Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 36 de 40

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Todos os Nossos Ontens

Trinta e Seis

TRINTA E

SEIS

 

Marina

— Jam es! — um a voz cham a de fora. — Eu vou entrar.

Levanto a cabeça de repente. Conheço essa voz. Seu dono pálido e de olhos arregalados está preso na cadeira ao m eu lado.

Deve ser o hom em que tentou nos salvar antes, na rua. O hom em que se parece com Finn, porém m ais velho. Assim com o esse Jam es terrível que fica falando do futuro com o se fosse um lugar onde ele esteve.

É o Finn de outro tem po.

Ouvim os a porta da frente se abrir.

— Finn, feche os olhos! — a voz diz.

A voz é tão intensa que o Finn ao m eu lado fecha os olhos no m esm o instante, e o outro Finn vira em um canto vindo do foy er para a sala de estar. Eu o encaro com o não pude fazer antes. Seu cabelo é m ais com prido, enrolado nas pontas e enfiado atrás das orelhas, e ele ficou m ais alto e m usculoso. Há um a fina cicatriz branca cortando a sobrancelha e m achucados no rosto por causa da briga na rua. Ele parece ameaçador.

— Não é bem você quem eu quero ver — o Jam es m ais velho diz.

— Tam bém não estou exatam ente feliz com esta reunião.

— Marina, o que está acontecendo? — o Finn na cadeira ao m eu lado sussurra, os olhos ainda apertados. — Quem está aí?

— Xiu, está tudo bem !

— Solte os dois — o outro Finn diz. — Eles não fizeram nada.

— Nem ele, m as isso não im pediu vocês de tentar m atá-lo. Eu quero vê-lo.

— Você sabe que isso é perigoso.

Os lábios de Jam es se retorcem .

— Acho que sei o que é perigoso m elhor do que você.

Finn entra m ais na sala, devagar.

— Sem querer ofender, Jim bo, m as você perdeu a noção disso há m uito tem po.

— Em ! — Jam es grita, dando um a volta. — Sei que você está aí fora!

— Ela não vai entrar, cara — Finn diz. — Ela não quer ver você assim , com ela. Vai partir o que resta do coração dela. Você não entende isso? Não entende o que você fez com ela?

De quem eles estão falando? Sinto que deveria saber, m as m inha cabeça fica pesada e lenta quando tento pensar a respeito. Com o se eu não pudesse... não pudesse...

Os olhos de Jam es ficam em cham as.

— Eu salvei a vida dela. Eu a protegi, com o protegi você, e todo o agradecim ento que eu ganhei...

— Protegeu? — Finn pergunta. — Você ficou sentado e observou enquanto ela era torturada e gritava por m isericórdia...

— Você está tentando m e enrolar, velho am igo? — Jam es diz. — Jam es! Venha, ou vou fazer a Marina gritar de novo! É m elhor eu ver o Jam es em cinco segundos, Abbott, ou...

Ele vai para trás de m im e espeta os dentes m etálicos do aparelho na lateral do m eu corpo. Eu choram ingo. Não sei sobre o que os dois hom ens com os rostos dos m eus am igos estão discutindo — apenas as palavras m ais vívidas e terríveis ficam presas na m inha m ente, form ando um a assustadora pintura im pressionista do futuro —, m as o m etal apertado nas m inhas costelas com força para m e m achucar é concreto. Eu trem o de expectativa com a descarga de um raio pelo m eu corpo, e m eus olhos se encontram com os do Finn do futuro. É a prim eira vez que ele olha para m im desde que entrou na casa, e não se parece com nada que eu j á vivi antes. Ninguém , nem o m eu Jam es, j á m e olhou com tanta ternura e profundidade, com o se estivesse enxergando dentro de m im . Nesse m om ento, sinto com o se ele construísse um a ponte entre nós e m andasse um fluxo regular de calor e força para m im . Por um segundo, eu m e esqueço da geringonça enterrada na lateral do m eu corpo.

Depois, ouço o clique de Jam es apertando um botão e eu pego fogo.

 

Em

Eu encaro Jam es por um segundo, de olhos arregalados. Depois, corro para as árvores na direção em que ele j ogou a arm a. A últim a luz do dia está sum indo depressa, e os arbustos são espessos e cercados de folhas m ortas e galhos caídos. Olho por cim a do om bro um a vez e vej o Finn entrar na casa com Jam es logo atrás dele.

Atravesso as plantas, prim eiro vasculhando os arbustos com um a vareta longa e, depois, procurando apoiada nos j oelhos e nas m ãos, cada vez m ais desesperada. Rezo para que Finn consiga m anter o doutor ocupado por tem po o bastante para eu encontrar a arm a e entrar pela porta dos fundos. No m eu frenesi, rasgo ervas daninhas e arbustos selvagens, procurando um brilho de m etal. Minhas m ãos estão arranhadas e sangrando, e eu não m e im porto.

Marina grita de novo. Cubro as orelhas com as m ãos, m as os gritos continuam . Cada segundo do som é com o um atiçador quentíssim o atravessando m eu peito. Tenho de fazê-los parar.

Enquanto procuro entre as folhas m ortas do chão, as pontas dos m eus dedos roçam em algo duro e frio. Eu m e atiro no obj eto, m inhas m ãos se fechando sobre o m etal. Fecho os olhos e agradeço em silêncio.

Eu contorno a casa até a porta de trás rapidam ente. Marina ainda está gritando. Enfio a chave na fechadura e entro.

A voz de Marina fica rouca e se transform a em um choro soluçado irregular. Mais um segundo disso e eu vou m e j ogar dentro daquela sala. Não m e im porto que isso estrague nosso único plano; vou atirar em qualquer coisa que se m exa para interrom per aquele som terrível.

— Pare! — A voz de Jam es ressoa por cim a dos gritos. — Estou aqui! Vou entrar!

 

Marina

Eu caio na cadeira e provavelm ente escorregaria dela se não fossem as am arras em volta dos m eus pulsos. Meu corpo está zum bindo com os efeitos do choque.

— M, você está bem ? — Finn diz da sua cadeira, os olhos ainda fechados com força.

— X-xiu...

Não quero que Finn cham e atenção deles; é m elhor para ele ficar em silêncio.

Meus olhos ficam m arej ados e se recusam a ter foco e, assim , m al consigo ver o m enino que entra na sala. Ele é apenas um borrão, m as a visão faz com que um alívio corra pelas m inhas veias.

Jam es. O m eu Jam es. Eu o reconheceria de olhos fechados.

— Pare! — o Finn m ais velho diz. Ele abre os braços, bloqueando o rosto do Jam es m ais novo. — Não olhe para ele!

Porém , os dois Jam es se encaram , o m eu Jam es, brilhante e bonito, e o outro Jam es com o seu reflexo em um espelho em poeirado e rachado.

O Jam es m ais velho sorri.

— Está tudo bem . O universo não vai explodir.

O rosto de Finn fica frouxo.

— O quê?

— Ficar cara a cara com você m esm o não é um paradoxo m aior do que qualquer outra coisa que vocês tenham feito — o m eu Jam es diz. — Ele m entiu para vocês.

— Pensei que isso m e daria um pouco m ais de tem po se vocês dois um dia viessem atrás de m im no passado. — O Jam es m ais velho sorri. — Afinal, nós três éram os inseparáveis.

O m eu Jam es entra m ais na sala, andando em direção a si m esm o.

— Por favor, não os m achuque. Deixe que eles vão em bora.

— Não posso fazer isso. Eles estão tentando nos m atar.

— Só os do seu tem po! Faça o que quiser com eles, se for essa a condição, m as a Marina...

— A Marina tentou nos fazer parar a cada passo do cam inho, de novo e de novo, usando todos os m étodos im agináveis. Esta m enina aqui — ele coloca a m ão no topo da m inha cabeça — não vai parar até nós sum irm os.

— Por favor! — o m eu Jam es diz. Minha cabeça gira enquanto eu o observo discutir consigo m esm o. — Não quero que ela se m achuque, o que significa que você tam bém não deve querer, bem lá no fundo.

— Você vai aprender que as coisas m udam . Agora, se puderm os parar com essas tentativas patéticas de m e distrair — ele levanta a voz —, enquanto a Em entra escondida pela porta dos fundos, eu agradeço! Você acha que eu não sei exatam ente o que você diria para ela fazer nesta situação?

A expressão do Finn m ais velho está inflexível.

— Acho que por isso você é o gênio, não eu.

— Em , eu j uro por Deus, se você não vier aqui agora — Jam es cham a —, eu vou fazer algo que você vai lam entar!

Silêncio. Eu estrem eço. Não quero saber quem é Em . Um a ideia im possível está se form ando na m inha m ente, m as não posso encará-la.

O Jam es m ais velho baixa a cabeça. Ele parece sinceram ente decepcionado.

— Certo.

— Nãooo... — eu choro, soluçando, esperando o golpe elétrico do aparelho ferver m eu sangue de novo.

No entanto, ele não vem . Abro os olhos e o vej o aj oelhado ao m eu lado. Seus dedos tocam nos m eus e, por um segundo, parece um abraço, o calor reconfortante da sua pele. Depois, com um m ovim ento rápido, ele puxa m eu dedo m ínim o e m eu anelar para trás e eu ouço um crac doentio. A dor m e atinge um m om ento depois, e eu solto um urro.

Meu Finn grita palavrões enquanto o m ais velho se j oga em m im . Através da m inha confusão, sinto as pontas de m etal apertadas contra o m eu pescoço, e o Finn m ais velho congela.

— Pare com isso! — alguém grita. — Pare! Eu vou sair!

A sala fica em silêncio, esperando, e apenas m eus soluços abafados cortam o ar. Não posso pensar em quem está vindo, não posso pensar em quão fam iliar aquela voz pareceu. Minha m ente, sobrecarregada de dor e m edo, com eçou a se desligar, com o um a porta se fechando entre m im e o m undo. Acho que ela está tentando m e proteger.

— Marina — alguém diz. — Feche os olhos.

— Ela não precisa, você pode...

— Não quero que ela vej a isso. Nem que m e vej a.

Eu fecho os olhos, e passos lentos fazem barulho atrás de m im .

— Baixe a arm a! Chute a pistola para cá ou eu vou...

As pontas de m etal se enterram m ais na lateral do m eu pescoço.

— Pare! Se você tocar nela de novo, eu m ato você, seu cretino.

Algo pesado atinge o chão e desliza pela m adeira.

— Mais am eaças vazias, m enina?

Ao som do m eu apelido, m eus olhos se abrem de repente. Não pode ser. O Jam es m ais velho está com um a arm a na m ão e a está usando para fazer um a m enina andar até o canto m ais distante da sala e ficar j unto dos outros. Eu pisco. Ela está de costas para m im , m as há algo fam iliar no j eito controlado dos seus passos. Sinto-m e lerda e idiota conform e m onto o quebra-cabeça. A m enina se vira, e eu entendo por que o outro Finn fez o m eu Finn fechar os olhos. Ver essa m enina, que é m agra e séria e está com um a expressão assustada, faz com que eu fique tão tonta e enj oada que quero m e desligar do m undo até ela sum ir.

Porque ela sou eu.