Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 13 de 40

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Todos os Nossos Ontens

Treze

 

Marina

Eu fico dorm indo e acordando. Estou exausta, m as não consigo ficar confortável e desligar m eu cérebro. Talvez estej a exausta demais. Ganho e perco a consciência, sonhando que ainda estou no hospital e acordando na tentativa de pegar coisas que não estão lá antes de adorm ecer de novo.

Em algum m om ento, abro os olhos e a sonolência som e por tem po o bastante para eu perceber que estou com sede. Levanto e passo devagar por cim a de Finn, que está dorm indo profundam ente no chão, o rosto tão afundado no travesseiro que não tenho ideia de com o ele está respirando. Entro na cozinha e bebo direto da torneira, fazendo um a concha com as m ãos sob o fluxo, m uito confusa pelo sono para m e dar ao trabalho de procurar um copo. Tom o gole depois de gole da água, que está quente dem ais para ser refrescante, m as tem um gosto quase doce na m inha língua sedenta.

— Finn, é você?

Eu m e endireito e fecho a torneira.

— Não, sra. Abbott. É a Marina.

— Oh, venha aqui! — ela diz. — Quero dar um a olhada em você.

Cam inho de pés descalços na direção da porta do quarto principal e a em purro. A sra. Abbott está deitada, encostada em um m ar de travesseiros. Há um a barra ao longo do lado da cam a dela, que m e dá um flashback terrível de Nate no hospital, parecendo pálido e ausente. Na verdade, há barras por todo o quarto e um andador perto do criado-m udo, que está lotado de frascos de com prim idos. De repente, o com portam ento de Finn no hospital faz sentido.

— Ah, Marina — ela diz.

Ela se parece com Finn — loira, olhos azuis, com a m esm a curva m aliciosa nos lábios —, m as parece desbotada, com o um a fotocópia ruim de si m esm a.

— É tão bom enfim ligar um rosto ao nom e. Finn m e falou tanto sobre você.

— É m esm o?

Eu fico inquieta à porta, sentindo-m e insegura e boba. Nunca estive perto de um a pessoa doente antes. E... Finn contou a ela sobre m im ?

— Ah, sim — ela fala. — Você e Jam es são praticam ente tudo de que ele fala.

Não sei o que dizer. A sra. Abbott se esforça para se sentar m ais ereta contra os travesseiros, e acho que talvez eu deva oferecer aj uda, m as não consigo sair deste lugar.

— Isso é bom ... — eu com ento.

— Bem . — A sra. Abbott sorri para m im . — Vou deixar que você volte a dorm ir. Foi bom conhecer você.

Eu engulo em seco.

— Foi bom conhecer a senhora tam bém .

Fecho a porta e m e viro de volta para a sala de estar, m as m eu olhar vai para a porta do quarto de Finn. Jam es conseguiu adorm ecer? Não gosto da ideia de ele estar ali acordado e sozinho. Finn pode achar que estou sufocando Jam es, m as eu o conheço m elhor do que Finn, e ele não deveria ficar sozinho agora. Além disso, da últim a vez que eu o deixei sozinho, ele levou um tiro. Bato na porta com um dedo dobrado, com leveza o bastante para não acordá-lo se estiver dorm indo.

— Entre, Marina.

Em purro a porta e o vej o sentado na cam a de Finn, o cobertor torcido em volta dos pés.

— Você dorm iu? — pergunto.

— Um pouco, eu acho — ele responde —, m as m inha m ente fica dando voltas. Eu só... não acredito que as coisas tenham m udado tanto tão depressa.

Eu m e sento ao lado dele na estreita cam a de solteiro, que afunda com o m eu peso, inclinando-o para m im .

— Eu sei.

— Se ele m orrer... — Jam es olha fixo para a frente, para algo que não consigo ver. — Não posso viver em um m undo sem o Nate.

— Ele vai ficar bem — eu digo, em bora as palavras pareçam vazias na m inha língua. — Tudo vai ficar bem .

A expressão de Jam es desm onta, com o a fachada de um prédio desabando em um a pilha de tij olos, e ele com eça a chorar com as m ãos no rosto. Estou aliviada. Soluços fortes chacoalham o corpo todo dele, m as são m uito m ais fáceis de aceitar do que o rosto im passível e os olhos m ortos que ele estava m ostrando havia horas. Eu o abraço, e ele se encosta em m im .

— Você pode ficar? — ele pergunta.

Faço que sim com a cabeça, e nós nos deitam os na cam a. Os braços dele se dobram em volta da m inha cintura e ele enterra o rosto na curva do m eu pescoço. Nunca estive tão perto dele, e sou um a pessoa terrível por gostar um pouco disso. Quantas noites fiquei deitada na cam a sozinha, im aginando Jam es ao m eu lado? Na noite passada m esm o, eu estava planej ando fazer sexo com ele. Minha m ente sabe que isso é apenas um a im itação doentia das m inhas fantasias, m as m eu corpo não entende m uito bem . Ele está tão quente. Subo e desço a m ão pelas costas dele e tenho certeza de que não seria tão gostoso assim com m ais ninguém .

Quando os soluços dele com eçam a dim inuir, Jam es deixa um beij o no canto do m eu rosto e apoia a testa contra m inha têm pora.

— Não sei o que eu faria sem você, m enina — ele sussurra.

Meu peito se aperta em um a bola quente, form igando.

— Nem eu sem você.

Jam es m e beij a de novo, desta vez na bochecha, a apenas um suspiro do canto da boca. Ele se dem ora ali, a boca pairando a poucos centím etros da m inha. Minha m ente fica vazia e confusa, o m undo se restringe ao espaço entre nossos lábios.

Ele se afasta, apoiando a cabeça no m eu om bro, e eu puxo um fôlego cortante. Meu Deus, acho que eu não estava respirando esse tem po todo. Eu deveria m e levantar, voltar ao sofá, m as Jam es está pesado contra m im , seu corpo apertado ao m eu do om bro ao j oelho. Sua respiração ficou m ais lenta e acho que ele pode ter enfim adorm ecido.

Ele pode não ter m e beij ado de verdade. Mas talvez eu sej a exatam ente do que ele precisava.

Fecho os olhos.

 

Em

Eu encaro os dois, enrolados um no outro, até o vento im placável fazer m eus olhos ficarem m arej ados e em baçados.

Eu poderia atirar agora m esm o. A arm a está enfiada na parte de trás do m eu cinto. Eu poderia tirá-la e atirar em Jam es através da j anela e acabar com isso para sem pre.

Porém , ali está Marina enrolada ao lado dele, seus dedos agarrando-o m esm o no sono, e eu m e lem bro vividam ente de com o era ser aquela m enina, agarrar com aqueles dedos, estar perto daquele m enino. O toque e o cheiro dele. O quanto ela — eu — o am ava.

Puxo a arm a do cinto e seguro-a em frente a m im . Está quente por ter ficado apertada contra m inha pele, e m inhas m ãos de repente estão m olhadas conform e dobro os dedos em volta da pistola. Solto a trava de segurança e o clique baixinho é com o um a explosão para os m eus ouvidos.

Eu deveria fazer agora. Poupar-m e e poupar Finn de viver m ais dessa infelicidade. Em cinco segundos, tudo poderia acabar. Eu não vou existir m ais para m e arrepender desse passo terrível que fui forçada a dar.

Jam es se m exe dorm indo, puxando Marina m ais para perto.

Eu fecho os olhos. Ver os dois m e enfraquece. Tento m e lem brar de que aquele m enino na cam a j á se foi. O hom em que usa seu rosto no futuro foi torcido e deform ado até ficar irreconhecível, até ficar cruel por causa da am bição e da determ inação perversa de fazer o que acha certo.

Aperto a arm a nas m ãos enquanto im agino Luz, m inha querida Luz, descartada com o lixo. Vivianne m orrendo em um acidente de carro no m eio da noite na estrada Baltim ore-Washington. A sra. Abbott, que não terá m ais nada do filho além de alguns cartões-postais rabiscados. Finn gritando enquanto o torturam por inform ações que ele não tem . Todas as pessoas que vão sofrer e m orrer por causa de Jam es.

Abro os olhos e vej o os dois, deitados j untos naquela cam a, tão belam ente alheios ao que está prestes a despencar sobre a cabeça deles, e ergo a arm a. Sessenta centím etros, talvez m enos, separam o cano da cabeça de Jam es. Vai ser rápido.

Meus olhos vagam até Marina. Meu Deus, eu algum dia fui assim tão j ovem ? Não tenho certeza do que vai acontecer depois de eu disparar a arm a. Finn e eu vam os deixar de existir, nossa linha do tem po encerrada j unto com a vida de Jam es, m as onde — ou quando — Marina vai acordar? Ela vai ver o que eu fiz? A ideia m e faz estrem ecer. Isso a destruiria.

Talvez eu possa lhes dar m ais um m om ento j untos.

Com eço a baixar a arm a e, conform e o cano se inclina na direção do chão, um a sensação fam iliar agarra m inha barriga com o um a m ão fria. Não tenho tem po para entrar em pânico ou resistir antes de ela m e puxar para trás.

Para trás e para trás e para trás.

Eu caio em m eio ao nada a um a velocidade desnorteante. Quando enfim abro os olhos, estou na pequena cela branca que foi m eu lar por tantos m eses.

Jam es está sentado em frente a m im . Sua m ão segura levem ente um a arm a de choque.

— Por favor, Marina — ele diz. — Diga onde os docum entos estão. Aí eu posso aj udar você.

— Ah, é m esm o? — eu falo. — Do j eito que aj udou a Vivianne? Ou a Luz?

Ele enrij ece.

— Aquilo não foi m inha culpa. Eu nunca teria...

— A Vivianne está m orta, Jam es! — eu grito, a voz saindo do m eu controle. — Acho que ela sabia dem ais, m as a Luz nem sabia nada e, quando ela não pôde dizer onde nós estávam os, você m andou que ela fosse colocada em um cam po de detenção. Por atividades terroristas!

Lágrim as ardem atrás dos m eus olhos conform e eu vacilo entre tristeza e raiva, pensando em Luz, seu rosto cansado por se im portar dem ais e suas m ãos fortes e gentis.

— Um a senhora doce que nunca recebeu nem m ulta de trânsito, aprisionada com o terrorista. Aquela m ulher am ava você, e você arruinou a vida dela só porque podia!

Ele se levanta tão depressa que as pernas da cadeira arranham o concreto. Posso ver a tensão torcida em seu corpo, pronta para estourar, enquanto ele abre e fecha os punhos de novo e de novo. Por um segundo, ele poderia ser o Jam es que eu am ava, andando pela cela enquanto tenta resolver algum enigm a m ental, m as a linha do seu queixo é m uito dura, a expressão nos olhos, m uito fria.

— Fiz isso porque precisava que você entendesse com o é im portante você entregar os docum entos — ele diz. — Se alguém colocar as m ãos neles, as consequências estão além da sua im aginação!

— É, eu nunca fui inteligente o bastante para entender nada disso — respondo com um sorriso triste. — Acho que não entendo com o plantar bom bas por todo o país vai nos deixar m ais seguros. Ou com o sua j ornada para salvar o m undo está fazendo algum a outra coisa além de servir o seu ego. Com o sou boba.

Ele baixa o olhar para m im e realm ente parece triste.

— Por favor. Vão m achucar você.

Eu o encaro tam bém .

— E você vai deixar.

Ele se vira para o outro lado.

— Às vezes, você tem de m achucar alguém que am a pelo bem m aior.

— Por que é você quem decide qual é o bem m aior? — eu pergunto. — Você está falando de pessoas, não apenas núm eros em um a das suas equações. Você não entende isso? Algum dia entendeu?

O rosto dele não m uda.

— Só m e conte o que você fez com os docum entos.

Eu cuspo nos pés dele.

Ele suspira e bate na porta da m inha cela, cham ando o guarda. Eu o vej o engolir em seco antes de dizer:

— Faça com que ela fale.

O guarda faz que sim com a cabeça e m e dá um tapa com as costas da m ão com tanta calm a com o se o tivessem m andado fazer a cam a. Ele m e bate de novo e de novo.

— Jam es! — Eu choro quando ele segue para a porta.

Ele para, m as depois fecha a porta da cela deslizando-a sem olhar para m im , deixando-m e sozinha com o guarda. Nesse m om ento, j uro para m im m esm a que nunca vou dizer seu nom e de novo. Jam es se foi. Agora há apenas o doutor.

Volto a m im ofegando. Estou deitada na varanda dos Abbott, contorcendo-m e com a dor de lem brar a surra, a arm a ao m eu lado. Por quanto tem po apaguei? Aj oelho-m e desaj eitada e espio dentro do quarto.

Marina e Jam es se foram .