Todos os Nossos Ontens
Trinta e Quatro
TRINTA E
QUATRO
Marina
Minha cabeça está pesada, com o se estivesse presa em concreto. Não consigo ver nem ouvir, apenas sinto o puxão da gravidade contra m im . Tento levantar a cabeça, os m úsculos do pescoço se esforçando, m as m eu queixo cai de volta no peito. Ouço um gem ido baixo vindo de algum lugar.
Espere, fui eu que fiz isso?
Com um em penho que se parece com nadar até a superfície de um lago de m elado, eu abro os olhos. Quando m inha visão em baçada clareia, vej o que estou dentro de um a casa estranha. Olho em volta com um a leve curiosidade. As paredes estão cobertas com um lam bri caiado e os m óveis foram descom binados com o m aior cuidado. As pinturas são de cenas náuticas, e os lustres são todos de latão. Devem os estar em algum a praia.
Eu gosto da praia, penso entorpecida.
Tento ficar em pé e descubro que não consigo. É intrigante. Eu m e im pulsiono para a frente e acabo sendo j ogada para trás de novo. A névoa na m inha m ente som e um pouquinho a cada tentativa. Eu m e esforço, sentada na cadeira, e acabo percebendo que m eus pulsos estão presos às ripas de m adeira que form am o encosto.
— Socorro — eu falo com a voz rouca.
Minha intenção foi gritar.
Viro-m e e descubro Finn ao m eu lado, am arrado de um j eito parecido em um a cadeira de m adeira sim ples, inconsciente. Ergo o pé para chutar a perna dele.
— Finn! — m inha voz é m eio sussurro, m eio choro. — Acorde!
Finn faz um som baixinho bem fundo na parte de trás da garganta e os m úsculos da sua testa se contraem , m as ele não acorda. Ainda deve estar nadando no m elado.
— Finn, por favor — eu falo gem endo, puxando m inhas am arras.
Não posso lidar com isto — o que quer que sej a — sozinha.
— Ele vai acordar logo — um a voz diz.
Minha cabeça vira de repente para a entrada distante. Encostado nela, os braços cruzados casualm ente em frente ao peito, está o não Jam es.
— Não, não, não...
Eu fecho os olhos com força. Não estou vendo isso.
— Ele é m aior que você — o hom em na entrada diz —, então tive de dar um choque m ais forte nele. Agora não deve dem orar m uito.
— Quem é você? — pergunto, os olhos ainda fechados. — O que você quer com a gente?
— Você sabe quem eu sou.
— Não, eu não sei!
Eu puxo as am arras até ter certeza de que os ossos dos m eus pulsos vão se partir.
— Marina. — Eu o ouço se aproxim ar de m im , sinto-o se inclinando para baixo, trazendo o rosto até o m eu. — Olhe para m im .
Eu faço que não com a cabeça, os lábios apertados para m e im pedir de choram ingar.
Ele coloca as m ãos nas m inhas bochechas, e eu estrem eço.
— Abra os olhos.
Não quero abri-los, m as não posso evitar. Concentro-m e no hom em em frente a m im . Ele parece o m esm o. Um pouco m ais velho, e os ângulos do m axilar e das m açãs do rosto parecem m ais m arcados, com o se ele tivesse perdido peso. O cabelo está m enor, o corte, sim ples. Com eço a trem er. Esta é a sensação de enlouquecer?
— Jam es — eu sussurro.
— Isso m esm o.
— O-o que você vai fazer com a gente?
— Nada ainda. Não é com você que eu estou bravo na verdade. Foi ela quem com eçou tudo isso, m as, infelizm ente, não há com o detê-la — ele diz. — Sinto m uito, Marina, m as vou ter de m atar você.
Em
Jam es se m ove com um a velocidade im pressionante, j ogando-se em m im conform e levanto a arm a. Era este o plano dele o tem po todo? Conseguir algum as respostas e baixar m inha guarda ao m esm o tem po? Ele sabia exatam ente que truques usar — os da am izade e da lealdade — para m e fazer concordar com aquilo.
Quando se trata de Jam es Shaw, aparentem ente, eu nunca vou aprender a lição.
Disparo um tiro antes de ele m e atacar, m as erro feio. Ele m e atinge com tanta força que eu voo para trás e caio no chão de azulej os, m inha cabeça batendo com um tunc audível. Estrelas pretas explodem em frente aos m eus olhos. Jam es está em cim a de m im , prendendo-m e no chão. Seguro a arm a o m ais longe dele que consigo, esticando m eu braço para cim a da cabeça, para m antê-la fora do seu alcance enquanto tento em purrá-lo de cim a de m im . Ele se j oga para a arm a, o que significa tirar a m aior parte do seu peso do m eu torso. Eu o golpeio na virilha com o j oelho e escapo desaj eitada quando ele se curva. A arm a está virada ao contrário nas m inhas m ãos agora. Eu m e esforço para endireitá-la, m as Jam es é m uito rápido. Ele se j oga em m im , envolvendo m eu corpo com os braços e prendendo os m eus dos lados.
— Desculpe — ele diz, as palavras quentes contra a m inha orelha —, m as não posso sim plesm ente deixar que você m e m ate. Vou fazer coisas boas.
Tento atingi-lo no estôm ago com o cotovelo, m as ele está m e agarrando com m uita força. Minha única vantagem é que ele não consegue pegar a arm a sem m e soltar por tem po o bastante para que eu m e contorça e m e liberte.
Estam os em um im passe.
Um de nós vai enfraquecer prim eiro. Tenho m edo de que sej a eu, e não posso apenas esperar que aconteça. Respiro fundo e largo a arm a. Dou um bom chute nela, m andando-a com um baque pelos azulej os até o outro lado do banheiro. Sinto Jam es hesitar, e depois ele m e solta para se j ogar atrás dela. Eu agarro a perna dele, enterrando as unhas nos seus j eans enquanto ele tenta m e chutar para se soltar. Ele está esparram ado pelo chão agora, e eu tenho a vantagem . Posso chegar antes dele até a arm a...
Porém , então, um dos pés dele m e alcança, chutando-m e bem no nariz. Minha visão explode, e acho que escuto o osso quebrar. Minhas m ãos voam para o rosto, e eu uso a m anga do agasalho de Connor para estancar o fluxo quente de sangue.
Quando forço m eus olhos a se abrirem , Jam es está com a pistola. Ele a aponta para m im , seu peito arfando.
— Vá em frente — eu falo. — Eu sim plesm ente vou voltar.
Os olhos dele estão brilhando.
— Eu nunca poderia fazer isso. Não é disso que se trata.
Eu baixo a cabeça, pensando em Marina e em com o fracassei. Toda a vontade de lutar se esvai de m im . O doutor está com ela agora?
— Você vai pensar diferente um dia.
O toque agudo do m eu celular racha o silêncio, e eu dou um pulo. Finn. Mantenho os olhos em Jam es enquanto tiro o telefone devagar do bolso. Ele pode atirar em m im se quiser, m as com certeza vou atender.
Abro o telefone descartável e aperto o botão da cham ada.
— Finn?
Jam es trava os dentes, m as, de resto, perm anece im óvel.
— Ele está com os dois — a voz de Finn está rouca e distorcida do outro lado da linha. — O doutor está com os dois.
As palavras dele sugam todo o ar do lugar. De repente, não há banheiro, nem arm a, nem Jam es, apenas a voz de Finn.
— O que aconteceu?
— O doutor arm ou um a em boscada para eles na rua da casa da Marina. Ele m e deixou inconsciente e, quando acordei, tinham desaparecido.
— Para onde ele levou os dois?
— Não sei — Finn diz. — Tem m ais um a coisa. Ele deixou um bilhete ao m eu lado que diz “traga James ileso”. Você o encontrou?
— Trazer o Jam es para onde? — m inha voz se eleva, histérica. — Onde eles estão? Ele vai m atar os dois!
Im agens de sangue e ossos e dor flutuam diante dos m eus olhos. Minha perm anência neste m undo é tão tênue com a vida de Marina nas m ãos do doutor que eu espero dissolver a qualquer m om ento.
— Não, Em , pense. — A voz de Finn é com o um a corda ancorando-m e à terra. — Se ele quisesse m atá-los, teria feito isso bem ali na rua. Fom os nós que traím os o doutor, então som os nós que ele quer punir. Ele não vai fazer nada com eles até chegarm os lá. Eles são apenas...
— Ferram entas — eu falo.
O doutor sabe que a m elhor m aneira de m e m achucar é por m eio de Marina. Ele vai fazer com ela as coisas que fez com igo. Foram necessários quatro anos para todas as m inhas ilusões a respeito de Jam es serem tiradas, m as ele poderia fazer isso com ela em m eros m inutos.
— Você tem de saber onde ele está, Em — Finn diz. — Ele teria nos dito se não achasse que você conseguiria descobrir.
Eu vasculho m eu cérebro. Jam es tinha lugares preferidos — com o um café na M Street que tinha cadeiras grandes bem m acias, um a m esa favorita ao lado da j anela na biblioteca —, m as nenhum lugar para onde poderia levar dois reféns. Não faço ideia de para onde ele os levou. Vai ficar im paciente e m atá-los, tudo porque não consigo ler a sua m ente.
Oh.
Pânico, ou talvez golpes de m ais na cabeça, deve ter entupido m inhas sinapses, porque eu levo uns bons dez segundos para perceber que tenho outro Jam es sentado bem na m inha frente. Ele ainda está com a arm a apontada para m im , m as não tem convicção. A pistola revela o trem or nas suas m ãos. Ele está corado e desarrum ado por causa da nossa luta, m as está respirando rápido dem ais para que sej a só por causa do esforço físico.
— Espere aí, Finn. Vou até você. — Eu fecho o telefone. — Você deve saber aonde ele iria.
— O que está acontecendo? — Jam es pergunta devagar, com o se estivesse tom ando m uito cuidado para m anter a voz equilibrada.
— É você, do futuro. Você nos seguiu de volta e pegou o Finn e a Marina.
— Por quê?
— Para m e punir. E para evitar que eu faça o que vim fazer aqui.
— Você não quer dizer que ele machucaria os dois?
— Sinto m uito, m as é exatam ente isso que eu quero dizer. — Quase m e arrependo de ter de contar isso a ele. Nenhum a pessoa deveria ser confrontada, de um a única vez, pelas profundezas da escuridão de que é capaz. — Ele vai m atar am bos, porque é a única m aneira de nos fazer parar para sem pre.
O rosto de Jam es é um a m áscara de horror congelada. No que ele está pensando? Está pensando em Marina, no quanto se im porta com ela e em com o vai ficar devastado se algo acontecer a ela? O doutor não ficaria, m as esse m enino talvez ainda fique.
— Nós tem os de aj udá-los — ele diz. — Sei para onde ele os levou.
— Nós?
— Você não consegue fazer isso sozinha, nem eu.
— Por que eu deveria confiar em você?
— Você não tem m uita escolha, tem ? — Jam es fala, bravo. — Não pode encontrar o Finn e a Marina sem m im . Olhe, sei que você acha que eu sou um m onstro, m as eles são as únicas pessoas que restam no m undo com quem eu m e im porto. Não vou deixar ninguém m achucá-los. Então, que tal um a trégua até eles estarem seguros?
Eu o encaro. Ele não é o doutor ainda, m as será um dia. Não tenho com o confiar nele.
Porém , eu penso em Marina. Eu a im agino chorando, sentindo dor, talvez m orrendo e não tenho escolha. Tenho de fazer tudo o que for necessário para aj udá-la.
— Certo — eu digo. — Trégua.
— Ótim o. Mas vou ficar com a arm a.
O Chevrolet roubado ainda está onde eu o deixei. Dirij o enquanto Jam es aponta a arm a para m im .
Prim eiro, vam os a Georgetown pegar Finn. Quando viram os para a m inha velha rua, eu o vej o sentado no m eio-fio, a cabeça entre os j oelhos, com o se o peso da culpa o fizesse se dobrar sobre si m esm o. Ele levanta o olhar com o som do carro se aproxim ando, e vej o um m achucado verm elho feio crescendo na sua m açã do rosto, j untando-se ao roxo no m axilar. Saio do carro antes de ele sequer estacionar.
Finn fica em pé para m e receber, e eu m e atiro nele, j ogando os braços em volta do seu pescoço. Ele cam baleia para trás, m as m e abraça com força.
— Achei que nunca m ais fosse ver você — falo.
— Eu estava bem ali — ele diz —, m as não consegui im pedir o doutor...
— Xiu, não é culpa sua.
Finn fica rígido contra m im . Eu m e viro e sigo o olhar dele até onde Jam es está parado, do lado de dentro da porta aberta do passageiro. Ele está nos encarando com o se entendesse algo pela prim eira vez. De repente, envergonhada, eu dim inuo o aperto em Finn.
— Você sabe que eu tinha de trazer o Jam es — falo baixinho. — E este é o James. Não o doutor. Ele ainda é seu am igo.
— Eu sei, é só que... — Finn aperta os dentes. — Nós deveríam os m atá-lo agora e, assim , o doutor não vai ser um problem a.
Jam es m ostra a arm a em sua m ão, m as não diz nada.
— Merda — Finn m urm ura.
— Ele poderia ter m e m atado quando pegou a arm a — eu falo —, m as não m atou. Ele insistiu em vir resgatar a Marina e o Finn. E com o é o único que sabe onde eles estão e o doutor exigiu vê-lo a salvo, não sei que escolha tem os.
— Não gosto disto.
— Eu sei. Tam bém não, m as não vou perder tem po discutindo.
Ele baixa a cabeça.
— Certo. Vam os.
Jam es entrega as chaves para Finn e entra no banco de trás, de onde pode m anter a arm a apontada para nós dois. Dirigim os para leste em silêncio a não ser pelas orientações ocasionais que Jam es dá.
— Tem um a caneta no porta-luvas? — Jam es pergunta depois de term os avançado por vinte m inutos.
Eu franzo as sobrancelhas, m as ele tem um a arm a apontada para a m inha cabeça, então, verifico.
— Tem .
— Entregue para m im — ele diz. — E o m anual do proprietário tam bém .
Faço o que ele pede.
— O que você vai fazer?
— Não se preocupe com isso.
Jam es se acom oda para poder escrever com um a das m ãos e m anter a pistola apontada para nós com a outra.
— Falta quanto para esse lugar? — eu pergunto.
— Não m uito — Jam es responde. — Meus pais tinham um chalé em Chesapeake. Nate nunca gostou de ir para lá... as lem branças, eu acho... m as, às vezes, eu vou quando preciso pensar. É... silencioso.
A palavra m e faz estrem ecer.
— Finn — Jam es diz.
Depois de um tem po, Finn olha nos olhos dele pelo retrovisor.
— Desculpe — ele fala com a voz baixinha. — Por tudo. Sinto m uito m esm o.
Finn suspira.
— Sei que sente, Jim bo. Mas não é o bastante.
Nós estacionam os ao lado do chalé — que é um nom e m uitíssim o errado, j á que se trata de um a casa vitoriana de dois andares com um a varanda por toda a volta e provavelm ente seis quartos lá dentro — enquanto o sol poente lança seus últim os raios verm elhos acim a do horizonte do m ar. Os faróis do carro varrem as j anelas com cortinas enquanto esm agam os e entrada de conchinhas, e eu im agino o doutor lá dentro com Marina, observando os raios de luz cruzarem as cortinas.
Finn desliga o m otor, m as nenhum de nós se m exe.
— Com o vam os fazer isso? — Jam es pergunta. — Eles não podem ver vocês, podem ?
— Versões passadas de um a pessoa não podem ver suas versões futuras — digo. — Pelo m enos, essa era a sua teoria. Poderia rom per gravem ente o tecido do tem po ou até deixar nossas versões m ais novas m alucas.
— Vou ficar de olhos fechados — Jam es fala. — Então vocês podem m ostrar para ele que estou aqui e seguro.
— Qual é o nosso plano? — Finn diz. — Não vam os sim plesm ente entrar lá, vam os? O que vai im pedir o doutor de m atar a Marina e o Finn?
— Ele vai querer nos fazer sofrer antes — com ento. — Isso vai nos dar algum tem po para...
— Para quê?
— Não sei. — Aperto m eus olhos com os dedos trêm ulos. — O que vam os fazer?
Um grito rasga o ar, sacudindo todos nós.
É Marina.