Todos os Nossos Ontens
Quatro
Marina
QUATRO ANOS ANTES
Eu descasco o esm alte rosa da unha do m eu polegar distraidam ente, enquanto olho para a entrada da casa ao lado, e Tam sin bate na m inha m ão.
— Pare com isso! — Ela exam ina a unha e suspira. — Vou ter de refazer essa.
— Estava desigual de qualquer form a — digo. — Vou sobreviver.
Sophie, que está esparram ada na m inha cam a, não tira os olhos do telefone quando diz:
— Pelo m enos ela não rói m ais as unhas.
— É, né? Que noj o.
É claro que eu ainda roo às vezes, m as tenho o cuidado de não fazer isso perto das m inhas am igas. Ainda não consigo m e acostum ar com a sensação do esm alte, é com o se m inhas unhas estivessem sufocando. Mas Tam diz que está se concentrando na m inha cor perfeita, algo para acom panhar o roxo “Sophie Sofisticada” e o verm elho vivo “Tam -ta Beleza”.
— Marina... — Tam sin diz enquanto aplica um a cam ada nos dedos da m inha m ão direita. — Marina... Seu nom e não rim a com nada.
Sophie levanta a cabeça de repente:
— Aqua Marina!
— Bem , dã, m as estou pintando as unhas dela de rosa, gênio. Com bina m ais com cabelos castanhos.
Estou ouvindo sem m uita atenção, m eus olhos vagando para a j anela e a casa ao lado. Tam sin levanta o olhar e m e flagra.
— Ele não apareceu desde que você verificou, há dez segundos — ela diz, lançando-m e um sorriso m alicioso.
Penso em m e fingir de boba, m as acabo apenas revirando os olhos.
— Cale a boca.
Não há por que fingir que não estou esperando Jam es chegar em casa. Recebi apenas um a m ensagem de texto dele nas três sem anas em que ficou fora, para m e avisar que voltaria hoj e de Connecticut. Norm alm ente, nós estaríam os trocando ligações e m ensagens o tem po todo em que ele ficou longe, m as isso seria m uito estranho por causa do que aconteceu antes de ele partir.
— Ele com certeza vai convidar você para sair — Sophie diz, cruzando o quarto até m eu arm ário, onde com eça a procurar entre as m inhas roupas. —
Não acredito que você vai ser a nam orada do Jam es Shaw!
— Não sei... — digo.
Eu sou apaixonada por Jam es há tanto tem po que nem lem bro m ais, m as nunca tive nenhum a esperança de ele sentir o m esm o. Considerando quem ele é e quem eu sou, é quase im possível.
— Ah, por favor.
Tam sin sopra m inhas unhas recém -pintadas de rosa.
— Ele quase beij ou você e, para o Jam es, isso é, tipo, praticam ente um a proposta de casam ento. Ele nunca beij ou um a m enina antes.
Eu duvido, m as m esm o a ideia de Jam es beij ar outra m enina faz m eu estôm ago doer.
— Mas ele nem falou com igo desde então! Não quer dizer que ele se arrepende?
— Não, ele só surtou quando percebeu que está loucam ente apaixonado por você — Tam sin diz. — Mas agora que ele teve tem po para o seu grande cérebro entender isso...
— Aposto que não é a única coisa grande nele — Sophie fala, balançando as sobrancelhas.
Tam sin solta um gem ido e diz:
— Noj enta!
Porém , Sophie apenas ri e puxa m inha nova m alha de casim ira, verificando seu reflexo no espelho.
— Estou falando sério! — ela diz. — Você sabe que vai ter de dar o prim eiro passo com ele, certo?
— Com certeza — Tam sin concorda. — Mas vá com calm a.
— Com o eu faço isso? — pergunto. Fico trêm ula e suada só de pensar nisso. — Nem todas nós passam os por tantos garotos para achar tão fácil.
— Com aquele garoto? — Sophie diz. — Com certeza deve ser fácil.
Sophie solta gem idos obscenos e beij a as costas da m ão, e Tam sin e eu rim os. Isso é o m elhor em Sophie; ela nunca tem m edo de parecer boba. Talvez porque ela m eio que é. Enquanto isso, Tam sin, com seu sotaque britânico chique e visual de estrela de Bolly wood, instantaneam ente torna tudo o que ela faz ou diz m uito legal, e, assim , sou apenas eu, na verdade, que estou sem pre com m edo de fazer papel de boba. Não suporto voltar a ser a babaca sem am igos que eu era antes.
Ouço um a batida na porta do m eu quarto, e Sophie leva as m ãos à boca.
— Seus pais estão em casa? — ela sussurra.
Faço um aceno com a m ão.
— É só a Luz. Entre!
Luz, que é nossa faxineira desde quando eu era pequena, enfia a cabeça pela porta.
— Estou indo para casa, mi querida — ela diz. — Você fica bem até sua m ãe chegar?
Tam sin ri, e eu fico dura.
— Tenho 16 anos, Luz — digo. — Acho que dou conta.
Vej o um olhar desconcertado passar pelo rosto dela e, por um instante, sinto-m e m al. Luz é um a das poucas pessoas no m undo que m e am am de verdade, m as eu queria que ela não m e tratasse com o um a criancinha. É constrangedor.
— Tem em panadas na geladeira se vocês quiserem um lanche, m eninas — ela diz.
— Certo — falo, sabendo que não há chance de com erm os em panadas.
Ela parece prestes a dizer m ais algum a coisa — com o durma bem ou você come muito pouco ou eu te amo — e, assim , eu m e adianto:
— Tchau, Luz.
— Boa noite, mi querida.
Quando ela vai em bora, Tam sin com eça a fazer as próprias unhas e Sophie experim enta alguns vestidos que eu com prei na nossa últim a ida ao shopping. Todos eles ficam largos no corpo perfeito dela. Decido não com er nada além de salada pela sem ana seguinte antes de as aulas com eçarem .
Olho para a casa dos Shaw de novo. Um a equipe veio tirar a neve da entrada e da calçada esta m anhã em preparação para a volta do congressista. A qualquer segundo, um elegante carro preto de aluguel vai chegar. Vai acontecer quando eu contar até cinco.
Vou riscando os núm eros na m inha m ente, elim inando-os. Três, quatro... cinco.
Nada.
Estendo a m ão para o m eu telefone e disparo um a m ensagem para nossa am iga Olivia, que está na Suíça com os pais durante o feriado. Ela m e convidou para ir com eles, m as decidi não ir só para estar em casa quando Jam es voltasse. Sou tão idiota. Onde quer que ele estej a, Jam es não está agitado de ansiedade para me ver de novo, repassando na cabeça o m om ento três sem anas antes quando sua boca ficou a dois centím etros da m inha antes de se afastar. Sou popular e razoavelm ente inteligente e m uito independente; não preciso ficar obcecada por um m enino assim , com o um a menininha patética.
Tam sin e Sophie ficam em casa até m inha m ãe chegar da reunião de planej am ento para o evento de caridade da orquestra e bater a porta da frente depois de entrar. O som ecoa pela escada acim a e, de repente, o ar fica tenso e espesso, com o se m am ãe tivesse trazido um a tem pestade consigo. Não dem ora m uito para m inhas am igas decidirem dar o fora. Eu só queria poder ir com elas.
— Manda um a m ensagem para m im depois, com binado? — Tam diz da porta da frente. — Quero saber o que aconteceu.
— Você vai ser a prim eira a saber.
Sophie m e dá um beij o na bochecha.
— Vá pegá-lo, tigresa!
— Ai, m eu Deus, você é tão boboca — eu digo, em bora m eu estôm ago se aperte.
Eu a em purro para fora e aceno enquanto elas entram no Cabriolet de Tam . Ela não deveria dirigir sem um adulto, j á que não tem idade suficiente para ter carteira de m otorista ainda, m as sem pre sai escondida da garagem com ele quando seus pais não estão em casa. Fecho a porta com m uito cuidado depois de elas saírem , tentando não fazer barulho, e vou depressa para a escada.
— Marina? — m am ãe cham a do seu estúdio nos fundos da casa.
Eu solto um gem ido e paro no quarto degrau. Quase.
— Sim ?
— Não grite pela casa; venha aqui!
Eu reviro os olhos, irada, e quase não evito gritar de volta que foi ela quem com eçou a gritaria. Vou batendo os pés até o estúdio, onde m am ãe faz pinturas que ninguém quer com prar e que, inevitavelm ente, vão acabar penduradas em um dos nossos quartos de hóspedes. Acho que ela chegou m esm o a sonhar em ser um a grande artista um dia, no entanto, o m ais perto que ela chega disso agora é organizar arrecadações para a Galeria Nacional.
— O que foi? — eu falo.
— Olhe com o fala — ela diz, m isturando alguns verm elhos na sua paleta. — Você falou com seu pai hoj e?
Seria de se im aginar que nesta era de e-m ails e telefones celulares eles não fossem precisar me usar com o m eio de com unicação, m as, nos últim os tem pos, só parecem falar com igo com o form a de passar m ensagens um para o outro.
— Não.
— Pode ligar para ele, por favor, e perguntar se ele planej a vir para casa para o j antar?
— Por que você não pode ligar?
Ela m e olha com frieza por cim a da tela.
— Estou trabalhando aqui, Marina.
Com o se as pinturas fossem tão im portantes para ela. Ela passa horas planej ando festas para um m useu ou hospital, ou no salão fazendo luzes no cabelo, m as, no segundo em que chega em casa, tem de se trancar no estúdio.
Acho que ela sim plesm ente não suporta ficar perto de m im .
— Está bem .
Eu m e viro para sair.
— Não m ande m ensagem de texto! — ela grita para m im . — Você sabe que ele nunca responde!
Eu digito o núm ero do escritório do papai enquanto subo a escada de volta para o m eu quarto. Ele sem pre dem ora m uito para atender e, assim , coloco o telefone no viva-voz e o apoio na m inha côm oda enquanto visto o pij am a. A m am ãe odeia quando eu j anto de pij am a. Este foi presente da Luz, e m inha pele suspira de alívio quando tiro os j eans skinny sufocantes que Tam sin insistiu que eu com prasse e coloco a roupa de fleece barata e m acia. Sinto um a breve pontada ao m e lem brar do rosto de Luz quando fui grosseira com ela. Deixando de lado seu gosto duvidoso para pij am as, eu am o de verdade aquela m ulher. Ela é um a das poucas pessoas que não transform am em um segredo com pleto o fato de se im portar com igo, m esm o que isso signifique que ela m e constranj a para caram ba sem pre que tem a oportunidade.
Depois de cerca de 14 toques, papai enfim atende o telefone.
— O que foi, querida?
— A m am ãe quer saber se você vem j antar em casa.
— Acho que não.
Consigo ouvi-lo digitando ao fundo.
— A lira foi direto para o inferno hoj e. A Itália vai precisar de alguém para livrá-la dessa, m as a Alem anha não está entrando no j ogo. Graças a Deus, o euro nunca foi para a frente; o continente todo estaria ferrado.
Ele não está falando com igo de verdade, o que não é problem a, porque tam bém não estou ouvindo de verdade.
— Certo, vou falar para ela.
— Nós vam os sair cedo am anhã — ele diz —, então, talvez eu não vej a você. Falei com a Luz e ela vai ficar aí enquanto não estiverm os...
— Pai! Nós conversam os sobre isso!
Meus pais partem para Vail por algum as sem anas depois do Natal todo ano. Pensei que talvez deixassem passar este ano, j á que estão brigando tanto, m as decidiram que seria um a boa oportunidade para eles “recuperarem a conexão”. Noj ento. Eu ando até a j anela e olho para a entrada da casa dos Shaw.
— Não sou m ais um a criancinha. Posso ficar sozinha.
— Desculpe, querida, m as eu sim plesm ente não fico tranquilo com isso. A Luz vai...
Paro de ouvir quando luzes de faróis varrem o quintal e um carro escuro para na entrada da casa dos Shaw. O girl-power-urrú que convoquei m ais cedo evapora com a onda de adrenalina. James chegou.
— Certo, pai — eu falo, cortando algum a explicação sobre roubos pós-Natal e festas de colegiais. — Preciso ir, tchau.
Desço as escadas correndo e enfio os pés descalços em m inhas botas de neve, que Luz lim pou e deixou ao lado da porta. Pego m eu casaco no arm ário e o coloco com dificuldade, de repente desaj eitada.
— Vou até o vizinho! — grito para m am ãe antes de fechar a porta.
Desço com cuidado os degraus congelados da frente e, depois, corro pelo quintal, atravessando a neve pelos calcanhares, escorregando na gram a m olhada em baixo dos m eus pés, até a porta dos Shaw. Aperto a cam painha duas vezes, com o sem pre fiz, e enfio a m ão nos bolsos enquanto espero.
A porta é aberta e ali está Jam es, todo alto, m oreno e m aravilhoso. Ainda é m eio um choque vê-lo assim . Alguns anos atrás, ele era apenas o m agrelo das ciências com orelhas grandes dem ais que estava m ais interessado em resolver equações m atem áticas do que em ir a festas e fazer am izade com o resto dos colegas. Em bora ele fosse um Shaw, eu costum ava ser a única que se sentava com ele durante o alm oço.
Depois, praticam ente da noite para o dia, Jam es cresceu, ficou proporcional às orelhas e se tornou gostoso. Todos queriam a atenção dele, porque, aparentem ente, as pessoas podem ignorar sua nerdice extrem a depois que seu perfil é publicado pela Vanity Fair. Para m inha sorte, ele continua tão esquisito e antissocial quanto sem pre foi.
A m enina que eu era algum as sem anas antes teria se j ogado nos braços dele assim que ele abriu a porta, m as, de repente, não sei o que fazer com igo m esm a. Encaro os lábios que estiveram tão perto dos m eus e sinto com o se tivesse virado um a daquelas bonecas de casca de espiga de m ilho que fazíam os no ensino fundam ental, quebradiça e frágil ao toque. Tudo está diferente agora.
Jam es m e puxa em um abraço e bagunça m eu cabelo.
— Ei, m enina.
Certo, não tão diferente. Talvez o quase beij o nunca tenha acontecido. Talvez eu o tenha im aginado.
Sou tão idiota.
Jam es se afasta e abre um sorriso largo para m im .
— Pij am a legal.
Eu dou um soco no braço dele e forço um sorriso.
— Cale a boca. Foi presente de Natal da Luz.
— O que são, renas dançarinas? — Ele se inclina para exam inar a estam pa extravagante m ais de perto. — Gostei delas.
— Vai m e convidar para entrar ou não? Estou congelando aqui fora.
Ela dá um passo para o lado e m e faz entrar com um aceno da m ão.
— É você, Marina? — o irm ão de Jam es, Nate, cham a do andar de cim a.
— Bem -vindo de volta, congressista!
Sigo Jam es pelo foy er até a cozinha nos fundos da casa. Depois de chegarm os lá, Jam es tira um pote de sorvete de chocolate com pedaços de chocolate do congelador, e eu sorrio. Ele é um a form iguinha.
— Não está m eio frio para isso? — digo.
— Nunca.
Ele m e entrega um a colher e coloca o pote no balcão entre nós.
— Então, com o estão as coisas, Marchetti?
Você saberia se tivesse conversado comigo nas últimas três semanas.
Eu contorno a ilha da cozinha até parar ao lado dele.
— Fique parado. Quero olhar para você.
Ele abre um sorriso largo e se endireita, j ogando os om bros para trás. É uns bons 20 centím etros m ais alto do que eu, com pernas e braços longos que fizeram dele o m elhor nadador da Sidwell durante os 15 m inutos em que esteve lá. Seus cabelos escuros estão um pouco m ais longos do que eu m e lem bro, m as perfeitam ente arrum ados com o sem pre, e os olhos castanho-claros ficam tão brilhantes quando ele sorri para m im que eu j uro que m eus j oelhos fraquej am .
— Sim — eu falo, virando-m e para enterrar m inha colher no sorvete cada vez m ais m ole. — Continua feio.
Ele ri.
— Obrigado.
— Você tam bém não parece m ais inteligente. Tem certeza de que aquela escola chique está aj udando em algum a coisa?
Jam es fica corado — corado de verdade, o que não acontece realm ente com quase ninguém —, porque ele não apenas é um gênio, m as é um gênio hum ilde. Não gosta que as pessoas apontem quão especial ele é, que se form ou no ensino m édio três anos antes e, agora, antes m esm o de com pletar 18 anos, j á está trabalhando no seu doutorado na Johns Hopkins.
— Na verdade — ele diz —, tem algo que eu preciso falar para você.
Sou aquela boneca vazia de casca de espiga de m ilho de novo, o sopro m ais suave m e faz farfalhar e rachar. Talvez Tam sin estivesse certa, no final das contas. Ele só está tentando fingir que a situação é a m esm a de sem pre porque está nervoso — Jam es não é exatam ente um m odelo de pessoa bem -aj ustada socialm ente —, m as quer m e dizer com o se sente de verdade. Só preciso aj udá-lo a fazer isso, dar o prim eiro passo.
— É? — eu falo. — Eu tam bém .
Ele parece aliviado.
— Você prim eiro.
— Certo — digo.
Depois, m inha m ente fica em branco.
Eu devia ter treinado isso. Devia ter pedido a Tam sin e Sophie para m e ensinarem exatam ente o que dizer. Gasto segundos preciosos repassando o que aconteceu na m inha cabeça. Era a noite do baile de inverno da escola, e Jam es iria para Connecticut no dia seguinte. O baile foi um desastre. Meu salto quebrou dez m inutos depois de chegarm os, Sophie bebeu m uito ponche com álcool e passou m etade da noite vom itando, e Tam sin term inou com Asher de um j eito dram ático antes m esm o de a prim eira dança lenta ter acabado. Depois disso, m eu acom panhante — Will Denby, com quem eu não queria ter ido, para com eço de conversa, m as é claro que Jam es estava ocupado dem ais com os estudos para m e levar — ficou, tipo, fisicamente incapacitado de não dar em cim a dela, e eu acabei sentada sozinha a um a m esa no canto do salão, observando os dois dançarem . Fugi para o estacionam ento descalça, segurando m eus sapatos quebrados em um a m ão e o celular na outra.
Eu sabia que ele estava no m eio de um grande proj eto para o Dr. Feinberg, m as liguei para Jam es m esm o assim .
— Desculpe — falei, quando ele atendeu ao telefone. — Sei que você está trabalhando...
— O que foi? — ele sussurrou. Devia estar na biblioteca. — Você está bem ?
— Estou bem — m enti, a voz engasgada entregando-m e.
— Vam os lá, Marina.
— Bem ...
Respirei fundo e a história j orrou de m im .
— A Sophie está passando m al e a Tam está dançando com o m eu acom panhante e tudo está horrível! Além disso, eu quebrei o m eu sapato.
— Fique aí. Eu estou indo buscar você.
Não senti m ais o cascalho contra m eus pés. Estava flutuando.
— Jam es, não precisa...
— Vinte m inutos.
Ele apareceu em um táxi 15 m inutos depois com um tubo de cola potente na m ão. Consertou m eu sapato enquanto o táxi nos levou para o The Diner em Adam s Morgan, onde Jam es m e persuadiu até eu dividir um a pilha de panquecas com gotas de chocolate com ele. Depois de um a hora e m ais calorias do que eu gostaria de pensar, a sensação tensa e enj oativa no m eu estôm ago tinha se dissolvido, e eu m e senti feliz. Apenas feliz.
Depois, Jam es m e abraçou quando nos despedim os na calçada em frente às nossas casas e parou com o rosto a poucos centím etros do m eu, encarando m eus lábios. O ar entre nós de repente estava elétrico, e eu podia sentir o calor irradiando do corpo dele. Mas ele se afastou e o m om ento passou. Nós nos despedim os e foi a últim a vez que o vi.
Não podia ter sido só im pressão m inha, podia?
— Jam es... — eu falo, rouca.
— Sim ?
— Eu...
Ai, m eu Deus. Ai, m eu Deus. Ai, m eu Deus.
— Você sentiu m inha falta?
Eu podia m e dar um tapa.
Ele vira para m im o sorriso m ais estonteante.
— É claro.
— Então, por que não ligou? — digo, em um a voz m ais ou m enos parecida com a que um cachorrinho usaria se pudesse falar.
— Por isso m esm o.
Ele se aproxim a de m im , pegando m inha m anga entre os dedos e esfregando o polegar sobre um a das renas com chapéu de Papai Noel. Não consigo respirar.
— Por causa da coisa sobre a qual eu preciso falar com você...
O soar da cam painha interrom pe o m om ento. Eu levo um susto, e Jam es larga m inha m anga.
— Deve ser o Abbott — ele fala. — Mandei um a m ensagem para ele quando pousam os.
Tento sorrir e sinto m eus lábios se esticarem desconfortavelm ente apertados pelos m eus dentes.
— Ótim o.
Jam es vai até a porta da frente com passos rápidos, m uito ansioso para ver o seu outro m elhor am igo, aquele para quem ele mandou uma mensagem. Eu fico na cozinha, saboreando devagar um a colher cheia de sorvete porque sou noj enta. Posso ouvir baixinho os dois m eninos se cum prim entando no foy er, sem dúvida dando um daqueles estranhos abraços de garotos ou algum tipo de cum prim ento de punhos quase m ásculo. Eu soube, no m om ento em que os peguei acertando um as cestas e falando sobre com putadores quando Jam es foi até a Sidwell para m e encontrar depois do treino de tênis no ano passado, que ele seria um problem a, e não estava errada.
Eu o odeio.
— Ei, Marina! — ele diz quando segue Jam es de volta para a cozinha. — Pij am inha fofo.
Eu reviro os olhos e não falo nada. Nem olho para ele.
— Sinto m uito — ele diz. — Não quis interrom per a festa.
Por acidente, eu olho para ele, e seus olhos estão brilhando com um triunfo zom beteiro. Ah, sim , sente m uito m esm o. O m enino novo que costum ava alm oçar no canto da m esa do tim e de basquete, m as não tinha am igos de verdade, é o único que conseguiu abrir cam inho até Jam es; ele sabe exatamente o que está fazendo. Jam es passa para ele um a colher quando Nate aparece vindo do andar de cim a.
— Oi, Marina — ele cum prim enta. — Sr. Abbott.
— Ei, congressista.
— Vocês sabem que eu odeio quando m e cham am assim — ele fala, pegando um a garrafa de água na geladeira.
Nate tem quase o dobro da idade de Jam es e o criou desde os 12 anos, m as não é com o um pai nem nada. Ele corre sem cam isa pelo bairro no verão, é a única pessoa que consegue ganhar dos m eninos no Call of Duty e ainda às vezes m e aj uda a entrar escondida em film es para m aiores.
— Preciso correr até o escritório e ficar lá algum as horas. Trabalho de espionagem ultrassecreto.
Nate faz parte do Com itê de Inteligência da Câm ara dos Representantes e gosta de fingir que isso faz dele o Jam es Bond.
— Então, papelada? — digo.
— Exato, espertinha. — Ele deixa um beij o no topo da m inha cabeça. — Não queim em a casa enquanto eu estiver fora, certo?
O am igo idiota de Jam es faz um a saudação.
— Sim , senhor!
— Muito engraçado.
— É m elhor eu ir tam bém — eu falo, aproveitando a saída de Nate com o um a oportunidade para m e m andar. A ideia de Jam es m e perguntar o que eu ia contar para ele com seu am igo sentado bem ali m e faz querer vom itar. — A m am ãe vai pirar.
— Deixe-m e pegar m inha m aleta e eu a acom panho — Nate diz.
— Ei — Abbott cham a —, não m e deixe expulsar você.
— Bem que você queria.
— Podem os conversar m ais tarde? — Jam es pergunta, pegando m inha m ão. — Preciso trabalhar um pouco antes, m as, depois...
Meu peito incha, porque sou patética.
— Claro.
Nate aparece ao m eu lado, m aleta na m ão e casaco j á vestido.
— Pronta?
— Bons sonhos, Marina! — o idiota diz. — Durm a bem , cuidado com os m onstros!
Dou um soco no om bro dele ao sair. Com força.
— Cale a boca, Finn.
— Então, com o foi em Connecticut? — pergunto a Nate enquanto ele m e acom panha para fora da casa.
Ele encolhe os om bros e balança as chaves do carro em volta do dedo indicador.
— Bem . Mas é bom estar em casa. Jam es sentiu m uito a sua falta.
Eu m e anim o.
— É?
— Pode apostar.
Ele bagunça m eu cabelo tam bém , o que ou é um a coisa dos Shaw ou um a coisa tipo Marina-ainda-tem -doze-anos.
— Eu tam bém .
— Obrigada. Não trabalhe dem ais, com binado?
Talvez sej a um truque de luz quando saím os das som bras e passam os para o brilho do poste de rua, m as a expressão de Nate parece m udar, ficar m ais dura. Ele sorri para m im , m as parece diferente do norm al.
— Verem os.
— Você está bem ? — pergunto, reparando pela prim eira vez que há m anchas escuras sob os olhos dele e a pele parece estranham ente tesa, com o se os m úsculos por baixo estivessem rígidos de tensão. — Está com um a aparência m eio ruim .
— Ugh. — Nate segura a barriga com o se eu tivesse dado um soco nele. — Isso é que é m e bater onde dói.
Eu abro um sorriso largo.
— Você sabe o que eu quero dizer. Está tudo bem ? Não estam os prestes a ser invadidos pelo Canadá, estam os?
— Não, nada tão aterrorizante assim — ele diz, destrancando o carro e j ogando a m aleta no banco do passageiro. — Só ando ocupado com um a investigação, engoliu todas as m inhas férias. Mas não é nada para você se preocupar.
— Ah. Está bem .
— Você... — Nate passa a m ão pela testa. — Sinto m uito, Marina, é algo estranho de pedir.
— O que é?
— Você poderia... ficar de olho no Jam es para m im ?
Eu franzo as sobrancelhas.
— O que você quer dizer?
— Estou preocupado que ele estej a trabalhando dem ais.
Eu rio.
— Ele sem pre trabalha dem ais!
— É — Nate diz —, m as isto parece diferente. Você pode só m e avisar se ele falar algo estranho, ou com eçar a agir diferente? Diferente para o padrão dele, quero dizer.
Um frio sobe pela m inha espinha e eu aperto m ais o casaco. Está m ais frio aqui fora do que eu tinha percebido.
— É claro, eu acho.
— Obrigado, Marina — Nate agradece. — Você é um a boa am iga. Agora, entre antes que você congele.
Eu sorrio e volto pela gram a.
— Boa noite, congressista!
— Nate! — ele grita para m im , e espera ao lado do carro até eu estar segura dentro da m inha casa.
Um toque baixinho m e arranca das profundezas do sono. Consigo abrir um olho em baçado e estendo a m ão para o m eu celular, que está brilhando em azul na escuridão do quarto. JAMES, diz a tela.
— Ugh. — Eu aperto o botão para atender. — Por que você está m e ligando, seu lunático?
— Eu não acordei você, acordei? — ele pergunta.
— É claro que não. São só... — Olho para o relógio. — Duas e m eia da m anhã.
— Ah. Desculpe. Não percebi que era tão tarde. Com ecei a trabalhar depois de o Finn sair e acho que perdi a noção do tem po.
Saio da cam a e enrolo um a m anta nos om bros. Com o telefone ainda apertado à m inha orelha, eu m e acom odo no assento da j anela, do outro lado do quarto em relação à cam a. Jam es se senta na j anela oposta, cercado por um a m ontanha de livros abertos e papéis, o brilho dourado da lum inária da escrivaninha fazendo um a auréola em volta dele.
— Você se lem bra de quando nós costum ávam os usar duas latas de sopa com um fio entre nossos quartos? — ele pergunta.
O som da voz dele pelo telefone tem um atraso de um a fração de segundo em relação ao m ovim ento dos lábios e, assim , ele parece um dos film inhos a que assistíam os no ensino fundam ental: não bem sincronizado.
Eu sorrio.
— Logo substituídas por walkie-talkies, se m e lem bro direito. A m am ãe disse que ter latas penduradas nas j anelas nos fazia parecer m endigos.
— Sim , m as elas eram m ais divertidas.
— Foi para isso que você m e acordou?
— Eu m e esqueço de com o você é m al-hum orada quando está com sono. — Ele sorri. — Na verdade, tinha algo que eu queria perguntar antes de você sair correndo m ais cedo...
— Eu não saí correndo...
— O Nate está falando de um a arrecadação de fundos do DNC no hotel Mandarin Oriental am anhã — Jam es continua, ignorando-m e —, e precisam de alguns corpos para ocupar cadeiras vazias. Provavelm ente vai ser chato, m as ele j á colocou seu nom e na lista e você j á foi investigada e, assim , está com vontade de com er um j antar grátis enquanto o vice-presidente dá um discurso am anhã à noite?
Jam es está m e convidando para sair? Um m ês atrás, a ideia não teria passado pela m inha cabeça, m as, agora...
— Vou poder ir bem arrum ada? — pergunto.
— Black tie. E você achou que nunca teria um a desculpa para usar o seu vestido do baile de inverno de novo.
Um j antar chique em um salão de baile de Washington com Jam es de sm oking. É, acho que posso lidar com isso. Minha cabeça cria no m esm o instante um a fantasia elaborada: o rosto de Jam es quando m e vê com o vestido, a m aneira com o nossas m ãos vão roçar um a na outra e se dem orar ali enquanto nós dois tentam os alcançar o prato da m anteiga, a dança im provisada para a qual ele vai m e tirar sob um poste de rua. Ele vai se inclinar para a frente e dizer o que estava com vontade de m e contar, que esperou sem anas para contar: que está apaixonado por m im e não pode viver sem m im .
— O Finn vai tam bém .
O sonho estilhaça aos m eus pés, e eu faço um a careta. Finn Abbott estraga tudo.
Jam es vê m inha expressão e ri.
— Você deveria dar um a chance a ele. Acho que gostaria de verdade dele. Ele gosta de você.
— Ooh, você é tão ruim em reconhecer um m entiroso. É quase fofo.
— De qualquer forma...
— Não entendo por que você é am igo dele. Ele é um im becil.
— Não, não é. Ele é incrível com com putadores, sabe, até constrói os dele.
— Certo, então ele é um grande nerd com o você. Ele ainda é um im becil.
— Ele é engraçado — Jam es diz — e m e trata com o um a pessoa norm al. Você poderia pelo m enos tentar ser legal com ele por um a noite?
Eu suspiro.
— Se a arrecadação de fundos vai ser chata, você tem de m e deixar m e divertir de algum a form a.
Ele sorri, e eu j uro que o quarto fica um pouco m ais claro.
— É j usto. Então, você topa?
Pode não ser exatam ente o conto de fadas pelo qual eu esperava, m as ainda é Jam es de sm oking. Mesm o com Finn lá.
— Com certeza.
— Ótim o! É m elhor você dorm ir um pouco, então. Está tarde.
— Ah, está m esm o?
— Rá, rá.
Ele com eça a se levantar, m as, então, para.
— Ah, espere. O que é que você queria m e dizer m ais cedo?
Eu não me sinto completa sem você ao meu lado.
Engulo em seco. Não consigo fazer isso, não agora.
— Nada. Eu conto depois.
— É — ele diz. — Eu tam bém . É provavelm ente m elhor quando você não estiver m eio dorm indo.
— É — eu sussurro.
— Boa noite, Marina.
Ele desliga o telefone e se afasta, e um m om ento depois a luz do seu quarto é apagada. Encosto o rosto na j anela e solto a respiração, em baçando o painel de vidro, e desenho um coração com a ponta de um dedo.
— O que você fez? — Tam sin diz quando eu abro a porta.
— Nada! — falo. — Eu não podia dizer nem fazer nada! Ele disse que precisava m e falar um a coisa e eu disse que eu tam bém , m as, depois, não consegui. Então, só fingi que estava tudo norm al e, depois, Finn Abbott chegou...
Tam sin faz um a careta.
— ... e eu fui em bora! Preciso da sua aj uda.
Ela enlaça m eu braço no dela.
— Você é quase um caso perdido, Marina, m as, se alguém pode salvar sua vida am orosa patética, sou eu.
Ela m e leva para o andar de cim a e m e senta na m inha cam a enquanto fica m exendo no m eu arm ário, nas m inhas bij uterias e na m inha m aquiagem — cuj a m aior parte ela m e aj udou a escolher —, e reúne suas ferram entas. Sophie chega vinte m inutos depois com um a sacola de sapatos e um a m ala de rodinhas cheia de cosm éticos e produtos para o cabelo. Elas com eçam a discutir sobre o m érito de brilho ou sem brilho e m e m andam tom ar um banho.
Quando eu surj o usando roupão, as duas estão prontas para m im . Sophie m e senta na cadeira da escrivaninha, onde um a coleção de produtos está alinhada, esperando-m e.
— Vam os cuidar disso — ela diz. — Você vai ficar gostosa.
Tam sin com eça a m inha m aquiagem e Sophie, m eu cabelo, e eu só fecho os olhos e deixo acontecer. Elas são boas nesse tipo de coisa, e eu não sou, é óbvio. Não parecer idiota esta noite é o prim eiro passo para não ser idiota.
Agora, só preciso descobrir com o agir.
— Nós estávam os conversando enquanto você estava no banho — Tam sin diz — e decidim os que ele definitivam ente só está tím ido, e você tem de assum ir o controle.
— Ahã — Sophie fala, desfazendo um nó no m eu cabelo.
— Mas com o eu faço isso? — pergunto.
— Você tem de abraçar sua sensualidade interna. — Tam sin levanta m eu queixo e eu abro os olhos. — Você é a m elhor am iga de James Shaw. Você m ora na m elhor parte da cidade, seu pai praticam ente controla o Banco Mundial e, desde que virou nossa am iga, é um a das m eninas m ais populares da Sidwell. Você é da realeza de Washington, Marina, e tem de agir com o tal. Esse m enino vai ter sorte de ter você.
Acho que ela está certa. Eu trilhei um cam inho longo. Jam es costum ava ser m eu único am igo de verdade na Sidwell, até o gênio im becil se form ar quando ainda tinha 13 anos e m e deixar para trás. Mas, então, Tam sin e Sophie m e colocaram debaixo das asas delas e, agora, todos se viram para olhar quando eu entro em algum lugar.
— Certo — eu digo. — É. É. Eu consigo.
— É claro que consegue — Tam diz. — Só sej a confiante.
— Só arranque as roupas dele! — Sophie diz. — Ele é um menino. Não vai conseguir resistir.
— Ah, m eu Deus, Soph — Tam sin diz. — Você é m uito vadia.
Sophie abre um sorriso largo.
— Eu sei.
Tam sin e eu rim os, e Sophie acrescenta:
— Mas não estou errada, estou?
— Não, não está.
Tam sin faz um gesto para eu abrir a boca e com eça a passar o batom .
— Você com certeza deveria dorm ir com ele. Acorda, vocês vão para um a festa chique que provavelm ente tem open bar e seus pais não estão na cidade. É perfeito. Além disso, você j á tem 16 anos. Dem ore m uito m ais e vai com eçar a ficar constrangedor.
— E ter Jam es Shaw com o seu prim eiro, ai, m eu Deus.
As palavras de Tam sin colocam gelo nas m inhas veias. Começar a ficar constrangedor. Eu relem bro m eus 13 anos, parada na entrada do refeitório, sem nenhum lugarzinho aonde ir, vendo cada m esa com o um a m ina terrestre em potencial. Com i em um cubículo de banheiro trancado pelas prim eiras duas sem anas de aula só para evitar aquilo, assim com o Jam es certa vez m e disse que ele fez durante um sem estre inteiro, escondido no banheiro de pernas cruzadas sobre o vaso sanitário sem pre que a situação do lado de fora da porta era dem ais para ele. Nunca m ais posso ser essa garota.
Além disso, eu am o o Jam es. Ele é doce e fam oso e bonito. Por que eu não deveria dorm ir com ele?
— Com certeza — falo, e, em bora as palavras soem fracas aos m eus ouvidos, elas não parecem notar.
Pela m eia hora seguinte, eu sofro com Tam e Sophie m e puxando e cutucando e picando, e durante o tem po todo elas soltam conselhos sexuais que fazem m eu estôm ago dar um nó de nervoso. Não sou um a inocente completa, m as Tam ainda assim reclam a que m inha pele está m uito corada para ela conseguir fazer a m aquiagem direito.
A cam painha toca quando elas estão dando os toques finais. Jam es tem tanto m edo de se atrasar para as coisas que costum a program ar alguns despertadores para si m esm o e acaba chegando 15 m inutos antes. Mesm o daqui de cim a, ouço Luz gritar de alegria ao abrir a porta e a torrente abafada de palavras disparadas em espanhol que se passa entre eles.
— Certo, tudo pronto! — Tam sin diz. — Pronta para ver?
Sophie cobre m eus olhos conform e elas m e posicionam em frente ao espelho de corpo inteiro no canto e, depois, descobre-os com um “tcha-ram !”.
Eu m e olho dem oradam ente. Meu vestido é m aravilhoso, isso eu sei. Arrisquei a fúria de papai ao com prá-lo, usando o cartão de crédito dele e esperando que ele não notasse que era o dobro do orçam ento que m e dera. Ele notou, m as valeu a pena. O vestido é azul-escuro e brilhante, com o o céu vinte m inutos depois do pôr do sol, com 10 m il estrelas.
O resto de m im é m ais problem ático, m esm o depois da utilização das habilidades consideráveis de Tam sin e Sophie. Eu sorrio para m im m esm a no espelho da m aneira que im agino que vou sorrir quando vir Jam es, para ver o que ele verá. E o que ele verá é: um vestido incrível em um a m enina com um caroço no nariz, um a espinha gigante no queixo que nenhum a quantidade de corretivo foi capaz de corrigir, bochechas gordas e um a falta total de seios para fazer j ustiça ao seu vestido m atador. (Além de um cabelo com ondas suaves e um olho esfum açado perfeito, cortesia das suas am igas.)
Eu contenho um suspiro pelo bem delas. Roupas e m aquiagem certas enganam a m aioria das pessoas, m as, pelo m enos um a vez, seria bom ser bonita de verdade.
— Está ótim o, m eninas! — digo e espero que elas não ouçam o tom de falsidade na m inha voz. — Vocês fizeram um trabalho fantástico.
Sophie m e entrega a bolsa clutch de cristais que ela roubou do arm ário da m inha m ãe, e nós três vam os para o andar de baixo.
Jam es está sentado ao balcão da cozinha, parecendo um a estrela de cinem a perdida no seu sm oking preto personalizado, com endo um a em panada do prato cheio que Luz colocou em frente a ele. Ele se vira quando nós entram os, e o açúcar se agarra aos cantos dos seus lábios enquanto ele m e encara. Ou, é m ais provável, encara a espinha gigante no m eu rosto. Eu lam bo os lábios, nervosa, e sinto o gosto de cera com um leve toque de baunilha do gloss de Sophie.
— Oh, mi hija! — Luz diz. — Você está linda.
Jam es se levanta, e eu quase posso sentir Sophie e Tam sin segurarem o fôlego enquanto esperam atrás de m im .
— Pronta para ir? — ele diz.
Meu coração despenca, com o se eu estivesse esperando que m inha beleza o deixasse tão pasm o que ele cairia de j oelhos e declararia am or eterno a m im bem aqui na cozinha. Porque eu sou um a idiota.
— Pode apostar que ela está pronta — Sophie diz, cutucando-m e nas costas conform e ela dá um passo à frente. Seu talento para fazer m esm o a afirm ação m ais m undana parecer sensual não tem com paração. — Oi, Jam es.
— Ahn, oi... pra você — Jam es fala, corando e olhando para qualquer lugar, m enos para Sophie.
Os cachos loiros perfeitos e os lábios carnudos dela intim idam m uitos caras, m as em Jam es dão um m edo gigantesco. Mesm o que ele nunca consiga se lem brar do nom e dela.
— Com o foi em Connecticut? — Tam sin pergunta, dando a volta em m im para se j untar a Sophie perto de Jam es. — Nós sentim os a sua falta aqui.
Jam es franze as sobrancelhas.
— B-bem . Trabalhei m uito. Você sabe.
— É? No que você está trabalhando?
— Eu, ahn... É m eio difícil de explicar...
Tam e Sophie olham para Jam es com o se o gaguej ar dele fosse a coisa m ais fascinante que j á ouviram . Enquanto isso, acho que m e esqueceram por com pleto aqui atrás.
Jam es olha para o seu relógio e, depois, para m im .
— Desculpem , m as tem os de ir, Marina.
— Certo — eu falo, em bora saiba que ainda é cedo.
É m eu dever, com o m elhor am iga de Jam es, salvá-lo de sua própria falta de j eito, m as, para ser sincera, tam bém é porque odeio vê-lo conversar com Sophie e Tam sin. Talvez eu só tenha ciúm es porque, no fundo, sinto que Jam es é meu, m as há algo quase predatório na m aneira com o elas agem perto dele. Às vezes, eu até m e pergunto se é de m im que elas gostam m esm o ou se é só da m inha proxim idade com ele.
Tam sin e Sophie m e seguem até o hall de entrada para se despedirem . Elas estão cheias de risinhos e duplos sentidos, m as m eu sorriso parece colado no rosto.
— Ligue para m im m ais tarde! — Tam sin sussurra quando m e dá um beij o na bochecha e, depois, elas saem .
— Quer com er algum a coisa antes de ir? — Luz grita da cozinha.
— Vão servir um j antar na arrecadação de fundos.
Eu tiro do arm ário do hall m eu casaco longo e o cachecol de casim ira branca im pecável que só uso em ocasiões especiais. Em algum lugar atrás de m im , sinto Jam es se aproxim ar, sua presença alterando o peso do ar.
— Mas você pode ter fom e antes disso! — Luz diz. — Com a um lanche, pelo m enos. Um a m açã. Você com e pouco.
— Eu com o bastante — digo.
Se fosse por ela, eu seria grande e gorda. Mas pego a m açã que Luz se apressa em levar para m im no corredor de qualquer form a, só para alegrá-la.
Jam es, do m esm o j eito, pega um a laranj a que ela dá para ele e a enfia no bolso, o que parece ridículo, e, depois, abre m eu casaco para m im . A m ão dele roça em m eu cabelo enquanto ele aj uda a acom odar o tecido sobre m eus om bros, m andando um arrepio pelos m eus braços. Ouço a voz de Sophie na m inha cabeça, explicando exatam ente a m elhor m aneira de separar um m enino de suas roupas.
Enrolo o cachecol em volta do pescoço e, por um breve m om ento, penso em m e estrangular com ele. Só para m e tirar logo dessa agonia.