Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 3 de 40

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Todos os Nossos Ontens

Três

 

Em

Outro dia passa. Só estou m eio acordada, encarando o teto, tentando enxergar as rachaduras que sei que estão lá na fraca luz azulada vinda do corredor. Passo os dedos pelos m eus m achucados sem prestar atenção. Pela sensação quando os aperto com os dedos, acho que devem estar daquele verm elho-arroxeado que se parece com a roupa de cam a do nosso antigo quarto de hóspedes. Minha m ãe sem pre gostou daquela cor. Suspeito que tivesse algo a ver com a afinidade dela por um bom cabernet.

Ouço botas no corredor e franzo as sobrancelhas. Não estou com fom e; j á está na hora do café da m anhã? Mas, não, as luzes ainda estão apagadas.

Minha porta é aberta devagar, e o guarda atrás dela é um que só foi destinado a nós há pouco tem po. Eu gosto dele. Ainda há o brilho de um m ínim o de decência hum ana nos seus olhos e, diferente de Kessler, ele sem pre m e entrega as refeições e até diz obrigado às vezes quando eu devolvo a bandej a. Não tenho certeza do nom e dele. Connor? Cooper?

— Quando você era pequena — ele diz, parado na entrada —, tinha um am igo im aginário cham ado Miles. Ele era um canguru roxo.

Eu m e levanto de repente.

— O quê?

— Vam os. Nós tem os de ir.

— O que você quer dizer?

— Vou tirar você daqui.

Minha boca fica seca, e m inha língua de repente parece grande dem ais para ela. Era isso que eu estava esperando. A form a de sair. Nunca contei a ninguém sobre Miles, em toda a m inha vida.

Exceto, aparentem ente, para esse guarda.

— E quanto ao Finn? — pergunto.

— Ele tam bém . Depressa.

Fico em pé de um salto e m inhas pernas estão surpreendentem ente fortes abaixo de m im . Coloco a m ão sob o colchão e tiro o pedaço de papel no saco plástico, enfiando-o no bolso. O guarda — Connor? — j á se foi, a cam inho de libertar Finn. Ando na direção da porta da m inha cela devagar. Está escancarada. Toco a m oldura dela com as pontas dos dedos, exam inando o lugar onde as paredes que têm sido m eus lim ites há tanto tem po acabam e viram nada. Dou um passo hesitante para atravessar e, por um segundo idiota, acho que posso chorar.

Ouço o chacoalhar de um a chave em um a fechadura e m e viro, vendo Connor se esforçar para abrir a cela de Finn. Ah, m eu Deus. O entendim ento cai sobre m im com o aquela onda m aldita na Ilha Kiawah que tirou o ar dos m eus pulm ões: estou prestes a ver Finn.

Connor enfim consegue abrir a fechadura e em purra a porta, e tudo perde velocidade até o silêncio entre cada batim ento do coração em m eus ouvidos ficar longo e ensurdecedor. Se eu reagi à nossa repentina liberdade com o um anim al que se esquecera do m undo fora das suas barras, Finn sai voando da cela com o um pássaro de um a gaiola. Mal tenho tem po de olhá-lo antes de ele se chocar com igo em um em aranhado de braços e pernas, abraçando-m e com tanta força que m al posso respirar e não m e im porto.

— Ah, m eu Deus — ele diz repetidas vezes. — Ah, m eu Deus.

— Deixe-m e olhar para você.

Eu m e afasto e coloco as m ãos nas bochechas dele, exam inando seu rosto. Olhos azuis, é claro. E com o pude esquecer essa boca? Lábios finos e pálidos com um canto torto sem pre sugerindo um sorriso de gozação. Meu Deus, com o nunca notei antes o quanto ele é bonito?

— Você precisa cortar o cabelo.

Ele esfrega a lateral do polegar na m açã do m eu rosto.

— Você está linda.

Eu tive m edo por anos. Fugindo, isolada de todos que am o e, depois, trancada nessa cela, torturada e interrogada com a am eaça de m orte sem pre pairando sobre m eu om bro. Mas j uro que nunca tive tanto m edo quanto no m om ento em que Finn se inclina para a frente para m e beij ar pela prim eiríssim a vez.

Ele encosta os lábios nos m eus com tanta delicadeza que acho que deve ter m edo de que sej a um sonho que se dissolverá na m elhor parte. As m ãos dele apertam m ais as m inhas costas, puxando-m e para perto, e, por um segundo, todo o m eu receio som e.

— Desculpe — Connor diz —, m as tem os de ir andando.

Finn m e lança um olhar tím ido enquanto nos desenroscam os, e Connor puxa a arm a conform e com eça a seguir pelo corredor. Pego a m ão de Finn e entrelaço nossos dedos. Agora que ele está ao m eu lado, não quero perdê-lo de novo, nem por um segundo.

Connor nos guia, e nós o seguim os de perto. Minha cabeça está em m ovim ento constante, absorvendo tudo ao nosso redor. É m eu prim eiro vislum bre do lugar desde que nos trancaram ali há sei lá quantos m eses, e eu não estava em condições, naquele m om ento, de reparar no cenário. Há m ais três celas perto da m inha e da de Finn, reforçadas com o as nossas com paredes de blocos de concreto e portas de m etal, m as estão vazias. O resto do corredor parece ser usado para arm azenam ento, e é tão banal que estou chocada e até um pouco ofendida. Parece que o doutor em pacotou Finn e eu com o resto do lixo velho, com o um a caixa de roupas de inverno guardadas durante o verão e depois esquecidas.

— Onde estão todos? — eu sussurro depois de passarm os pela porta trancada que separa nosso corredor do resto da instalação. Até agora, não vim os um único soldado.

— Está no m eio da noite, turno reduzido — Connor diz por cim a do om bro. — E eu coloquei um a droga no bule de café da sala de intervalo.

— Sabe — eu digo —, estou com eçando a gostar de você.

— Não decida isso até chegarm os a Cassandra.

Nós nos esgueiram os até o coração da unidade, que agora eu vej o ser enorm e. Connor precisa ter cuidado para evitar que suas botas façam barulho contra o chão de concreto, enquanto Finn e eu cam inham os em silêncio com nossos finos chinelos de prisioneiros. Minha respiração fica m ais difícil a cada passo, o centro do m eu peito queim ando com o esforço. Não percebi o quanto viver em um a cela com apenas quatro passos de com prim ento estava prej udicando m eu corpo até este m om ento. Olho para Finn para ver se está com eçando a suar e trem er com o eu, m as ele não parece estar afetado. Provavelm ente tem feito exercícios na cela, esse cretininho vaidoso.

Agora estou desej ando ter pensado nisso.

— Você está bem ? — ele pergunta.

Eu estava dim inuindo o ritm o, e ele agora está m e puxando para a frente pelo ponto onde nossas m ãos ainda estão presas um a na outra. Faço que sim com a cabeça, respiro fundo e m e forço a apertar o passo.

Estou tão concentrada em colocar um pé na frente do outro que não ouço a porta se abrir na outra ponta do corredor nem vej o o hom em de cabelos escuros que passa por ela. Mas Connor vê. O braço dele bate em m eu peito, j ogando Finn e eu para o recuo de outra porta, e eu só tenho um vislum bre do hom em conform e recuo, saindo de vista.

É o doutor. Eu m e grudo contra a porta e tento controlar m inha respiração irregular.

Connor anda em direção a ele, o terror m e corta com o um a faca. De repente, tenho certeza de que isso foi algum a arm ação do doutor, outro truque para nos enfraquecer. Connor vai nos entregar de volta para ele agora, e nunca deixarem os nossas celas de novo. Sou tom ada pelo desej o louco de correr.

Talvez sentindo o que estou pensando, Finn aperta m inha m ão, segurando-m e no lugar.

— Connor, o que você está fazendo nesta parte do prédio? — ouvim os, do nosso esconderij o precário, o doutor perguntar. Tudo o que ele precisa fazer é dar alguns passos na nossa direção e o recuo na parede não vai m ais conseguir nos esconder. — Não devia estar vigiando os prisioneiros?

— Sim , senhor. Abram s está cobrindo para m im . O sargento m e m andou procurá-lo.

O doutor suspira, irritado.

— Nem estou no horário de trabalho; só vim term inar um a papelada. Do que ele precisa?

— Não tenho certeza, senhor. Tudo o que ele disse foi que precisava vê-lo na central de com ando.

Passos se aproxim am de nós. Não as botas de sola pesada de Connor, m as o que eu apostaria a m inha vida ser um fino couro italiano. Eu m e aperto com tanta força contra a porta atrás de m im que terei novos m achucados para acrescentar à m inha coleção, se sobreviver a esta noite.

— Preciso ir ao m eu escritório prim eiro — o doutor diz —, e depois...

— Ele disse que era urgente, senhor.

Os passos param .

— Tire a m ão de m im , soldado.

Ah, m eu Deus. Eu fecho m inha m ão livre em um punho. Se o doutor vier nesta direção, pelo m enos posso m achucá-lo um pouco antes de ele m e m atar.

— Desculpe, senhor — Connor diz, com a voz trêm ula. — Só quis dizer que o sargento precisa m uito do senhor, e não há tem po...

O silêncio se alonga e, com os olhos fechados, quase posso ver a expressão de avaliação no rosto do doutor enquanto ele olha para Connor. Aos m eus ouvidos, Connor parece absurdam ente culpado, e o doutor teria de ser surdo para não perceber que algo está errado. Só posso esperar que sua falta de atenção com as pessoas e sua própria noção de invencibilidade prevaleçam .

— Certo — o doutor enfim diz. — Vou para o centro de com ando, e você, volte para aqueles prisioneiros. Da próxim a vez, lem bre-se de se pôr no seu lugar.

— Sim , senhor.

O passo m ais leve do doutor se afasta de nós, e eu solto a respiração que estava segurando.

— Tem os de ir agora — Connor diz quando volta para nós. — Ele vai saber que aconteceu algum a coisa quando chegar ao centro de com ando e ninguém estiver lá. Mas fica do outro lado do prédio, e Cassandra está perto.

Correm os pelos corredores, Connor três ou quatro m etros à frente para procurar outros soldados e Finn praticam ente m e arrastando consigo. Quando param os, eu m e curvo, apoiando as m ãos nos j oelhos enquanto m e esforço para recuperar o fôlego. Finn esfrega m inhas costas em círculos pequenos e tranquilizadores, m as a atenção de Connor está concentrada por inteiro à nossa frente. Ele está com a arm a recolhida contra o peito, posicionado em um a virada do corredor. Leva um dedo até os lábios.

— A sala de controle fica logo virando aqui — ele sussurra. — Vai ter vigias... Não posso fazer nada quanto a isso... Então, vocês dois, fiquem para trás.

Finn fica tenso ao m eu lado.

— O que você vai fazer?

— Isso im porta? Depois de vocês voltarem , nada disso vai ter acontecido, certo?

Eu engulo outra golfada de ar.

— Essa é a ideia.

— Não se m exam .

Connor enfia a arm a de volta no coldre e vira o corredor correndo. Nós o ouvim os gritar, seguido pelo som de punhos batendo em vidro. A sala de controle. Finn coloca o braço em volta dos m eus om bros, e eu m e enfio j unto ao corpo dele. Meu Deus, ele está quente. Faz tanto tem po que eu tinha esquecido com o um a outra pessoa pode ser quente.

— Incêndio na Ala A! — Connor grita. — Precisam os de todas as unidades. Vam os!

Há um a pausa e, depois, o assobio quase im perceptível de um a porta de abrindo.

— Não teve alarm e — um soldado diz —, nem cham ado pelo rádio.

— Não podem os sair do nosso posto — um segundo acrescenta.

O estouro repentino de dois tiros reverberando nas paredes duras é ensurdecedor. Eu cubro a boca com as m ãos.

— Vam os! — Connor grita.

Finn com eça a correr, então eu corro tam bém , virando pelo corredor e m e aproxim ando da sala de controle, que é cercada do chão ao teto por vidro à prova de balas. Os dois soldados estão caídos na entrada, um a poça de sangue escuro em baixo deles, espalhando-se a cada segundo. Eu nunca poderia ter im aginado tanto sangue. Os film es tam bém não m e prepararam para a visão de dois hom ens cuj as cabeças foram estouradas.

Connor está em pé dentro da sala de controle, do outro lado dos corpos desm oronados dos guardas. O rosto e o uniform e dele estão salpicados de sangue, e eu estrem eço quando ele estende um a das m ãos para m im . É a m ão direita, a que ele usou para atirar, e os espirros deixaram um a som bra de pontinhos verm elhos na pele. Eu m e forço a aceitá-la, e ele m e aj uda a pular por cim a dos corpos dos hom ens m ortos. Finn pula depois de m im , m as seu pé desce na borda da poça crescente de sangue e escorrega, fazendo-o se esparram ar no chão. Eu o aj udo a levantar, e ele chuta e se livra dos chinelos ensopados.

— Peço a Deus que vocês saibam com o essa coisa funciona — Connor diz, encarando as fileiras e m ais fileiras de m aquinário e luzes piscantes no console. Acim a deles, há um a j anela de observação que dá para um a segunda câm ara, m enor, acessível apenas por um a porta no canto da sala de controle. A salinha é um a visão cham ativa, sinistram ente despida de cor e textura, um a caixa lisa e vazia em tons de cinza.

— Tenho um a ideia — digo. — Alguém costum ava alugar m eus ouvidos falando disso. Finn, você pode...

— Pode deixar — ele diz, j á escorregando para a cadeira em frente ao principal term inal de com putador. — Se eu sei algum a coisa sobre o nosso doutor, o sistem a foi proj etado para ser sim ples de usar.

Finn com eça a bater no teclado, um a leve ruga de concentração cruzando sua testa. Sei que ele vai ficar irritadiço e estressado se for interrom pido, então m e viro para Connor.

— Obrigada por fazer isso.

Ele lim pa as costas das m ãos nas calças.

— Sem problem a.

— Por que está nos aj udando? —pergunto. — Digo, com o eu convenci você? Vou precisar saber.

Ele encolhe os om bros.

— Eu não passava de um segurança, e você m e deu a chance de ser herói. Além disso, algum as das coisas que eu vi...

— Está ruim lá fora?

— Muito ruim .

Connor parece assustado, e isso m e aterroriza. Esse é um hom em que, com toda a calm a, drogou seus colegas bem arm ados e sim plesm ente atirou na cabeça de dois hom ens sem piscar, m as o que quer que estej a acontecendo no m undo lá fora o faz apertar os lábios e ficar tenso. Quando Finn e eu fom os capturados, drones am ericanos estavam atacando a China, Israel estava em um im passe nuclear com a Síria e um bom pedaço de Houston tinha acabado de ser varrido do m apa. Era difícil im aginar que as coisas pudessem piorar.

Mas acho que pioraram .

— Você acha m esm o que pode m udar tudo isso? — Connor pergunta, e posso ver agora o desespero escondido no fundo dos seus olhos.

Passo os dedos pelos cantos do saco plástico no m eu bolso.

— Acho que não vam os parar até conseguir isso.

— Ah, pegue — ele diz, colocando a m ão no próprio bolso. — Quase esqueci. Você vai precisar disso.

Ele pega a carteira e tira do espaço para fotografias a pequena foto de um a m ulher com cabelos cor de m el e um sorriso alegre cheio de dentes. Ele a entrega para m im .

— O que é isso?

Ele abre um sorriso largo.

— Essa é a verdadeira form a com o você m e convenceu a aj udar.

Eu sorrio.

— Oh. Ela é bonita.

— E ela disse sim a um fracassado com o eu, dá para acreditar?

Coloco a foto no m eu bolso j unto com o bilhete no saco plástico.

— Dá, sim .

— Certo, entendi — Finn diz, batendo nas últim as teclas. — Tudo está basicam ente autom atizado, então só preciso colocar a data e, depois, Connor pode ligar o colisor quando estiverm os dentro.

— Espere — Connor diz. — Se você colocar um a data, ele não vai seguir os dois direto? Ou aparecer dez m inutos antes de vocês e atirar assim que vocês surgirem ?

— Já pensam os nisso — eu digo.

— Conheço um código que vai esconder a data real que usarm os e m ostrar outra coisa — Finn diz. — Você tem certeza quanto ao dia quatro de j aneiro, Em ? Últim a chance.

— Tenho certeza.

— Certo — Finn diz. — Vou fazer parecer que fom os para o dia sete. É quando o doutor vai nos esperar, e deve nos dar bastante tem po para cuidar das coisas antes de ele voltar atrás de nós.

— Com o eu ligo o colisor? — Connor pergunta.

— Depois de entrarm os na câm ara — Finn aponta para o botão VOLTAR —, aperte isto. A program ação autom ática fará o restante. O acelerador leva cerca de dois m inutos para deixar as partículas na velocidade certa para a colisão e, depois isso, devem os desaparecer.

— Parece bem fácil — Connor com enta.

Eu contenho a vontade histérica de rir.

— Acho que não resta nada a dizer, a não ser, sabe, boa sorte.

Finn aperta a m ão de Connor, e ele e eu andam os para o lado m ais distante da sala de controle, onde a porta para a câm ara interna está. Quando Finn a abre, um a sirene de estourar os tím panos explode pelo prédio. Minhas m ãos voam para as orelhas e curvo m eu corpo, fugindo do som ensurdecedor, e Finn solta um palavrão.

— Entrem ! — Connor berra por cim a do estrondo. — Antes que eles desçam aqui! Vou segurá-los!

Connor bate a porta da câm ara interna atrás de nós. Puxo Finn com igo até o m eio da sala, para nós dois ficarm os em cim a do grande círculo preto que m arca o centro de Cassandra, o colisor de partículas subatôm icas com quilôm etros de com prim ento que foi construído bem fundo no subsolo deste prédio. Connor faz um a barricada na porta da câm ara, tom bando o que parece um rack preto de servidor de backup em frente a ela. A sirene é tão alta que nem ouço a batida do servidor atingindo a porta. Connor corre de volta para o com putador e o choro da sirene ganha a com panhia de outro som , um ronco tão baixo que acho que poderia estar im aginando-o até as vibrações subirem do colisor m ilhares de m etros abaixo de m im e chegarem aos m eus pés. A energia fica zum bindo em volta de Finn e de m im , erguendo os cabelos da m inha nuca e causando arrepios pelos m eus braços.

É apenas o com eço, eu sei. Nunca fiz essa viagem que aquelas 14 versões passadas de m im fizeram , m as a ouvi ser explicada vezes suficientes para saber o que vem depois. Quando as partículas que estão rodopiando abaixo dos m eus pés pelos quilôm etros de canos, grandes o bastante para darem passagem a um cam inhão, enfim baterem um as nas outras quase na velocidade da luz, a explosão será tão poderosa que partirá o próprio tem po.

De repente, fico com m uito m edo. Não da explosão, que desafia m inha com preensão, m as do que terei de fazer quando ela acabar. Do m otivo de tudo isto.

Você tem de matá-lo.

Ou Finn sente m eu m edo ou ele tam bém está assustado, porque põe as m ãos nas m inhas bochechas, fazendo-m e olhá-lo nos olhos.

— Vai ficar tudo bem — ele diz, e as palavras m al podem ser ouvidas naquele barulho.

Porém , tudo fica quieto depois, pelo m enos para m im . De algum a form a, encontro silêncio nos olhos azul-escuros de Finn. Meu Deus, com o eu sobrevivi tanto tem po naquela cela sem conseguir ver esses olhos?

Um a com preensão repentina m e atinge. Algo tão óbvio, não consigo acreditar que não pensei nisso até agora. Meu coração se parte e espalha um a tristeza quente com o o fogo pelo m eu corpo.

— Finn — eu digo, e conto para ele a coisa terrível que enfim entendi, tarde dem ais para fazer algo a respeito.

Ele olha nos m eus olhos e m e diz por que não preciso m e preocupar. Eu m em orizo as palavras e m e agarro a elas.

Por cim a do om bro dele, tenho um vislum bre de m ovim ento, e o m undo e seus barulhos estão de volta. Os soldados chegaram . Enquanto não estávam os olhando, Connor tirou os corpos dos m ortos da porta e fechou a sala de controle, m as a porta é um a barreira insignificante para eles. Eu observo horrorizada quando os soldados a abrem com um golpe. Connor atira na m assa de corpos que lota a entrada, derrubando soldado após soldado, m as eles têm m ais gente e m ais arm as. Logo Connor é dom inado. Escondo o rosto contra o peito de Finn depois de um a saraivada de tiros j ogar Connor para trás e ele cair no chão.

Mas não posso desviar o olhar por m uito tem po. Soldados estão j orrando para dentro da sala de controle. A m aioria vai direto para o rack de servidor j ogado contra a porta da câm ara interna. Se eles a abrirem , Cassandra vai desligar autom aticam ente, deixando-nos encalhados aqui.

Mas a visão que realm ente m e enche de m edo é o doutor entrando na sala depois dos soldados. Nossos olhos se encontram através do vidro de 10 centím etros da j anela de observação da câm ara, e a fúria no seu rosto m e faz trem er até a m edula. Acho que ele deve saber o que eu planej o fazer. Mesm o se escaparm os, sei que aquele olhar vai m e assom brar através do tem po.

O doutor vai para o term inal de com putador. O ruído em baixo dos nossos pés é com o um terrem oto agora, m as, com o doutor no teclado e os soldados na porta, tem os apenas segundos. Aperto a m ão de Finn na m inha com tanta força que sinto seus ossos esfregarem uns nos outros. Eles vão desligar Cassandra e, finalm ente, nos m atar de um j eito dem orado e criativo.

Porém , chegaram tarde dem ais.

Conform e os soldados em purram e abrem a porta, o m undo explode, e m eu corpo se dissolve em um a agonia de fogo.