Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 8 de 40

Páginas do PDF

Todos os Nossos Ontens

Oito

 

Em

Minhas pernas estão com eçando a ter cãibras por eu ficar sentada no frio tanto tem po. Eu as estendo em frente a m im , flexionando e esticando o pé para alongar os m úsculos e fazer o sangue correr de novo. Tento m e concentrar na dor nas m inhas panturrilhas e no form igam ento dos dedos adorm ecidos em vez de no poço profundo e negro no m eu estôm ago.

Finn levanta os olhos para o céu. Não tenho certeza do porquê; não há estrelas na cidade, nada para ver além da escuridão e do brilho azul enevoado dos postes de rua.

— Deve estar perto da hora — ele diz.

— Eu sei.

— Com o você se sente?

— O que você acha?

Ele coloca a m ão sobre m eu punho cerrado. Meu prim eiro instinto é puxá-los de volta, m as eu m e forço a ficar im óvel. A sensação da pele dele contra a m inha é nova e esquisita, seu toque estranham ente quente depois de tantos m eses sem tocar em ninguém . Ele esfrega os dedos sobre os m eus até eu com eçar a relaxar, m eus dedos afrouxando.

— Podem os pensar em outra form a — ele diz. — Isso é ruim dem ais.

Eu faço que não com a cabeça.

— Não tem outro j eito. Nós j á tentam os todo o resto.

— Eu sinto m uito m esm o, Em .

— Não sinta. Eu odeio o que ele fez. E ele. O m undo vai ser um lugar m elhor depois que ele se for.

Finn envolve m eu om bro com o braço.

— Certo — ele diz em um a voz tranquilizadora.

É óbvio que não acredita em m im , m as acha que estou m entindo para ele ou para m im m esm a? Talvez m eu ódio não sej a sim ples, talvez sej a com plicado por várias outras coisas, m as é verdadeiro. Ele queim a dentro de m im com o a cham a m ais azul e quente.

Eu consigo fazer isso. Enterro a fraqueza que sinto crescer dentro de m im . Eu consigo fazer isso.

Inclino-m e para Finn e aspiro o cheiro dele. Bem , o cheiro de Connor, eu acho. Sabão com fum aça de cigarro antiga escondida por baixo. Quando fecho os olhos, posso m e lem brar do cheiro que Finn costum ava ter, de sabão e aquela colônia terrível que ele colocava dem ais em ocasiões especiais, e, depois, a suj eira e o suor da vida em fuga. Eu m e aproxim o m ais da pele dele. Penso nas cicatrizes que estão escondidas por baixo da cam isa, os ferim entos da últim a surra que provavelm ente ainda estão visíveis, qualquer coisa para dar força à cham a da m inha raiva até ela queim ar todo o resto.

Eu o odeio. Eu o odeio. Eu o odeio.

— Não pense nele — Finn diz, com o se pudesse ler m eus pensam entos. Ele esfrega a m ão para cim a e para baixo do m eu braço, aquecendo-m e. — Pense nela.

Ela. Marina. Ela está naquele prédio, em algum a parte, sofrendo e confusa, provavelm ente m ordendo as unhas até a carne. Finn está certo. Marina é o m otivo de eu estar fazendo tudo isto. Mais do que qualquer coisa, o que eu quero é que ela sej a feliz e tenha a vida que m erece. Meu am or por ela é um a m otivação m ais forte do que m eu ódio por ele um dia poderia ser.

Finn deixa um beij o no topo da m inha cabeça, e eu trem o. Os lábios dele descem para m inha têm pora e m inha bochecha, deslizando beij os nelas tam bém .

— Em — ele m urm ura.

Eu inclino o rosto para olhar para ele, e estam os m uito próxim os. Posso sentir a respiração dele contra a m inha.

— Sim ?

— Sei que você j á sabe — ele diz —, m as eu sem pre quis estar olhando para você quando enfim dissesse de verdade. Sei que o m om ento é terrível...

Ah, m eu Deus, Finn. Não faça isso.

— Mas logo vam os em bora, então esta é a m inha últim a chance.

Ele abre para m im um sorrisinho tím ido.

— Eu te am o.

Ele está certo, eu sabia, m as, de repente, não consigo olhar nos olhos dele. É dem ais. Meu rosto está quente no ar frio, e eu desvio o olhar, virando-m e autom aticam ente na direção das portas do prédio que estam os observando.

Elas estão se abrindo, deslizando em silêncio cada um a para um lado, e um a figura está saindo.

— É ele — eu sussurro.

Eu o reconheceria em qualquer lugar, m esm o no escuro, m esm o com os om bros curvados e o corpo m agro coberto por um uniform e em prestado. Tento não prestar m uita atenção a ele. Não quero ver o seu rosto.

Passo desaj eitada para um a posição agachada atrás do Civic, Finn perto do m eu om bro. Sua respiração rápida sopra em volta de nós. Pela prim eira vez, ele não diz nada, apenas toca nas m inhas costas para m e lem brar de que está aqui.

Meus dedos trem em com tanta violência que não consigo soltar a trava de segurança da arm a. Fecho os olhos e tento encontrar um único pedaço de calm a dentro de m im para m e concentrar.

Marina.

O trem or para, e eu solto a trava. Não vou m e lem brar de quem ele era. Aquela pessoa está m orta e desaparecida. Vou pensar apenas em quem ele será.

Vou pensar apenas em Marina.

Com um últim o fôlego profundo, fico em pé, m iro a arm a direto na cabeça de Jam es Shaw e puxo o gatilho.

 

A arm a recua violentam ente na m inha m ão e m e j oga para trás.

E para trás e para trás e para trás...

Um a m ão se aperta em volta da m inha barriga e m e puxa para longe, o vento correndo pelos m eus cabelos, o m undo ficando em baçado à m inha volta. Estou voando e caindo ao m esm o tem po. Finn e a arm a e o hospital ficam borrados em traços cinza, e um m undo diferente se m aterializa no lugar deles.

Vou conseguir desta vez, tenho certeza.

Outras crianças pedem para os pais lhe darem um em purrão para com eçarem , m as eu não tenho isso e, assim , posiciono m inha bicicleta no topo da entrada inclinada da nossa casa e deixo a gravidade fazer o serviço. Desço voando e chego à rua calm a, e enfim estou andando de bicicleta. Meu coração dá pulos. As casas do quarteirão passam por m im em um a velocidade im possível. Estou livre.

Não. Não estou andando de bicicleta. Estou caindo. O grande pneu em baixo de m im bam boleia, j ogando o guidão para a esquerda e a direita, quase puxando-o das m inhas pequenas m ãos. Tão pequenas. O chão se ergue depressa até m im e, antes que possa gritar, estou esparram ada no asfalto, m inhas palm as e j oelhos ardendo. Eu m e viro e puxo um j oelho até o peito, vej o a pele raspada e o sangue atravessando a m eia-calça rasgada. É o m eu par favorito, cor-de-rosa vivo com bolinhas brancas. Quando eu im aginava esse m om ento — descer a rua depressa com a bicicleta, ir para longe deste lugar com m eu cabelo voando solto atrás de m im —, sem pre estava usando m inha m eia-calça favorita e, assim , insisti em vesti-la nesta m anhã. E, agora, ela está estragada.

Lágrim as quentes rolam pelas m inhas bochechas e eu não tento detê-las.

— Você está bem , m enina?

Levanto o olhar e vej o, com os olhos m arej ados, o m enino da casa ao lado. Quando nos m udam os, algum as sem anas antes, m am ãe m e disse que eu deveria convidá-lo para brincar, m as fiquei com m uito m edo. Ele é um menino, e tem pelo m enos oito anos. Ele riria de m im .

Eu travo o queixo.

— Estou bem .

— Você se esqueceu de pedalar.

Ele sorri e m e oferece a m ão.

— Não esqueci!

— Sim , esqueceu.

Ele se senta no m eio-fio ao m eu lado.

— Tudo bem . Eu fiz a m esm a coisa quando estava aprendendo a andar de bicicleta. Caí em um grande arbusto.

— Sério?

Ele faz que sim com a cabeça.

— Ele era cheio de espinhos tam bém . Você se m achucou?

Eu encolho os om bros, m as ele pega m inhas m ãos nas suas e vira as palm as para si. Elas estão arranhadas e cobertas de pedregulho da rua. Ele se inclina para a frente e as sopra, tirando a suj eira e refrescando a sensação de queim adura na m inha pele.

— Quer aj uda? — pergunta.

Faço que sim com a cabeça. Ele se levanta e, desta vez, parece gigante para m im . Eu levanto o olhar para ele adm irada — em adoração — antes de ele passar o braço sob o m eu e m e aj udar a ficar em pé.

— Meu nom e é Jam es — ele diz.

— O m eu é Marina — eu falo.

Bem ao longe, alguém está m e cham ando. Eu m e viro. Deve ser Luz ou m am ãe...

Mas não. Não estão cham ando Marina. Estão cham ando outra pessoa.

Há m ãos nos m eus om bros, chacoalhando-m e. Levanto o olhar para o rosto de Jam es e ele fica em baçado, vira outro. Eu pisco, e Jam es se torna Finn.

— Em ! — ele diz.

— Finn?

Sou j ogada de onde que quer que fosse o lugar estranho onde estava de volta para o m eu corpo. Estou no chão, o cano da arm a apoiado no m eu colo, o m etal quente m esm o através dos j eans. Finn está abaixado sobre m im , os olhos arregalados de pânico.

— O que aconteceu?

— Não sei — ele diz, puxando-m e para ficar em pé —, m as tem os de correr.

Finn está m e arrastando, m as eu paro e olho de novo para o hospital, onde, de repente, há um a m ultidão.

— Eu o m atei? Acabou?

Ele puxa m eu braço.

— Corra, Em !

E nós correm os.