boca.
Ele levanta a colher com ovo com o se estivesse se rendendo e ri.
— Calm a, M. Relaxa.
Jam es entra na cozinha, todo am assado, o cabelo levantado em dez direções diferentes. Norm alm ente, eu acharia isso insuportavelm ente charm oso e acrescentaria ao m eu álbum m ental de fotos de Jam es, m as a provocação de Finn m e abalou por m otivos que não sei definir bem . A m aneira com o fez com que eu e m inhas am igas parecêssem os tão... m ercenárias? Um a insegurança invasiva de que Jam es apenas precisasse de alguém e era eu quem estava ali?
Se ao m enos ele olhasse para m im , m as seus olhos estão fixos em um ponto no linóleo.
— Preciso voltar ao hospital — ele diz. — Faz quase cinco horas. A Vivianne deve estar enlouquecendo com a prim a Alice.
— Você deveria com er algum a coisa antes — Finn diz.
— Não estou com fom e.
— Que pena.
Eu quero chacoalhá-lo. Olhe para mim! Mas ele não olha, e o enj oo no estôm ago cresce. Finn estava certo? Sou m esm o tão idiota que estava prestes a com eçar a escolher nom es de bebês quando o que aconteceu não significou nada para Jam es?
Dos fundos da casa, um a porta se abre e um som de bate-arrasta-bate se m exe na nossa direção. Finn enfia a frigideira e a colher na m inha m ão, eu as encaro por um m om ento e, depois, fico m exendo os ovos, insegura.
— Mãe — Finn cham a. — Do que você precisa?
A sra. Abbott, apoiada pesadam ente em um andador, as calças de m oletom e a m alha penduradas no corpo m agro, entra na cozinha.
— Só vou pegar um pouco de suco.
— Eu levo um copo para você. Volte para a cam a.
Dou um a olhada em Jam es e vej o que ele está tão surpreso com a condição da sra. Abbott quanto eu.
— Quero dar oi para os seus am igos — ela diz, resistindo às tentativas de Finn de guiá-la de volta para o quarto. — É bom finalm ente conhecer você, Jam es. Sinto m uitíssim o pelo seu irm ão.
Jam es rem exe as m ãos.
— Obrigado, senhora.
Acho que os ovos estão com eçando a queim ar e, assim , tiro a frigideira do fogão.
— Mãe — Finn diz com suavidade. — Você vai gastar suas energias.
— Estou bem , querido. Deixe de criar caso.
Ela dá alguns passos difíceis em direção à geladeira e se inclina m uito contra o andador, apoiada em um a das m ãos enquanto usa a outra para abrir a porta. Finn pega um copo para ela, e ela põe a m ão dentro da geladeira para pegar um a caixa de suco de laranj a.
— Com o ele está, se não se im porta que eu pergunte?
— Os m édicos, ahn, eles dizem que é grave, e ele ainda está inconsciente. — A voz de Jam es m al dá para ouvir, e ele não olha para a sra. Abbott. Ele nunca foi bom em lidar com estranhos, m esm o nas m elhores condições. — Vou voltar para o hospital agora.
— Sim , é claro — a sra. Abbott concorda.
Finn pega a caixa de suco da m ão trêm ula dela e lhe serve um copo, e ela puxa o rosto dele para baixo para lhe dar um beij o na bochecha.
— No arm ário tem alguns j ogos de tabuleiro que são fáceis de carregar e bons para salas de espera. Vocês deveriam levar. Finn, vá pegar os j ogos para levar com vocês.
— Eu vou.
Finn pega o cotovelo da m ãe e a aj uda a sair da cozinha. Mas é um a casa pequena e, assim , Jam es e eu ainda ouvim os cada palavra que eles dizem enquanto seguem pelo corredor de volta ao quarto principal.
— Vou ficar em casa — Finn diz baixinho. — Não vou deixar você sozinha de novo.
— Ah, querido, vou ficar bem . E seu pai vai chegar logo. Você deveria ficar ao lado do seu am igo.
— Mas se você precisar de algum a coisa...
— Finn. — É um tom de voz que eu reconheço de ter ouvido de Luz. — Eu sou a m ãe aqui, certo? Você não precisa se preocupar com igo.
Quando eles se vão, e a porta do quarto principal fecha-se, viro-m e para Jam es.
— Você tam bém não sabia? — pergunto, tentando usar um a voz norm al.
Ele faz que não com a cabeça e não olha nos m eus olhos.
— Parece esclerose m últipla.
— Por que ele nunca nos contou?
— Provavelm ente não queria que a coisa ficasse m uito séria.
Eu m e contraio. Atirei aquelas palavras em Finn com o um a arm a apenas algum as horas atrás, sem ideia de quão séria a vida dele era na verdade. Não posso im aginar o que ele pensa de m im , com o devo parecer egoísta e m im ada para ele. Egoísta, m im ada e apaixonada por um m enino que nunca vai m e am ar. Egoísta, m im ada e com pletam ente iludida.
Estou com eçando a m e odiar.
Morris e Spitzer nos levam de volta para o hospital, e Jam es liga para Vivianne no cam inho.
— Algum a coisa? — eu pergunto quando ele desliga.
— O m esm o. Disseram que, quando ele estiver estável o bastante, vão levá-lo para o Walter Reed, onde a segurança é m elhor.
— Falaram algum a coisa da pessoa que atirou em você? — Finn questiona.
Eu olho para ele, cortante.
— Digo, ahn, as pessoas.
— Pessoas? — Jam es diz.
— É. A Marina viu.
— Você viu? — Jam es olha para m im pela prim eira vez desde que m e sentei na cam a dele. — Eu não sabia disso.
Eu encolho os om bros. O episódio todo é só outro lem brete do quanto sou inútil.
— Ninguém acreditou em m im , de qualquer form a.
— Por quê?
— Porque ela diz que os atiradores eram iguais a ela e a m im — Finn responde.
Jam es franze as sobrancelhas.
— O que você quer dizer com iguais a vocês?
— Eu quero dizer que havia um m enino e um a m enina com um a arm a, e eles eram iguaizinhos ao Finn e a m im , certo? — respondo. — Que sej a, não im porta. É óbvio que eu só estava sendo idiota.
— O agente encarregado achou que ela fosse louca — Finn diz.
— Muito obrigada!
Ele ri.
— Bem , ele achou. Mas eu acredito em você.
— Isso m e conforta m uito — falo. — Porque o que você pensa de qualquer coisa im porta dem ais para as pessoas.
Finn sorri, m as não há alegria. Ele olha para fora da j anela, e eu contenho m inha breve onda de culpa. Meu m au hum or não é culpa dele, m esm o que ele o tenha iniciado ao m e provocar em relação a Jam es, m as é tão fácil descontar nele.
Entre nós, Jam es baixou a cabeça e está passando os dedos pela testa. Engrenagens estão com eçando a girar na cabeça dele por causa de algum a coisa, m as, se nós o perderm os em seus pensam entos agora, quem sabe quando vam os recuperá-lo? Tenho de pará-lo antes de ele ir longe dem ais.
— Então, a Viv disse algum a coisa sobre os atiradores? — pergunto. — Já foram pegos?
Jam es levanta o olhar para m im e leva um segundo para entender m inha pergunta.
— Não tenho certeza. Não contam nada para ela. É claro.
— Tenho certeza de que vão encontrar os dois.
— É. — Ele se senta ereto de novo. — É.
Quando chegam os ao hospital, ele não está m ais fechado. Não devem estar m uito preocupados com o tiro no estacionam ento. Mesm o o terceiro andar tem pessoas de novo, em bora haj a um grande bloqueio da Polícia do Capitólio entre o quarto de Nate e o resto do andar. Talvez a coisa toda tenha mesmo sido um a coincidência, com o o agente Arm ison disse.
Assim que entram os na sala de espera, a prim a Alice cai sobre Jam es, rem exendo no cabelo dele e fazendo careta para suas roupas am assadas, com o se estivesse abaixo de um Shaw parecer um ser hum ano norm al que teve um a noite difícil. Alguns outros parentes dos Shaw que eu reconheço vagam ente da festa anual de Natal tam bém se levantam quando entram os. Aaron Shaw, que está gritando algum a coisa de advogado no celular, e Julia Shaw-Latham , que eu achei que ainda estivesse na clínica de reabilitação, cum prim entam Jam es, m as ignoram Finn e eu. Apenas o tio Perry — que não é tio deles de verdade, apenas um am igo da fam ília que costum ava m e dar balas do seu bolso e ensinou o alfabeto da linguagem de sinais para Jam es e eu poderm os m andar m ensagens secretas de um lado para o outro da sala — vem e m e dá um abraço. Por trás das costas deles, Vivianne se deixa cair aliviada por não estar m ais sozinha com todas aquelas pessoas.
— Estou bem , de verdade, Alice — Jam es diz, abaixando-se para afastar-se dela enquanto ela tenta exam inar os pontos na sua cabeça. — Não é nada.
— Nada! É um ferimento de bala.
— É só um arranhão feito por uns destroços...
— Nunca gostei da ideia de você m orar nesta cidade, quase sozinho — Alice diz, sentando-o ao lado dela. — Nathaniel... que Deus tenha piedade dele... é m uito j ovem e está m uito ocupado para ter a guarda de um adolescente. Você vem m orar com igo.
Os olhos de Jam es se arregalam de susto.
— Não posso deixar o Nate. Além disso, tenho a faculdade...
— Faculdade para a qual você é m uito novo. E seu irm ão não tem condições de cuidar de você agora!
Vivianne esfrega as têm poras, cansada, com o se tivesse um a dor de cabeça da qual não consegue se livrar.
— Alice, nós discutim os isso...
— Sim , m as, sem querer ofender, Vivianne, isso é um assunto de família...
— Por favor, não briguem ...
Finn e eu nos sentam os do lado oposto da sala, e tento m e m esclar com a parede. Alice não m e aprova m ais do que ela aprova Jam es, que é um santo. Finn pega um a revista e com eça a desenhar na contracapa, e eu ligo o celular para enfrentar as dezenas de m ensagens que esperam por m im . O telefone apita com um a nova no segundo em que ganha vida.
TAMSIN: Vc ainda está c/o J??
Eu escrevo em resposta: Sim, no hospital.
TAMSIN: MARINA! AÍ ESTÁ VOCÊ! O que está acontecendo??
EU: Só esperando. Nate ainda está inconsciente. Pode dizer para todo mundo que estou bem e para pararem de mandar mensagem?
TAMSIN: Ok, mas eu estou MORRENDO de curiosidade para saber o que está acontecendo!
Sinto um frio na barriga. Tam não é exatam ente a pessoa m ais sensível do m undo, m as não acredito que ela acabou de dizer isso. Um a vozinha no fundo da m inha m ente, que tentei abafar e estrangular por anos, sem pre se perguntou se Tam sin e Sophie decidiram ser m inhas am igas na sétim a série apenas para se aproxim arem de Jam es. Essa m ensagem — com o as dezenas de outras que recebi, m uitas de pessoas que nem conheço — m e faz sentir que isto é apenas um entretenim ento para ela, com o se eu fosse sua revista People particular. Eu silencio o telefone e o enfio de volta no bolso.
— Tam sin? — Finn diz.
— É.
— Aquela m enina é um a vaca — ele diz baixinho. — Não sei por que você é am iga dela.
Em geral, um a afirm ação assim m e deixaria furiosa, m as, j á que concordo com ele agora, é difícil ficar m uito brava.
— Nem eu.
Finn sorri e, pela prim eira vez, não sinto que ele está zom bando de m im . Eu até sorrio um pouco para ele.
Um a enferm eira logo vem e nos diz que Nate pode receber visitas de novo. A fam ília toda fica em pé, e ela acrescenta depressa que não há espaço para todos nós.
— Vá você, Jam es. — Vivianne abre um sorriso para ele. — Nós o vim os agora há pouco.
— Certo. — Jam es parece um pouco pálido e se vira para Finn e eu. — Vocês vêm com igo?
Nós nos levantam os e o seguim os até o quarto de Nate. Logo do lado de fora da porta, Jam es diz:
— Desculpem . É só que eu m e sinto um pouco estranho de ficar sozinho lá com ele.
— Tudo bem , cara — Finn responde. — Nós entendem os.
Finn e eu ficam os em pé encostados na parede dos fundos para dar a Jam es um a aparente privacidade. Ele segura a m ão de Nate e fala com ele em voz baixa, enquanto Finn volta ao seu desenho e eu tiro o resto do esm alte rosa do m eu polegar com os dentes.
— Ei, sabe, você não precisa ficar aqui — eu sussurro. — Se preferir, sabe, ficar em casa.
— Você tam bém não precisa ficar aqui — Finn diz.
A ideia sinceram ente nunca passou pela m inha cabeça. Ficarei aqui enquanto Jam es ficar.
— Jam es é o meu m elhor am igo tam bém — ele fala, baixando os olhos para seu desenho rústico de um cachorro vestindo um terno —, e a fam ília dele é assustadora pra caram ba. Se eu estivesse no lugar dele, ele não m e deixaria.
— Você está certo, não deixaria — concordo. — Ele nunca faria você passar por algo assim sozinho. Se você contasse para ele o que está acontecendo.
Finn só dá um a olhada em m im antes de baixar os olhos de novo para o desenho e acrescentar um a gravata-borboleta ao pescoço do cachorro.
— ... é absolutam ente inaceitável!
A voz de Alice vem gritando pelo corredor.
— Não levante a voz para m im hoj e, Alice!
Essa é Vivianne parecendo em frangalhos.
Jam es solta um gem ido e levanta-se do seu lugar ao lado da cam a de Nate.
— Eu j á volto. Vocês podem ...?
— É claro — Finn diz e vai direto para o lado de Nate.
Eu o sigo alguns passos depois, enquanto Jam es sai depressa para lidar com sua fam ília. Nate parece m elhor hoj e, pelo m enos. Alguém o lim pou, e sua pele parece m enos cinza.
— Ei, congressista — Finn fala. — Jam es j á volta. Então, a prim a Alice dá trabalho, hein?
Penso em pegar a m ão de Nate, m as não consigo m e convencer a isso. Por algum m otivo, tenho m edo de que estej a fria.
— Você é m uito bom nisso — eu digo baixinho.
— Bem , eu pratiquei.
— Você falou sério m ais cedo — pergunto —, quando disse que acreditava em m im em relação aos atiradores?
Finn encolhe os om bros.
— Você pode ser m uito dram ática às vezes, M, m as não é louca. E, se você fosse ter algum a alucinação, não sei por que seria com nós dois atirando em Jam es, então, é, acho que sim . Deve haver pelo m enos um delinquente extrem am ente bonito com um a arm a por aí.
Eu reviro os olhos, m as não consigo m uito bem conter um sorriso.
— Mas ele nunca será pego — eu digo —, j á que todos acham que eu im aginei aquilo.
— Está brincando? — ele fala. — Tem um as 10 m il câm eras de vigilância naquele estacionam ento. O rosto do atirador vai aparecer por toda parte.
— Sério?
Agora que ele falou, eu m e lem bro vagam ente de o agente Arm ison ter m encionado as câm eras de segurança na noite anterior. Vou até a j anela e olho para o estacionam ento lá fora, e Finn está certo. Em cada poste de luz há um am ontoado de câm eras apontando em todas as direções. Um aperto que eu não percebi que estava carregando no peito dim inui.
— Eu esqueci. Isso, na verdade, faz com que eu m e sinta...
— Marina!
Eu m e viro. Finn está em poleirado na ponta da cadeira, inclinando-se sobre Nate.
Cuj os olhos estão trem ulando.
— Congressista? — Finn diz. — Você consegue m e ouvir?
Eu volto correndo para o lado da cam a de Nate. Suas pálpebras continuam a se m exer e, então, abrem -se pela m etade, com o se isso fosse tudo o que ele tem energia para fazer. Seus dedos se m ovem de repente na m ão de Finn. Eu cubro a boca para im pedir que o choro em m inha garganta escape.
— Vou cham ar um m édico — Finn avisa. — Fique com ele.
Finn sai correndo do quarto, e eu pego a m ão de Nate. Seus dedos se rem exem na m inha pele, e seus lábios se m ovim entam , com o se ele estivesse tentando dizer algum a coisa.
— Você está com um tubo para aj udar a respirar, certo, Nate? — digo. —
Ainda não pode falar. Finn foi cham ar um m édico.
Mas Nate não relaxa. Ele parece estar lutando contra o próprio corpo, os olhos que não se abrem por com pleto, os dedos que não agarram , a voz que não funciona. Ele m e olha com um a intensidade ansiosa, com o se estivesse tentando desesperadam ente com unicar algo para m im .
— Tudo bem , Nate — falo, talvez m ais para o m eu próprio conforto do que por ele. Está m e assustando. — Xiu, está tudo bem .
Nate m exe a cabeça em um trem or quase im perceptível contra o travesseiro, e sua m ão se fecha em um punho dentro da m inha. Puxo a m ão de volta, com m edo de tê-lo m achucado. Devagar, ele ergue um dedo m ínim o trêm ulo.
Não é um m ovim ento natural. No com eço, pergunto-m e se ele está tendo algum tipo de espasm o, m as, depois, baixo o olhar para o seu rosto e vej o aquela expressão nos olhos, aquela que m e im plora para entender. Lem bro-m e de Jam es e eu fazendo sinais dificílim os de palavras um para o outro de cada lado de um a festa de coquetel lotada. Nate fazendo sinais com a esposa do tio Perry, Gretchen, que é surda, sem pre que eles vinham visitar.
Um punho cerrado. A.
Um punho com o dedo m ínim o erguido. I.
— A-I. Certo, Nate?
Ele fecha os olhos por um instante, e eu entendo o gesto com o alívio. Com grande esforço, ele estica os dedos e cruza os dois prim eiros. O que é isso? Não m e lem bro. Meu Deus, por que não prestei m ais atenção? Por que não sou m ais inteligente?
— T? — digo. — U?
Ele continua fazendo o sinal.
— Oh! — De repente, eu m e lem bro. — R?
Ele fecha os olhos de novo.
— A-I-R? — pergunto. — Ah, m eu Deus, você não consegue respirar?
Eu olho todas as m áquinas dele, com o se fosse capaz de perceber se algo estivesse errado ou soubesse com o consertar, m as o sopro do respirador está tão regular quanto sem pre. Nate trem e a cabeça de novo e faz outro sinal.
— J — digo.
Eu m e lem bro desse.
— Jam es está vindo. Tenho certeza de que Finn foi buscá-lo.
Nate faz que não com a cabeça. Ele form a um a curva com a m ão contra os lençóis duros e, depois, enfia o polegar entre o prim eiro e o segundo dedo.
— C-T? Connecticut?
Nate fecha os olhos.
— O que tem em Connecticut, Nate?
Meu sangue fica frio, com o se eu estivesse do lado de fora, na neve, usando pij am as de novo. Eu m e lem bro da conversa estranha que tive com Nate ao lado do seu carro na noite em que eles voltaram do seu estado natal. Eu disse a Nate que ele parecia cansado e ele respondeu...
Estive ocupado com uma investigação, tomou todo o meu feriado.
E, depois, logo em seguida, Nate m e pediu para ficar de olho em Jam es. Falou que estava preocupado com ele e perguntou se eu o avisaria caso ele com eçasse a agir diferente. Achei o pedido estranho, e era esquisito Nate passar do assunto de um a investigação ao com portam ento do irm ão, m as, talvez...
Baixo os olhos para a m ão de Nate de novo e ele está traçando um J trêm ulo no lençol com o dedo m ínim o. Talvez as duas coisas — o que quer que ele estivesse investigando e o bem -estar do irm ão — estivessem ligadas na m ente dele.
— Tem algum a coisa em Connecticut? — questiono.
Nate fecha os olhos e os abre de novo.
— Algo que... — Minha voz som e, e eu tenho de engolir em seco. — Algo que explique por que você foi ferido?
Olhos fecham e abrem .
— Algo que poderia colocar Jam es em perigo tam bém ?
Não quero contar a ele que Jam es levou um tiro, não com ele nessa condição.
Seus olhos se fecham de novo e quase não se abrem desta vez. Posso ver a força se esvaindo dele.
— Eu entendo — falo, tom ando sua m ão na m inha de novo. — Vam os a Connecticut e descobrirem os quem está por trás disto. Vam os pegá-los, e Jam es vai ficar seguro.
Nate aperta m inha m ão e sua cabeça afunda de novo no travesseiro. Os lábios se retorcem , com o se ele estivesse tentando dizer algum a coisa ou talvez apenas sorrir e, depois, ele fecha os olhos.
— Nate? — coloco um a das m ãos no om bro dele. — Nate, acorde!
Entro em pânico, certa de que ele está m orto, m as então percebo os bipes contínuos do m onitor cardíaco. Ele ainda está vivo, apenas inconsciente. Um m édico entra correndo no quarto, seguido de Jam es, Vivianne e Finn. Parece que Nate e eu estivem os sozinhos por horas, m as não pode ter sido m ais de um m inuto. Vivianne se deixa cair na cadeira ao lado dele, pegando sua m ão, enquanto o m édico verifica as m áquinas presas a Nate e levanta suas pálpebras para ver as pupilas.
— O que aconteceu? — Vivianne diz. — Ele estava acordado?
— P-por um tem pinho — respondo com dificuldade. Ainda estou tentando processar o que acabou de acontecer. Não tenho neurônios sobrando para falar.
— Ele está bem ? — Jam es pergunta. — Por que ele não está m ais acordado?
— É com um alguém ganhar e perder consciência depois de um traum a assim — o m édico responde. — O fato de ele ter acordado, m esm o por pouco tem po, é um bom sinal.
Vivianne vira-se para m im com um olhar frágil de esperança no rosto.
— Ele disse algum a coisa?
— Tem o que ele não seria capaz de falar com o respirador — o doutor diz, poupando-m e da necessidade de procurar por palavras.
Não sei o que dizer ainda. Eu deveria sim plesm ente contar tudo a eles, apesar de parecer inacreditável?
Ou apenas achariam que sou louca, com o antes?
Percebo que Jam es está m e observando com m uita atenção.
— Ele com unicou algum a coisa para você, Marina? — ele pergunta.
Eu engulo em seco. Mesm o se eles acreditassem em m im , quero que todas essas pessoas saibam o que Nate disse? É seguro para ele e para Jam es?
— Não — digo com suavidade. — Ele tentou falar, m as não conseguiu.
Vivianne e o m édico aceitam isso e viram -se de volta para Nate, m as sei, pela expressão em seus olhos, que Jam es consegue ver a m entira. Não posso m ais olhá-lo nos olhos e desvio.
— Ei, você está bem ? — Finn pergunta, tocando no m eu cotovelo.
Nate está deitado ali, tão quieto e im óvel sobre os lençóis com o antes, e eu digo:
— Não tenho certeza.
Vivianne apoia a cabeça no om bro de Nate e com eça a sussurrar, falando com ele ou Deus ou talvez os dois, e o m édico continua o exam e. Jam es apenas fica parado, encarando-m e.
— Agente Morris? — ele cham a de repente.
Morris, que estivera posicionado do lado de fora da porta, coloca a cabeça para dentro do quarto.
— Precisam os falar com quem quer que estej a no com ando da investigação — Jam es diz, os olhos presos em m im . — Agora.