Todos os Nossos Ontens

Cristin Terrill · Capítulo 40 de 40

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Todos os Nossos Ontens

Quarenta

 

Marina

Eu não entendo. Não consigo. O Jam es que eu conhecia tinha planos. Tinha sido feliz. Tinha sorrido para m im e m e convidado para tom ar café da m anhã apenas horas antes de ir para o velho chalé dos pais em Chesapeake e acabado com a sua vida. Não faz nenhum sentido.

Acho que nós nunca sabem os de verdade o que está acontecendo dentro de outra pessoa.

Porém , enquanto eu chorava por m uito tem po naquela prim eira noite depois de Nate m e contar o que acontecera, os pedacinhos de Jam es que nunca pareceram m uito certos — as explosões repentinas de tem peram ento, a intensidade em seus olhos quando ele dizia que o m undo precisava ser m udado, a m aneira com o às vezes parecia que a m enor pressão o faria quebrar em pedaços — com eçaram a se encaixar com o peças de um quebra-cabeça, pintando um a im agem diferente do m enino que eu achava que conhecia tão bem . Um m enino m ais frágil e m achucado do que eu percebera. Nate acha que ele nunca superou a m orte dos pais. Ele estava em terapia por causa disso havia anos, tendo com eçado depois da crise que tivera no dia do funeral deles. Eu nunca soube disso; ele nunca m e contou.

No funeral, fico entre Nate e Finn Abbott. Passei os últim os dois dias na cam a chorando m uito e gritando, e não m e sobraram lágrim as para hoj e. Estou vazia, com o se tivesse m orrido com Jam es. Eu m e apoio em Finn porque não tenho certeza se consigo ficar em pé sozinha e olho feio para o sol por ter ousado brilhar hoj e. Deveria ser com o nos film es, tudo escuro, um a chuva fina e guarda-chuvas pretos estendendo-se a distância. Mas o grupo no cem itério é pequeno, apenas as pessoas que realm ente conheceram e am aram Jam es. O circo foi deixado para trás na igrej a.

Enquanto o pastor fala, m inha m ente escorrega de onde estam os, do caixão e das flores e do buraco no chão. Penso nas pilhas de cadernos do quarto de Jam es que Nate m e deu porque não podia suportar ver o trabalho que o irm ão am ava tanto ir para um a unidade de arm azenam ento em algum lugar. Lágrim as que queim am — acho que tenho algum as ainda, no final das contas — cortam o entorpecim ento que m e cobre com o m ortalha enquanto m e lem bro da prim eira vez que Jam es m e falou do seu trabalho. A m em ória se ergue em frente a m im , fresca e intocada com o se eu a estivesse revivendo.

 

— Marina!

Meus olhos estão em baçados enquanto tento ouvir educadam ente a conversa dos am igos da m inha m ãe quando ouço alguém sussurrar m eu nom e.

— Marina! Ei!

Um a m ão se fecha em volta do m eu pulso, e eu m e viro e vej o Jam es — alto, m agro e esquisito, ainda não totalm ente desenvolvido — atrás de m im . Ele m e puxa para longe, e nós deslizam os em m eio à m ultidão de convidados, cada um agarrado a um a taça de vinho e um pequeno prato de aperitivos.

— Eu procurei você em toda parte.

— Desculpe, a m am ãe estava m e fazendo conversar com aquelas m ulheres que são do conselho da sinfonia com ela. Acho que ela só queria m e exibir.

Baixo os olhos para o vestido de festa que m am ãe m e arrastou até a Neim an’s para com prar e m e forçou a usar na festa de Natal dos Shaw. É prateado e tem contas na parte de cim a, e obj etivam ente deve ser algo lindo, m as faz com que eu m e sinta a Barbie Debutante da m am ãe.

— Olha o que eu peguei na cozinha quando o pessoal do bufê não estava olhando — Jam es diz, brandindo um a garrafa m eio vazia de cham panhe. — Vam os dar o fora daqui.

Ele m e puxa pela escada acim a até a escuridão do segundo andar, e descubro que não consigo resistir. Ele m e leva para a biblioteca e fecha a porta atrás de nós, encaixando um peso sob a fenda para que ninguém entre. Ele se deixa cair em um sofá de couro, e eu m e sento com m ais cuidado ao lado dele, reclinando a cabeça para trás na alm ofada e exam inando-o enquanto ele esfrega os olhos com as duas m ãos.

— Não sei por que o Nate insiste em dar essa festa m aldita todo ano — ele fala. — Sei com certeza que ele odeia isso tanto quanto eu.

— É m eio que um a tradição legal, não é? — eu com ento, em bora tam bém tenha certeza de que odeio a festa de Natal dos Shaw m ais do que qualquer pessoa. — Seu pai ficaria feliz por ele a m anter.

— É, acho que sim . — Jam es dá um gole na garrafa e tenta esconder a careta por causa do gosto. — Não seria Natal de verdade sem a festa para a gente tem er, certo?

Eu sorrio.

— Ou vestidos idiotas para usar.

— Sei que você não gosta, m as está bonita.

Minha língua de repente parece grande dem ais para a m inha boca. A ilum inação da biblioteca parece m udar, e Jam es está diferente para m im . Mais perfeito. Minha respiração fica fraca e eu baixo o olhar às m ãos para esconder a sensação estranha que tom ou conta de m im .

— Ah, tá — respondo, forçando um a risada. — Eu pareço a esposa de um senador tentando se exibir para os am igos. Eu pareço a m inha mãe.

— Ei, sua m ãe é bonitona.

— Eca, que noj o!

Dou um em purrão no om bro dele e ele ri, e, por um m om ento, passam os a garrafa de cham panhe de um para o outro. Nunca vi Jam es beber antes; acho que ele nunca bebeu. Porém , há um a som bra nos seus olhos, e ele vira a garrafa com o se ela pudesse afastar quaisquer que fossem aqueles pensam entos obscuros. Eu acom panho, em bora só tom e goles pequenos de cham panhe e, às vezes, apenas encoste a garrafa nos lábios fechados. Logo, ela está vazia, e Jam es está solto e largado, espalhado no sofá com um a das m ãos roçando m inha perna, e seu sorriso ficou desaj eitado e bem aberto.

— Eu vou consertar tudo, sabe? — ele diz.

Não faço ideia do que ele está falando, então, apenas digo:

— É?

— Ahã. — Ele fecha os olhos. — Tenho conversado com um professor da Johns Hopkins sobre o m eu trabalho, e ele vai ser o m eu m entor.

As palavras dele estão com eçando a em baralhar, e sua respiração ficou m ais lenta. Eu m e inclino para ele e dou um a batidinha na sua bochecha.

— Não durm a, Jam es! — eu sussurro. — Senão eu vou ter de voltar para a festa!

Ele abre um pouco um dos olhos.

— Não tô dorm indo.

— Sim , está.

— Não, não estou.

Ele se senta m ais ereto.

— Eu vou desvendar o tem po e, depois, vou consertar as coisas.

— Que coisas?

— Tudo. Vou m udar o m undo. — A som bra volta a seus olhos. — Vou garantir que a m am ãe e o papai nunca entrem naquele carro.

Sinto com o se tivesse sido golpeada na barriga. Meus olhos vagam para a parede, na qual, nesta m esm a biblioteca, dois anos antes, Jam es j ogou um abaj ur em um a fúria cega que deixou um arranhão profundo no gesso. Ele j á sum iu, há m uito tem po consertado e pintado, a evidência apagada com tanta facilidade.

— Jam es... — eu sussurro.

— Tudo será diferente então — ele fala, os olhos se fechando conform e descansa a cabeça no m eu om bro. — Vou deixar tudo certo. Vou deixar tudo m elhor.

 

O prim eiro punhado de terra atinge o caixão e m e traz de volta para o presente. Jam es ia deixar tudo m elhor, m as agora nunca terá essa chance.

Eu com eço a chorar, e Finn, o Idiota, pega m inha m ão. Deveria ser estranho e desconfortável, m as, por algum m otivo, não é. Na verdade, a sensação é... boa. Eu m e encosto na solidez quente dele, e ele dá um apertão nos m eus dedos.

 

De repente, fico com muito medo. Não da explosão, que desafia a minha compreensão, mas do que terei de fazer quando ela acabar. Do motivo de tudo isso.

Você tem de m atá-lo.

Ou Finn sente meu medo ou ele também está assustado, porque põe as mãos nas minhas bochechas, fazendo-me olhar em seus olhos.

— Vai ficar tudo bem — ele diz, e as palavras mal podem ser ouvidas por cima do barulho.

Porém, tudo fica quieto depois, pelo menos para mim. De alguma forma, encontro silêncio nos olhos azul-escuros de Finn. Meu Deus, como sobrevivi tanto tempo naquela cela sem conseguir ver esses olhos?

Uma compreensão repentina me atinge. Algo tão óbvio, não consigo acreditar que não pensei nisso até agora. Meu coração se parte e espalha uma tristeza quente como o fogo pelo meu corpo.

— Finn — eu falo —, se nós conseguirmos, se mudarmos as coisas, nunca vou me apaixonar por você. E você nunca vai se apaixonar por mim.

— Não tenha tanta certeza — ele responde, apoiando sua testa na minha. — Eu acho que estava apaixonado por você muito antes de tudo isso começar.

Não sei se quero rir ou chorar.

— Sério?

— Sério. — Ele deixa um beijo doce nos meus lábios. — Sempre há esperança para nós.

 

Eu aperto a m ão de Finn tam bém e m eus olhos se fecham . Sinto algo com o o sussurro de um toque no m eu rosto. No fundo da m ente, um a voz que se parece m uito com a m inha fala com igo com o se fosse um a m em ória, dizendo que sou forte e am ada e que tudo vai ficar bem .

E, por algum m otivo estranho, eu acredito nela.

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