Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 12 de 40

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Todos os Nossos Ontens

Doze

 

Em

Finn e eu alcançam os o Crown Victoria em um sem áforo especialm ente dem orado e o seguim os a um a distância discreta até a casa de Jam es. Enfio as m ãos sob as pernas para im pedir que fiquem se agitando conform e nos aproxim am os. Vou ver m inha casa de novo. Não a vej o desde a noite em que fugi para encontrar Finn e sair de Washington. Até deixei m inha chave no vaso de flor ao lado da porta da frente depois de trancá-la, porque eu sabia que nunca voltaria.

Observam os da esquina conform e o Crown Victoria vira para a m inha rua. Um grupo de fotógrafos pula nele, e o m otorista pisa no acelerador. Finn vai atrás deles, e m inha casa passa voando tão depressa pela j anela que é pouco m ais que um borrão. Não tenho certeza se estou decepcionada ou aliviada.

— Aonde eles estão indo? — pergunto quando o Crown Victoria vira para o leste.

Ele franze as sobrancelhas.

— Não tenho certeza.

Nós os seguim os por m ais alguns m inutos e então Finn vira abruptam ente o nosso carro para um posto de gasolina. O Crown Victoria passa correndo por um sem áforo aberto em frente a nós.

— O que você está fazendo? — pergunto.

— Colocando gasolina.

— Mas eles estão escapando!

Finn sai do carro e vai pagar o atendente. Abro m inha porta e saio desaj eitada.

— Finn! — eu o cham o. — Finn!

Porém , ele m e dispensa com um aceno e desaparece dentro do posto. Que diabos ele está fazendo? Eu bato a porta e cruzo os braços na frente do corpo, com o se pudesse conter os batim entos do m eu coração em pânico. Cada segundo leva Marina e Jam es para m ais longe de m im e m ais fundo no desconhecido.

Ainda estou apoiada no carro, esperando por Finn, quando ele volta.

— Que diabos foi isso? — eu falo. — Nós os perdem os agora!

— Não, não perdem os. — Ele com eça a abastecer o carro. — Sei para onde estão indo.

— O quê? Para onde?

— Para a m inha casa.

— Ah.

Minha raiva esfria no m esm o instante. Não sei o que dizer. Mesm o quando a situação estava m uito ruim e nós estávam os tentando pensar em um a m aneira de passar pelos pontos de vistoria e sair de Washington, Finn sem pre queria m e encontrar em cafeterias e restaurantes de fast-food. Ele dizia que não queria envolver a fam ília, no que eu acreditava, m as acho que tam bém não queria que eu visse onde ele m orava.

— Você está bem ?

— Sim . É só... — Ele recoloca a bom ba de gasolina. — Aquele pobre m enino. Ele não está pronto para isso.

Dirigim os em um a velocidade m ais calm a agora que Finn sabe com exatidão para onde vam os. Observo as casas do lado de fora da j anela ficarem cada vez m enores, cada vez m ais suj as. Finn não m e contara quão m al sua fam ília estava até estarm os fugindo j untos por alguns m eses e, m esm o assim , foram apenas pequenas dicas no com eço. Não acho que ele estivesse com vergonha exatam ente. Era m ais com o se estivesse com m edo de com o Jam es e eu, e as outras crianças ricas da nossa escola, reagiríam os se soubéssem os, e de que poderíam os tratá-lo de um j eito diferente. Ele tinha razão em se preocupar. A m enina fútil e superprotegida que eu era na época o teria tratado de um j eito diferente, m as, depois de eu e ele estarm os cruzando as fronteiras dos estados na caçam ba de cam inhões e passarm os dias sem ver um sabonete, seu m edo do j ulgam ento e do m eu j eito esnobe logo viraram coisas do passado.

Porém , sua versão de 17 anos, que é tão sensível por baixo do exterior coraj oso, está agora m ostrando para a m inha versão m im ada de 16 anos seu segredo, expondo sua fraqueza para ela. Só posso esperar que ela não o m agoe. Cubro a m ão de Finn onde ela está apoiada no painel entre nós.

Ele estaciona a um quarteirão de distância do Crown Victoria, que está parado do lado de fora de um a pequena casa gem inada, a qual agora sei ser a dele. Com Marina e Finn m ais j ovens ali dentro com Jam es, não há nada a fazer além de esperar. Não podem os arriscar ficar cara a cara com nossas versões m ais novas; tem os de esperar até Jam es estar sozinho.

— Eu queria poder ver a m inha m ãe — Finn diz. — É estranho ela estar bem ali.

Eu faço que sim com a cabeça com o se entendesse, m as não entendo. Não de verdade. Mesm o quando estivem os na frente da m inha casa, m eus pais m al m e passaram pela cabeça. Nunca senti falta deles de verdade depois de fugir. Quando estava com m edo ou cansada e fechava os olhos e desej ava que alguém m e abraçasse e levasse m eus fardos em bora, o rosto ligado àqueles braços era com m ais frequência de Luz ou até de Jam es do que da m am ãe ou do papai. Havia um am argor nisso, um a dor especial que vinha de não sentir a falta deles.

Mas Finn sem pre foi diferente, em especial quando se tratava da m ãe dele. Escrevia cartões-postais para os pais enquanto estávam os fora e os entregava para pessoas que encontrávam os na estrada para enviá-los quando chegassem aonde quer que estivessem indo, para que nós não pudéssem os ser rastreados pelos carim bos do correio. Certa vez, eu o encontrei sentado no escuro do lado de fora de um hotel onde estávam os dorm indo, chorando com o se seu coração estivesse aos pedaços. Já tínham os ido até o inferno fugindo de Jam es, m as aquela foi a prim eira vez que eu o vi chorar. Foi um a noite de prim eiras vezes. Era o aniversário da m ãe dele, ele disse, e nem tinha certeza se ela estava viva ou m orta. Ele m e falou dela pela prim eira vez, e foi a prim eira vez que eu o entendi de verdade.

Tam bém foi a prim eira vez que eu o abracei. Ele m e apertou tanto que pude sentir seu coração bater contra o m eu.

— Apenas pense — falo. — Quando acabarm os aqui, você nunca terá de deixá-la.

De repente, ele fica im óvel de um j eito nada natural. Está olhando para m im , m as seus olhos ficaram vazios, com o se ele não estivesse m ais m e vendo.

— Finn?

Os olhos dele se reviram para trás e as pálpebras com eçam a trem ular em espasm os, a única parte do seu corpo que não está congelada. Coloco a m ão no seu braço, que está rígido ao toque. Quando ele não responde, eu o chacoalho.

— Finn? — falo de novo.

Posso sentir a histeria aum entar dentro de m im . Tenho certeza de que ele está tendo um a convulsão ou algo assim quando percebo que isso deve ter sido o que aconteceu com igo m ais cedo no estacionam ento. Finn foi varrido para algum outro lugar dentro da sua m ente, com o eu, quando vi o dia em que conheci Jam es. Ele deixou de m encionar com o isso é aterrorizante. Finn se foi, e nada além do seu corpo ficou. Eu o chacoalho de novo, em bora saiba que não vai adiantar.

Não tenho certeza de quanto tem po o ataque dura — trinta segundos? Quarenta? —, m as parece m ais tem po. Por fim , ele pisca, devagar, e a luz volta aos seus olhos. Solto a respiração que estava segurando.

— Em ? — ele diz.

— Você está bem ? — Tento parecer calm a. — Você m eio que sum iu por um m inuto.

— É, acho que sim .

— Você viu algum a coisa? — pergunto. — Foi um a lem brança?

Ele esfrega a m ão pelo rosto e faz que sim .

— Foi aquela casa onde ficam os por algum as sem anas em Delaware. Lem bra? Foi logo depois do ataque em Providence, e todo m undo estava m orrendo de m edo. Pete e eu estávam os assistindo ao noticiário no porão. Foi a noite quando o presidente anunciou que o Congresso havia aprovado o Ato Patriota IV. Eu fui acordar você para assistir com a gente.

— Eu m e lem bro — falo.

Eu o tinha em purrado por ter m e acordado, m as ele pegou a m inha m ão e m e contou baixinho as novas leis que o Congresso aprovara no m eio da noite. Nenhum a viagem internacional não autorizada, punições m ais fortes para cidadãos que se recusassem a apresentar carteiras de identidade aprovadas pelo governo, um a revogação do banim ento do policiam ento m ilitar nas ruas dos Estados Unidos. Nós dois sabíam os que Jam es estava por trás daquilo.

— O que foi isso? Por que isso fica acontecendo? — pergunto.

Ver Finn ser arrancado de m im daquele j eito, sentir-m e tão repentinam ente sozinha em um m undo que não é m eu de verdade, deixou-m e abalada.

— Não sei — ele diz.

Nós nos sentam os em silêncio e olham os fixo para a pequena casa gem inada verde m ais à frente na rua, e eu cruzo os braços para afastar o frio do ar gelado que entra pela j anela quebrada. Não quero m e lem brar dessas coisas. Mas Jam es sem pre disse que o tem po é com plicado, que tem um a m ente própria. Talvez esse sej a seu j eito de nos punir por brincar com ele.

Finn acaba pegando no sono, a testa apertada contra o vidro. Sério, ele consegue dorm ir em qualquer lugar. Meus olhos estão pesados e coçando, m as continuam fixos na casa. Minha determ inação voltou. Não quero que Marina tenha de um dia se esconder em Lugar Nenhum , Delaware, e observar o m undo acabar em um a televisãozinha antiga em um porão que cheira a m ofo e purificador de ar velho.

Tento im aginar o que Marina está fazendo neste m om ento. É tão estranho ela estar vivendo agora coisas que eu nunca vivi. Faz com que eu m e sinta distante dela — de m im — com o se fôssem os duas pessoas diferentes. De certa form a, agora som os, eu acho.

O que é m ais ou m enos o obj etivo de tudo isto.

Marina enfim viu o segredo de Finn, que ele escondeu de m im com cuidado por tanto tem po. Talvez ela até tenha conhecido a m ãe dele, de quem ele só falaria para m im quando estivesse escuro e silencioso e ele pudesse falar sussurrando, com o se m antê-la em segredo entre nós e a noite de algum a form a a protegesse. Marina consolou Jam es depois de o irm ão levar um tiro, algo que eu fiz certa vez, e depois de alguém atirar nele tam bém . Pelo que sei, ela poderia estar fazendo qualquer coisa agora: dorm indo ou tom ando banho ou reservando um a passagem de avião para Buenos Aires.

A ideia m anda um trem or pela m inha espinha. Ela está bem , dentro daquela casa, afastada de m im ? De repente, tenho de saber. Não suporto esta sensação de separação de m im m esm a.

Em silêncio, com cuidado para não acordar Finn, que só m e diria que ideia m onum entalm ente terrível é essa, eu desdobro os braços e pernas congelados e saio do Honda. Não fecho a porta atrás de m im , só a deixo encostada. Os agentes designados para proteger Jam es ainda estão acam pados em frente à casa de Finn, m as a rua está deserta e silenciosa de m anhã tão cedo. Pulo a cerca para o quintal dos fundos da casa da esquina. Essa é um a vantagem das casas gem inadas: não há espaços entre elas onde os agentes poderiam ter um vislum bre de m im , aproxim ando-m e da casa dos Abbott. Desde que eu fique em silêncio, eles nunca saberão que estou aqui. Os quintais são separados por cercas de grade, que são fáceis de escalar, e logo estou no pequenino quintal de Finn, onde a gram a é ainda m ais alta do que na frente. Subo os degraus dos fundos devagar, congelando quando um range sob o m eu peso. Subo os outros dois degraus com cuidado, m antendo os pés o m ais perto possível das bordas.

Aproxim o-m e de um a das j anelas, que está escura de poeira e com a m alha de um a tela preta.

Dentro, há um a m ulher na cam a, um a m alha grande dem ais cobrindo seu corpo, o cabelo puxado em um rabo de cavalo bagunçado. Ela tem as cores de Finn e é óbvio que j á foi bonita, antes de a doença ter deixado sua pele desbotada e as bochechas afundadas. Ela está assistindo à televisão, trocando de canais sem interesse, com o se j á tivesse passado por eles um a dúzia de vezes.

Não fico m uito tem po à j anela. Espionar a m ãe de Finn dessa m aneira m e faz sentir com o algum tipo de ladra.

Em vez disso, vou na ponta dos pés até a segunda j anela e espio lá dentro.

O que eu vej o faz m eu coração parar.