Todos os Nossos Ontens
Vinte
Em
Finn e eu seguim os a um a distância, de form a que, quando a BMW de Jam es sai para o acostam ento e para, nós tem os tem po de parar tam bém . Finn desliga os faróis e, com sorte, estam os distantes deles o suficiente para que não reparem em nós.
— Acha que o pneu deles estourou? — pergunto quando o outro carro não se m exe por vários m inutos.
Um a das portas da BMW se abre e o Finn m ais j ovem sai.
— Caram ba, eu sou bonito — Finn diz, e eu bato nele.
A porta do m otorista se abre em seguida e Jam es sai. Seus om bros estão curvados para dentro e ele m antém um a m ão encostada no carro para ter apoio.
O sorriso som e em m eus lábios.
— Aconteceu.
— O quê? — Finn aperta os olhos para m im . — Não era para acontecer por m ais quatro dias.
— Algo m udou.
Finn tom ba a cabeça.
— Pobre Jam es. Pobre desse Jam es.
Não tenho certeza do que dizer. O Jam es em frente a nós é só um m enino. Ele não m erece isso.
Mas tam bém não posso esquecer que esse é o m om ento exato que coloca o futuro com o o conhecem os em ação.
Os dois m eninos trocam de lugar, Jam es passando para o banco de trás da BMW, onde logo é acom panhado por Marina, e Finn indo para a frente.
— Merda — m eu Finn diz, tirando o carro do ponto m orto. — Ele não sabe dirigir.
A BMW dá um a sacudida para a frente e com eça a ganhar velocidade pelo acostam ento. Ela acha um a brecha no trânsito da autoestrada e vira abruptam ente para entrar nela. Finn se retrai e segue o carro. A BMW fica na pista certa, indo 16 quilôm etros abaixo do lim ite de velocidade, o que faz os carros atrás dela voarem para a faixa da esquerda para ultrapassar. A seta direita ainda está ligada, um farol pulsante no escuro. Ela vira na saída seguinte e entra no estacionam ento de um Holiday Inn. O Finn m ais j ovem estaciona a 6 m etros do carro m ais próxim o.
— Boa ideia, garoto — Finn m urm ura.
A BMW está ocupando duas vagas.
Observam os do outro lado do estacionam ento enquanto Marina aj uda Jam es a sair do carro e entrar no hotel. Finn pega algum as bolsas no porta-m alas e os segue para dentro. Depois, não sobra nada, apenas escuridão e silêncio.
— Nate era um bom hom em — Finn acaba dizendo.
— O m elhor.
Eu fecho os olhos e im agino Nate na noite antes da arrecadação de fundos, esperando no frio ao lado do carro para ver se eu entrava em casa em segurança. Sorrindo e levantando a m ão quando eu acenava para ele da m inha porta aberta.
— Você está bem ? — Finn pergunta.
— É claro — respondo. — Digo, nada m udou de verdade. Ele está m orto para m im há quatro anos.
— Eu sei, m as...
Finn pega a m inha m ão e leva à sua boca, beij ando os nós dos dedos.
Meu coração fica quente e parece derreter, espalhando calor pelo m eu corpo todo. Há quanto tem po eu am o Finn? O am or m e invadiu tão gradualm ente que não sei se posso ao m enos definir o m om ento. Foi naquele dia nas celas quando, depois de um a interrogação especialm ente brutal, ele conseguiu m e fazer rir ao contar sobre quando seu pai teve de ligar para os bom beiros porque ficou com a cabeça presa em um bueiro? Ou quando ainda estávam os fugindo e eu acordei na traseira do cam inhão de cereal que estava nos levando escondidos para cruzar a fronteira do Estado e encontrei o agasalho dele enrolado em volta de m im enquanto ele estava sentado, trem endo, só de cam iseta?
Ou tinha com eçado ainda antes, quando eu ainda era Marina e achava que não o suportava?
Finn olha de repente na direção da entrada do Holiday Inn e eu m e viro para olhar. Por falar deles... Finn e Marina estão saindo j untos.
— Aonde eles vão? — eu pergunto.
Estão seguindo direto até nós. Finn e eu nos abaixam os atrás do painel. Não sei o que vai acontecer exatam ente se m inha versão m ais nova e eu ficarm os cara a cara. Jam es sem pre insistiu que o tecido do tem po era delicado dem ais para sobreviver ao paradoxo que isso criaria.
As som bras deles passam pelas nossas cabeças, e ouvim os Finn falar, m as nenhum deles repara no Honda azul m alcuidado. Eles passam por nós e, devagar, nós nos sentam os e os observam os atravessar a rua e entrar em um Denny ’s.
— Eles vão ficar fora por dez m inutos — Finn diz. — Pelo m enos.
Eu faço que sim com a cabeça, de repente enj oada.
— É a nossa m elhor chance.
— Eu faço. — Finn abre o porta-luvas e pega a arm a. — Ele vai estar devastado, e não quero que você tenha de ver isso.
Toco na bochecha dele.
— Você é um cara m uito doce, Finn Abbott, sabia?
— Posso ter ouvido isso um a ou duas vezes.
Eu engulo a bola quente que está na m inha garganta.
— Mas não posso deixar que você faça isso sozinho. Som os um a equipe.
— Em ...
— Sem chance. Além disso... — Eu inspiro e pego a arm a dele. — Sinto que devo isso a ele, de um j eito estranho. Deveria ser eu.
Com nossas versões m ais novas seguras dentro do Denny ’s, Finn e eu entram os no hotel. Sinto-m e um m ilhão de anos m ais velha do que a dupla que saiu daqui, m as espero não parecer assim para um a recepcionista sobrecarregada no m eio da noite.
— Oi — Finn diz, abrindo seu sorriso m ais charm oso para a m ulher atrás do balcão. — Desculpe, eu sou um idiota. Nós fizem os o check-in há alguns m inutos.
A m ulher faz que sim com a cabeça.
— É claro.
— Nosso am igo está lá no quarto — ele diz. — Ele está com um a gripe forte, então nós saím os para com prar rem édio para ele. Espero que ele j á tenha pegado no sono, tadinho.
— Oh, coitadinho — ela fala.
Faz anos, m as ainda m e m aravilho com a habilidade de Finn de conquistar as pessoas tão depressa.
— É. Então, eu estava pensando se você poderia nos fazer outra cópia da chave do quarto — ele diz. — Esquecem os a nossa e não querem os acordá-lo para entrar.
— Sem problem as — a atendente responde, j á digitando algo em um com putador. Ela coloca um cartão-chave em um envelope e escreve 126 na frente, então nem tem os de fingir que esquecem os em que quarto estam os. — Aqui está. Espero que ele m elhore.
— Muito obrigado. — Finn pega a chave. — Tenha um a boa noite.
— Vocês tam bém .
— Bem , isso foi fácil — eu sussurro enquanto sigo as plaquinhas com flechas que levam na direção do quarto 126.
— Não, isso foi perigoso e ousado, m as foi apenas por causa do m eu charm e extrem o que conseguim os.
Mesm o neste m om ento, ele consegue m e fazer sorrir.
— Desculpa aí.
Logo, estam os parados em frente à porta do 126. Fica no prim eiro andar, nos fundos do hotel, quase no canto, o que é bom . Se algo der errado, tem os m ais chance de escapar. Porém , com sorte, tudo dará certo e a fuga não será um a preocupação.
Porque nós não existirem os m ais.
— Pronto? — eu falo, m ais para m im m esm a do que para Finn.
Levo o cartão à porta, m as, antes que possa colocá-lo na fechadura, Finn desliza a m ão em volta do m eu pescoço e m e puxa para si, abafando m eu gritinho de surpresa com seus lábios. Ele m e beij a com o nunca fui beij ada antes. Beijo é um a palavra tão pequena para isso. É com o se ele estivesse derram ando cada gram a de am or e desej o e arrependim ento, cada m om ento de expectativa contida por m eses em um a cela, dentro de m im . Eu m e aperto contra ele e, quando ele se afasta para descansar a testa encostada à m inha, estou tonta e sem fôlego.
— Agora — ele sussurra, as palavras pairando sobre m eus lábios —, estou pronto.
Coloco a palm a da m ão na bochecha dele e faço que sim com a cabeça, tentando m em orizar a cor dos olhos dele nesses últim os segundos. Eu estava errada antes. Eles não são apenas azuis. No centro, bem em volta da pupila, há um anelzinho de am arelo-esverdeado que só é possível ver assim de perto, com o um segredo. Tenho de m e lem brar disso.
Ele faz que sim com a cabeça e eu deixo m inha m ão baixar do rosto dele para a arm a no m eu cinto.