Todos os Nossos Ontens
Dezenove
Marina
Jam es corre para o telefone, e Finn e eu o seguim os. Ele dá um a olhada na identificação de cham ada e solta um palavrão. Pega o fone.
— Mark?
Ouço a voz fraca do guarda do outro lado, e Jam es solta um palavrão de novo.
— Obrigado. — Ele desliga e corre para a escada, gritando para nós: — A polícia está vindo para cá!
— Tudo bem ! — Finn grita para ele. — É só não abrirm os a porta!
— É, m as o carro está na frente!
Finn e eu seguim os Jam es e o alcançam os na porta de entrada. Eu arranco as chaves do carro da m ão dele.
— Deixe com igo — digo. — Eles não se im portam com igo. Você fica aqui.
— Marina...
— Fique quieto e apague as luzes. Eles vão passar das árvores a qualquer m inuto.
Saio correndo pela porta em direção à BMW. Enquanto sento no banco do m otorista, dou um a olhada na entrada, m as ainda está livre. Ligo o carro e percebo que não faço ideia de para onde levá-lo. Há um a garagem na lateral da casa, m as a porta está fechada. Eu baixo o visor e abro o porta-luvas, vasculhando o conteúdo um pouco descontrolada, m as não vej o um controle rem oto. Eu poderia sim plesm ente dar a volta na casa, m as e se os guardas virem m arcas de pneus na gram a?
Olho para a entrada de novo. Nenhum sinal de ninguém ainda, m as não vai dem orar. Im agino que consigo ver a luz dos faróis através das árvores.
Dane-se. Está escuro e não tenho nenhum a outra escolha. Aperto o pé no acelerador e saio do cam inho de entrada, passando por cim a da guia e indo para a gram a. Tento visualizar o carro flutuando, os pneus m al tocando a gram a enquanto o dirij o contornando a casa e estaciono a BMW nos fundos, fora de vista da entrada. Corro para a porta de trás e bato, e Finn está bem ali para m e deixar entrar.
— Dirigiu bem — ele diz.
— Hilário. — Eu m e esforço para recuperar o fôlego. — Cadê o Jam es?
Finn m e guia pela casa escura até onde Jam es está, em pé atrás da porta da frente. Segundos depois, faróis varrem a frente da casa, e Finn agarra m eu pulso, puxando-m e para longe de um a j anela. Nós nos apertam os bem contra a parede para não serm os vistos.
Do lado de fora, a porta de um carro é fechada. Ouvim os o barulho de sapatos de sola dura esm agando o cascalho, e um a luz de segurança ativada por m ovim ento acende. A batida contra a porta é com o um a explosão, ecoando pela casa. Faz o sino da cam painha que vem em seguida parecer delicado e doce.
— Sr. Shaw? — um a voz cham a. — Aqui é a polícia do Estado. O senhor está aí dentro?
Jam es se aproxim a devagar do olho m ágico e olha para fora.
— Sr. Shaw, só querem os garantir que o senhor estej a seguro — o policial diz. Toca a cam painha de novo.
Jam es continua a observar pelo olho m ágico e nós ficam os em pé, congelados. Tento não respirar. Depois de um m inuto, Jam es sussurra:
— Estão indo em bora.
Ficam os em silêncio e, do outro lado da porta, há o barulho do cascalho, um a porta de carro se fechando e o ronco de um m otor. Ouvim os a viatura se afastar e Jam es deixa o olho m ágico.
— Eles foram em bora — ele diz.
— Bem , isso foi assustador — Finn diz. — Acho que não fui feito para ser fugitivo.
— Vam os dar a eles alguns m inutos para se afastarem e, depois, vam os voltar para Washington — Jam es fala. Ele levanta a pasta de arquivos. — Alguém precisa ver isto.
— Eu sabia que Richter estava escondendo algum a coisa — Jam es declara enquanto guia o carro de volta para a I-95 Sul.
Assim que entram os na estrada, ele rem ontou o celular e ligou para Vivianne para avisar que estávam os a cam inho de casa e para dispensar os cães de busca. Não contou a ela sobre a pasta de arquivos que encontram os.
Aperto a luz do painel e leio a troca de e-m ails im pressa que estava no topo da pasta de novo.
DE: Chris Richter <christopher.richter@dni.gov>
DATA: 16 de novembro de 2013 3:48:02 EDT
PARA: Joshua Schweiger <joshua.schweiger@air-online.org>
Ele terá um futuro brilhante.
> Nossa fonte no escritório dele disse que sim. Ele é protetor, não confia em
nós. Para que você quer o menino?
>> Eu quero o garoto. O congressista vai ser um empecilho?
>>> James Shaw. Q I 168. Brevemente internado depois da morte dos pais em 2008, ainda sob cuidados psiquiátricos. Pulou a quarta e a oitava séries.
Formou-se como primeiro da classe na Sidwell aos 15 anos. Completou bacharelado em Ciências na Universidade de G eorgetown em 18 meses. Atualmente trabalha no seu doutorado em Física e Matemática Aplicada na
Johns Hopkins, sob orientação do dr. Ari Feinberg. Está fazendo a dissertação sobre algum aspecto da relatividade, muito secreto.
>>>> Só faça.
>>>>> Q uer que eu olhe as notas do boletim dele?
>>>>>> Tudo. Em especial a educação.
>>>>>>> O que você quer?
>>>>>>>> Você pode conseguir informações sobre o menino Shaw? O
irmão mais novo do congressista, James.
Olho com atenção o endereço de e-m ail: j oshua.schweiger@air.org. A-I-R. Nate não estava tentando m e dizer que não conseguia respirar; ele estava tentando m e dizer algo sobre um a organização com a qual Chris Richter trabalha.
Por baixo do e-m ail há cópias de páginas com a letra de Jam es, linhas incom preensíveis de fórm ulas e teorem as que poderiam estar em chinês se dependesse de quanto sentido fazem para m im . Isso m e lem bra de que tenho as páginas que Jam es estava escrevendo no hospital no m eu bolso da frente. Ele parece ter se esquecido por com pleto delas. Vai perdê-las de novo se eu as der agora, então faço um lem brete m ental para entregá-las quando chegarm os em casa.
Junto com o e-m ail e as cópias, há m ais um a dúzia de docum entos. Há algo que parece um relatório oficial do governo, quase m etade dele enegrecida por um a caneta m arcadora grossa; m ais e-m ails; algo que se parece suspeitam ente com cópias de registros m édicos com o nom e de Jam es no topo e anotações que Nate estava fazendo para si m esm o sobre as atividades da SIA, outra sigla de agência de que nunca ouvi falar. O que quer que eles estivessem fazendo, Nate não gostou.
— Esta deve ser a investigação da qual Nate m e falou — digo. — Ele estava investigando algo cham ado SIA, ou talvez a AIR? É difícil dizer qual, m as parece que eles iam oferecer um em prego para você. Você sabe quem são?
Jam es encolhe os om bros.
— Um a divisão da CIA, talvez? Richter poderia estar vigiando-a com o parte do seu trabalho com o DNI. Meu tio um a vez m e disse que a CIA tem vários braços secretos para fazer todo tipo de coisa que ela não pode ser vista fazendo.
Eu estrem eço.
— Assustador.
— Mas aquelas páginas do m eu caderno — ele diz. — Isso é o que m e preocupa de verdade. Não sei por que Nate foi procurar isso.
— O que elas são? — Finn pergunta.
Ele estende a m ão para a pilha de papéis e eu a passo para trás com relutância.
— É parte do trabalho m ais recente que eu estava fazendo para o dr. Feinberg.
Jam es faz um a curva fechada dem ais com o carro na pista seguinte e eu m e seguro no apoio de braço.
— Eu tive um grande avanço há pouco tem po, m as não falei para o Nate. Ele não gosta da m inha pesquisa, acha que não é saudável para m im ficar tão focado no passado.
— De onde você acha que ele as pegou? — Finn pergunta.
— Não sei. Talvez do dr. Feinberg, ou talvez ele tenha m exido nas m inhas coisas.
Tenho um vislum bre da letra fina e reta de Jam es conform e Finn folheia as páginas. Percebo de repente algo que faz m eu coração despencar, em bora não devesse ser im portante depois de tudo o que aconteceu.
— Era desse avanço que você ia m e falar? — pergunto. — Na noite em que você voltou para casa?
Jam es faz que sim com a cabeça, m as não tira os olhos da estrada.
— É.
— O que é? — Finn questiona.
— É algo em que eu venho trabalhando há bastante tem po. Eu enfim estou com eçando a fazer um progresso real, e aquelas páginas são a parte central das m inhas form ulações.
— Para que servem ?
— Viaj ar na quarta dim ensão.
— Hã?
O olhar de Jam es passa rapidam ente pelo retrovisor e volta.
— Viagem no tem po.
Eu tinha ouvido Jam es falar sobre isso durante anos, então não m e assusta, m as Finn solta seu cinto de segurança e se coloca entre nós.
— Com o é que é?
— Sei que parece ridículo, m as acho que é possível, e o dr. Feinberg concorda. Quando eu term inar essas fórm ulas, vou provar.
Os dedos de Jam es apertam o volante até os nós ficarem brancos. Sua paixão sem pre foi um a das coisas que m ais am o nele, m as ela m e preocupa tam bém . Aprendi m uito sobre Jam es nesses últim os dois dias e agora vej o, m ais do que nunca, que ele é com o m etal forj ado, forte, m as quebradiço, incapaz de se dobrar.
— O que acontece quando você provar? — Finn pergunta.
— Nós consertam os o m undo.
Apenas quatro palavrinhas, que eu j á ouvi de Jam es m il vezes antes, m as, por algum m otivo, elas m e deixam profundam ente perturbada desta vez.
— O que você quer dizer? — Finn fala.
— Im agine o que poderíam os m udar — Jam es diz — se puderm os usar o tem po. As guerras que poderíam os evitar, os desastres naturais para os quais poderem os ter planej am ento. Poderíam os apagar tantas coisas terríveis e sem sentido.
— Isso não seria perigoso? — Finn questiona. — Você não sabe o que poderia m udar por acidente. Poderia, por exem plo, m atar seu avô e nunca nascer, certo?
Jam es abre um sorriso seco.
— O tem po não é tão sim ples. Para com eçar, não é linear da m aneira com o o percebem os. E a pesquisa atual sugere que existem algum as variáveis desconhecidas que elim inam am eaças ao tem po, com o o paradoxo do qual você está falando. Minha teoria é que o tem po é um elem ento sensitivo. Ele conserta eventos para evitar que paradoxos aconteçam . Então, em teoria, se eu voltasse no tem po e m atasse m eu avô, esse evento se tornaria fixo por causa da m inha ação. Com o ele está m orto, eu não teria nascido, m as um resto m eu do m eu tem po original, um tipo de som bra, sem pre estaria por ali para m atar m eu avô e garantir que ele perm anecesse m orto.
Finn pisca.
— Nem cheguei perto de entender isso.
— É — eu falo. — Pode usar palavras m ais sim ples?
— Essas foram m inhas palavras sim ples.
— Ainda parece perigoso para m im — Finn diz. — Muita coisa poderia dar errado.
— Há riscos — Jam es adm ite —, m as o progresso sem pre é perigoso, não é? Na m aioria das vezes, paredes não são dem olidas tij olo a tij olo. Alguém tem de abrir um buraco nelas.
Alguém tem de abrir um buraco nelas. Um a m ortalha desce sobre o carro. Parece tanto um presságio.
Finn dá um piparote na parte de trás da cabeça de Jam es.
— Então acho que é bom você ter um a cabeça tão dura.
Eu reviro os olhos. Podem os confiar em Finn para aliviar o clim a.
— Ai! — Jam es diz, m as está sorrindo. Ele bate em Finn sem olhar. — Sorte sua que estou dirigindo.
— Eu não estou — eu falo.
É tão bom ver Jam es sorrir que eu quero prolongar o m om ento. Vou bater na cabeça de Finn, m as ele se esquiva m ais para o fundo do banco traseiro.
— Fique longe, m ulher!
Incentivada pela risada de Jam es, eu solto m eu cinto de segurança e tento de novo. Finn pega m eu punho no m eio do golpe e eu o puxo de volta, m as ele não solta.
— Ei!
Eu aj oelho no banco para ter um im pulso m elhor e puxo, m as a m ão dele está apertada em volta do m eu pulso agora.
— Solte!
— Não, você vai bater em m im !
— Quantos anos vocês têm , afinal? — Jam es fala.
Finn puxa m inha m ão e eu caio no banco de trás dando um gritinho. Apesar de eu m e contorcer, ele consegue m e prender em um a chave de braço e bagunçar m eu cabelo. Eu dou um golpe com o cotovelo na barriga dele e ouço Jam es rir de novo por cim a do gem ido de Finn.
— Quer m e pegar? — Finn pergunta. — Acha que pode com igo, Marchetti?
Distante, eu ouço o telefone celular de Jam es tocar, m as agora estou m uito concentrada em tentar arrancar os dedos de Finn do m eu pulso. Viro o dedo m ínim o dele para trás até ele gritar e m e soltar e, depois, m e j ogo nele. Parece j usto que eu bagunce o cabelo dele tam bém , m as ele é forte dem ais e continua lutando para m e afastar. Por acidente, bato o cotovelo nas costelas dele e fico chocada quando ele solta um a risadinha fem inina e aguda.
— Ah, m eu Deus — eu falo, sem fôlego —, você sente cócegas?
Ele aponta um dedo para m im , de repente m uito sério.
— Você, fique longe de m im .
Eu abro um sorriso m alicioso para ele e nós dois entram os em um a batalha tão intensa que, no com eço, m al percebo o carro desacelerando. Quando noto, dou um a olhada em Jam es no retrovisor e vej o que o rosto dele ficou cinza.
— Jam es? — eu o cham o.
Finn tenta fazer cócegas em baixo dos m eus braços, e eu dou um tapa para afastá-lo.
— Pare. Jam es?
O carro continua a desacelerar, e Jam es o vira para o acostam ento da autoestrada. Eu m e inclino para a frente, e Finn se senta reto.
— O que aconteceu? — pergunto.
Jam es para o carro com um a das m ãos e segura o telefone na orelha com a outra.
— Estou aqui.
Posso ouvir a pessoa do outro lado da linha, um sonzinho bem esticado pelas centenas de quilôm etros de ar, m as não consigo identificar nenhum a palavra. Em vez disso, observo o rosto de Jam es. Sua expressão é um livro aberto para m im , porque dediquei o tem po necessário para aprender essa linguagem m uitos anos atrás. O que vej o faz m inha garganta ficar seca. Pulo de volta para o banco da frente, Finn esquecido.
— É... — Jam es diz. — Certo...
Minhas m ãos com eçam a form igar, com o fazem sem pre que fico m uito assustada. Jam es certa vez m e disse que isso acontece porque m eus vasos sanguíneos estão se estreitando, m andando todo o sangue para o centro do m eu corpo para o caso de eu ter de correr ou lutar. Fecho as m ãos form ando punhos para tentar recuperar o tato.
O celular escorrega da m ão de Jam es e cai com um baque no chão do carro. Ele não se m exe, não o pega e nem parece notar que caiu. Sua m ão paira, vazia, ao lado da orelha.
— Jam es — eu sussurro.
Ele se vira para olhar para m im , devagar, o rosto im utável. Os olhos estão arregalados, a boca aberta, congelada.
Depois, com o um a barragem quebrando, ele cai no choro.