Todos os Nossos Ontens
Vinte e Cinco
VINTE E
CINCO
Marina
Chegam os à casa de Jam es conform e o am anhecer com eça a deixar a m argem do céu rosa e laranj a. É difícil acreditar que faz apenas dois dias. O m undo foi tão virado de ponta-cabeça que o dia é noite para m im , m inhas pálpebras ficando m ais pesadas conform e o sol nasce.
Tenho um vislum bre da m inha casa conform e Jam es para na garagem . As luzes estão apagadas e não há carro do lado de fora. Talvez m eus pais j á tenham ido. Não tenho certeza se o vazio que sinto é alívio ou decepção.
Chacoalho Finn para ele acordar no banco de trás e nós saím os cam baleando do carro enquanto Jam es j á está destrancando a porta da sua casa. Ele não parece ter nem um pouco de sono, com o se fosse alim entado por algo m ais puro e prim ário.
— Você acha que ele está bem ? — Finn pergunta conform e sai do autom óvel.
Eu suspiro.
— Não sei. Ele ficou falando um as coisas estranhas enquanto você estava apagado.
— Ah é? — Finn olha para o chão. — Sério?
Eu estreito os olhos para ele. Ele estava dorm indo, não estava? Ele olha para m im , inegavelm ente culpado, e eu bato nele.
— Você é terrível!
Ele esfrega o próprio braço.
— A conversa de vocês m e acordou! Acredite em m im , aquela era a últim a conversa que eu queria ouvir sem vocês saberem .
Ele passa por m im e entra na casa, e eu franzo as sobrancelhas para as costas dele antes de segui-lo. Lá dentro, Jam es está indo de aposento em aposento, fechando todas as cortinas para que nem um a fresta de luz do dia entre. Ele passa por m im quando vai da sala de estar para a sala de j antar e, no cam inho, tranca as fechaduras da porta da frente.
— Está tudo bem ? — eu pergunto.
— Vai ficar tudo bem . Eu só preciso... fazer algum as ligações. Então, sim plesm ente fiquem à vontade.
— Agora que você falou nisso — Finn coça o cabelo suj o —, seria bom eu tom ar um banho.
Eu tento sorrir.
— Eu que o diga.
— Rá-rá.
— Você pode usar o prim eiro banheiro social — Jam es diz. — Tem xam pu debaixo da pia e você pode pegar um as roupas no m eu arm ário.
Finn faz que sim com a cabeça e segue para o andar de cim a.
— Você se im porta se eu deitar no quarto azul? — eu peço. — Não quero ir para casa agora.
— É claro que não.
Eu m e viro para m e arrastar escada acim a, e Jam es vai com igo. Na m etade da subida, ele passa um braço na m inha cintura, e eu m e apoio nele.
— Cansada? — ele diz.
Eu faço que sim com a cabeça e olho para ele pelo canto do olho. Ele está agindo de um j eito surpreendentem ente norm al, exceto pelo frenesi de fechar as cortinas. Nate morreu, m as Jam es não está chorando ou andando de um lado para o outro ou arrancando o cabelo. Ele parece focado. Energizado.
— Você deveria descansar tam bém — eu falo.
Não vai durar. Isso é algum tipo de negação estranha no estilo do Jam es que só vai fazer com que sej a m uito pior quando ele desm oronar.
— Eu vou.
Nós andam os j untos na direção do quarto azul, que eu sem pre tratei com o se fosse m eu. Tenho certeza de que passei m ais noites na cam a de m ogno com edredom azul do que qualquer outra pessoa. Eu paro apenas para tirar os sapatos com a ponta dos pés antes de cair de cara no colchão.
— Está com lençóis lim pos? — Jam es pergunta, com o se isso im portasse.
— Não ligo. — Abro um pouco um dos olhos e vej o Jam es fechar as cortinas com o m esm o cuidado que teve no andar de baixo. Eu m e viro e m e rem exo para entrar em baixo do edredom . — Estão lim pos.
— Ótim o.
Ele se senta ao m eu lado e puxa as cobertas até m eu pescoço, enfiando-as em volta de m im com o se eu fosse um a m enininha.
— Obrigada, m am ãe — eu falo. — Então, para quem você vai ligar?
— Para o dr. Feinberg. Quero descobrir se ele deu m inhas anotações para o Nate. Além disso, há algum as... outras coisas sobre as quais eu tenho de conversar com ele.
— Certo — eu digo, sem saber o que m ais responder.
— E vou ligar para o Bob Nolan no FBI. Não quero o Richter trabalhando no caso do Nate. Se o Nolan vir as coisas que encontram os, talvez faça algum a coisa a respeito.
Eu desço a m ão pelo braço dele.
— Espero que você estej a certo.
— Eu tam bém espero. De qualquer form a, nada deve acontecer por algum as horas, então, durm a um pouco.
Ele se inclina e beij a m inha testa, e o m om ento se arrasta. Ele se afasta um pouquinho, com o se tivesse percebido o que está fazendo, e nossas respirações se m isturam pelo espaço de três fôlegos curtos antes de os lábios dele afundarem nos m eus.
Seus lábios se m ovem contra os m eus um a vez, devagar, m as, exceto por isso, nós dois ficam os im óveis, nossas bocas apenas apertadas um a contra a outra. Deve parecer tranquilo do lado de fora, m as m eu interior está um a algazarra. Algo estranho acontece no m eu peito, com o m eu coração se abrindo e derram ando calor no m eu corpo, form igando pelos m eus braços e pernas. Quero m e m exer, abrir os lábios ou tocar no rosto dele, m as estou congelada.
Depois, Jam es coloca a m ão no m eu queixo e o inclina na sua direção, aprofundando o beij o, e eu derrubo m inha paralisia. Descobri por que não conseguia aceitar todos os conselhos de sedução de Sophie e Tam sin. É porque não queria. Eu não queria seduzir Jam es, enganá-lo e enganar seus horm ônios para fazê-lo m e querer. Queria que ele m e quisesse por conta própria. Assim .
Passo as m ãos pelas costas largas dele e pelo cabelo, do lado oposto dos pontos, e o bagunço da m aneira com o im aginei fazer tantas vezes. Nate está m orto e eu logo vou em bora, e tudo o que quero é m e afogar neste m om ento até ter em purrado todo o resto para longe. Jam es percebe m inha urgência, e sua delicadeza som e, transform a-se em m ãos agitadas e beij os m ais intensos. Ele puxa m inha m alha, os dedos se enrolando na bainha.
— Tudo bem ? — ele sussurra.
— Fique quieto.
Eu aperto as palavras contra os lábios dele e puxo sua cam isa por cim a da cabeça. A m inha é tirada logo em seguida e, então, há pele com pele e o m undo se reduz aos lugares onde tocam os. Eu m e aperto contra ele e o puxo m ais para perto, beij ando-o de novo, querendo desaparecer sob o peso e o calor do corpo dele em cim a do m eu.
Jam es desvia a cabeça de m im .
— Desculpe. Desculpe. Eu não devia ter feito isso.
— O quê? — eu sussurro.
Ele fica em pé e recolhe sua cam isa e sapatos descartados. Eu m e sento ereta, cruzando os braços em frente ao peito.
— Jam es...
— Desculpe — ele diz, sem olhar para m im .
E, depois, vai em bora.
Em
Eu acordo, apertando os olhos para a luz. Não tenho certeza de onde estou, m as a ideia não traz pânico com o deveria. Tento sair do sol e percebo que há outra pessoa ao m eu lado. Minha bochecha está apoiada no peito nu de Finn, que sobe e desce com a respiração, a batida baixinha do coração no m eu ouvido.
Ah, sim . Descanso.
O quarto de hotel é m inúsculo, com tinta descascando e um carpete que faria m inha m ãe cair m orta ali m esm o, m as o colchão é m acio e os lençóis estão lim pos e frescos. A pessoa ao m eu lado tam bém não é nada ruim . Não tenho desej o de um dia sair desta cam a. O m undo pode ir para o inferno do lado de fora da nossa porta trancada; eu não vou em bora.
Finn ergue a m ão e a passa pelo m eu cabelo, o toque leve com o um a plum a e delicado. Eu fecho os olhos e aproveito a sensação de form igam ento que os dedos dele m andam pelo m eu crânio. Quando ele beij a o topo da m inha cabeça, eu levanto os olhos para ele e sorrio.
Ele aperta os olhos para m im .
— Pensei que você estivesse dorm indo.
— Então é por isso que você estava sendo tão doce.
— Não sei disso, não...
Ele m e beij a, e talvez eu devesse m e envergonhar do m eu cabelo suj o e dos dentes sem escovar, m as não m e envergonho. Não agora.
— Isso foi um a boa ideia — ele sussurra —, se m e perm ite dizer.
— É. — Eu suspiro conform e o ar frio com eça a invadir de novo. — Mas...
— Não! Ainda não. Sem m as ainda. — Ele m e beij a em silêncio. — Vam os pelo m enos tom ar nosso café da m anhã de cortesia prim eiro.
— Tenho quase certeza de que j á é de tarde.
Ele olha para o relógio ao lado da cam a.
— Caram ba, fom os enganados! Ah, bem , vam os ter de achar outra coisa para fazer, então.
Estou rindo quando ele m e beij a desta vez e sinto a m arca do sorriso dele contra m eus lábios. As palavras estão quentes no ar entre nós conform e ele desce m eu pescoço com beij os.
— Meu Deus, você não sabe o quanto eu sonhei com isto. Todas aquelas noites com aquela parede entre nós quando tudo o que eu queria era tocar em você.
Meu rosto fica corado, o que é idiota. É idiota ficar tão constrangida e trêm ula por causa de algum as palavrinhas. Escondo o rosto contra o om bro dele.
Ele se j oga de volta nos travesseiros.
— Mas deve estar na hora de voltar ao trabalho, né?
Eu m e afundo um pouco m ais perto dele.
— É provável.
— Então, o que nós vam os fazer?
— Vam os m ontar guarda do lado de fora das casas do Jam es e da Marina — eu digo. — Se não estiverem lá agora, logo estarão.
— Mas encontrá-los é a parte fácil, não é?
— Talvez eu estivesse errada antes. — Eu m e apoio nos cotovelos. — Talvez a gente não tenha se esforçado o bastante para convencer o Jam es a desistir de Cassandra. Ele nos viu agora. E se nós puderm os fazer com que ele entenda com o a situação fica ruim ...
— Nós j á tentam os isso — ele diz com delicadeza. Era o núm ero um da lista, a prim eiríssim a coisa que algum a versão anterior de Finn e de m im tentou e não teve sucesso. — Além disso, quando você j á viu o Jam es abrir m ão de algum a coisa?
— Nunca. — Eu m e deito de novo. — Eu sei. Você está certo.
Finn suspira.
— Talvez a gente desista. Não estávam os aptos para isso desta vez. Talvez nossa próxim a versão estej a.
— Acha que j á fizem os isso? Acha que outras versões nossas receberam o m esm o recado, voltaram aqui para m atar o Jam es e desistiram ?
— Talvez. — Ele sobe pelas m inhas costas com a ponta dos dedos e sorri. — Nós poderíam os ir para a Flórida. Deitar em um a praia em algum lugar e pedir bebidas com guarda-chuvinhas enquanto esperam os o tem po nos apagar.
— Não parece um a form a ruim de desaparecer — eu falo, im aginando a cena, o balanço das ondas e o sol nos queim ando. Não sinto calor desde que voltam os para este tem po. O frio se acom odou nos m eus ossos agora, na m inha m edula. Mas a visão som e. É substituída por um a im agem de Marina, que eu enfim — enfim — aprendi a am ar. Meu estôm ago se revira. — Quatro anos m ais tarde e eu ainda sou egoísta dem ais. Não posso m atar Jam es por causa do quanto isso vai fazer com que eu m e sinta m al, quando tantas outras vidas, m esm o a da Marina, dependem disso.
— Ei. — Finn coloca a m ão no m eu rosto e m e faz olhar para ele. — Você não é egoísta. Você é um a pessoa am orosa que quer acreditar no lado bom das pessoas, m esm o depois de tudo o que você passou. Se fosse egoísta, teria sido fácil m atar o Jam es.
— Talvez.
Finn se senta e olha para m im com seriedade.
— Você fala da Marina com o se ela fosse um a pessoa diferente de você, Em . Você é a Marina. É a m esm a garota leal, determ inada e irritante. Está na hora de você ver o quanto é ótim a, assim com o queria que a Marina visse. Digo, olhe para m im . Eu acho que sou fantástico.
Eu sorrio.
— Você é fantástico.
— Eu sei! — Ele m e beij a. — E você tam bém é.
— Vou acreditar em você. — Eu suspiro e, com grande esforço, saio da cam a m acia e segura. — É m elhor a gente se m exer.